segunda-feira, 8 de abril de 2013

A BEBIDA DO PODER, RELATO AUTOBIOGRAFICO DA EXPERIÊNCIA DE UM ESPANHOL COM A AYAHUASCA

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Experiência de um espanhol com a Ayahuasca em Mapiá, nos últimos tempos do Padrinho Sebastião.

PRÓLOGO Á MINHA PRÓPRIA TRADUÇÃO AO PORTUGUÊS, VINTE ANOS DEPOIS, Manuel Castelin:


Realizo eu mesmo em Goiás esta tradução para saldar uma dívida de amor com a minha terra... não a querida terra-mãe na que me nasceram (provavelmente para servir de ponte), que foi a verde Galicia ou antigo Reino de Galiza, hoje uma das Comunidades Autônomas da Espanha... mas na terra-esposa escolhida pelo meu coração, BRASIL, país ao qual amo como os felizes brasileiros que mais o amam.
Minhas intensas vivências nesta querida nação-continente, onde a Natureza ainda impera e o seu carinhoso povo inter- racial tem uma sensibilidade fora do comum, descobriram-me, sobre tudo, que a Realidade da Vida possui muitas mais dimensões de manifestação e de experiência eterna que as quadriculadas e finitas que me ensinou a minha primeira educação cartesiana européia.
A Bebida do Poder que é o Santo Daime, teve um papel fundamental nessa primeira entrada minha na consciência da realidade induvidável da dimensão espiritual, como se conta neste livro, escrito em Espanhol pouco depois de ter conhecido ao Padrinho Sebastião, em 1989, quando ainda vibravam frescas em mim as emoções e entranháveis lições recebidas direitamente dele, do tremendo Povo de Juramidám e das mirações induzidas pela Força Original da Floresta.
Ao realizar esta tradução vinte anos depois, com uma maior experiência brasileira, havendo acessado desde então a cursos mais avançados da Eterna Escola Evolutiva e acumulado em mim algo mais de humilde compreensão da Vida, procuro que as explicações ou precisões maiores que hoje posso acrescentar ao vivido e, sobre tudo, ao que então opinava mentalmente, não retirem a espontaneidade do subjetivamente sentido naquele momento, que foi um aqui e agora irrepetível.
À diferença da primeira versão em Espanhol, decidi agora narrar seguido a minha vivência pessoal daquela época, sem referências ao que conheço do Santo Daime atual, e colocar só ao final e aparte, como um anexo, todo quanto possam ser fatos de algum interesse para os estudiosos da Ayahuasca.
Um forte abraço a todas minhas irmãs e irmãos brasileiros e portugueses, e muito obrigado a aqueles que ajudarão a ir corrigindo o Portugués Brasileiro em que tento escreve-lo.
 Manuel Castelin, E-mail: brasiverso@gmail.com
Vilamágica do Arco-Iris, Fazenda Renascer, Cavalcante, Goiás, Brasil, Agosto 2009.
Vilamágica da Chapada, Arca do Tempo, Morro da Baleia, Alto Paraíso de Goiás, Fevereiro 2011.


1-O CÉU E O INFERNO 

-Ché!- gritava o médico argentino, sua voz totalmente embriagada pelo espírito de Marte- Como vou contar isto àquelas minas de Buenos Aires? É demasiado diferente, louco! Ninguém ía acreditar!
-Pois claro que não... não há referências possíveis para quem não tenha conhecido a Selva Amazônica e a Ayahuasca... a gente "normal" vive em outro mundo lá afora, quase em outro planeta... -pensei eu, enquanto o via erguer-se sobre o tronco do gigante vegetal abatido, despedaçando a fação os últimos galhos, com tal sensação de vitória no seu rosto pingado de negro suor, que parecia que o que jazia aos seus pés fosse um dragão feroz, suas sete cabeças decepadas, em vez de uma grossa árvore de mais de trinta metros de altura que dois dias antes fazia parte de um pedaço virgem da floresta tropical, quase impenetrável, de tão densa.

E que agora mais bem asemelhava um campo de batalha, uma infernal paisagem de devastação fumegante e calcinada, onde sessenta homens, enegrecidos de carvão como demônios, ainda batiamos rítmicamente com nossos facões, picando os restos do grande bosque arrasado e queimado.

Após duas jornadas entregues àquele brutal trabalho, a gente encontrava-se quase completamente exausta; quase, porque ainda éramos capazes de extrair imprevistas reservas de energia do nosso arquétipo interno de guerreiros animosos, envolvidos como estavamos no trance da destruição, bêbados de força, de orgulhoso poderio e de competitividade, selvagemente alegres pela façanha realizada, nos sentindo super- homens, mal lembrando que a razão de todo aquele despregue de potência muscular e de determinação, que o motivo de toda aquela épica gesta, não era senão uma rotineira operação agrícola de desmatamento de selva, para que fazer possível semear feijão ao léo.

Retornando a Mapiá, as mulheres saíam a receber, carregadas com as suas crianças, aos seus maridos e filhos maiores, e os abraçavam como a heróis que voltassem triunfantes de uma batalha. Separamos-nos, cheios de afetuosa camaradagem viril, ficando em re-encontrarmos pela noite no himnário, e cada um foi se dirigindo para o seu alojamento.

Eu era um estrangeiro visitante, um gringo europeu que não tinha a ninguém que celebrasse minha volta do trabalho, de modo que limpei e pus na sua bainha de couro meu precioso fação, apanhei roupa limpa e caminhei até a afastada casa dos mestres, por trás da qual baixava o barranco de um riacho transparente beirado de verdores, o meu lugar de banho preferido.

Quando estive nu junto à ensolarada margem, com meu corpo ardendo ainda de excitação, o sangue acelerado baixo a pele, veio de repente sobre mim o imenso cansaço da jornada e pensei que ia desmaiar.
Deixei-me cair sentado na areia, sobre as pernas entrecruzadas, e permiti ao meu corpo relaxar, enquanto contemplava as frescas águas com um agradecimento antecipado que quase chegava à adoração.

De repente inundou-me o amor do espírito do rio através do arquétipo interno da minha Ánima, e senti a intensidade integral, cem por cem viva, daquele momento único, e também que estava sendo convidado pela Vida a desfrutar-lo ao máximo.

-Obrigado, Senhora... me acolha, me limpe, me acalme, me descanse...- sussurrei com sensual devoção; e entreguei-me prazenteiramente às águas como a uma doçe amante.

Algo depois, deixava-me mexer pela suave correnteza, sentindo-me gozosamente dissolvido nela; então percebi que havia momentos em que aquele lugar parecia-me o Céu na Terra, e outros, um inferno, um manicómio, um absurdo fim do mundo do que jamais seria capaz de sair.

O Céu era a maravilha da floresta tropical envolvendo-nos, aquele sol luxuriante que me incendiava por dentro, o ar úmido da selva dourada me respirando, me fazendo comungar pelo alento com todos os espíritos da água e dos bosques.

O Céu eram os cánticos no Templo quando, ao anoitecer, todas as energias se juntavam sincronicamente e confluíam naquela seta de marcial devoção, enfiada com pontaría para o nosso Eu Coletivo mais alto.
O Céu era a esforçada harmonia das vozes, a firmeza sinérgica das fileiras de dançantes, expandindo e expandindo cada vez mais sua intensidade interna, sem concessões ao cansaço.

O Céu era o mágico momento em que a vibração coletiva conseguia se remontar até as alturas do Astral Superior e ligar, nas fronteiras do sutil, com alguma supra-entidade de paz e sabedoria, que derramava-se, então, sobre as nossas mentes, como uma chuva de amadas bênçãos, de carícias espirituais, de abraços íntimos e apaixoados da Alma Cósmica ao coração humano.

...O Inferno era a férrea, compulsiva, disciplina hierárquica daquela comunidade rude, primitiva, prepotente, machista e fanática; a rivalidade entre os aspirantes a chefinhos, a concorrência entre os irmãos a ver quem demonstrava ser (ou parecer) o mais esforçado filho do Pai; a rigidez e reacionarismo de muitas costumes ultrapassadas; a inquisição contínua; o desprezo à cultura inteletual daquelas gentes exaltadas pelo sentimento do Poder que habitava seus peitos, o sentimento do Conhecimento Evidente Mesmo manifestando-se nas suas mentes.

O Inferno era a mentalidade extremista dos guerreiros e guerreiras, mais firmes que amorosos, mais preocupados por se mortificar e por pagar suas supostas culpas passadas, que por se corrigir, para depois perdoar e se perdoar, a fim de continuar vivendo na harmonia.

O Inferno era também a violência, a raiva e a rebeldia que me provocava o rugente conflito interno entre uma parte de mim, minha personalidade, que desprezava todo aquilo e me urgía a recuperar minha liberdade viajante quanto antes, e outra parte minha mais elevada, a minha Alma, que me pedia constância e paciência, irradiando a intuição de que esta ia ser a Grande Aventura e o Grande Ensino da minha vida.

O entorno era o Céu. A Doutrina, os velhos Mestres, eram o Céu, as mirações deixavam entrever os Céus. Mas o Inferno estava, como sempre está, na limitação, na emocionalidade caótica, na crítica mental, no espírito de comparação e na sobêrbia ignorância da condição humana comúm que padecemos.


2-"SHAVASTIA"

Ainda que já fazia mais de um mês que estava ali, sentia-me apenas recém chegado. Parecia que tão só uns dias antes tinha-me despedido da minha companheira e de nossas crianças no aeroporto de Brasília, e, ao mesmo tempo que via se elevar em direção à Colômbia ao avião que se levava com eles à metade do meu ser, a outra metade, rasgada pela separação, ia-se envolvendo em profunda crise. No entanto, tudo aquilo sucedera fazia já quatro meses, os quatro meses mais rápidos e intensos da minha vida.

No primeiro deles deram-se toda classe de condições para que eu deixasse a comunidade alternativa onde tinha estado vivendo antes com minha família. Estava claramente rompendo com o anterior ciclo de minha vida: Nem família, nem amigos, nem comunidade, nem um lar fixo.

De novo, depois de tantos anos, sozinho comigo mesmo, um errante estrangeiro sem compromisso algum, aspecto ruim. De novo, após tantos anos, caminhante sem rumo à beira de um vasto horizonte cheio de possibilidades, aspecto melhor, ainda que aquilo sentia-se como um espinho de inquuietude pregado no coração.

E já que eu estava só, e sem outra coisa que fazer, salvo contemplar o lentísimo fluir de meu tempo, tão livre como vazio, aquele tempo interminável que voltava a pertencer-me por inteiro, deixei-me fluir nele e, no meu primeiro passo, cheguei até a cidade de Goiania, no centro do Brasil, onde morava aquele homem feliz, cheio de Deus, que era Carlos Pacini.

...Pela primeira vez desde que conhecia ao Pacini, comecei a levar a sério seguir efetivamente suas instruções: centrava-me com consciência no terceiro olho, entre as sobrancelhas, rendendo ao comando do Pai Interno sobre minha mente, meu corpo e suas ações.

Obedecia as sugestões do Filho, que me chegavam desde o coração em forma de espontáneas intuições carregadas de sentimento fraternal, generoso e desapegado, e não permitia que as conveniências da minha razão as manipulassem nem modificassem posteriormente; com o que facilitava que o melhor de mim saísse de mim.

Também canalizava tantricamente para o alto a energia da Mãe, a força vital geradora de formas de meu sexo, sem desperdicia-la em derramamentos externos.

Vivia assim em digna solidão e meditação contínua, atento e ligado como nunca antes; ao mesmo tempo em que não parava de trabalhar, como sempre, nem de resolver minhas necessidades quotidianas, sem me preocupar por atingir resultados nem objetivos, aberto e disponível para que aquilo que fosse para eu fazer, pudesse se manifestar e se realizar.

...E como Carlos Pacini tinha prometido A VIDA COMEÇÔU A ATUAR A TRAVÉS DE MIM, NO MESMO MOMENTO EM QUE EU RENUNCIEI SINCERAMENTE A TENTAR MOLDA-LA: o primeiro quadro que consegui pintar (sem me permitir pensar sobre o que faria com ele após pintado), mais que vender-se, foi como se tivessem vindo a retirar -mo das mãos.
Ademais, recebi do generoso comprador uma grande quantidade de madeira que lhe sobrava e, pouco depois, foi-me oferecido alojamento, comida e um atelier junto a uma piscina rodeada de jardim, sem outro interesse que o de facilitar-me poder trabalhar livremente na minha arte, sem mais móvil que o da pura amizade e aprecio de uma dama brasileira que me valorizava, uma bela mulher, satisfeita e criativa, apaixoada por seu marido, mãe de um amigo meu, coração tão continental como o do seu país, que rodeou-me da mais nobre hospitalidade e me animava a só pintar, enquanto ela cuidava do seu jardim, entanto que seu esposo, todo um capitão de empresa, saía cada dia a suas batalhas na cidade.
A florida finca da minha mecenas tinha por nome um dos que designam à Mãe Terra Fecunda em Sánscrito, “Shavastia”, que era o arquétipo que melhor quadrava àquela mulher cheia de amor, cujas mãos colmavam todo seu verde méio de beleza.

Manifestou-se assim, com ela como canal, a melhor oportunidade para que eu pudesse deixar frutificar confortavelmente tudo quanto tinha-se ido acumulando na minha experiência, depois de cinco anos de peregrinar os Caminhos Mágicos da América do Sul. Vivi ali dois meses de absoluta efervescência criativa: Após uma semana preparando bastidores com a madeira presenteada e tensando e imprimando telas sobre eles, pus-me a pintar dia e noite, sentindo o mesmo alívio com que uma mãe iminente chega por fim à sala de partos.

Antes de outra semana de trabalho, meu terceiro olho estava rebulhendo igual que uma panela a pressão, a inspiração fluía e fluía como uma cachoeira de imagens que minha mão não cansava de esboçar sobre as telas em enérgicas e soltas pinceladas. Tão forte era o sentimento de comunicação com meu Mestre Interno-Musa, tão contínuo o fluir, que às vezes tinha que deixar os pinceles e marchar a passear pelos prados e bosques vizinhos, para evitar que a minha cabeça estourasse.

Uma altíssima alegria e uma integração com todo meu méio embriagava-me, me fazendo flutuar. Saía de repente no meio da noite a contemplar o Cruzeiro do Sul coroando à cidade de Goiania, no seu estenso vale reclinada, para seguir depois pintando ou desenhando no meu quarto. Dormia muito pouco e meus sonhos eram também inspiração contínua, absolutamente consciêntes, recordáveis, cheios de aprendizagens.
Apesar de dormir tão pouco, sentia-me cheio de saúde e energia, sem o menor assomo de cansaço nem preocupação alguma, escorpionicamente renovado e super-feliz.

Pintei, naquele mês, mais que em toda minha vida: uma enorme quantidade de quadros, pequenos, médios e até tão grandes que não caberiam num carro; Permitia que meu interior se exteriorizase totalmente, livre e despreocupado do seguimiento ou não das tendências e modas da época.

Já que o Abstraçionismo do Século XX, uma vez passadas à História, nos anos sessenta, suas últimas avanguardas de valor, ao menos inovador, tinha acabado por impor sua ditadura como um novo academicismo limitante e exclusivista, formal até a medula, egocéntrista, etiquetador, narcisista e geralmente tão vazio e tão disperso como costuma estar o homem común, imerso na cultura ou na contracultura do sistema; elitista, insolado e totalmente divorciado da atenção e do gosto convencionalizado do povão; cheio de tantos tabús mentais para supostos iniciados como de pura confusão arrogante; tudo isto, ao mesmo tempo em que ainda jactava-se ante a galeria de uma falsa auréola de rebeldia libertaria e original... Igual que faziam os governos de esquerdas na Europa, por fim chegados ao poder, depois de longa luta, e rapidamente integrados, domesticados e corrompidos pelo contato com os estratos verdadeiramente dominantes.

A Abstração academizada, integrada e arqui-repetida parecia-me um bom reflexo da decadência oca e do beço sem saída ao que tinha chegado o Materialismo da Era Industrial que viviamos, agora melancolicamente gangrenado pelo desencanto da revolucionária utopia social marxista, por uma parte, tanto como pelo descrédito da teoria do progresso salvador capitalista por outra (já tão desprovisto de inimigo como de justificativa)... dois esgotos igual de fétidos que desembocavam no pântano do contaminado “passotismo” post-moderno no qual o mundo velho afundava lentamente entre náuseas...

...De tal jeito que, sem eu sentir o menor interesse sensível pela programação cultural aprendida que ainda condicionava boa parte do meu intelecto concreto, e sem desejar seguir a outro modelo nem linguagem que os que manassem espontaneamente do meu coração, concentrei-me em uma pintura atemporal e simbólica, filtrando as vibrações da minha vivência daquele momento e lugar, na que composições figurativas de tema alquímico eram realçadas, e às vezes iluminadas ou veladas, pelo vibrante multi-dimensionalismo plástico desenvolvido ao longo da minha própria caminhada abstrata anterior.

Cantava nos meus quadros a magia da Vida descoberta naquele País da Magia que o Brasil era, e em todas minhas experiências interiores. Minhas cores eram os tons luxuriosos do jardim tropical de Ivonne... Pintava e pintava e ainda tinha tempo para compartilhar a bela amizade da família que me hospedava, além de assistir, duas noites por semana, às reuniões que os discípulos de Pacini organizavam particularmente nas suas casas.

Podia agora compreender àquelas pessoas que passavam o dia fazendo o amor com a Vida, loucas de paixão por sua Divinidade Interna redescoberta, acendidas pelo sentimento ou pressentimento de seu Eu Autêntico,
*], verdadeiramente expandidas por aquela forma de Amor que ia além dos seus anteriores limites... apesar de que um par de meses antes a maioria deles tinham-me parecido, simplesmente, buscadores ingênuos auto-sugestionados pelo seu próprio afã egocéntrico de transcender.

Saía daquelas reuniões recarregado pela amorossisíma energia de Pacini que impregnaba a atmosfera, ainda que raras vezes se apresentasse ali pessoalmente, para evitar a criação de dependências, segundo se comentava; já que ele não deixava de repeter-mos que o Unico Mestre Real era o Cristo, uma maneira de dar nome à Segunda Pessoa do Ser Total Trino e Um, apontava ele, que eternamente reside no coração de cada homem ou mulher do planeta. E a Aquele Mestre mandava-nos, nos animando a não deixar que a comunicação com o Íntimo se cortasse, por andar buscando fora o que tem estado, desde sempre, em nosso próprio centro vital.

- “Deus é a Vida, -dizia-nos- não é uma qüestão de ter nem de saber, senão de ser: seja você mesmo, seja a Vida; e sentirá a Deus em todo o seu ser”.

No meu segundo mês na chácara "Shavastia", deixei, de repente, de pintar, adiando dar acabamento aos numerosos quadros esboçados, para virar-me a uma nova atividade: escrever. E a mesma efervescência criativa encheu centenas de páginas, nas que, sem outro estilo literário que a espontaneidade, sem corrigir, em um Galego-Portunhol [†] que só eu podia entender e com uma verdadeira urgência exaltada, dava saída a todo o que meu coração tinha compreendido sobre a beleza e a sabedoria da Vida e a todo o agradecimento que sentia para aquele Amigo (não gostava, de jeito nenhúm, que lhe chamássemos Mestre), que com um abraço fraternal e sua maravilhosa loucura de amor fizera a magia em mim, como em tantos outros, de que todo o que até então não haviam sido senão eruditas informações inúteis na minha cabeça, cobrassem novo sentido, ao sintetizar-se e se elevar em direção ao meu próprio Eu Superior redescoberto.

Ao final do segundo mês, prazo limite que a discrição da minha experiência viajante marcava para seguir gozando de uma hospitalidade, por senhorial que fosse, minha inspiração continuava, porém, já demasiado ardente e acelerada como para poder sublimar-se em quadros ou escritos: o Caminhar estava me chamando.

Justo nesse momento, caíram nas minhas mãos umas fotografias do satélite Landstat, o qual, orbitando em torno do planeta, tinha revelado, com a ajuda de raios infravermelhos, a existência de uma alinhação de formas piramidais bastante grandes baixo das copas das árvores, na floresta virgem fronteiriça entre Brasil e Peru, região da Selva do Manú, lá onde a Amazonia é mais espessa e mais selvagem.

A informação acrescentava que a floresta já tinha engolido duas expedições bem equipadas procedentes de Norte-américa, que jamais regressaram. Relacionavam-se as supostas piramides com a lenda da cidade subterrânea de Akakor [‡], sobre a que eu levava algum tempo reunindo notas, ainda que também tinha obtido dados de outras investigações, que asseguravam poder demonstrar a falsidade de tal lenda.
"A VIDA É UMA PEREGRINAÇÃO NA BUSCA DA CONTANTE E PROGRESSIVA REALIZAÇÃO EVOLUTIVA DO ESPÍRITO. A CONSCIÊNCIA- CORAÇÃO SABE A ONDE IR DESDE ANTES DE SEU CORPO NASCER.
VOCÊ PODE VAGAR Á TOA, SE ESTAGNAR NA ACOMODAÇÂO, OU EMPENHAR-SE EM SEGUIR UM CAMINHO ALHEIO A SÍ,

MAS, POR POUCO QUE PONHA-SE A CAMINHAR INVOCANDO SINCERAMENTE A GUIA DO SEU CORAÇÃO, DIRIJA A ONDE DIRIJIR OS SEUS PASSOS, ELE SEMPRE LHE CONDUCIRÁ AO ENCONTRO COM UM PASSO ALÉM DO MAIS ELEVADO QUE VOCÊ É CAPAZ DE ENXERGAR DE SÍ MESMO."


3- À BUSCA DA CIDADE PERDIDA

O caso é que, desde que eu tinhaa entrado no Brasil, fazia já mais de quatro anos, aquelas solidões inexploradas do coração da selva atraíram-me desde o mapa com obssesiva força e tinham feito prender em mim a febre da busca da Cidade Perdida, obsessão que fascinou a tantos europeus e norte-americanos, ressuscitando na gente quem sabe que lonxanos arquétipos subconscientes.

Não estava interessado por supostos tesouros fabulosos, como estavam outros ingênuos ditos mais "realistas", nem por achados de restos arqueológicos em ruínas; mas tinha o pressentimento de que, se neste mundo existia uma Cidade de Sábios, um Shambalha ou um Agharta de nosso tempo, esse Centro Oculto da Sabedoría Planetária deveria encontrar-se num lugar bem afastado da loucura da Sociedade de Consumo, normalidade da mediocridade que vampiriza e degrada qualquer talento.

- Seguramente –pensava eu- tratará-se de uma comunidade fraternal num assentamento remoto que permanece bem escondido sob o telão verde da selva virgem, na que um grupo de seletos gênios multidisciplinares dedicam-se a preparar, talvez, um modelo ou semente de nova sociedade, bem como a uma disciplinada equipe de missioneiros, capazes de projetar, construtivamente, esse Modelo ou Plano Evolutivo Ideal, que inspirará os tempos inaugurais de Aquárius dotando de um plano de resgate e de reconstrução do mundo às massas confusas, que vagarão por um tempo no maior desamparo, trás ter perdido o sistema que dava um sentido às suas vidas, por causa da sua própria decadência.

Ainda que, para uma perspectiva ocidental e urbana comúm meus pensamentos de então pudessem parecer absolutamente disparatados, eram filhos da embriaguez produzida na minha mentalidade européia apôs a sua submersão naquele interminável oceano de natureza virgem, no mistério insondável da selva tropical, um mistério tão patente, espelho físico do Mistério de Deus, que muitos perderam sua lógica concreta, totalmente fascinados por ele.
Por outra parte, a Amazônia está pragada de mitos a respeito de túneis que conduzem a cidades subterrâneas ou a colônias, retiros ou até reinos espirituais, intraterrenos ou extraterrestres. De forma parecida tinha ouvido falar antes, no Peru, do "Monastério de Andes", cuja Porta de Luz só aparecia ante a vista do peregrino –dizia-se- quando este por fim se encontrava no estado de evolução consciencial adequado.

Dois anos antes, após poupar dinheiro suficiente, pintando retratos durante a temporada turística, para deixar a minha família na segurança da bela ilha de Mosqueiro, no Pará, perto da desembocadura do Amazonas no Atlántico, seguindo meu anseio e meu impulso innato de explorador, tinha atravessado vários estados maiores que muitos países europeus, até chegar ao selvático Mato Grosso, ainda então considerado o Far West brasileiro.

Em Nobres, uni-me a uma expedição de garimpeiros, verdadeiros modernos bandeirantes, armados até os dentes, com as mais assustadoras caretas que poderia-se imaginar e extremamente rudes, mas excelentes camaradas capazes de tudo. Com eles cruzei méia Amazônia, de Sul a Norte, por algo que nos mapas brasileiros figurava como “Pista Transamazônica”, mas que em realidade só era uma torrenteira semi-alagada, na que muitas vezes a gente teve, quase, que carregar com nosso veículo, mais que ele connosco. Eu esperava, sem confidencia-lo a meus parceiros, que, em algum momento, a minha intuição, ao igual que tinha-me levado até o encontro com a mulher de minha vida na Floresta Litoral do Fim do Mundo, ao outro lado dos oceanos, também seria capaz de me conduzir agora à secreta Cidade dos Sábios Ocultos, que desde meus sonhos mais loucos não parava de chamar-me.

Porém, eu não estava então preparado daquela, ou a companhia ou a rota não eram adequadas e, quando conseguimos chegar por fim a Santarém, à beira do Grande Rio, cansados, quebrados, areventados, picados por mil bichos, famintos, tendo inclusive perdido nosso veículo, que derrapou no meio da noite e ficou pendurado de um barranco quase ao fim da viagem... eu fiz balanço de meus logros e decatei-me de que unicamente havia conseguido passar ante milhões de enmaranhadas árvores, separadas de ambos lados da pista por devastações calcinadas que, em todo lugar onde o ser "civilizado" chegara, assinalavam a sua presença depredadora, favorecida pela mais absurda, insustentável e negligente das políticas estatais de colonização.

Durante o meu retorno a Mosqueiro sobre a "Cobra-Grande" (isto é, rio Amazonas abaixo), prometi-me que nunca jamais tornaria a me lançar tão cegamente a uma aventura exterior; e ao longo dos dois anos seguintes mal tinha-me mantido paquerando prudentemente com a floresta, sem adentrar-me demassiado nela. Apesar do qual, um dia, a minha companheira e eu perdemo-nos durante toda uma jornada na Mata Atlántica, não demasiado longe de uma cidade. Como não tínhamos fações, era um calvário avançar ou se orientar, mas tivemos a fortuna de encontrar um córrego e nos metemos nele até a cintura para caminhar águas abaixo -confiando em que acabasse desembocando no mar-, até que, finalmente, achamos uma trilha de caçador que, depois de muito cansaço, nos conduziu a seu espreitadouro, floresta adentro. Após disso, recuando e atravessando de novo o rio, atinguimos à saída do agobiante maranhal, quando já estava começando a cair a noite.

Quem não tem estado na Sul-América Tropical não pode imaginar o que é uma floresta; na Europa já não há natureza livre; quando muito, alguns parques bem domesticados, que, apesar de todo o suposto controle e médios técnicos dos estados desenvolvidos, não consseguem salvar-se de ser arrasados pelos incêndios, cada dois ou três verões.

Por causa disso, eu estava escarmentado e prevenido. No entanto agora, a minha vibração era outra: tinha passado dois meses deixando que as minhas intuições me guiassem sem traves, e elas só me conduziram à criatividade, o amor, o conhecimento e a felicidade; estava só e separado de minha família, sentia-me livre e cheio de força. Todo meu anseio interior era reemprender a busca da sonhada Cidade dos Mestres Ocultos.

Estive a ponto de ir molestar a Carlos Pacini à sua casa, para pedir-lhe conselho sobre o meu anseio, mas pela experiência de outras vezes em que tinha-lhe perguntado coisas semelhantes, já sabia o que me diria:

- “Nada importante há para buscar fora de sí mesmo, mas se alguem sente verdadeira vontade de fazer algo e esse algo não contraria sua ética pessoal nem prejudica a ninguém, é que é para tentar faze-lo, ou ficar frustrado por não te-lo tentado”.

De modo que não o pensei mais, e o fiz.


4- INICIAÇÃO

Despedi-me de Ivonne como de uma mãe querida -a mãe dos meus quadros- e cruzei, sem mais que uma mochila, o continental Brasil de ônibus até o estado de Acre e até Rio Branco, a última capital civilizada vizinha à Selva. Ali, só por pura curiosidade de antigo comunitário, fuí visitar uma comunidade, à que chamavam Colônia Cinco Mil, pertencente a uma tal Igreja do Santo Daime, da que não tinha quase referências.

Aquela mesma noite fuí iniciado, pelo chamã Chico Correntes, no ritual sagrado da ingestão de Ayahuasca.

Duas semanas mais tarde sentia-me morto e ressucitado, após de ter passado fortíssimas experiências na Colônia Cinco Mil, em Anhangás, a fronteira da selva, e bem perto dalí, em Boca de Acre, onde apareceu inesperadamente meu iniciador, após ter percorrido, numa viagem de cinco horas, a última pista de terra que conduzia sobre rodas a algum lugar no Brasil, para chegar justo a tempo de submeter ao meu demônio interior mais forte, e de fazer-me reviver lembranças de antevidas...
À continuação daquele removedor acontecimento, o qual já contarei, embarquei numa canoa a motor e, quando amanheceu, encontrei-me surcando as águas barrosas do grande rio Purús, afluente do Amazônas, junto a outros sete visitantes e guerreiros do Santo Daime, indo ao encontro da Cidade dos Sábios Ocultos no interior da floresta...

Naturalmente, para então, eu já nem pensava em perder nem meu tempo nem minhas energias buscando algo tão pouco importante como supostas antigas pirâmides, escondidas baixo o manto da selva.


MAPA DA AMAZÔNIA, clique acima para ampliar
Em algum lugar perdido no meio do Labirinto Verde, navegando o afluênte do Amazonas chamado Purús, desde Boca de Acre em direção a Pauini, chega-se ao igarapé selvagem que conduz a Mapiá...


"A VIDA É UMA PEREGRINAÇÃO NA BUSCA DA PRÓPRIA AUTORREALIZAÇÃO  O CORAÇÃO SABE A ONDE IR. VOCÊ PODE VAGAR Á TOA, SE ESTANCAR, OU EMPENHAR-SE EM SEGUIR UM CAMINHO ALHEIO A SÍ, 
MAS, POR POUCO QUE PONHA-SE A CAMINHAR INVOCANDO SINCERAMENTE A GUIA DO SEU CORAÇÃO, DIRIJA A ONDE DIRIGIR OS SEUS PASSOS, ELE SEMPRE LHE CONDUZIRÁ AO ENCONTRO COM O MAIS ALTO DE SI MESMO."


5- A 
TRAVESSIA
“O vento sopra, o vento vai buscar
O vento sabe a onde encontrar”
Fragmento de um hino do Santo Daime , recebido por Regina.

Ao segundo dia de navegação subíamos o igarapé Mapiá, um afluênte ou canal do grande rio Purús que adentrava-se na esponjosa floresta profunda. As águas, tinguidas de barro avermelhado, faziam um espléndido contraste com a variada gama de verdes infinitos, sob a luz dourada da imensa floresta. Desde as enmarahadas margens saltavam suavemente à água os jacarés, antecipando-se à nossa passagem, e ficavam espreitando-nos, com só os periscópios de seus olhinhos sinistros assomando sobre a superfície. Bandadas de garças, flamingos, ruidosas araras ou periquitos, alçavam o vôo ao ouvir nosso motor, que fazia calar por um momento o concerto selvático. Dúzias de borboletas multicores dançavam revoando em espiral sobre a areia, à beira do rio, como presas a um fio de sol, entre as gigantescas árvores filtrado.

Navegar em canoa pelo igarapé supunha um contínuo exercício de atenção: se a gente não estava atenta, corria o perigo de bater com qualquer galho ou liana que surgia em qualquer momento, projetando-se desde a margem para o centro do rio, ou de chocar contra qualquer tronco flutuante, ou semi-submergido baixo a superfície. Inúmeras vezes tivemos que meter o corpo naquelas águas, suspeitas de ocultar piranhas, jacarés ou cobras giboias, para desencalhar a embarcação dos baíxos de areia, ou para liberta-la dos penhascos, troncos ou lianas que interrompiam o passo. Às vezes tínhamos que parar a cortá-los com nossos machados e fações, e outras, os obstáculos eram tão grossos que tínhamos que puxar e alçar entre todos a pesada embarcação, rebosante de bagagem, para passa-la por acima deles.

De vez em vez desencadeava-se uma curta chuva torrencial que nos calava totalmente, mas em seguida tornava a luzir o sol entre as nuvens límpidas daquele céu esplendoroso e a gente se secava. A beleza da selva e o regosto da aventura esquentava-nos a alma e surgiu uma formosa camaradería entre alguns de nós.

Por fim, fomos chegando a Mapiá, a comunidade principal do Povo de Juramidám, ou do Santo Daime, no coração da Floresta. Sentimos sua proximidade porque íamos nos cruzando com outras canoas carregadas de gentes sorridentes que nos saudavam fazendo o expresivo e brasileiríssimo sinal de "tudo bem" com o dedão da mão direita sobresaindo do punho fechado; e também, algo mais adiante, com muitas crianças preciosas de olhos enormes e de todas as raças do mundo, que jogavam chapinando e caçoando nas margens ou que nadavam alegremente na nossa direção quando passávamos.

A primeira coisa que ví daquele lugar incrível, elevada sobre as altas ribeiras embarrancadas, foi uma longa ponte de madeira que cruzava o rio à nossa frente, tal como um arco de boas-vindas e, no seu arranque... duas grandes pirámides, que brilhavam douradas sob o sol poente: eram os telhados da casona familiar do Padrinho Sebastião.
6- O POVO DE JURAMIDÁM

Começarei a explicar aqui algumas coisas sobre o Povo de Juramidám, o Santo Daime e o Padrinho Sebastião: o Daime, também chamado Ayahuasca, Yajé, Kamarampi ou Pildé, (segundo em que lugar de América do Sul), é uma bebida de poder, complexamente elaborada pela união alquímica de uma liana ou cipó, batida até ficar esmagada, que dá força, e das folhas de um arbusto da selva, que dá lucidez; são plantas sagradas de uso chamánico que quase todas as tribos de caboclos, ou índios amazônicos, tem utilizado desde tempo imemorial (os arqueólogos encontraram seus restos em enterramentos que foram datados com antiguidades maiores que cinco mil anos). A bebida acabou por passar aos mestizos, sincretizándose os rituais indígenas com uma mistura do rude catolicismo dos siringueiros, ou recoletores de caucho natural, somado aos diversos cultos e práticas espiritistas brancos ou afrobrasileiros.

No primeiro quarto do século xx, um siringueiro mulato de quase dois metros de altura, Raimundo Irineu Serra, que extraía látex (siringa) numa colocação situada nas fronteiras selváticas do Brasil com a Bolívia, foi levado a participar num ritual de ingestião de Ayahuasca que uns índios Katios estavam preparando numa oca ou palhoça às margens do Manuripe, um igarapé nos altos do rio Tahuamano. Irineu disse que se aquilo era uma coisa boa, com gosto a levaria a sua gente.

Quando a bebida de poder fez o seu efeito, Irineu -segundo diz um de seus hinos mais conhecidos- viu vir para ele, pelo rio do Astral, uma canoa resplandecente, e sobre ela uma senhora, majestosa na sua serenidade, que o convidou a subir e perguntou-lhe depois quem achava que ela era.

Irineu, deslumbrado, respondeu: -“Eu acho que a senhora deve ser uma deusa universal”.

Ela sorriu e lhe disse: - “Você acha que esses índios estão me vendo como você me vê?”
Ante seu asentimiento, ela prosseguiu: -“Pois eles não estão me vendo igual que você. Esses índios vêem -me como uma águia, uma serpente ou um jaguar, seus tótems; ou como os duendes da selva nos que acreditam. E você me vestiu na sua mente como a uma virgen ou uma rainha cristã... mas eu não sou nem o um nem o outro.”
-“Então o que é a senhora?”
“Eu sou a Energia da Vida, Irineu, o Espírito da Selva... estou dentro de tí e dentro de tudo, porque sou a força de Transformação mesma. Sou a Inteligência Ativa, a Eterna Energia que toma e desenvolve todas as formas... a forma com que cada ser pode me percever, depende do condicionamiento cultural que há na sua cabeça ...Mas pouco importa isso -sorriu- ...o que importa é se você quer encarregar-se de transmitir este Poder de Perceber O Essencial que existe trás as apariências aos teus irmãos, a fim de ajudar ao progresso evolutivo dos seus espíritos”.

Irineu, em êxtase total, prometeu-o. Partiu para lugares mais povoados, onde começou a unir espiritismo cristão com ingestião sacramental de Ayahuasca, se concentrando, fundamentalmente, num trabalho de cura tão desinteressado, eficaz e impecável, que lhe serviu depois como escudo de prestígio contra aqueles fofoqueiros que só queriam ver nele a um negão macumbeiro.

No conjunto de hinos que foi recebendo da Inspiração ao longo da sua vida, denominado "O Cruzeiro", contem-se a mensagem essencial da Senhora da Floresta. Algum tempo após seu encontro com Ela, depois de muitas reviravoltas e aventuras, acabou fundando sua Igreja numa colônia nas proximidades de Rio Branco, da qual, a sua morte, derivou a do Alto Santo, junto com a de Luis Mendes, a do Santo Daime e muitos outros agrupamentos menores, de um caráter ou de outro, inclusive enfrontados os egos entre eles, como quase sempre acontece, por causa das diferenças introducidas pelas novas formas, estilos e praticas resultantes dos temperamentos, das experiências, das canalizações, inspirações e iniciativas criativas dos seus discípulos.
[§]
Um destes discípulos era Sebastião Mota de Melo, nascido em 1920 no vale amazônico de Juruá, canoeiro, pai de família, medium sanador, Mestre analfabeto, profeta e líder. Tinham-lhe levado um dia ante Raimundo Irineu Serra derrubado numa carroça, com o fígado destroçado por um tumor maligno. Estava sentenciado pelos médicos e quase morrendo. Uma única sessão de Daime, uma operação quirurgica no Astral, e foi como se tivessem-lhe implantado um novo órgão.

Apôs a morte do seu Mestre Curador, o Padrinho Sebastião teve carisma suficiênte para reunir ao redor de si um movimento de mais de trezentas pessoas, na sua maioria siringueiros, que acreditaram nele e acederam a seguir-lhe, mato adentro, para fundar uma nação espiritual: o Povo de Juramidám.
...O que vem significar, em algum tipo de linguagem indígena ou espírita, algo assim como “O Povo dos homens e mulheres que buscam harmonizar, dentro de si mesmos, aos Logos Pai e Filho sintetizados” (Midám era o homem espiritual, o filho, a filha, ou seja, cada um de nós, individualizados nos Planos ou Dimensões mais densos... porém, sempre em eterna Unidade com a nossa Divina Essencia universal, o Pai, Jura) ...E esta síntese a podemos conseguir, deixando-nos fluir no Terceiro Logos: o Logos que unifica através do amor incondicional, a Mãe, A Rainha da Floresta e do Astral, que é a Dimensão Emocional do Ser.

O Padrinho começou por dar caráter à sua própria Igreja e Comunidade na Colônia Cinco Mil, uma grande fazenda nas proximidades de Rio Branco; mas aquilo estava ainda demasiado perto do sistema e dos seus cantos de sereia.
Assim que uma manhã qualquer, pondo em prática um velho sonho do Mestre Irineu e obedecendo a sua própria Voz Interior (que um dia deu resposta ao seu oferecimento de rendição total ao Espírito, para que fizesse com ele o que quiser), Sebastião Mota e sua gente tiveram a decisão e a coragem de abandonar todas suas aparentes seguranças anteriores, reuniram em um fundo comum seus bens transportáveis, igual que os primeiros cristãos, e xogaram-se a sua prova de fogo em Rio de Ouro, uma zona de floresta pantanosa suficiêntemente afastada como para lhes facilitar um ambiênte propício para viver conforme à doutrina do Santo Daime.

O qual queria dizer: passar por esta vida como por uma escola espiritual de transformação interna da mentalidade da personalidade, dentro de um laboratório de unidade fraternal, a comunidade, lonxe das perniciosas interferências e distrações do "Mundo de Ilusão", do sistema, e aprendendo intimamente de dois grandes professores: o poderoso Espírito da Ayahuasca, Mestre Juramidám, e a Santa Natureza Virgem, a Virgem- Mãe...

A zona estava infestada de mosquitos transmissores da malária e posso imaginar o que aconteceu; eu a padeci na selva do Chocó, na Colômbia, e esteve sete dias agonizando, intermitentemente incendiado ou congelado por febres altíssimas, alucinando durante a maior parte do processo e sentindo dor em cada músculo do corpo; e só salvou-me uma potente medicação tomada a tempo e a amorosa ajuda de quem mais tarde seria minha esposa e minha maior Mestra de Vida. De modo que entendo bem como, ao cabo de dois anos e de muitas malárias, após ter-se auto-selecionado muito o povo do Padrinho, decidissem com a maior fé e inteireza abandonar mais uma vez tudo o construído e se transladar, em Abril de 1983, a outra longíqua zona de selva virgem, mais alta e menos fértil, porém, mais sã, que batizaram com o nome do Céu de Mapiá.

...Já que o que haviam passado em Rio de Ouro foi, em verdade, um descenso aos infernos; uma prova duríssima, mas que aliçercou totalmente a firmeza da consciência do EU SOU de Sebastião Mota, depois de seu inicial encontro definitivo com o Guardião do Umbral, e da consolidação da confiança de seus corajosos camaradas nele, e neles mesmos, como indivíduos e como comunidade, o qual conta muito bem Alex Polari de Alverga no seu muito valioso livro "Ayahuasca" [**], onde se relatam os primeiros tempos do Povo de Juramidám. Eu centrarei-me no depoimento de minha própria experiência pessoal nos anos 1989-90, últimos da vida do Padrinho.

No coração da remota floresta, quando eu conheci Mapiá -um belo conjunto de casas artesanais de madeira, espalhadas entre colinas e bosques, cruzada pela confluência de dois pequenos rios navegáveis e abraçada pelo interminável oceano da selva-, o Povo de Juramidám passava o dia entregado às atividades normais de uma aldeia amazônica: um titánico esforço por extrair de um mato ainda não desbravado os recursos indispensáveis para a sobrevivência alimentícia, habitação e vestido, além de um excedente com o que comprar as preciosas ferramentas, armas e combustíveis na lonxana cidade.

Porém, isso era só a estrutura material, bastante precária, posta ao serviço de seu interesse primordial, que consistia fundamentalmente, para os veteranos seguidores do Padrinho, na obtenção da saúde integral, a do corpo e a da alma, e no mantimento da vida espiritual da Comunidade.


7-COMUNIDADE
Uma comunidade, sobretudo se está relativamente isolada na natureza é, em si mesma, um poderosísimo instrumento de crescimento interior e exterior para os seus membros.
Após ter sido capazes de harmonizar-mos minimamente com nós mesmos, colocando aos corpor físico, emocional e intelectual sob a vontade do ego, Primeira Etapa vem, a continuação, a Segunda Etapa ou Segunda Iniciação á Vida Comum, se harmonizando com a nossa dupla e com a família de sangue...
A natural Terceira Etapa-Escola Iniciática, o seguinte desafío do chamado caminho evolutivo (na realidade caminho da des-velação do esplendor do nosso Ser que o ego –(projeção no indivíduo do paradigma do sistema)- mantém velado e reprimido), consiste em procurar o logro de uma convivência quotidiana construtiva e harmónica com um grupo de seres humanos que compartilham connosco um objetivo comum...
...preparação para chegar à Quarta Etapa, a do amor de aceitação plena à multidiversa Humanidade Universal, sem nos importar como seja de diferente cada irmão planetário ou interplanetário, fussão sem julgar; aquela etapa que constituirá nosso último curso vital do nosso “ciclo de vida comum humana”, curso imprescindível para poder passar ao seguinte ciclo evolutivo, ou Quinta Iniciação, o SUPRAHUMANO, que visa viver em harmonia integral ,completamente entregue e vazia de interesses pessoais, com O Todo que somos...

A Terceira Etapa da Escola Evolutiva, à que tenta conseguir uma convivência grupal em verdadeira fraternidade, inspirou o sentido da fundação de comunidades monásticas ou mosteiros durante a Idade Média. Para conseguí-la, os monges renunciavam ao discurso do século e ao mundo convencional, enclausuravam-se, juravam castidade e obediência e submetiam-se humildemente a uma severa Ordem e ao comando incuestionável da Comunidade sobre o ego individual, comando que assumia um venerável Prior ou Abade ou uma Abadesa.
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Mas na Transição da mística Era de Peixes para a de Aquarius em conformação, a Comunidade, (já sediada numa Ecovila ou em qualquer tipo de eco-assentamento para o crescimento grupal, através da conexão e do mantenimento do contato integral com Tudo), não é excluinte, admite a casais e famílias inteiras com as suas crianças, tem como modelo ancestral à velha tribo indígena, mais modernamente a Comuna Alternativa, e se inspira localmente para depois se projetar globalmente em Redes interligadas de núcleos eco-sociais Aquarianos de todo caráter e função, sementes das futuras Nações da Nova Era, sabendo que nossa verdadeira Comunidade é o Planeta Tudo... e ainda para além dele, os âmbitos espaciais e interdimensionais de onde a Humanidade Universal de multiplas formas externas procede, e aos quais estamos retornando neste ciclo, depois de ter conhecido as camadas mais densas da manifestação do Ser, ao mesmo tempo que vamo-nos desprendendo delas, e nos sutilizando, para poder fundir-nos (carregados com o resultado da nossa experiência), com a Consciência Original que, no início do processo de auto-expressão e conhecimento, emanou-nos como uma unidade de ação criadora e percepção Sua,
Isto, que escrito assim parece tão complicado de se entender, é um desses conceitos que aparecem simples e claros, compreendidos pelo sentir, e não pela razão, à luz dos trances da Ayahuasca, onde a nossa Divindade Interna expressa-se sem véus.

Em oposição ao tipo de espiritualismo dogmático e nebuloso (e portanto, seitário, dualista, antropocêntrico, intolerante e fanático), típico da ultrapassada mas ainda imperante Era de Peixes, que vive da crença, a espiritualidade direta e sem intermediários do Fraternal Comunitárismo Aquariano crê na possibilidade de construir o antigamente chamado Reino de Deus sobre a Terra, ou a sociedade ideal planetariamente unida, cósmica em suas aspirações, e, ao mesmo tempo, autônoma e multidiversa. Sociedade Ideal á que todo humano aspira no seu coração por influência do arquétipo contido na alma... à condição de abandonar a separatividade, o individualismo, o sentido de posse, a concorrência e os sete defeitos capitais que definem ás sombras do ser humano comúm. Fazer a tentativa de conseguir este objetivo é, em si mesmo, a maior escola possível de crescimento integral.

Esta é a via do Guerreiro ou da Amazona de Luz. Chama-se assim porque supõe um duro combate para o que é necessário se preparar muito bem; personalidades muito fortes vão ter que conviver juntas num esforço construtivo no qual, o que se está edificando é mais a harmonia espiritual dos irmãos e irmãs comunitários que um povoado de madeira, adobe ou tijolo ou inclusive que uma organização social... ainda que também isto tenha que se estruturar, e com a maior perfeição e convencido acordo geral possível. Também é chamada a Via do Fio da Navalha, porque só pode se percorrer comprometendo-se o Guerreiro ou a Guerreira (ou, melhor, os Servidores ou Trabalhadores da Luz) ante Si Mesmos e ante a sua Caminhada Eterna, a se converter em mestres do equilíbrio interior e exterior da sua emocionalidade, a opaca pedra bruta que se tem que pulir até virar diamante transparente e brilhante..

Tarde ou cedo, os egos que a mentalidade do sistema imperante foram acumulando-se sobre a nossa Autenticidade e velando-a, afloran e chocam, surgem desacordos, disputas e lutas de poder, formam-se blocos enfrentados, há retiradas, saídas, divisão, cismas, pleitos... tudo isso adubado por desconfiança ou concorrência em relação aos demais, autoritarismo de alguns e rebeldia de outros, aprofundamento de diferenças entre "disciplinados" e "libertarios", ou entre "construtores práticos de um mundo melhor" e "relaxados meditadores só centrados no sutil".

Estes disentimientos, frontais ou soterrados, começam como crítica construtiva aparentemente válida e sadía... mas podem derivar facilmente em mesquinha fofoca desvalorizadora e disgregadora, calunias, inimizade direta... até talvez chegar um momento em que a luta temporária entre os membros ou grupos de membros quase faz perder de vista totalmente o objetivo originário de união para facilitar o crescimento espiritual da Comunidade
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Afinal, estamos falando de todas as insuficiências de amor e tolerância, e até de elementar sensatez, que caracterizam à vida social inconsciente e vulgar no sistema creado pelos seres humanos comuns, já sejam comúms de direita ou comúns de esquerda. Só que os comunitários espiritualistas têm que saber, previamente, que todas essas tensões e frições são parte normal do processo, as cascas do ovo que hão-se de quebrar para renascer, como diria Sebastião Mota ao seu povo, reunido para enfrentar essas insuficiências da emocionalidade como guerreiros, e para conhece-las no espelho dos demais e as transmutar, até supera-las como sinceros e humildes aprendizes de homens-deuses, e mulheres-deusas (Nem tanto, em realidade, consiste em passar da etapa humana à supra-humana, crística, a própria dos Filhos de Deus que constitue o degrau evolutivo seguinte), tentando, durante o desafio e a aventura, não perder a unidade, nem a amorosa harmonia interior nem a consciência... Unicamente os ingênuos imaginam-se a Comunidade como uma utópica lua de mel de amiguinhos amartelados, toda rosas sem espinhos.

Eu já tinha passado, daquela, por alguns tipos de intensas experiências comunitárias, sobretudo minha estância de três anos na Fraterunidade do Vale Dourado, em Pirenópolis, Goiás, onde tive o privilégio de conviver, num belo santuário natural, com uma fornada de comunitários que era gente do melhor que conheci no Brasil e que chegaram ao extraordinário ponto de coletivizar e compartilhar em caixa comum todos os bems, recursos, ganhos e até rendas individuais de todos os comunitários ...mas ainda estava muito verde meu individualismo, muito duras e rebeldes a se entregar as resistências do meu ego à confiança nos demais e à confiança em mim mesmo, e muito forte o meu sentido crítico, que não parava de julgar e julgar.

Por tanto, precisei viver a experiência de outra comunidade que, como a do Santo Daime, dispusesse de recursos poderossísimos de disciplina interna e externa, para me fazer começar a perceber que a liberdade individual só se realiza em plenitude quando compromete-se livremente a se render, a não duvidar nem criticar mais, e a pôr-se humildemente ao serviço de algo que é muito maior que ela: o Plano Cósmico de Solidaridade Mútua... ou, melhor, vamos usar seu nome mais simples e conhecido: O AMOR.

Da mesma maneira em que o Mestre Irineu tinha tentado pôr o amor em ação, unindo a seus discípulos em contínuos mutiróes de trabalho cooperativo e solidario, o Padrinho deu o passo para uma união mais íntima e comprometida: a Comunidade.

Ele o deu de uma maneira radical: colectivização igualitária de todos os bens disponíveis e enorme afastamento da Grande Babilónia, para facilitar a criação, sem demasiadas tentações, de um ambiênte limpo onde o espírito pudesse se desenvolver, em base a colaborar fraternalmente na construção da Nova Jerusalém no Mato Bravo. Além de auto-conhecer-se cada um no espelho do grupo; de queimar karma com as limpeças da Bebida de Poder e com o diário trabalho físico duro; de fortificarr-se, envolvidos nas energias naturais mais potentes do planeta ...e, sobretudo, de manter a cabeça e as emoções distanciadas do discurso dominante naquele Mundo Velho dominado pelo pesimismo, o desánimo, o egoísmo e o morbo... isto é, pelo "Correio das Más Notícias", tal como o Padrinho o chamava, principal programa mental, individual e coletivo, construtor e sustentador do mais alienante e decadente paradigma do sistema, contemplado na “miração” ou visão astral, à luz da Ayahuasca e do Espiritismo, como conglomerado de formas-pensamento demoníacas que acorrentam à Humanidade a uns hábitos que só conduzem a sua degradação, como almas, e ao seu suicídio coletivo, como corpos.
8- A FÉ DO PADRINHO
A fim de encontrar um ambiente mais puro no qual pudesse desenvolver-se sua semente de futuro, os seguidores do Padrinho adentraron-se corajosamente na Floresta Virgem, onde esperava uma tarefa de gigantes -construir a Terra Prometida a partir de zero... possuiam a vontade e a determinação sem limite dos homens e mulheres do mato, ainda talhados no esforçado caráter pioneiro que levantou a nação brasileira desbravando o território mais selvagem do mundo... embora também acompanhavam às suas evidentes forças e virtudes, como a sombra acompanha à luz, as carências de amor ou defeitos básicos do sistema humano... ou elas surgiram nos seus filhos. Desde suas primeiras experiências de líder visionário, Sebastião Mota sabia que a Verdade só se constrói a base de valorizar e de confiar, tanto em um mesmo como nos demais... o que se chama fé, que não serve de muito se não é companheira da firmeza, capacidade de trabalho e paciência a toda prova, cuidando muito de não se soltar da mão protetora e da ajuda da Consciência Rectora do Cosmos e dos seus Seres Divinos, aqueles que ajudam à evolução das almas dos terrestres de superfície, falando dentro deles por meio de intuições.
Também havia que escutar bem a voz do EU SOU, isto é, do mais auténtico e elevado dentro de cada um de nós, ou seja, a voz da Alma, da Mónada, da conciência que, escutada e colocada pratica, leva à “consciência” (mais um “s” de sabedoria), isto é, “saber porque se sabe”, em palavrtas diretas do Padrinho.

Aquele condutor de homens, curtido em bem se conduzir a si mesmo e a sua família, sabia que era impossível progredir unidos sem deixar na compostagem as dúvidas, a competitividade maledicente e a desconfiança nos nossos colaboradores... Os demais sou eu, o meio sou eu, A Vida sou eu; a menor das dúvidas sobre isto separa-me de mim mesmo, das minhas potencialidades de união com todo quanto manejo e de minha coerência. Se Eu sou, em Essencia, O Tudo, devo confiar na Faísca Divina presente na Essencia de Tudo e todos, sem debilidades nem limitações...

Sebastião Mota não duvidava de que eram a verdadeira Fé e o verdadeiro Amor em ação, em incesante trabalho harmónico e cooperativo, o que a criação do Novo Mundo precisava, em lugar de ficar esperando a que caissem soluções sobrenaturais do Céu, já gratuitamente ou já provocadas por nossa devota adulação a Deus, aos Guias do Astral, aos Santos, aos anjos ou aos extraterrestres.

Ainda que o Padrinho estava totalmente seguro de que se todas essas entidades existiam (e ele sentia sua existência, por causa da sua conexão), faziam parte do Tudo, dentro e fora de nós mesmos... e que fazendo-nos um com o Todo, e fazendo corretamente a partir dessa Autoconfianza não egocéntrica, altruísta e amorosa, conseguiríamos que aquelas forças se fizessem uma connosco mesmos, conscientemente, e só assim poderíamos contar de forma integral com sua poderosa ajuda, através da nossa convencida e persistente ação sobre a fisicalidade expressada.

...O qual, ademais, suporia que se a manifestação de Deus pudesse se expressar no plano físico, não só a través de individualidades conetadas graças á poderosa ponte da Bebida do Poder, senão de um povo inteiro esforçado e ardendo na Fe que fornecia aquele “saber visceral, desde adentro, sem intermediários”, esse povo se faria invencível e digno canal da plasmação do Mundo Novo sobre uma Nova Terra.

...Porque o Padrinho era, também, um apocalíptico, por causa das revelações de seu Mestre e pelas suas próprias visões. Ao igual que, quinhentos anos antes, os sacerdotes mayas, aztecas e incas tinham visto em trance de peyote ou ayahuasca, e confirmado nas estrelas, o "Final dos seus Tempos"), esperava para o fim do Segundo Milênio a autoliquidação do Sistema Atual, e para o ano 2014 a instauração de um Novo Mundo Possível mais consciente e cooperante, sem dinheiro nem propriedade privada, graças ao contato e ao trabalho transformador e resgatador daqueles humanos que se tinham auto-escolhido para renascer espiritualmente neste planeta, nessa época.
Propiciarian esse passo evolutivo, dizia, uma multidão de seres vindos "de fora", e não só de outras regiões do Brasil e do Mundo, -...De fora do Mundo, Padrinho...? -“De fora mesmo”-–Padrinho, de que classe de seres tá falando...? Anjos, guias astrais, espaciais, extra ou intraterrestres...? -perguntávamos– “Que importam os nomes que lhes demos –dizia ele- se todas essas entidades não são mais que aspetos do nosso próprio Eu mais elevado baixando a Escada das Dimensões?”

Em qualquer caso, e enquanto chegavam os Mensageiros, o Padrinho aconselhava seguir construindo com perfeição a “Arca da Aliança”, a conexão com todos os Seres Divinos mantida numa Cidade de Deus que fosse a sua segura ancorajem sobre a Terra, e que a gente a construisse como se a nossa obra material tivesse que durar séculos, ainda que com a esperança da nossa caminhada evolutiva colocada mais bem lá nas estrelas de onde procede tudo quanto somos e às quais retornaremos.
E acrescentava ele que, quando chegassem esses tempos finais deste ciclo e sistema, o pior lugar onde sofrer a Transição seriam as grandes urbes, e que, sem dúvida, quem melhores possibilidades teriam dos enfrentar, os aproveitar e os superar positivamente, seriam todas aquelas pessoas que tinham sabido harmonizar seus espíritos em comunidades fraternais, autosuficiêntes, e bem rodeadas pela natureza, situadas em lugares remotos.


9-A BATALHA DO AMOR

Assim, se cada laborioso dia do Povo de Juramidám destinava-se a assegurar sua vida material, cada noite era uma festa do espírito: ao cair a tarde, todo mundo se fardava de azul e branco, iluminando-se com velas, candís de petróleo ou kerosene ou linternas de gás, e reuniam-se num grande templo octogonal, de paredes abertas ao mato, arrematado seu telhado por uma cruz de dois braços sobre um sol, uma lua e uma estrela -os símbolos da Segunda Vinda de Cristo e dos Logos Pai, Mãe (ou Espírito Santo), e Filho-.

Após ingerir ritualmente o amargo Daime (ou Ayahuasca que significa na língua quéchua dos incas, "Liana dos Espíritos"), a qual demorava menos de uma hora em fazer sentir seus efeitos, cantavam e dançavam em impecável e ordenada formação até o amanhecer, submergidos em trances mais ou menos intensos, compondo com suas geometrias energeticas, movimentos e ritos uma verdadeira máquina mental de geração bipolar, síntese alquímica, condensação, expansão e amplificação da freqüência vibratória pessoal e coletiva, plataforma de projeção potentísima da energia espiritual conjuntada do grupo, que no trance chegava-se a ver como um verdadeiro redemoinho de luz que subia em coluna espiral para o alto, desde o centro do salão.



Já que os homens colocavam-se a um lado da mesa-altar (geralmente centrada por uma estrela de seis pontas e uma cruz patriarcal, de duplo braço horizontal), deslocavam-se para a esquerda em dois passos do seu dançado enquanto cantavam, marcando o ritmo com maracas de lata recheadas de perdigões, e depois retornavam, marcando uma ligeira flexão sobre seu eixo e dois passos para a direita.

O corpo solto, a cintura flexível, deslizando-se suavemente para um lado ou para o outro, a cabeça pendente de um fio invisível que unia o centro da frente do danzante com o Centro do Eu Maior, lá-aqui, no alto de Um Mesmo; os braços marcando o ritmo das maracas, com o punho entrefechado, afirmando marcialmente a energia.

O coração alegre, ligado... a mente, bem consciente do aqui e agora: por uma parte, atentíssima ao compasso e à perfeita ordem cerimonial coletiva sobre a terra; por outra, completamente entregada, de forma individual e subjetiva, à prece e à “miração”, ou visão interior. As mulheres, ao outro lado da mesa, dançavam em sentido contrário aos homens; e, em ambas cabeceiras, mozos solteros em uma e donzelas em outra, completavam a Roda Chamánica geradora de Energia Dinâmica Básica, que toda a noite se movia.

Junto ao Cruzeiro costumava-se pôr um vaso de belas flores tropicais; sobre a mesa havia, também, imagens e fotografias enmarcadas de Jesús, de María e do Mestre Irineu; e um par de copos para quem sentisse sede, ainda que poucos tomavam mais de um sorvo, porque a água, igual que a comida, dilui e rebaixa a Força da Bebida Sagrada para "mirar" no Astral.

O Daime dispunha-se, geralmente, sobre outra mesa menor, apoiada na parede, bem em garrafas de vidro verde ou bem num grande cálice-cisterna de cerâmica branca provisto de torneira, desde onde o responsável pelo trabalho servia-o sacramentalmente à cada um, como a Sagrada Eucaristía com a que todos comungávamos, bem em cálice ou copo de vidro, e umas três vezes como méia ao longo do himnario. O comandante ou diretor da sessão olhava profundamente aos olhos à cada participante que se achegava em fila a comungar, a fim de calibrar intuitivamente a dose que lhe correspondia, segundo como sentisse seu estado emocional.

Falava-se muito pouco -a voz mal se fez para cantar, diziam-, além de que o Daime facilita uma comunicação telepática muito profunda. De fato, quando um olhava a outro aos olhos parecia ver-lhe a alma, ainda que cada quem estava, em realidade, tão só concentrado na viagem da sua própria mente, envolvido em seu próprio processo interno e muito sensível, por causa do qual, quando era preciso comunicar-se diretamente com alguem usando palavras, isso devia fazer-se com fraternal delicadeza e ton de respeito e suavidade, para que ninguém se sentisse invadido.


Os fiscais designados para assistir a todo aquele que o precisar na sessão, cada um atendendo aos do seu próprio sexo, encarregavam-se ademais de preservar uma forte disciplina e uma ordem hierárquica muito formal, quase militar (os seguidores do Padrinho Sebastião se autodenominavam "guerreiros" e "guerreiras" do Santo Daime, com perfeito direito). Essa ordem, as vezes, sentia-se agressiva e até ofensiva para os sensibilizados novatos que eram chamados à atenção. Em verdade, o trabalho de fiscal, era bem ingrato, porém, absolutamente necessário, para ajudar a manter o adequado movimento geométrico da energia num coletivo numeroso... e deveria confiar-se somente à gente mais veterana, responsável, discreta e cheia de amor e tacto, mas não sempre era possível faze-lo assim e com freqüência era labor que correspondia aos fardados mais jovens.

Naquele tempo, em Mapiá, tanto os fiscais como os guerreiros que um tinha aos lados, reprendían, às vezes muito rudemente (ou assim o sentiam nossos egos), a quem, tal como os novatos ou visitantes, cometiam erros no movimento rítmico, erros que pudessem interferir na fluência da energia, que se tinha que gerar de maneira perfeita.

A condição fundamental para que se te permitisse participar no ritual, era que te comprometesses a um esforço de autocontrol consciênte que te fizesse capaz de estar simultaneamente no Céu e na Terra, colocando a mesma concentração e tentando fazer tudo perfeito, tanto no lugar sagrado como no trabalho quotidiano.

Isto é, desfrutando intensamente do êxtase místico provocado pela bebida de poder, e atentíssimo, por outra parte, a não desentoar com tua distração, da harmonia sinérgica do ritual grupal no templo. Porque tinha-se que "assegurar o trabalho", ou seja, afinar-se com a impecável ordem rítmica da música e do dançado, o que era a única maneira de assegurar, também, um mínimo de ritmo e ordem mental interna com a qual navegar em conjunto, coletiva e individualmente, sobre as tempestosas ondas e correntezas do oceano subconsciente, emocionalmente desbordado.

O trabalho de grupo consistia, fundamentalmente, em rezar cantando, decretando em cada hino, com toda firmeza, a auto-lembrança e tomada de consciência, a transmutação positiva e a elevação dos espíritos da Humanidade, tanto encarnados como desencarnados (despoluir o astral do planeta, diziam).

Para isso começavam embriagando com aquela poderosísima brebajem ao ego cão-cerbero da razão, a fim de submete-lo, fazendo-lhe enfrentar-se clarividentemente com a sua negrura interna, para a qual, em circunstâncias habituais mais confortáveis para ele, jamais quer nem olhar.

Quaisquer palavra dos hinos que tocava ao vôo uma fibra da nossa sensibilidade, enchia-nos de sugestões exploratórias da consciência e também de ânimo para se enfrentar a elas, superando os bloqueios e resistências do ego, que estava aterrorizado pela vertigem da desintegração dos esquemas por ele estabelecidos como "normalidade", os quais, até então, eram a única falsa segurança que lhe sustentava.

O ego estava agoniado, também, ao sentir como os diferentes corpos multidimensionais do seu Ser, libertados das suas encobertações, se desdobrabam e se separavam a toda velocidade da matéria e da mente habitual, geralmente só ocupada na satisfação elementar das necessidades materiais e raramente entregue à prática de tão altos e profundos vôos.

A consciência convencional, um verdadeiro robô ou piloto automático programado para atender, quase exclusivamente, assuntos elementares, encontrava-se, ademais, alucinada, ao perceber que o que tinha-se habituado a considerar como sua conformada identidade, via-se agora reduzida a um fio espiralado e interminável de energia-consciência que percorria em uma dança louca de ritmo desenfreado, já para acima, já para abaixo, dimensões múltiplas e surpreendentes de percepção que já não tinham quase nada a ver com a visão mental corrente e confortável do nosso mundo conhecido, isto é, com o paradigma do sistema escolhido pela personalidade.

Porém, se a atenção concentrada do mais auténtico de um mesmo (convertido em antena alçada), conseguia sobreponer-se à vertigem, se adaptar e afinar à impressionante onda de força que nos arrastrava, e cavalga-la ou surfa-la no possível, o piloto automático esvaecia-se, junto com o seu ritmo lento e seu pânico, alguma porta secreta abria-se em nosso entendimento intuitivo, e a Luz conseguia penetrar nele, irradiando-nos, de repente, com o Conhecimento (ou a lembrança) que devíamos auto-entregar- mos naquela hora.
Depois do reconhecimento lúcido e interno dos erros do navegante da Vida, claramente postos de manifesto, depois da sua contrição hipersensibilizada, depois da sua rendição e autoaceitação, e depois de seu sincero propósito de emenda, perdoando e perdoando-se... o iniciado conseguia a sua re-ligação ao serviço da vontade espiritual do seu próprio Eu Superior, à qual podia comandar já sem traves na totalidade de SI MESMO, expandindo então sua freqüência vibratoria e sentindo-se, ao faze-lo, entusiasticamente colmado pela Força invocada na cerimônia.
...A qual, respondendo ao chamado grupal, tinha iluminado cada consciência com a Presença do Eu Divino, que agora se manifestava com todas suas potências sobre o seu trono carnal, depois de ter ajudado ao eu individual ou Anjo Guardião do veículo humano a se libertar de imundícias de baixa vibração energética, que antes o acobertavam e incapacitaban, como canal, para receber dignamente a seu Senhor Cósmico.

Uma vez abertas de par em par as portas umbralinas que comunicam o consciente com o subconsciente e o superconsciente [††], uma vez barrida a sujieira astral amortecente e apurado e fortificado o seu interior, o participante tendia a se dedicar, igual que os aficionados às drogas comuns, à psiconáutica, ou seja, à gozosa exploração errante, hipersensível, livre e sem tempo, dos países maravilhosos da mente profunda e de seus aparentes habitantes, tão percevíveis agora como os fantasmas e devaneios de um bébado. Podería passar assim todo o resto da sessão até a Força descer. Porém, toda a disciplina do Santo Daime, a marcial e participante ordem do seu ritual e as instruções dos hinos, o instavão a que não se demorasse demasiado tempo recreando-se em inúteis vagabundagens esteticistas e egocéntricas pelo universo das muantes formas-pensamento da Memória Subconsciente e Coletiva da Espécie, puro desfile repetitivo e autocompracente das suas lembranças acumuladas,que só conduz ao desenvolvimento da mais vã e esclavizadora das fantasias, tal como se um meditador, em lugar de se esvaziar de imagens para sentir a realidade do seu Ser, se entretivesse com cada um dos envoltósrios mentais, a maioria vazios de idéias, que continuamente passam numa corrente contínua de ondas automáticas ante a sua antena.
A coisa consistia, pelo contrário, em que o Daimista, de forma ativa e não passiva, aproveitasse a sessão, usando a sua vontade de estudar-se de uma maneira consciente e profunda, descobrindo e assumindo suas eternas potências divinais, e tomando contato direto com as entidades espirituais que, desde sempre, tinham sido seus guias e aliados, a fim de que pudesse actuar junto com eles de forma construtiva, ...E como? ...Projetando, através desses arquetipos pluridimensionais de si mesmo, seu Verbo Criador sobre o mundo, multiplicando seus poderes ao sincronizarlos com os de todo o grupo de guerreiros e guerreiras, e os dirigindo ao mesmo objetivo ordenadamente, pelo seguro cauce dos hinos, convertidos todos juntos em um faz de limpos canais de resonância e ancoragem do Plano Evolutivo Cósmico sobre as energias essenciais de todos os seres do Plano Terrestre, tanto físico-material como astral.
E, de alguma maneira, todos tínhamos a evidência em nosso interior de que o trabalho que se estava desenvolvendo modificaria realmente nossa vida e nosso mundo, e até influiria sobre microuniversos subordinados à nossa identidade individual que nem sequer estavam completamente formados em todos os planos do Ser.
Já que todo está contido dentro de tudo, o Universo Multidimensional em nosso coração e viciversa, cada buraco negro esvaziando um universo dentro de outro, como sugerem os físicos quánticos. Sendo mental o Universo, todo ele cabe em um conceito que pode se reduzir ou se ampliar, se concentrar ou se dispersar até o infinito.


10- OS HINOS SAGRADOS

As esforçadas tarefas do dia asseguravam a sobrevivência física aos membros da Comunidade, mas isto não era senão a condição elementar básica que lhes permitia desenvolver seu verdadeiro trabalho mágico de guerreiros templários de ambos sexos:
Suas vozes vibrantes enchiam a atmosfera noturna -o corpo emocional ou astral do planeta, que pela noite se encontra em fase onírica e em vibração Alfa totalmente receptiva- de potentes hinos religiosos, que formavam uma egrégora (condensação mental coletiva) de limpeza, auto-consciência e amor, encaminhada a descontaminar a aura da Terra e as dos seus seres, das venenosas formas-pensamento negativas de desesperança, desalento, pesimismo, medo ou maldade, e de todas as energias demoníacas emitidas pela Humanidade inconsciênte e doente durante o dia, a fim de transmuta-las em vibrações angélicas que reforçassem as virtudes com as que cada espírito humano foi dotado para cumprir seu destino cósmico, como indivíduo e como Espécie, como célula e como órgão do Planeta.
A totalidade dos hinos tinha sido recebida pelos participantes no trance provocado pela Ayahuasca e, ainda que suas letras possam parecer, numa primeira escuta, simplonería camponesa, eram consideradas como vibraciones sagradas, procedentes da esfera dos Guias Supraconsciêntes, com grande poder para transformar e corrigir o nível emocional mais próximo ao físico das pessoas -seu baixo astral subconsciente- onde se encontram as raízes e traumas dos hábitos negativos.
Este é um nível de pura vibração energética suja, envilecida, diabolizada, onde se prendem os espíritos obssesores afins a nossas vibraciones mais baixas, se a gente não é cuidadosa e atenta com o seu alimento emocional e mental, e com sua limpeza psíquica quotidiana.
A elevada vibração dos hinos atua como exorcismo, libertando a nossas potências básicas das larvas astrais que pudessem se achar vampirizando as nossas energias, as quais, ao se purificar, convertem-se de novo nas virtudes originais ou divinais do espírito; isto é, em nosso próprio Eu Astral e em seus aliados: anjos, mestres e guias internos.
...Posso falar deste poder de transmutação dos hinos, porque experimentei-o pessoalmente de forma entranhável e bem evidente: a noite anterior ao meu embarque pára Mapiá, no povoado de Boca de Acre, simpaticei com um chamán curador a quem chamavam Senhor Marirí, quem utilizava a Ayahuasca fora da férrea disciplina do Daime. Seu Marirí tinha-me convidado a uma ingestião da bebida preparada por ele, junto com outras pessoas que também estavam esperando para navegar.
No meio do trabalho foi chamado para atender a um doente grave, e teve que nos deixar, confiando a dois jovens guerreiros do Padrinho Sebastião o fechamento da sessão. No entanto, eu tinha me elevado tanto, que percebi que meu poder mental era capaz de influenciar e até dirigir a psique daqueles jovens camponeses, de modo que, experimentando aquela Forçcada vez com mais ousadia, fui lhes obriguando, só com o pensamento, a prolongar a sessão e a ingerir mais e mais Ayahuasca, até que me senti possuído por todos os meus demônios subconscientes e dominando aos demais, que corriam como hipnotizados ao redor da fogueira e seguindo-me, enquanto eu ria interiormente, ébrio de poder, convertido no Grande Manipulador...
Não sei em que tería acabado aquele aquelarre descontrolado se de repente não tivesse parado um automóvel ante a valha do quintal onde encontrávamo-nos e não descesse dele meu iniciador, Chico Correntes, que havia conduzido toda a tarde e parte da noite pela pista de terra desde o lonxano Rio Branco, para chegar "casual" e providencialmente naquele mesmo momento.
Passou ao quintal, plantou-se de pié junto à porta e começou a cantar hinos. Desde meu trance, eu "mirava" as vibrações que saíam da sua boca como serpentes de fogo que voavam, enrolaban-se ao redor de mim e me encorrentavam, imovilizando ao Lúcifer em que as minhas energias mais baixas se tinham transformado e que dominava todo o meu ser. Um a um, seus hinos converteram-se em correntes energéticas que me atraram e submeteram totalmente, dobrado em terra; começando depois a actuar sobre a minha emocionalidad profunda, removendo-a e transformando-a na mesma medida em que meu diabo principal, vencido, aceitava se render.
Acabei chorando embarrado no chão, profundamente arrependido e sentindo que recuperava o melhor de mim, depois da frenética tormenta. Correntes (outra apropriada “casualidade” aquele sobrenome) voltou-se aos jovens, que se tinham tranqüilizado assim que ele aparecera, e disse: -"Este garoto salva-se".- depois fechou ritualmente a sessão, ordenou que me dessem uma ducha, me vestissem com roupa limpa e me levassem a durmir.
Eu estava feito pó, mas muito aliviado, e assim que pude descansar no meu sleeping, começei a ter visões vividamente sentidas; e eram todas como fragmentos de vidas passadas, marcadas pela indisciplina, a rebeldia, a desatenção e a arrogante competitividade... primeiro entre os hebreus do Éxodo que seguíamos a Moisés para a Terra Prometida, mas duvidando dele e nos rebelando contra sua intuitiva autoridade cada vez que podíamos; depois entre o mesmo povo, recebendo a Jesús com vítores de esperança em Jerusalém, para, dias depois, rapidamente decepcionados e passados ao outro extremo do pré-julgamento, vociferar ante Pilatos pedindo a crucifixão daquele impostor...
Mais tarde, via-me no final das Cruzadas, defendendo empecinadamente, junto com outros camaradas, o último bastião cristão em Palestina, ao que chamávamos Saõ João de Acre (“casualmente” me encontrava agora em Boca de Acre, no estado brasileiro de Acre); minada e derrubada sobre a gente a muralha que nos protegía, os guerreiros muçulmanos nos desbordavan e rodeavam como uma inundação; eu lutava e lutava à desesperada, vestido com uma espécie de saiote negro sobre uma túnica branca, que levava cosida uma cruz vermelha de braços iguais no peito.
A minha direita, ví cair ao meu companheiro traspassado e, nesse momento de desatenção, fuí traspassado também. Meu matador fez um gesto como de socarrona desculpa ao arrincar seu aço do meu corpo, e então fixei-me no seu rosto enquanto caía... que “casualmente”, era o vivo retrato de Chico Correntes...
Na minha ultima visão em trance, ví meu corpo e os de todos meus companheiros atados pelos inimigos em cruzes ao redor de todo o perímetro de ruínas fumegantes da última fortaleza Cristã re-conquistada pelos sarracenos na Terra Santa.

Bastante antes do amanhecer acordaram-nos, e embarcamos para Mapiá: Quando a alvorada iiuminou o barroso rio Purús pelo qual navegavamos, pude ver as roupas com que alguem tivera a amabilidade de me vestir aquella noite, na escuridão e depois da ducha, ao não encontrar as minhas: um short negro e uma camiseta da Previdência Brasileira com a Cruz Vermelha estampada sobre o peito, “casualmente” as mesmas cores e signos que cobriam-me em minha visão da queda de San Jõao de Acre, três horas antes...

Ainda encontrei outras “casualidades”naquela aventura: muita gente, em Mapiá, comentava convencidamente que o Padrinho Sebastião era uma reencarnação de Saõ João Batista, o anunciador de Cristo nas margems do rio Jordão, e disso falavam muitos hinos. E quando pela primeira vez vislumbrei o templo da aldeia daimista, octogonal, como os dos templarios, coroada pelos seus três símbolos (a cruz cristã, a medialua islâmica e a estrela judia), veio de repente à minha mente que mais uma vez nos encontravamos os velhos amigos e inimigos, repetendo durante séculos o mesmo drama, a mesma disputa egocéntrica de poder, sobre a mesma Terra Santa. Seria que por fim poderíamos reconciliar-mos, descobrir ao irmão, o amigo e o mestre no aparente competidor e cumprir em harmonia a missão para a que fomos emanados?



...Retornando sobre os hinos: todo mundo concordava em que cada palavra daquelas estrofas tão simples tinha, no entanto, a oportunidade de se converter em mensagem subliminar que, no meio do trance, puxava de toda uma corrente de reflexões profundas que davam, outra vez “casualmente”, a resposta consciente que nesse momento mais precisava o iniciado para aclararse. Os clarividentes podiam vê-los, diziam, como sons mántricos luminosos; alguns, inclusive, como anjos sonoros, que avivavan por resonância as auras dos chakras etéricos humanos, aumentando a sensibilidade de suas percepciones subtís... Penetrou-me como nemhúm um hino que parecia-me um dos mais emblemáticos da Comunidade:
" Sol, Lua, Estrela, a terra, o vento, o mar,
e a luz do firmamento, isso é que devo amar,
isso é que devo amar, trago sempre na lembrança
a Deus que está no Céu, onde está a minha esperança..."

Os guerreiros daimistas continham seu impulso em paciente e atenta escuta e permitiam que as guerreiras mais ousadas e seguras de si mesmas fossem as primeiras em "puxar" o canto de todos: a comandanta, ou aquela das mulheres que o soubesse melhor, iniciava com brío a primeira estrofa de cada hino, e os homens, seguido, adaptavam seu tom ao delas na repetição, de tal maneira que jamais as fortes vozes masculinas as adiantassem, tampassem ou opacassem, já que só quando a mulher se afirma no seu ánimus, no seu impulso viril, vigorizándose, e o homem na sua ánima, no seu feminino interno, suavizando-se, se consegue que ambos sexos equilibrem a sua vibração em uma alquimia sintetizadora na que o Verbo Humano atinge o auge do seu poder criador; convertendo -se então um grupo de humanos assim de bem complementados e afinados, em um coro de anjos encarnados, pulidos canais de transmissão das virtudes do Ser, desde e para as todas Suas dimensões.
Os participantes na sessão, alertas ao ritmo marcado pelas puxadoras, que era imediatamente seguido pelo passo e as maracas dos comanantes, cada um composto no seu lugar em ordenada relação, perfeitamente enquadrados e sincronizados na corrente bipolar de crescente energia dinâmica, colocando muito sentimento no que cantavam... permaneciam tão atentos, interiormente, ao diálogo particular com seu Mestre Interno - acompanhado de visões muito intensas que denominavam "miraciones" -(olhar dentro de um mesmo)-, como externamente, ao mantimento da marcial coesão e da harmónica disciplina do coletivo guerreiro que cantava com entusiasmo; firmes todos no seu Combate do Amor, indudável transformador da negatividade do Astral, fazendo seu dançado e marcando o ritmo elegante e bravamente com maracas metálicas e redobres de bongós. Também costumava haver um violonista, um baixo, algumas bandolinas e cavaquiños e, mais raramente naquele tempo, acordeão e frauta.
Para quem se interessar pela análise formal da música, estas são as notas transcritas por meu amigo, o artista e internacionalmente prestigioso professor catalão de guitarra Gabriel Rosales, depois de escutar uma fita de hinos que lhe passei:
-"Melodia diatónica 1,3,5, com escala predominante pentatónica 1-2-3-5-6-8 (graus da escala, Do-Re-Mi- Sol-La-Do), intervalo de início (quarta justa) -efeito conclusivo-; estrutura: A/motivo---; B/motivo---contramotivo. As seqüências melódicas repetem-se também na sua forma rítmica...
Música fundamentalmente afirmativa, ingênua, busca a harmonia (com intervalos puros, perfeitos), e a limpeza espiritual, com uma monotonia que provoca introspecção, um dar voltas sobre si mesmo sem resposta, e sempre presente ao fundo o concerto animal da selva; há uma tendência geral a ir aumentando a velocidade para os finais, o que cria tensão psíquica, expectação e entusiasmo... O ritmo tem influências do merengue, a habanera, a conga, velhas músicas populares portuguesas-pernambucanas e algo de andino na frauta.-"
Era espléndido o espetáculo de duzentas ou duzentas cinquenta pessoas vestidas igual, evoluindo em balanço em perfeitas formações, e cantando hinos no salão em forma de estrela do Templo, cada um bem composto no seu lugar, armados de maracas e de todo tipo de instrumentos musicais, especialmente nas grandes festas cristãs e nas dos seus padroeiros principais, São João (que representava ao Sol, à Masculinidad Pura), Nossa Senhora da Concepção (arquétipo da Feminidade Divina, a Lua), Sáo Sebastião...



Durante elas, todos se vestiam cuidadosamente de gala na suas casas e iam, percorrendo descalzos, para não embarrar os zapatos, as trilhas enlamadas pela chuva tropical que cruzavam o mato. Vinham as mulheres vadeando os caminhos, com as saias arremangadas e o seu hatilho (pacote de roupa) ao braço, mas tão nobres e elegantes como correspondia a quem em verdade dirigiam-se a uma festa de corte do Celeste Império, pela Divinidade Mesma presidida.
Os homens iam todos de branco, com jaqueta e gravata azul escura, marcando o passo virilmente, mas sem a menor rigidez. As mulheres, de todas as idades, eram as flores silvestres do Jardim Do Daime: meninas belísimas ornando com seu dançado a cabeceira da mesa, tais como anjos em coro; jovens amazonas de longos cabelos ondulados na idade em que todos os encantos erupçõam inconteníveis; femininas e majestosas panteras às que parecia que sobrasse qualquer vestido, salvo sua pele dourada multiracial, perfumada pelo sol, pela água do igarapé e pelos verdes aromas naturais; tão serias e castas, no entanto, em seu aspeto, como frescamente soltas e sensuais.
Nas primeiras fileiras, dançavam no templo as guerreiras florescidas, destellantes de determinação seus rostos leoninos, competindo as mais bravas por lançar-se a puxar um hino a toda voz antes que ninguém e por sustenta-lo, sozinhas, no tom adequado, até que todos as seguissem; outras, algo mais maduras, eram mães de seus filhos e madrinhas do mundo, de uma dignidade impressionante, a que dá o mais abnegado amor familiar e quotidiano estendido a todos. Destacavam, por fim, as idosas druidesas de brancas cabeleiras, com tal doce firmeza e profundidade nos seus rostos, marcados pela aventura da vida e pelo conhecimento da sua experiência, que só olha-las movia ao maior respeito.
...E cada uma levava sobre a saia, cobrindo os seus quadrís como uma protecção acrescentada, uma espécie de sobre- sayinha verde plisada, com tirantes diagonais -a moda intemporal do mato- e, sobre a cabeça, uma coroa de rainha que elas mesmas tinham- se feito na Oficina de Costura da Comunidade com arames e lentejuelas brilhantes. Todos os fardados (que assim se chamam as pessoas comprometidas com a Doutrina) levavam uma estrela de seis pontas ao peito, signo de filiação divina, equilíbrio e conexão e, dentro dela, a lua crescente da Virgem Mãe e a Águia Solar de altos vôos que qualquer daimista tinha que chegar a ser.
Era espléndido quando, ao terminar um hino que nos tinha elevado a todos, os homens prorrumpían ordenadamente numa enérgica salva de vivas ao Pai Eterno, à Rainha da Floresta, ao Celeste Império, ao Mestre Irineu, ao Padrinho Sebastião e a todos os irmãos... O último viva dedicava-se ao Santo Cruceiro, e todo o salão ficava vibrando. Era espléndido oir a todo aquele povo cantar alegremente "parabems pra voçê" quando se celebrava o aniversário de alguém ou, simplesmente, quando se via que alguém tinha renacido depois de um profundo trabalho de cura... Era espléndido quando, no meio do himnario, a vibração sincrónica se harmonizaba tão bem e com tanta força, criando um astral intensísimo, que todos nos olhávamos com um sorriso feliz e camarada, nos amando uns a outros e a nós mesmos.

Ainda que pareça aos nossos sentidos externos que luz e som são duas coisas diferentes, a verdade é que no trance do Daime, eu percebicada um dos hinos como uma unica onda contínua e ondulante de energia, carregada de informação sonoro-lumínica, com grande poder para nos fazer consciêntes, ainda que isto é subjetivo e ignoro se outros teriam visões semelhantes, porque cada mente tem seus próprios códigos captadores ou emissores de informação. Tenho visto, inclusive, na miração, como o som se geometrizava em estruturas luminosas carregadas de códigos de informação, que nosso subconsciente entende muito bem, sobretudo se tem cultivado antes um pouco sua sensibilidade de percepção artística.
Nas sessões de cura, ademais, pude "mirar", nos gloriosos momentos de melhores percepções astrais, como os hinos iam pouco a pouco re-ordenando os alinhamentos moleculares de um órgão doente, ou seja, desafinado, e o faziam de forma semelhante a como se afina a corda destemperada de uma guitarra, comparando seu som com o que emite outra bem temperada, e fazendo-a ressoar por simpatia. Nos momentos em que captavamos que o doente ficava aceitablemente re- harmonizado, costumava-se arrematar o hino com um alegre "Viva a Saúde!" que era coreado por todos.
Compreendi perfeitamente, então, aquilo de “No princípio era o Verbo”, e que todos os mundos manifestados não são outra coisa que bem harmonizadas sinfonías. Quem não segue o compasso do Cosmos, adoece. Os himnarios eram uma extraordinária escola de harmonização coletiva, onde o som se produzia da mais poderosa maneira: movendo-se ritmicamente em um círculo bipolar, que encauzava as emoções grupais exaltadas pela Ayahuasca numa única freqüência expansiva.
Através daqueles cánticos re-potenciadores, a mente individual liga, por afinada resonància ascendente, com a Oitava Superior onde vibra a freqüência da Mente Coletiva, e recebe Dela os seus tesouros de sabedoria, servidos em recipentes dourados, ainda que não sempre doçes, de puro sentimento.
Quem canta, eleva automaticamente a intensidade da sua vibração; quem canta ligado, eleva-a às alturas onde o Eu ressoa harmonicamente com todos os seus corpos. O cántico litúrgico é uma chave multidimensional que une nossos sete chakras corporais com aqueles outros cinco do Eu Total Que Somos, que estão situados fora do acúmulo de energia ao que costumamos chamar nosso corpo individual.
O mais alto a que podemos aspirar enquanto ainda permanecemos encarnados, é a nos converter em um bom instrumento musical através do qual as Sinfonias do Ser derramem-se como bênçãos e bálsamos sobre o Plano Físico e sobre seus povoadores.
A Ayahuasca é poderosa, mas os hinos, ainda sem Ayahuasca, são tão poderosos como ela, especialmente alguns, que são chamadas invocatórias à manifestação de imponentes Forças do Astral sobre nós.
O som pode fazer vibrar os compoêntes ínfimos de qualquer coisa, que, em última instância, não são senão fotones bipolares em movimento, alternándose de forma ordenada sobre uma estructuração rítmica geometricamente sonora. Assim se vé em trance o momento mágico em que as ondas de energia-consciência começam a se transformar em matéria, aparentemente bem sólida.
...Da mesma maneira que um repentino som muito intenso é capaz de alterar a estrutura vibrátil (sonora) que mantém a coesão estrutural de um vidro e o fazer pedaços, assim um cántico sacro tem potência para penetrar entre os tecidos e os neurônios, desfazer bloqueios, re-organizar grupos de células cancerígenas (ou seja, desordenadas e desordeiras), e abrir ocos onde possam se armazenar ou condensar novas informações que serão sementes de transformação evolutiva.
A Física Contemporânea já tem chegado a demonstrar o que os chamães e as Escolas de Mistério conheciam há mais de três mil anos: que o universo manifestado é puro som congelado, que a estructuração do átomo -que converte as ondas mentais lumínico-sonoras em partículas materiais- obedece às mesmas proporções numéricas que os princípios harmónicos que convertem ao som em música.
Os cánticos sagrados têm sido usados como terapia reorganizadora, equilibradora e harmonizadora de todos os nossos corpos desde a Prehistória. Igual que o átomo, e cada uma de nossas células, é uma caixa de resonância. Cada um dos nossos órgãos ou dimensões da consciência é, também, um conjunto de vibrações que se mantêm em estrutura comum porque ressoam sincrónicamente numa freqüência específica, e que serve de degrau para um plano ou andar determinado de nosso Ser. A evolução consiste em ir ascendendo a planos cada vez mais subtis da nossa própria Identidade, ao mesmotempo em que vamos integrando amorosamente as freqüências mais baixas e densas antes percorridas, numa escala de harmónicos perfeitamente conhecida, ordenada, e já controlada, sem esforço algum, naturalmente.
Nós, os Seres ( as unidades do Ser de qualquer dimensão, de qualquer reino) somos, essencialmente, energias. Isso não significa que sejamos um conjunto de tantos ou quantos quilos, ou watios, ou o que seja, de uma substância determinada; significa, mas bem, que nossa atividade vital emite, produz, emana, ondas de maior ou menor poder perceptivo, que se dirigem para aquilo que é objeto de nossa atenção, o varrem, como faz um laser ou um radar, e rebotan; voltando essas ondas a nós com uma série de informações obtidas.
Também podemos nos projetar: eu quero escrever no meu computador a letra "A": para isso percebo em que lugar está a tecla correspondente com minha atenção perceptiva; quando já estou seguro, lanço um impulso sobre a tecla com precisão, com atenção proyectiva, e esse impulso, traduzido por todo o complexo processo funcional do computador, converte-se numa "A" escrita sobre a tela.
Agora bem, para pulsar a tecla tenho usado energia mental inteletual e energia física, mas se a "A" faz parte de um poema de amor á minha dama, estou empregando também energia emocional, e se no poema digo que, através do amor da minha dama, o meu amor se estende a todo quanto existe, minha energia emocional elevou-se e se converteu em alguma forma de energia espiritual. Estas são metáforas para nos entender, já que realmente, toda a energia é Uma no Cosmos, e ela ri destas classificações humanas tão relativas.
A energia é uma, mas ela vibra em freqüências diferentes, segundo estejamos, por exemplo, percebendo ou projetando sobre um problema mecânico, enquanto arranjamos um motor, ou percebendo e projetando em estado de contemplação, enquanto agradezemos pela Vida ao amanhecer. No primeiro caso a energia concentra-se, contrai-se, penetra numa parcela concreta do mundo denso da matéria e das suas leis, vibra com certa lentidão, actua de forma metódica e lógica, de acordo com o que aprendeu previamente que é correto fazer, sobre um objeto bem determinado, e processa no cérebro através do hemisfério esquerdo, que se encarrega, preferencialmente, do pensamento deductivo, analítico, diferenciador.
No segundo caso, no entanto, a energia se expande, se descontrae, vibra a grande velocidade, abrange um âmbito mental amplísimo... (de fato, sem limite algum, no qual cabem, no mesmo espaço conceitual, todos os seres), atua sentimental e espontaneamente de maneira criativa, e processa através do hemisfério direito, que é associativo, unificador, mais intuitivo que lógico.
Contrair-se e expandir-se são os dois direccionamentos fundamentais da nossa energia dentro da infinita escala de manifestações do Ser que Somos. O equilíbrio em tensão entre contração e expansão faz que as formas nas que envolvemos nossa consciência -nossos diversos corpos densos e subtis- permaneçam unidos numa estrutura. Sem esse jogo de opostos complementando-se, os milhões de entidades que nos compõem desintegrarían-se e se dissolveriam.
A Energia-Consciência Universal não é outra coisa, á luz da miração, que a vibração que emitimos todos os Seres Divinos ao vibrar conjunta e afinadamente e ao nos relacionar através de todas as dimensões de manifestação do Ser Unico. Vem a ser como a sinfonía que cantariamos todos se todos entoássemos como anjos, isto é, perfeitamente compenetrados no maior amor, e perfeitamente atentos uns a outros. Como para fazer isso se precisa um estado de consciência expandida, podemos supor que a chamada "Música das Esferas" é a freqüência de onda emitida pelos Seres Unificados... os demais, simplesmente, desafinamos. Sorte que também não se nos ouve demasiado.

Os defeitos do ser humano ou paixões do ego chamados pecados capitais: ira, sobérba, concorrência invejosa e ciumenta, avarícia acaparadora, medos, dúvidas, desconfianças, glotonería, ambição vehemente ou indolencia apática, não são outra coisa que desequilíbrios da energia, polarizações para os extremos, os quais produzem, em primeiro lugar, contração da freqüência, maior lentidão da sua onda, densificação e materialização. E, em segundo, separação e desafinação com respeito à tónica da sinfonía do conjunto de seres que somos; perda de qualidade de consciência, rebaixamento da nossa atenção, e com ele, diminuição do nosso controle sobre a própria situação e diminuição de nossas percepciones e defesas, o que facilita, como conseqüência, uma abertura à doença.
Cada um dos planos de nosso Ser que temos conseguido harmonizar, significa um esforço prévio -o Bom Combate do Guerreiro ou da Amazona Espiritual- por desbravar as tendências caóticas das energias que nos conformam (a entropia) e por afinar entre si aos egos que as regem, após fazer-lhes se submeter e adaptar à direção da comandância unificada do Eu Sagrado, quem sempre tem um único propósito: a elevação comum do conjunto de indivíduos que se comprometeram a seguir a disciplina. O Eu Sagrado não admite desordem caótico, nem desvios do ritmo marcado, nem presumidos que desejem destacar em base a apagar ou opacar aos demais, nem cobiçosos que acumulem mais energia da que lhes corresponde, nem covardes ou tímidos que queiram se ocultar ou ficar atrás ou não participar.


Os himnarios do Povo de Juramidám são uma Escola onde a célula aprende a servir afinadamente ao órgão e a vibrar sincrónicamente com ele... por isso se diz que o Daime consegue curar a cancerosos que já foram sentenciados por todos os médicos.
A maior participação na harmonia comum, mais energia e mais rápida sua manifestação no indivíduo; a menor participação, por contração no ego e por afastamento, menor e mais lenta energia, acompanhada de apagões de consciência. Qualquer ritual coletivo, e muito especialmente os do Santo Daime, é uma festa que tem por motivo nos comunicar intimamente e alquímicamente com seio de nosso Eu Mais Elevado e dentro dele, expandirnos conjuntamente para Ele nas asas do Amor, a alegria e a lucidez, e nos carregar da mais alta energia que temos conseguido compor juntos... isto é, a gente, sumada às nossas "relações astrais" (sinergia transdimensional).
Sã evolução significa consciente, firme e constante pulimiento e equilibração harmonizadora para dês-velar o Ser que sempre estã aí com todo o seu esplendor, até que essas notas desafinadas ou forças rudes e elementares da nossa base emocional -nossos demônios interiores- transmutam-se nas perfeitamente sincronizadas e sinergizadas virtudes ou sentimentos angélicos do Eu ligado a sua própria Divindade: tolerância, discernimiento, altruísta desinteresse, autenticidade e aceitação própria, criatividade renovadora, conhecimento compreendido pelo coração, corajosa autoconfiança, segura fé, realismo, gratidão, flexível autocontrol, generosidade, auto-soberania impecável, e claro sentido da própria realização ao serviço do conjunto, ou seja, do Todo que Somos.


Visão: No auge de Era de Aquárius, quando a Rede de Nações Planetarias autónomas se encontre por fim unificada por livre vontade de todas as comunidades mantendo-se rica e bem inter-conetada na sua diversidade... quando a Mundialização Positiva, por fim bem pilotada por uma Grande Fraternidade de mentes evoluídas, tenha tomado já uma boa marcha, toda a engenharia construtiva e, por suposto, a curativa e a genética, estarão baseadas no poder estruturador de ondas e moléculas que o som mántrico conscientemente dirigido possui. Para então, o que hoje ainda se chama magia será a ciência convencional do uso construtivo de nosso Verbo Consciênte Criador, bem como a correta canalização harnonica das nossas emoções no som, cujas leis as crianças conhecerão desde a escola primária.



Não quero fechar este capítulo, especialmente dedicado aos hinos sagrados, uma das partes fundamentais da efetividade transformadora do Daime e de qualquer religião, sem consignar que o trabalho sobre as vibrações sonoras que nos conformam essencialmente (o Verbo nos criou) formava também uma parte importantíssima dos ensinos de Carlos Pacini, de quem falei no segundo capítulo, quem, afinal, era músico. Ele escreveu bastante sobre o tema no seu livro "O Sol" que eu traduzi, por pura admiração, ao Espanhol, e que recomendo a quem queira aprofundar no assunto, pois não tem desperdício [§§].
Só apontarei que ele dizia que o homem não pode re-harmonizarse com a Vibração Universal que o emanou se não se põe antes a harmonizar trinamente seus corpos vibracionais (físico, emocional e mental), em base à tónica correspondente ao seu momento atual específico, que tem qa ver com a nota da escala que mais lhe emociona nesse instante. Depois dessa harmonização trina, dava instruções bem técnicas -já que a música é pura matemática- para harmonizarse septenariamente, isto é, para sincronizar as sete freqüências de manifestação de nosso Ser Integral por médio de mantrams bem sentidos; já o fazendo em acorde maior, já em menor, segundo queiramos despregar as potencialidades do nosso masculino ou feminino interno... ou as do equilíbrio entre ambos.
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11- AS MIRAÇÔES

Ouvi uma vez ao Padrinho Sebastião protestando: -"Esses doutores dizem que o Daime só é uma droga que produz alucinações; mas eu pergunto: Que coisa são alucinações?... Luz! Luz do Espírito para acordar à mente aletargada, isso são!-"

As “mirações” ou visões induzidas no trance da Ayahuasca (percepção das puras energias dos planos astrais e sutís e de sua unidade essencial) eram emocionalmente arrebatadoras, porque seu efeito nos hiper-sensibilizava ao máximo, se éramos minimamente sensíveis e receptivos; ainda que eu conheci a muitas pessoas que levavam anos ingerindo Daime e, no entanto, jamais tinham acessado ao privilégio de ter visões internas.

Tratava-se, em geral, de pessoas muito reprimidas, medrosas ou bloqueadas, incapazes de afrouxar o autocontrol e de deixar-se levar ao interior do subconsciênte. Estes irmãos eram os que pior o passavam, porque então toda aquela energia tinha que se aplicar, inteira, à exclusiva tentativa de remover seus bloqueios; o qual supunha uma tremenda batalha no seu ámago, ao longo de toda a sessão, entre a Consciência, querendo mostrar o que estava corrupto ou sujo em tí e os resíduos do teu ego, que teimava na tentativa de afastar desesperadamente a vista.

Para todas estas pessoas, de mentalidade, no fundo, bastante masoquista, o Espírito do Daime era uma espécie de Deus Castigador de corte bíblico que ocupava Seu tempo em penitenciá-los pelos seus pecados. Após sofrer uns momentos, sentiam-se aliviados por ter pago dôr espiritual em troco de suas culpas, mas isso não solucionava as causas do que lhes fazia se sentir culpadas, coisa que não queriam nem considerar; com o qual repetía-se a mesma "pea" subconsciênte, em cada uma das seguintes sessões, até que a pessoa acabava por se acostumar a se sentir a gosto no inferno de seus remorsos ou até que, em um momento de valor, aceitava ver e reconhecer seu negrura abismal, propunha-se sinceramente viver consciênte dela, adoutrinando às partes mais negativas de seu espírito para as corrigir minimamente ou para as manter controladas. Desta forma se libertava da escravizante dependência de suas baixas vibrações ...Puro psicoanálisis chamánico.

Refletindo hoje, muitos anos depois, sobre minha experiência, poderia dizer que nada temos que descobrir de novo em nosso interior, senão re-descobrir, porque eternamente toda a sabedoria divina reside em nosso subconsciênte coletivo, revestida de uma ropagem simbólica de arquétipos que nossa mente traduz ao condicionamento cultural de cada um, para fazer percivíveis em cada momento oportuno suas mensagens à razão; O problema é que também passamos a vida xogando ao profundo poço subconsciênte todos os impatos emocioais de nossos erros e todos os aspetos de nossa realidade pessoal que não coincidem com a "Boa Imagem" de nós mesmos que almejamos manter em fachada.

De modo que todo o trabalho preparatório a nossa realização -ou cumprimento da missão para a qual viemos a este plano- consiste, essencialmente, em nos atrever a descer ao abismo subconsciênte, remover as camadas superficiais de porcariada astral acumulada nesta vida e nas anteriores, dissolver sua negrura com a luz de nosso reconhecimento, e aceitar serenamente que também essas energias demoníacas (por sujas) são nossas, e que temos que trabalhar paciêntemente para as limpar no possível, conscientizá-las e reconvertí-las em nossas virtudes ou poderes divinais ou angélicos.

Naturalmente, enquanto nós vivir numa freqüência vibratória baixa, as sombras predominarão; mas, segundo vamos nos expandindo no Amor, irão ficando mais e mais controladas; e, por fim, ao ascender à freqüências claramente expandidas, nossa Luz e nossa Sombra sintetizarão-se alquimicamente ante nossa Consciência Unitária, já que nela não cabe a dualidade, e elas farão-se Uma de tal jeito, que a consciência dualizada nem pode conceber.

É essa consciência dualizada e contraída a que julga tudo, de acordo a sua relatividade, como bom ou mau. Em Deus não cabe o mau, o que nós conhecemos como o Mau e como a Sombra (assim, como nomes de arquetipos) não são senão aspetos de Sua Justiça que realizam funções necessárias, por destructivas que nos pareçam, e que servem corretamente a Seus desígnios. No Universo tem que ter de tudo, as tentações nos revelam as nossas fraquezas e nos fortificam quando as cortamos com firmeza, e as forças destrutivas eliminam o que nos sobra e facilitam a nossa contínua transformação, que é o que estimula à Mente Eterna a se renovar e se re-vitalizar continuamente.

O mito de Adão e Eva provando o fruto do Conhecimento do Bem e do Mau, significa a descida de uma Mente Unificada, que entende que tudo está bem, (porque nada existe que não seja a relação do Tudo Consigo Mesmo), a outro tipo de qualidade de mente diminuída, na que eu me sento separado do Tudo, o que provoca que, inevitavelmente, surga em mim, num primeiro momento, a desconfiança e o medo para "o Outro" que não controlo, porque não amo, porque sento que "deixei de ser também Isso".

Nessa pugna lógica, mas ilusória, alienada pela angústia, entre o ego e sua entelequia fantasma de “o Inferno, ou a perigosa concurrencia, como O Outro", o ego começa a achar que não tem outra que estabelecer categorias diferenciadas até o extremo: o Bem é todo aquilo que me convém, o mau é todo aquilo que tem que ver com "O Outro", o que suponho meu competidor (Todo o resto do Universo), cujo "bem" diminui meu aterrorizado controle sobre o território mental reduzido que tenho escolhido, cegamente, para me esconder de um Mim Mesmo que em todas partes impera, fora e dentro de mim.

Agora bem, a solução imediata, a saída do terrível estado de isolamento mental que chamamos contração no ego, consiste em expandir-se sobre a boa onda de um ato de amor qualquer, mas necessariamente bem sincero: um ir ao encontro "do Outro", um abrir a guarda e o sorriso, um atrever-se a invitar a dançar a essa beldade, a Pureza, tão formosa que dá demassiado medo achegar a ela nossa impureza, isto é, nossa própria ideia sobre o baixa e féia que se encontra hoje nossa própria vibração, nossa baixa estima...
…Mas não há cuidado, cada vibração só pode se relacionar direitamente com as vibrações afins, já sejam as que residem no seguinte degrau, por acima da Espiral da Consciência, ou naquele outro, o grau seguinte por embaixo dela, degrau inferior para o qual, às vezes, nossa compaixão tende uma mão generosa, se beneficiando imediatamente da elevação de autoestima que seu gesto produziu ante si mesma.

Isso é medicina suficiente… esse pequeno impulso de bondade basta para remover a camada superficial do poço subconsciênte com uma ondulação de simpatia que abre, que leva embora as courazas, diluídas, ondulando em círculos até a periferia, que deixa livre o centro. Por aí penetra o primeiro raio azul, com cuja luz O Amor varre as sombras. E, automaticamente, tu te expandes.
Por isso recomendam os sábios que, quando tu não possas fazer nada positivo por tí mesmo, faças algo por um irmão que se encontra ainda mais desfavorecido, Lei da Reciprocidade, e já estarás fazendo algo positivo por tí mesmo.

Uma vez nós descontaminamos a camada superficial do poço, os tesouros de sabedoria divina que têm permanecido ali desde sempre elevam seu perfume cautivador, nos envolvem, e nos devolvem toda a potência necessária para nos converter em limpos canais e braços executores do Plano Evolutivo de Nosso Ser Essencial e Total sobre a extensão de Si Mesmo que o plano material é.

E esse Plano não visa outra coisa que levar a Consciência do Ser Cósmico que somos até a última das suas partes menos consciêntes; e esse é o trabalho e a missão de Amor Integral do ser humano, ao ter nascido como uma ponte entre seu Eu Maior, o Espírito Superconsciênte, e Sua Própria matéria animal inconsciênte, a pedra que ele há de pulir. Mas temos que chegar, por Nós Mesmos, a um mínimo de nível de expansão das Nossas freqüências de Consciência, para poder começar a servir ao Tudo, dentro da Dinâmica Cósmica, desempenhando funções tão discretas como delicadas.

Há, pois, que se preparar, ensaiar, treinar, superar-se. Superar continuamente as próprias perfecções, esse é o Jogo Divino. É mais que o Jogo da Excelência... é o da Perfeita Omnipotência, viva e móvel, dominando qualquer conflito, harmonizando todo seu espaço, albergando e dominando nele as infinitas escalas de Si Mesmo sinteticamente, isto é, através da alquimia da temperança, da conciliação de opostos, da aceitação e asimilação de quanto é escuro, pela luz do Amor.

...E daí, o que é que produz a ingestião de Ayahuasca? Você ouviu falar de um sistema anti-ecológico e brutal de pescaría que consiste em explodir dinamita num rio? A onda expansiva mata ou conmociona a todos os peixes que se encontram no seu rádio, sejam adultos ou alevines, grandes ou pequenos, de superfície ou de profundidade, e os faz ascender; então ficam flutuando imóveis sobre a água, a disposição do pescador, que vai colhendo os maiores sem se preocupar por ter esvaziado de vida a todo aquele pedaço de rio. Alguns índios amazônicos usam, para o mesmo, umas ervas, com as que envenenam as águas, mas que, por fortuna, não têm mais que um efeito temporariamente paralizante sobre os peixes: após os pescadores levaram os mais gordos, todos os demais vão revivindo aos poucos, e a vida continua.

Pois bem, a Ayahuasca sentía-se com freqüência, em verdade, como uma carga de dinamita xogada ao interior de nosso poço subconsciênte: Após uma arrebatadora explosão caótica de nossos fosilizados esquemas e bloqueios, todos os conteúdos da psiquis profunda, sublimes ou monstruosos, limpos ou sujos, pessoais ou agregados, angélicos ou demoníacos, traspassavam os umbrais de seu atontado guardião, o ego raçional, sem possíveis interferencias dele, e se apressentavam na superfície da consciência, ante nossa tela mental no terceiro olho, claríssimos, em toda sua magnificência, ou evidentes em toda sua repugnante vileza.

Como nossa consciência está acostumada a só considerar sua "Boa Imagem", a sua primeira reação emocional -num estado hipersensível- era de horror, pavor e vergonha, ante a contemplação nua de toda sua baixaría, que, como um câncer devorador, a estava vampirizando e corrompendo interiormente.

A remoção psicológica ia acompanhada de uma remoção somática e a beberagem, se não provocava noxo e vómitos ao ingerí-la, (por causa do seu acre sabor a resina de árvore), acabava por produzí-los mais tarde, o qual era bem positivo, já que actuava a modo de purga e fazia sair a porcariada física acumulada no corpo, tanto como a mental, e quando um se aliviava de ambas, lhe invadia um profundo bem-estar, no que podiam acontecer as visões mais lúcidas e gratificantes; carregadas, ademais, de sabedoria e comunicação (ou, melhor ainda, comunhão), com dimensões sentidas como cósmicas.

Quando a vibração energética se elevava tanto e a tal progressiva velocidade que nosso emocional tornava- se um caos, a maneira em que eu descobri que podia re-ordenar minha mente e a salvar do pânico, -mas cada qual que busque a sua- era fazer controladamente mais lenta e mais profunda minha respiração; não permitir divagações ao pensamento, senão manté-lo no meu aqui e agora mais alto; permanecer atento ao que meu interior tinha para me aconselhar, prestando atenção aos hinos; ou centrar-me no terceiro olho ou na cruz de dois braços que presidia a mesa… ou rezar com fervor um Painosso ou um Avemaria, ou qualquer dos mais conhecidos mantras indianos ou tibetanos, aqueles que eram entranháveis para mim faz tempo.

Estes símbolos ou orações viam-se ena minha trance como energias luminosas espirais de fortíssimo poder centralizador, que convertiam o caos num mandala de imagens, por fim coherentes, obrigadas por minha invocação a se estructurar caleidoscopicamente e a girar em torno do mais sólido, ordenador e ilimitado conceito da mente humana: Deus.
Deus invisível, Deus insondável, Deus indescriptível. Mas Eis, aí, aqui, em toda parte: O Ser.
O Ser luminoso e amoroso.
Aí e aqui e em tudo. Nosso Ser.

Innúmeras vezes eu agradezi à Vida, por ter chegado àquela Aldeia de Magos minimamente preparado pelo Ioga, por minhas leituras, pelos Mestres que tinha conhecido e por minha auto-formação no caminho do sentido crítico e da liberdade individual; caso contrário bem tivesse podido ficar enganchado no fascinio passivo daquele Poder durante muitos anos, como tanta gente que conheci; Isso fez também que, desde o início, pudesse aproveitar muito bem todo o potencial transformador que tinha aquele explosivo despertador de consciência que era o Daime, e que recebesse um bom trato e grandes dádivas do Mestre Juramidám, o que movimentou a concorrência de algúns de meus colegas para a arrogante fortuna daquele estrangeiro recém chegado.

Havia também uma enorme diferênça entre compartilhar a sessão com pessoas de uma verdadeira evolução espiritual ou com aqueles que ainda estavam pressos ao sofrimento, o medo e a baixa autoestima: um espírito bem firme e criador que começa a "mirar" na roda chamánica, pode facilitar a ascensão de todo o grupo para dimensões de extraordinária luminosidade, onde se pode contatar com entidades de mestría ilimitada que nos enriquecerão com suas inspirações; da mesma maneira, um baixo astral geral pode converter uma sessão em um tormento. ...Por isso, um bom comandante de sessão deve ser, mais que nada, um impecável e eguilibrado canal que sustenta para todos com total calma e firmeza sua própria ponte, tendida para a Fonte da Força Que Tudo O Harmoniza.

Na certa, a principal aventura interna que a ingestião sacramental de Ayahuasca facilita, consiste em se xogar voluntariamente à loucura, ao rompimento de nossos esquemas prefabricados e falsos de aparente estabilidade anímica e "normalidade" convencional, e depois manter o valor, impecavelmente afirmados na nossa confiança em nós mesmos e em nosso Deus Interior, durante a vertiginosa queda aos infernos subconsciêntes, enquanto tratamos de criar ou recriar -com toda a velocidade de nosso talento-, uma imagem mental sólida, inmutável, uma representação, um símbolo, que faça de Centro de Consciência Sagrada no meio do caos, o qual é, em verdade, Nosso Próprio Centro.... até que acabamos compondo, quando não surge sozinho.

...E então a loucura, ordenada, acalmada como uma serpente que se enrola mansamente em torno do pilar básico do trono divinal da Harmonia Mesma, transmuta-se em genialidade, em entendimento lúcido além de qualquer esquema explicativo, em emocionado conhecimento direto, experiencial, profundo, que nos põe em êxtase ante os tesouros do autodescobrimiento.


12- ESPIRITISMO

Algumas outras sessões eram de limpeza e cura, e normalmente celebravam-se na Casa da Estrela, edifício de madeira não muito grande, com telhado cónico e doze lados, que se tinha construído seguindo as instruções canalizadas "desde o Rei Salomão" como hermético condensador arquitetónico das energias grupais. Pela Casa da Estrela tinham que passar os doentes e, ao menos três vezes, todos os visitantes, para se limpar das vibrações do "Mundo de Ilusão" do que provinham, e para afinar-se minimamente com a onda dos mapianos ou dos visitantes mais sabiamente integrados, os que conseguiam viver "O Céu" de Mapiá para valer, isto é, num estado de consciência ligado, que começava por ligar amorosamente com a Comunidade.

Convidaba-se aos doentes a se deitar passivamente sobre um colchão em uns cuartinhos anexos, e a relaxar e se abrir; os guerreiros e guerreiras apinhavam-se quanto podiam no reduzido espaço, cada um composto em seu lugar da roda energética; e os padrinhos ou madrinas melhor conetados da comunidade sentavam-se no centro, ao redor de uma mesa em forma de estrela, desde onde canalizavan as energias curadoras de seus guias, sua vibração sustentada pelos cánticos do coletivo. Tomava-se um Daime super-espeso, concentradíssimo, quase mel, porém, fel, de amargo e de pessado, que atuava rapidamente como removedor de toda a negatividade encostada e que fazia que a maioria de nós se dissolvesse em vómitos, ao mesmo tempo em que vivia um intenso processo de auto-aclaração interna, a respeito das causas espirituais de sua doença.

Mais tarde, no momento oportuno ditado pela intuição do "Guardião da Santa María", se abria o coração e o ânimo dos participantes com uma fumada ritual de folhas de uma planta sedante… e por fim alguém fazia um anúncio: "Segunda tomada" e, ainda que o corpo revoltava-se só de ouvir aquilo, todos se entregavam corajosamente à tremenda purga, a uma nova lavagem energética de hinos, e ao processo de conscientização paralelo, que acabava de limpar qualquer residuo de trevas astrais. Muito raro era que fizesse falta uma terceira tomada.

Os "Padrinhos" e "Madrinhas" do Povo de Juramidám, aqueles que viviam focalizados na freqüência mais ligada, demonstravam claramente, não com palavras, senão por seu amoroso brilho harmonizador, que "estavam" neste mundo, o dos pobres sofredores automatizados, e que o compartilhavam, igual que um Mestre compartilha amigavelmente com os párvulos a aula, porém, viver, "viviam" em outro mundo, ou em outra dimensão deste mundo (que ocupava o mesmo espaço e o mesmo tempo): o mundo de sua celebração contínua da maravilha que é A Vida e na dimensão da Luz que resultava de sua celebração, luz que partilhavam por toda parte, espontaneamente, sem sequer desejá-lo, tal como os astros fazem, iluminando a àqueles irmãos e irmãs que passavam por balançantes períodos demassiado noturnos.

Nestas Sessões na Casa da Estrela -edifício circular, bem fechado- para servir de acumulador de energia fluiente-, e cónico -para que esta fluísse para acima-, ao igual que em qualquer terreiro de Candomblé, de Umbanda ou de Espiritismo Cristão, e apoiados pela energia grupal dos guerreiros e guerreiras que se ordenavam ao seu redor, cantando hinos e chamados aos orixás ou aos espíritos curadores… os mediums iniciados incorporavam entidades desencarnadas proveniêntes das dimensões baixa e meia do Astral.
Essas regiões energéticas semi-densas são as partes de nosso Subconsciênte Coletivo mas próximas à dimensão física, por onde erran toda classe de espíritos de baixa intensidade luminosa. Aqueles que estavam tratando de fazer méritos para se elevar, eram os que colaboravam conosco (ao mesmo tempo que com sua própria elevação), dando conselhos, limpando a aura dos paciêntes, prescrevendo remédios naturais ou praticando operações quirúrgicas completamente incríveis para um europeu... mas, no entanto, com certa frequência extraordinariamente efetivas, já que numerosos desenganados recuperaram-se ali, saindo depois a caminhar limpos e renascidos como bebês, para uma segunda vida da sua vida...

...Ou, ao menos, aquilo levava-lhes a aceitar com alívio a morte inevitável, à qual já não se via como um buraco negro aterrador, senão como um libertador retorno à nossa eterna casa, aquela por onde voltamos a passar entre cada uma das infinitas manifestações de Nosso Ser em Suas infinitas Moradas, ad aeternum.

Dessas curas ou alívios tem-se recolhido abundante documentação testemunhal; sem dúvida a Ciência da Saude do Terceiro Milênio consistirá, sobretudo, em aprendermos a nos manter sempre diretamente conetados com a Fonte da Eterna Juventude: Deus, a Suprema Harmonia.

Um ou dois fiscais videntes afora, e outros no interior cuidavam, em colaboração com os Aliados Astrais, de que as energias negativas que o trabalho curador desencostava da aura dos obsediados, fossem expulsadas ou transmutadas realmente, e também de manter nos seus limites às miríadas de “escuros” que por toda parte pululavam tratando de prender a algum alma desprotegida para sugar a sua luz.

Também desfazian-se trabalhos de magia negra, Macumba ou Quimbanda, muito comum no Brasil e, às vezes, se chegava a lutar duramente contra entidades obsessoras que negavam-se a desprender do corpo etérico da pessoa a quem vampirizavam.

Nascido eu na verde e nubosa Galiza, que é terra céltica de bruxas, fantasmas e aparecimentos, mas também de demassiada superstição e ignorância, estas histórias de ultratumba atraíam, por um lado, parte de minha atenção imaginativa com um verdadeiro fascínio mas, por outro, para mim estava claro que tudo aquilo fazia parte do lado poético, fantasioso e folklórico da ancestral cultura popular, igual que a fição literária das lendas e dos mitos, e que de jeito nenhum podía-se levar a sério nem misturar com a realidade racional da vida quotidiana.

No entanto, ao começar a introduzir-me no Espiritismo Brasileiro, fez-se evidente para mim que nossa realidade racional e individual, mal é uma parcelinha muito pequena de um campo de realidade imenso e invisível, em cujos níveis médios nossa aparente individualidade dilui-se, para nos converter em um faz ou em um coletivo de consciencias. Num nível mais alto ainda, o coletivo unifica-se numa sozinha Consciência Universal, a do Ser Que É, Consciência que interage eternamente Consigo Mesma.

Anos antes, na bela ilha fluvial de Mosqueiro, perto da desembocadura do Amazonas no Atlántico, onde nossa filha menor nasceu, minha companheira e eu fizemo-nos amigos de um "Pai de Santo", medium ou sacerdote de Umbanda, muito jovem e muito boa gente, chamado Lico. Foi com ele que assistimos às primeiras sessões de incorporação espírita sanadora. Lico recebia principalmente, após uma espécie de dançado, a um guia do Astral da linha de Marte-Ogum, que tinha sido um poderoso guerreiro indígena, um caboclo, chamado o Senhor Rompe- Mato, tão nobre como rudo; quando o incorporava, os músculos gráceis do corpo jovem de Lico pareciam se inchar, como se sua energia triplicara-se, ao mesmo tempo em que encorvaba suas costas, sempre o braço esquerdo dobrado e o punho fechado contra elas, como se retivesse ali alguma energia de reserva ou conexão, enquanto se endureciam suas facções; também sua voz soava diferente, e sua maneira de falar.

Incorporado em nosso amigo, o caboclo Rompe-Mato recebia ao anoitecer a numerosos paciêntes com seus problemas e angústias, numa arenosa praia do Grande Rio, trabalhava com suas relações astrais, desfazia traumas subconsciêntes, dava conselhos, e prescrevia remédios naturais para as doenças físicas, que com freqüência se curavam. Era um trabalho caritativo de ajuda psicológica (ou espiritual) totalmente gratuíto, que consumia grande parte do tempo de Lico e que também o obrigava a viver em disciplina, oração e meditacção, já que sua aliança e ligação interna com seus guias casava com seu compromisso de adoctriná-los e dos alimentar espiritualmente várias horas ao dia, para ajudar na sua evolução astral.

Tudo isso encantava-nos, mas não deixava de nos parecer um teatro, no quual achava-mos que Lico curava às pessoas de maes imaginários por sugestão, simplesmente por ir revestido de uma personalidade poderosa e sobrenatural, na quual a gente simples e supersticiosa pudesse confiar, melhor que na frialdade profissional, burocrática e quase robótica, dos médicos mau pagos que uma Previdência Estatal masificada e anônima atribuía aos humildes.

Críamos tão pouco na realidade daqueles supostos espíritos que se incorporavam, que chegamos a oferecer nossa casa a Lico para que celebrasse uma sessão semanal de espiritismo com uns mediums que estava preparando.

Uma noite, quando já estavamos todos reunidos, e vendo que Lico se atrasava muitíssimo, autorizei, como dono da casa, a abrir a sessão sem ele... e desatou-se o caos. Começaram a incorporar descontroladamente diversas entidades muito alborotadoras e, ao pouco, eu já tinha três ou quatro mediums contorcendo-se ao mesmo tempo ao redor da mesa, um deles possuído de uma maneira tão forte por uma energia tão estranha e tão turbulenta que me fez tomar consciência, de repente, que tinha sido uma total irresponsabilidade minha abrir aquela Caixa de Pandora que, ao que parecía, continha algo mais que fórmulas de auto-sugestião.

Quando maior era o caos, e já estávamos para entrar em pânico sem saber o que fazer, passou pela mina cabeça, de repente, que se todas aquelas energias diabólicas pareciam tão reais, da mesma maneira poderiam se -lo as entidades divinais da mitología cristã na que se nos tinha educado, e centrei-me fervorosamente na oração, pedindo ajuda ao Alto.

A oração pareceu levar um pouco de calma ao meu ânimo, no meio de toda aquela bagunza, e só então veio á minha mente um nome que em alguma parte tinha lido ou ouvido: Astrea, chefe da polícia do Astral; parecia coisa de história em quadrinhos.

No entanto, era o único a que me podia asir nesse instante, de jeito que levantei, e com firme voz e minha maior seriedade, invoquei, em nome da mesa espírita consagrada, ao espírito de Astrea, para que levasse de novo para o Astral a todas aquelas agitadas entidades.

E, ante meu alívio e espanto, a invocação surtió efeito; os mediums ficaram imóveis de repente; aos poucos, eles foram recuperando suas personalidades habituais e a calma retornou à sessão. Todos os presentes centramo -nos, então, em orações tradicionais, agradecendo sinceramente nos ter livrado daquilo. Quando Lico apareceu, finalmente, dedicou-se a re-energetizar aos mediums e foi extraordinariamente delicado com minha irresponsabilidade, mal me dando um toque suavíssimo -à brasileira- para eu andar mais atento com o desconhecido, e sem nada me reprochar.

Porém, durante todo o mês seguinte havia uma vibração pessada na casa, e sentíamos que estranhas presenças invisíveis nos rodeavam, como esperando uma nova ocasião para que, aberta a porta entre as dimensões, pudesse se organizar de novo uma parranda de bruxas... Tivemos que acabar nos mudando de casa e de bairro.


Um ano depois aconteceu a única experiência espontánea de visão clarividente, sem estimulante químico algum, que tive em minha vida... ocorreu no mesmo Mosqueiro, no ano 1986: Estavamos em plena temporada turística e eu tinha passado todo o fim de semana pintando retratos aos veraneantes. Pintar é uma atividade que se realiza com o terceiro olho, o qual equilibra em uma harmonia expresiva os dados recebidos pelos dois olhos físicos, quando estes se entrefecham

Pintar retratos ademais, supõe a captação intuitiva da energia ou caráter do retratado, junto com seu imprescindível parecido físico, num curto espaço de 15 a 20 minutos pousando, o qual é quase uma atividade adivinatória, absolutamente própria do hemisfério cerebral direito, que supõe uma imensa concentração sobre o olho interno... Eu não tinha parado de trabalhar seguido durante todo o dia, de modo que sentia o bater da minha glandula pineal, como se eu tivesse um pequeno martelo macio me batendo ritmicamente a fronte, entre os olhos, desde o interior do cráneo.

De repente, depois de assinar uma obra e entregá-la, decatei-me que o grande disco vermelho do sol tropical começava a cair a bico sobre o rio-mar, cuja outra orla quase não se atingia a ver no horizonte. Em torno a mim, os quiosques da praia estavam-se esvaziando e os veraneantes regressavam às suas casas com o fim da tarde.

Minhas possibilidades de seguir trabalhando tinham-se acabado: os únicos clientes que ficavam nos terraços da praia de Murubira eram os bêbados, que ruminhavam o fracasso de mais um dia atirado pela borda, alavançados sobre mesas cobertas de garrafas de cerveja vazias, que o garçon só retiraria ao conta-las para cobrar. E eu, por experiência, sabia que aquele tipo de público, conquanto pudesse aceitar facilmente fazer-se um retrato em troco de companhia para sua vaziedade, não seriam capazes de pousar minimamente, ofereceriam uma imagem patética ao meu lápiz e, por muito que os tentasse humanizar, se mostrariam provavelmente conflitivos na hora do pagamento.

De modo que, dando por finalizada minha jornada, deixei-me derrubar sobre a primeira cadeira a meu alcançe, ainda com meus materiais de trabalho entre as mãos, e permiti a meu corpo e a minha mente se relajar profunda, profunda, profunda e gratamente.
Então aconteceu:
Ante mim, a menos de três metros, tinha uma mesa cheia de garrafas com dois homens semi-inconsciêntes, balançando em seus assentos, que ainda sorvíam dos seus copos; e atrás deles, eu estava vendo claramente, com meus próprios olhos bem abertos, a uma espécie de enormes pássaros que sorvíam eles com seus bicos, longas trompas ou tubos cónicos que mantinham colados nas nucas dos bebedores.

Suas formas apressentavam-se bastante bem definidas, porém, vaporosas, quase transparentes, tal como balões plásticos inchados, tingidos de cores fortes e sujas; cada bebedor tinha três ou quatro daqueles passarrões pregado à medula de sua coluna vertebral, e quando engolia para o pescoço e o estômago a parte líquida, material, da cerveja, eu podia ver, claramente, como o espírito do álcool, seus fluídos etéricos, ascendia trompas acima, sugado avidamente pelos repugnantes bichos, que enchiam-se com a energia de seus parasitados, o que fazia que, por um momento, suas sujas cores parecessem brilhar algo mais.

Com a consciência de estar ante uma oportunidade única, venci minha surpresa inicial e esboçei rapidamente o que estava vendo num papel com um giz vermelho de cera; ao fazê-lo, devi ativar meus mecanismos habituais de percepção lógica, com o que a visão esvaeceu-se e só ficaram de novo ante mim os infelizes bebidos-bebedores baixo o resplendor avermelhado do sol se pondo.
Não se repetiu o fenômeno por muito que tentei me relaxar; mais tarde, reforçei meu esboço à caneta e o emoldurei em azul. Acabei pintando um quadro com aquela curiosidade vivencial: “a Escravidão”.

Cada vez que passo por uma taverna ou por um bairro de vinhos, (como os que há em todas as velhas ciudades espanholas), tornam aos meus sentidos as sensações de repugnância que me causou a visão dos demoníacos elementares do álcool; sei que estão aí, escondidos na sombra ou entre as cubas, impregnados do fedor a fermentación, espreitando a qualquer um que abra as suas defesas etérico-psíquicas para se acoplar a sua nuca e vampirizá-lo, sempre lhe pedindo mais e mais. Desde então, guardo uma prudente distância com respeito ao álcool, apesar de ter sido educado na sua cultura; E estou seguro de que atrás de cada vício ou cada paixão de um homem -e a mais alta virtude pode-se tornar um vício quando perdemos seu controle e seu equilíbrio- há uma tropa de parasitas astrais estimulando-o, encorrentando-o e sugando a sua medula, sem importar-lhes chegar até as últimas conseqüências.

Quando poucos anos mais tarde voltei a abrir minha visão astral, desta vez usando um psicoativador, isto é, entrando no trance provocado pelos elementares da Ayahuasca, pude ver como cada pessoa vai sempre acompanhada por um grupo, às vezes numeroso, de entidades astrais: espíritos aliados ou obsesores ligados à sua energia, que podem parecer anjos ou demonios, segundo a qualidade desta.

Além disso, eu percebi claramente como cada um de nós somos uma , mais ou menos conjuntada, de diversas entidades inconsciêntes, semiconsciêntes, consciêntes ou superconsciêntes, cada uma com seu karma ou memória determinante (já positiva ou negativa), e com seu próprio caráter, entidades que vivem ao mesmo tempo em todos os Planos de Manifestação do Ser. Acho que só estamos aparentemente individualizados no Físico e no Astral Baixo e talvez Médio (o que quer dizer que todas, ou a maioria das entidades que nos conforman, concordaram em desenhar uma imagem coletiva para as resumir e representar, a chamada personalidade).
De maneira análoga, o pensamento sustentado de todos os seres humanos sobre o mundo, é o que determina que o mundo -que não é senão nosso espaço mental próximo- tenha o caráter ou personalidade e até as leis físicas que atualmente tem (ou que aparenta ter para nós).

Os físicos quánticos, por outra parte, têm descoberto que o comportamento da energia universal é caótico, e que só se estrutura em um sistema de leis que conforma um mundo, no momento em que a nossa própria mente imagina um paradigma ou conjunto de circunstancias… que ordenam ao caos que nos envolve… em um cosmos.

Ademais, não cabe dúvida de que, aumentando a vibração, a Realidade modifica-se e a consciência se expande: No Plano Mental Superior já não contam nossas personalidades psicológicas celulares, senão só nosso Ser Planetario; e daí para acima, tão só nossas Entidades Cósmicas Maiores… até chegar ao Plano Espiritual propriamente dito, onde qualquer diferenciação, dualidade ou paradoxa aparente diluí-se em nosso Ser Divinal Unimúltiplo, que representa, através de milhões de formas imaginadas, todos os papéis vivos do Seu sonho criativo.


13- NOSSAS RELAÇÔES INVISÌVEIS
O que, de maneira mais sensível, vivenciamos todos os días, bem consciênte ou inconsciêntemente, são as relações entre o plano Astral e o Físico: Os INVISÍVEIS DO ASTRAL acompanham-nos e nos influencian a toda hora, dependendo isso que chamamos providência, sorte ou destino, em grande parte, de nosso grau de antipatía ou simpatia com eles.

...Tudo o qual foi registrado literariamente na mais antiga tradição cultural européia, quando os Deuses Olímpicos apoiam ou combatem, na Ilíada, aos heróis da Guerra de Troya, usando aos humanos como peões de xadrez físico em seu próprio combate astral entre eles… Isso, quando os Deuses não tecem combinações de “casualidades" ao redor de nós, que desencadeiam fatos imparáveis, e não fica outra que se aliar com as forças sentidas como positivas, ou que se defender das que se sentem negativas, para poder escolher minimamente nosso destino.

... E não vale desentender-se, já que as energias do Astral são as do nosso próprio emocional, já individual ou coletivo... Segundo como cuidemos, ou não, de manter harmónico ou desarmónico nosso ânimo e nossos humores, assim são as energias que atraemos a construir, quotidianamente, o mundo que nos rodeia e tudo quanto somos.

É próprio do trabalho espírita considerar, em certo nível, que aquilo que se manifesta no mundo físico como nossa identidade individual não é senão a ponta do iceberg que, no plano subconsciênte, conformam innúmeras entidades astrais, já innatas e pessoais ou já alheias e agregadas por afinidade -a legião de nossos egos, ou a parte mas afín a nós do Inconsciênte Coletivo do que falou Jung-, aos quais devemos chegar a reconhecer, permitindo que se expressem através nosso.

Ademais, por baixo que seja o nível de consciencia destas entidades relacionadas conosco, é dever ético de caridade fraterna os aceitar e os assumir como parte nossa, canalizar construtivamente as nossas influencias mútuas, adoctriná-los com paciência e com constancia (isso é o que significa “conhecer-se a si mesmo”) ... e dar- lhes oportunidade de ir aprendendo a utilizar de maneira positiva suas potências, transformando assim em aliados da nossa missão à nossos demônios ou aos espíritos vagabundos que têm conseguido se colar e se fundir em nós, ao ter sido atraídos às nossas energias mais baixas, por resonancia, simpatía e identificação... Assim, semelhante, em um degrau superior, debe ser o trabalho da Hierarquia da Fraternidade Branca com os seres humanos que pidem viver uma evolução consciente e trabalham por ela.

Um Mestre mexicano que tive posteriormente, chamava a essa legião de egos que nos conforma "NOSSAS RELAÇÕES", e dizia que todos estes espíritos interdimensionais -que, em realidade, não são senão as diferentes personagens que o Ser Supremo e Unico representa- estão unidos a nossa própria evolução e, segundo seu nível de consciência e de poder, nos podem ajudar ou precisam ser ajudados por nós.

Aqueles que têm verdadeira capacidade para nos ajudar (ainda que só o farão se nós o pedimos, é lei), são as entidades que, conformando nosso Eu, emitem uma qualidade de energia-consciência mais elevada que nosso ego habitual ou, até elevadísima, comparada com ele: Desde a de nosso Eu Cósmico, Seus altos Arcanjos e Regentes Planetarios, entre eles o do Planeta Terra, os grandes Avatares e Guias da Humanidade, os Mestres Ascensionados, os Santos e Santas... até os Anjos que incorporam nossas virtudes mais puras e aqueles outros, chamados Guardiães, que inspiram nosso mental abstrato e nossa base ética (a voz da consciência) ou, simplesmente, nos avisam de possíveis perigos...

Todos eles estão normalmente velando por nós, igual que cada pessoa cuida, ou devería cuidar, da limpeza, saúde e bem-estar dos sistemas, órgãos e células do seu corpo, da sua casa e do seu médio ambiente, pela conta que lhe traz, já que todo é parte do Tudo que somos.

E dependendo da amplitude de consciência de nosso cuidador, ele cuida -e faz-se responsável por isso ante A Vida- de parcelas mais ou menos amplas da Entidade Multidimensional que somos, já seja, por exemplo, a de nosso Ser Planetario, ou a de nosso Ser Humanidade ou ou a de nosso Ser Celular Individual... Eles são sempre permisivos e tolerantes connosco, ao tempo que firmes no rumo certo, sempre respeitando nosso livre albedrío para permitir-nos decidir e experimentar por nós mesmos, porque essa é a nossa única maneira de aprender...

Como conseqüência da Lei Universal do Amor, cada ser tem como mestres a outros seres que, sem necessidade de ter chegado a um tipo de consciência que poderíamos chamar divinal, se encontram, no entanto, em um nível ligeiramente superior ao de seus circustanciais discípulos. Um ser pode ser agora mestre e mais tarde discípulo daqueles a quem orientou, como ocorre com muitos filhos que, após ter sido protegidos e intruídos por seus pais se convertem, já de adultos, em guias e protetores destes.

Todos os Seres somos irmãos emanados, ao mesmo “tempo” eterno, da mesma Fonte Primordial; meus filhos receberam de mim ternos corpos jovens, mas seus espíritos são tão velhos como o meu; eu estou, apenas, representando o papel de seu Irmão Maior Iniciador nesta encarnação… em outra, os papéis poderiam se inverter. Assim um pai deve ser infinitamente atento e servicial com seus filhos, e respeitar, estimular com firmeza e facilitar ao máximo suas tendências positivas profundas e suas particulares vocações innatas, que são, sem dúvida, os trabalhos e missões que vieram realizar neste plano.

Como amorosos Irmãos Maiores nossos que são, os Seres Sutís tentam não interferir com as vontades dos Seres Ainda Densificados, ao menos que seja absolutamente necessário ou se o demandamos deles. Encarregam- se de manter ante nossas consciências a semente do Plano Cósmico para cada ciclo, a fim de que nós tendamos a colaborar com ele, ajustando-a à nossos particulares tipos de entendimento, segundo estejamos mais ou menos vibracionalmente expandidos.

Ainda que Eles sabem, com o maior entendimento e amor, que somos livres de seguir suas sugestões ou de não seguí-las, não se preocupam demassiado dos desastres que causamos com nossa liberdade... já que eles têm capacidade para corrigir qualquer entorto planetario, antes de que ele chegue a representar um perigo para as Entidades Superiores que conformam os altos níveis do Ser Maior. (Dizer Entidades, tanto dizer “Individualidade” é, com sufficiênte perspetiva, uma ilusão, porque nosso Eu Autêntico é cósmico e coletivo).
E nós teimamos em jogar com fogo e fazemos-nos dano... Eles deixam-nos chorar um pocadinho para melhor aprender. Dor? perigo de morte? O que podem significar essas palavras para uns Seres Divinos de Consciência Unificada que sabem que tudo é eterno e que, em um instante, propulsam qualquer energia mais baixa de freqüência que a deles, e a convertem em qualquer classe de forma corpórea, com só o desejar?

...Pelo mesmo, existem muitas partes elementares ou confusas em nosso Eu Total (muitas das "Relações" do que consideramos "nossa individualidade"). Estas unidades do Ser mais precisam de ser ajudadas por nós que elas nos ajudar, já que sua freqüência vibratoria é mais baixa que a humana... Ainda que, sem dúvida, quando as ajudamos a elevar seu nível e a viver em harmonia, sua harmonia ajuda-nos, já que estas entidades estão englobadas na nossa… porque também são inferiores à nossa suas consciências parciais ou suas inteligências, habilidades, autonomias ou forças.
Por tanto, é nossa responsabilidade cuidá-las, e cuidando-as, cuidamo-nos.

Estas "relações" nossas que precisam de nossa ajuda são, em primeiro lugar, os elementares que conformam nosso ego e que têm que ser aceites, por negativos que pareçam, polidos, corrigidos e mantidos limpos e bem disciplinados baixo as ordens do Intimo Divinal que habita em nossa alma. Se não começamos por nos ajudar a nós mesmos, nossa posterior ajuda a outros pode ser mais nefasta que eficaz. Porém, não é necessário esperar a ser um Buda para começar a prestar serviço, como dizem alguns para justificar seu materialismo espiritual, virado exclusivamente a um ilusório e farisaico crescimento interno, mais ilusorio quanto mais isolado da solidariedade ativa com o resto dos Seres

Depois disso, vem o desinteresado serviço de amor e atenção aos nossos familiares dependentes, especialmente às crianças e idosos.
Em terceiro lugar, a qualquer ser humano vivo que se encontrar em uma posição aparentemente mais débil ou menos livre que nós em qualquer sentido, sobretudo aqueles que nos vêm a pedir ajuda de forma direta... e também incluímos aqui aos espíritos humanos desencarnados que ainda não têm conseguido ascender a níveis elevados do astral, e que chegam (ou nem conseguem chegar) às mesas espíritas a pedir a caridade de um pouco de atenção compassiva e algumas orações para re-energetizarse...

Em quarto lugar, estão os seres pertencentes ao que chamamos os Três Reinos Inferiores, ou os Reinos Naturais; não estou falando dos animais, plantas ou minerales, que, para a maioria de nós são apenas coisas, já viventes ou inertes, senão dos espíritos de maior ou menor consciência que os animam. Tudo está vivo no Universo e tudo é a mesma Consciência em diferentes graus de manifestação e evolução. E tudo isso sou Eu Mesmo, dentro ou fora de meu corpo físico, pois meu corpo físico não é mais que um dos meus invólucros: há maiores, como aquele que chamamos A Biosfera...
14-OS ELEMENTARES

Tradicionalmente, deu-se em chamar "elementares" aos espíritos que animam aos seres que evoluem em três reinos naturais, e que ainda possuem uma consciência inferior à humana, um alma-grupo. A evolução dos elementares é assunto deles mesmos, como é assunto nosso a humana; no entanto, de todas "suas relações" é A Humanidade a que mais incide sobre eles, os manipula, os explora e até depende simbioticamente deles para sua própria sobrevivência elementar; asim que corresponde à Humanidade a responsabilidade direta de ajudar aos espíritos dos quatro elementos a manter sua harmonia, que é a do planeta tudo em que vivemos.

Esta responsabilidade é ainda maior quando se trata de seres com os que convivemos diretamente, como os elementares que animam a nossos animais domésticos, a nossas plantas domésticas -que chegam a se fazer claramente um conosco-, ou a todos os que vivem em nosso meio e baixo nosso domínio ou influência; e incluo aqui as comunidades de elementares ígneos, aéreos, acuáticos e minerais que evoluem no médio ambiente de nossos próprios corpos densos.

Ecología é a arte-ciência que cuida da saúde física de "nossas relações naturais". Magia é a arte-ciência que cuida da saúde emocional e mental de "nossas relações naturais"; e o principal trabalho do mago realiza-se com os elementares, sejam os que vivem dentro de seu corpo ou aqueles do seu meio"exterior", que a todo momento nos influenciam igualmente, já que se contém no clima, no ar que respiramos, na agua que bebemos, em todos os nossos alimentos (inclusive os alimentos emocionais e mentais), nas nossas construções e ferramentas, no solo e una paisagem geral que nos envolve.

O que é que fazemos quando preparamos Ayahuasca no Feitío e depois a ingerimos ritualmente?... pois uma série de operações mágicas, nas que, em primeiro lugar, extraímos elementares poderosos de um par de plantas naturais de polaridade complementar, os casamos alquimicamente, depois de impregná-los de nossa particular mentalidade individual e grupal, e depois os voltamos a casar (em uma cerimônia coletiva e sinérgica na que se gera uma gigantesca quantidade e qualidade de energia interdimensional), com elementares semelhantes a eles, que vivem nos nossos três corpos densos: físico, emoçãoal e intelectual, acrescentando a sua tónica energética habitual um volume maior ou menor de elementos calmantes ou estimulantes já sejam químicos ou psíquicos, segundo o Elementar Reitor de nosso hipotálamo (ou cérebro reptil instintivo e automático) considere ou não que nossa harmonia geral o precisar.

O Elementar Reitor do hipotálamo conforma-se com manter a harmonia geral básica, a que serve para manter ao corpo físico em bom estado e ao mental e ao emocional ajustados às rutinas habituais da personalidade, ou seja, do Ego Elementar que atualmente faz o papel de diretor de toda a legião de egos psicológicos elementares que conformam nossa psique, por embaixo do nível de consciência e de poder de aquele que consegue se manter como diretor de todos eles.

...Mas suponhamos que um dos egos dessa legião, que às vezes se arroga o título de Defensor do Cristo Interno", nosso eu de guerreiros (O Imperador, no Tarot), sempre exigente de uma maior intensidade vital, é mais ambiciosa... quer deixar de reptar sobre a terra e voar um momento!

Para isso, lança-se ao assalto do poder com um exército bem conjuntado e disciplinado de elementares de Jagube e de Rainha enardecidos por cánticos religiosos, embebeda e xoga de seu posto ao ego reitor desestrutrando seus esquemas e sua ordem com Ayahuasca, e reforça com seus soldados aos elementares estimulantes do cérebro, inundando-o de substâncias psicoactivadoras que o fazem passar de um ritmo de bicicleta a outro de avião supersônico.

Durante um certo tempo, essa hiper-aceleração do ritmo mental produz um caos vertiginoso, porém, se o ego guerreiro está bem treinado, acaba por dominar ao potro selvagem da mente caotizada, reorganiza a suas legiões de elementares e os canaliza para os Olimpos do Astral sobre o cauce harmónico e seguro dos hinos do Santo Daime. O ritual coletivo está tão bem afirmado em torno, que não há maneira de se perder; até os novatos, a pouco que prestem atenção e se entreguem minimamente ao ritmo grupal que se marca, acabarão encontrando os cauces por onde todas as energias que se desataram possam ser re-ordenadas e canalizadas para o alto.

Com o que se encontram todos esses elementares invasores lá acima? Pois encontram-se com outros elementares, semelhantes a eles -porque todo o Universo está construído com o mesmo material, Mente Cósmica- ...que povoam o Subconsciênte Coletivo, portando recipentes de energia mental.

Os invasores requisan e chequeam tudo, procesando-o rápidamente, graças a sua energia re-potenciada, e com todo o que encontram, que normalmente passaria desapercibido ao ego reitor da psique ou que, simplesmente, não lhe interessaria, fazem dois montes: em um colocam todo o lixo do Subconsciênte, em outro, quantas jóias resplandecêntes descobrem.

Primeiro eles mostram a sua consciência hipersensibilizada todo o lixo, até que você fica aterrorizado do sujo e negligente que andava por dentro. Você fica com noxo, vomita a sujieira e faz propósito de emenda; aí, lançando gritos de triunfo, o ego guerreiro manda virar ante tuas percepções a carroça onde se recolheu o botim de visões celestiales, sábias reflexões, jóias do espírito, obras de arte mentais...

Então, todo o resto da sessão torna-se (a não ser que o sujeito ainda tenha resistencias), puro desfrute do adquirido, placentera psiconáutica planejando segura sobre os firmes cauces do ritual. Quando a sessão termina, os guerreiros seguem desfrutando, ainda mais livremente se cabe, ainda que não de uma forma tão entusiasta, do território subconsciênte conquistado… até que, aos poucos, suas energias repotenciadas vão-se esgotando e acabam dormindo sobre suas armas e louros, circunstância que aproveita algum dos egos psicológicos que sobreviveu ao combate (por simpatizante dos invasores), para se fazer com a retoría da psique …e a vai levando gradualmente para sua própria versão do que deveria ser seu equilíbrio ideal;
Porém, tarde ou cedo, o equilibrio conquistado volta a se converter em um equilíbrio rotinario, ainda que, sobre ele, continua flutuando gloriosamente a lembrança das altas sensações obtidas durante o último assalto ao Astral... E tudo isto, naturalmente, é pura metáfora, ou parábola, ou exercício literário; quem vive-o, sabe como o vive, e a vivência da Vida, com maiúscula, é personalíssima, absolutamente subjetiva, indescriptível e intransferível.

Todo o anterior é uma tentativa de ilustrar como, verdadeiramente, nosso trabalho principal de seres humanos da superficie da Terra, o trabalho de Adão e seus filhos, é lidar com os elementares naturais (alguns deles tremendamente teimosos e resistentes como demonios) que, dentro e fora de nós, conformam nosso mundo físico, o de nosso corpo físico e o do mundo natural que continuamente transformamos, ao igual que nossos corpos emoçional e mental.

Lidando com os elementares, os grandes mães e pais criam e mantem um lar cheio de amor e uma família harmónica e sã; os grandes agricultores e jardineiros onstroem com eles cem parques espléndidos, exuberantes de abundância e variedade; os grandes engenheiros converten-os em impressionantes construções materiais; os grandes artistas em maravilhosas construções sensíveis; os grandes sábios em inteligentes construções mentais.... E não há oficio tão modesto que não se possa chegar nele à excelência, transmutando através seu aos mais densos elementares em refinadas, complexas e sutís realizações, tão carregadas de genialidade como de virtudes espirituais; integrando-os, com isso, de algum modo (se eles proceredem de outros reinos), na própria evolução consciênte da Humanidade ...O que se chama santos, é gente que a base de um amor e consciência infinitos, conseguem transmutar a seus elementares internos mais elevados em grupos de altas virtudes humanas em harmonia, que, em planos superiores, poderiam se parecer a bem afinados coros de anjos.

Os iluminados que no mundo têm vivido –porém, todos acabaremos chegando ali- conseguiram, a base de converter-se em pura harmonia viva, vencer qualquer resistência elementar em si mesmos e transformar quuanto nos elememntares ainda era densidade material ou tendências para a terra, em pura energia ascensional, primeiro, e em puro espaço espiritual depois, espaço no que todos os seres existentes são abraçados pela mais amorosa identificação e integração, e no que, portanto, o Todo e suas partes fundem-se em extática unidade.

Como antes dizíamos, além do mundo dos elementares, os seres humanos somos responsáveis, e temos que levar até o máximum de perfecção e luminosidade, o mismísimo mundo dos espíritos humanos, começando pela própria pessoa, por dentro e por fora, a própria família e a própria comunidade. Construir o Paraíso na Terra é nosso jogo de crianças divinas, aquele que nos treina para construir o Paraíso no próprio espírito, que é obra já de adulto, obra que não se erosiona tão facilmente como as construções materiais.
15- ENCARNADOS, DESENCARNADOS E REENCARNADOS

Quando falamos de espíritos humanos, não nos referimos só aos que caminham por este plano animando um corpo de carne, senão também àqueles que o perderam e ainda estão vagando pelo Baixo Astral, totalmente desorientados e acossados pelas monstruosas formas pensamento que nós mesmos temos criado, e que nessa dimensão do Subconsciênte Coletivo do Ser Humanidade se contêm. Eles estão, ademais, cheios de angústia porque os tais monstros os acossam e sugam-lhes toda sua energía. É um tormento desesperado, para eles, ir-se arrastando de nenhuma parte a nenhuma parte, nesse inferno escuro.

O Espiritismo é uma prática espiritual fundamentada na caridade ativa -muito denigrada por aqueles espiritualistas "finos", tão pagos de si mesmos que unicamente querem tratar com entidades de alta hierarquia consciênte, de Arcanjos e Mestros Ascensionados para acima-. O Espiritismo ocupa-se, fundamentalmente, como fez Jesús, do atendimiento às necessidades espirituais básicas e urgentes da gente humilde e do resgate dos espíritos humanos, degradados e sofredores, que penan no Baixo Astral. Todo o que precisa o mundo é Amor, accesível a todos, e não tanto Metafísica de Elite, para maior engorde do ego de uns poucos iniciados.

Nas Mesas Espíritas -e não há cidadezinha no Brasil tão pequena que não tenha uma-, os sofredores são autorizados a se incorporar ou, melhor, manifestar, através dos corpos dos médiums. É assim que podem se comunicar com os encarnados e ser atendidos. O que a maioria deles mais precisam é um desafogo emocional, um pedir perdão por algo que não perdoaram ou lhes foi perdoado em vida e umas orações que lhes dêem um pouco de energia espiritual luminosa. Após disso, os espíritos aliados da própria mesa -geralmente antigos sofredores, que se tornaram colaboradores, e que com isso se elevam e libertam-, os encaminham para regiões mais elevadas do Astral onde poder receber ajuda, proteção, e doutrinamento para continuarem aumentando suas energias de amor, com o que sua freqüência vibratória acabará expandindo-se e se desprendendo por fim dos escuros planos densos, para acessar a novos ciclos de evolução astral, porque o Jogo da Evolução não se circunscrive tão só à dimensão física, senão, eternamente, a todas as dimensões e personagens asumidos pelo Ser Manifestado...

Mas o que fazer com os espíritos sofredores demasiado rebeldes, embrutecidos pela absoluta carência de luz, resentidos, diabolizados, aqueles aos que a mesa espírita é incapaz de corrigir?... Pois não há mais remédio que os expulsar em Nome do Supremo Espírito, rogando-Lhe que eles encontrarem uma consciência gigante capaz dos redimir... Gigante como a do Padrinho Sebastião, de quem dizem que tomou sobre sim ao Satá que resumia toda a rebeldia, insolidaridade, competitividade e maledicência de seu povo… e que o foi transmutando pouco a pouco, até onde pôde, ainda que isso custou-lhe toda uma vida de tremendas dores interiores e exteriores, que ele oferecia à Vida Maior para a salvação dos mais descarriados.

Talvez seja essa a esperada segunda vinda de Cristo (simbolizada pelo segundo braço horizontal da Cruz do Daime), a da ação abnegada e o amor compassivo e redentor dessess Homens e Mulheres para valer que se realizam no serviço à elevação coletiva da Humanidade, sem reparar em sacrifícios pessoais.

O Santo Daime é uma doutrina que se enquadra, de uma maneira muito peculiar, dentro do amplo e variado leque do Espiritismo Brasileiro, e o Espiritismo considera que Reencarnação e a Lei do Karma são fatos sobrada e experiencialmente comprovados ao longo de sua contínua comunicação com milheiros de entidades do Astral. O próprio Eu Superior de cada espírito, depois de valorizar o balanço de ações individuais da sua encarnação anterior, determina, segundo a LEI DO AMOR, se a sua manifestação seguinte sobre este Plano, terá caráter de reencarnação evolutiva, disciplinaria ou sacrificial.

Uma Reencarnação EVOLUTIVA é a daqueles que voltaram para continuar a aprendizagem ascendente da alma no novo marco de algumas das infinitas potencialidades que nosso Ser Essencial deseja ainda experimentar. Algo assim como seguir os estudos em um curso superior e em um nível mais alto de consciência...
Os espíritos muito evoluídos que, depois de ter passado por um verdadeiro renascimento em vida, estão já quase a ponto de sentir integralmente a Dignidade Espiritual de Auto-identificação com a Divinidade, se encontram no que se chama uma Encarnação de Síntese, talvez a última nesta Terceira Dimensão, a qual vivem profunda e aceleradamente, tratando de se limpar de suas ùltimos karmas negativos, perdoando todo o perdonável, amando todo quanto se pode amar e, sobretudo, gerando toneladas de vibração positiva em serviço absolutamente desapegado à Humanidade.

Uma Reencarnação DISCIPLINARIA OU PROVATÓRIA vem a ser, continuando a comparação, como repetir o curso que se suspendeu em condições diferentes, mas com as mesmas aprendizagens, até que assimila-las e superá-las. Este espírito terá que passar pelas mesmas circunstâncias nas que estavam os seres que anteriormente menosprezou, por ver se assim é capaz dos compreender. Terá ocasião de conviver familiarmente com aqueles que foram seus piores inimigos, para que tenha oportunidade de chegar aos amar, e voltará a se enfrentar com todos seus antigos bloqueios, temores, ódios, insuficiências, para ter oportunidade de transmutá-los e os vencer ...Todo isto pode implicar um verdadeiro sofrimento, mas o que é o sofrimento para um Espírito Eterno que tem passado por infinitas mortes e nascimentos? ...pois apenas algo como colocar uma prótesis corretora a uns dentes que se negam a crescer direitos.

Uma reencarnação SACRIFICIAL, no entanto, é a própria daqueles espíritos altamente evoluídos, bem unificados com a Consciência Cósmica, Mestres ascensionados de diversos graus, aqueles que já não retornam aquí por ter necessidade de seguir aprendendo nesta Escola Humana do amor e do perdão, senão porque se auto- convocaram como Mestres Ayudadores. Eles poderiam ter passado a outro Plano, absolutamente livres das limitações do Terrestre, mas seu Amor aprendido chegou ao nível sublime de entendimento e unificação dos membros da Irmandade Branca: Elevados espíritos que sabem que a evolução é eterna em todos os planos e dimensões, e que, a condição para seguir ascendendo é o servicio cósmico, isto é, contribuir voluntariamente à redenção e libertação daquelas partes de si -seus irmãos e irmãs- que ainda gemem na inconsciência e na treva.
Desse serviço saen os Regentes Planetários, ou “Logoi”, e os grandes avatares e guias da Humanidade: os Cristos, os Budas, os Santos e muitíssimos outros Mestres menos famosos ou completamente desconhecidos, com alguns dos quais nos cruzamos, talvez diariamente, sem nos surpreender por sua Luz…por causa de que nossos olhos estão ainda demasiado cegos.

Da mesma maneira, no trabalho espírita, há três classes de apresentação (identificáveis pelas Grafías Sagradas ou Escrita de de Pemba) das Entidades do Astral, sem corpo físico, que vêm se comunicar com os encarnados para aconselhar, curar, ou, simplesmente, dar depoimento de que a vida é eterna e multidimensional e de que existe uma Lei do Amor que lhe dá sentido: Entidades de corpo astral autêntico, reajustado ou sacrificial.

Uma das missões principais do Espiritismo Brasileiro é conseguir a reconciliação e harmonização dos espíritos das raças que se relaçãoaram traumaticamente sobre o espaço histórico do Novo Mundo, para facilitar a oportunidade d que, desde o Astral, mas actuando sobre o Físico, eles acabem de se perdoar e fiquem compensadas as dívidas kármicas contraídas pelos membros de cada raça (com a colaboração estreita dos guias angélicos de cada uma, de seus Mestres Ascensionados e dos seus espíritos do Astral mais evoluídos, ou inclusive daqueles que não o são tanto, mas que cooperam por compensar os erros cometidos em suas vidas anteriores, a fim de poder ascender no seu tipo de evolução, o que continua no Plano Astral).
Assim temos que:

A ENTIDADE DE CORPO ASTRAL AUTÉNTICO é aquela que se apresenta com os mesmos aspetos raciais nos que viveu sua última rencarnação, dentro de um corpo e de uma cultura amerindia, negra ou branca, continuando seu jogo evolutivo nesse particular invólucro.

A ENTIDADE DE CORPO ASTRAL REAJUSTADO é aquela que se apresenta com um corpo astral que não corresponde a sua última encarnación, senão que, por encontrar-se passando por uma evolução disciplinária no Plano Astral, está revestida nela das mesmas vibrações caraterísticas daquela raça que anteriormente menosprezou ou da que abusou; por exemplo, um antigo conquistador renasce agora no séio de uma família indígena humilde, submetida e explorada... Pelo mesmo, é fácil que a alma de um espírito terrivelmente machista, que infravalorizou ou maltratou às mulheres, escolhesse agora representar uma personagem feminina, ou... até feminoide, já que seu corpo físico pode não ter o mesmo sexo que seu corpo astral... a fim de que compreenda desde dentro, em carne e sentimento próprios, aquilo que não foi capaz, anteriormente, de compreender desde fora em outros. Lei do Amor: Somos unidades de consciência do Ser e não podemos nos negar a perceber e tomar respetuosa consciência de cada uma das demais unidades que o compõem …e as amar. Se nos negamos, convertemos-nos no negado, até conhecê-lo e amá-lo. Só através de nosso sincero amor entre nós pode o Ser se amar a Si Mesmo.

A ENTIDADE DE CORPO ASTRAL SACRIFICIAL é, geralmente, um espírito tão elevado que pode ser que faz milênios que deixasse de reencarnar, ou que não pertencesse a nenhuma das raças em conflito, e até é possível que nem a este planeta, ou que seja um espírito tão puro que nem corpo astral tivesse... No entanto, como para se manifestar na dimensão física e para comunicar-se com os homens precisa de um corpo denso, seja físico ou astral, o adota ou o constrói com o poder criadorde sua mente, minimizando e ajustando suas poderosas vibrações, para poder desempenhar a missão que lhe traz a este Plano Tridimensional.

Em todos estes trabalhos, o Daime (a Ayahuasca), serve como estimulante psíquico ou ponte esclarecedora e conscienciadora, para os participantes atravesar o veu que separa o universo da percepção física e o da percepção astral.
A Dimensão Astral é a mais próxima à Física, praticamente paralela, e vivemos nela muitar horas da nossa noite, entanto que o corpo físico durme. Dependendo de onde tenhamos habitualmente focalizada nossa atençao, vamos nesse momento a distintas regiôes do Astral. Quem está focalizado no denso, perde sua noite ruminhando as suas próprias formas-pensamento vulgares (e as semelhantes que atraem de outros espíritos), no Astral Baixo.
As pessoas ligadas durante o día com os Seres Divinos por meio da oração, mantralização e meditação consciente, são levadas pelos seus guías ao Astral Médio ou Alto, segundo seu grau de consciencia, onde recebem cura, reajuste vibracional, instrução evolutiva e conselhos dos que se lembrarán ao despertar, ou que aparecerão depois como intuições.


Em algum lugar perdido no meio do Labirinto Verde, navegando o afluênte do Amazonas chamado Purús, desde Boca de Acre em direção a Pauini, se chega ao igarapé selvagem que conduz a Mapiá... clique para ampliar.

Já não tenho lembrança se quem presidia a mesa durante minha primeira iniciação ao Daime, na Colônia Cinco Mil de Rio branco, era o Padrinho Mario ou o Padrinho Wilson; em qualquer caso, a pessoa que mais me impactou então, e a quem considero o meu iniciador, fué seu ajudante, Chico Correntes, todo um chamán, e agora um Padrinho, ainda que ele seguramente se sorprendaría daquela, por ser chamado assim. A primeira ou segunda vez que, junto a ele, experimentei a elevação acelerada de minha vibração energética, produzida por aquela Poção Mágica, me senti como deve se sentir uma serpente, quando sai angustiosamente de sua velha mas conhecida pele, reventando-a com a terna e hipersensível pele nova… e percebi claramente como o universo é mental e como nós não vivemos normalmente "sendo" a Vida, como dizia Carlos Pacini, senão vegetando em um esquema intelectual muito rutinario, inconsciênte e convencioal da vida que, de prolongar-se por muitos anos, acaba fosilizando e degenerando nosso cérebro e cortando qualquer acesso à intuição e à conscienciação.

Ainda mudando o esquema, porém, prosseguindo dentro desses padrões rotineiros dos humanos comúns, só focalizados nos corpos inferiores, a vida parece mudar, mas não é senão outro tipo de ilusão, outra interpretação mental do paradigma de realidade quadriculada fixado pelo sistema, outro símbolo convencional. Só quando conseguimos desprender nossa atenção (que é o ponto focal da Consciência que somos) das miragens e dos esquemas prefabricados com que substituímos a experiência presente, alerta, intensa e sempre nova da Vida de cada momento, é que conseguimos ser um com ela, ser ela,
auto-izarnos à vivência integral da Realidade e vivé-la aquí e agora, por fim, como homens e mulheres Real-izados, como aprendizes de deuses, ou melhor, como filhos de Deus, aquilo que em verdade somos quando Somos...

Claro que isso está destinado ás pessoas capazes de asumir o trabalho constante de remover aquilo que impede a manifestação de sua pura autenticidade interna, ajudados pelos Seres Divinos da Hierarquía, que sempre estão atentos a regar o pouco de trigo que se destaca da maioría de jóio.
Essa maioria se limita, durante longas etapas de sua vida, ou múltiplas reencarnações, a substituir um esquema de vida humana común por outro igual de comúm, e este por outro e por outro semelhante, como ilustra o mito grego de Sísifo, condenado a carregar eternamente uma pesadíssima pedra montanha acima, a qual, ao chegar por fim ao cume, indefectivelmente volta a rodar para abaixo.


16- A ALQUIMIA DO FEITÍO

Outra muito especial ocasião em que se tomava Daime fora do Templo ou da Casa de Cura, era durante o "Feitío", ou trabalho de preparação da bebida sagrada, processo enormemente complexo que, em Mapiá, começava pela exploração de grandes áreas da esponxosa selva virgen circundante, penetrando-a em canoa por seus inumeráveis rios ou igarapés.
Homens e mulheres partiam em grupos separados e longas singladuras, em busca da liana Jagube estes e do arbusto Rainha aquelas. Ainda que já se tinham começado a cultivar em abundancia no próprio Mapiá, as plantações eram demasiado jovens ou insuficiêntes daquela, pelo que ambos grupos passavam, às vezes, até uma semana escudrinhando a espessa floresta. Tentávamos as trochas com paus ou fações, fazendo barulho ante a gente ao avançar, para afugentar às cobras, e ouvíamos de noite os rugidos do jaguar, umas vezes risonhos e doces como os miados de um gato, outros roucos, ressoando sinistros nas sombras que se estendiam além do resplendor de nossa fogueira.

Em Colômbia, no 83, recem chegado à América Tropical, eu tinha perguntado a um velho matuto o que se podia fazer se um se encontrava de frente com um jaguar em plena selva.

- Pois para isso...-respondeu-me seriamente depois de sorver seu café tinto- ...para isso há uma oração, mi hermano.

- Uma oração porque seguro que vai-me comer?- perguntei chocado.

- Não compadre, não vai te comer se rezas bem, -sorriu o velho com malícia- O tigre não é tonto, compadre, e se vê que, em lugar de correr dele, te lhe plantas fitando-o firme aos olhos enquanto rezas, cuidará de se afastar rápido de um inimigo tão seguro de si mesmo...

Porém, as feras mais perigosas da alta floresta eram as pequeninhas ou quase invisíveis: mosquitos que podiam contagiar a malária, ou que enferrohavam sua posta de ovos em tua pele, sob a qual incubariam-se suas larvas, "bichos de pé" corrosivos; moscas que transmitiam elefantiasis ou lesmaniosis, e sange-sugas. Falava-se muito, ainda que eu jamais o ví, nem a ele nem a suas obras, do vampiro de selva, que injectava de noite uma substância anestésica, para você seguir dormindo enquanto ele o desangava.

Também se contavam mil histórias terroríficas sobre a Gibóia, uma cobra de água gigante que já engoliu, diziam, a muitos canoeiros infortunados. Em Anhangás mostraram-me a umas crianças que tinham perdido dessa maneira a sua mãe ante seus olhos, quando já quase chegava à margen sua canoa. Ali mesmo, veio uma manhã um vizinho a exibir a farpa, grande como minha mão e muitíssimo mas poderosa, de uma onça que lhe roubava as galinhas, à qual tinha espreitado e caçado de um par de certeiros tiros, aquela noite.


Para localizar as Plantas de Poder no meio da maranha, tão densa que com freqüência era necessário a penetrar recortando nela picadas, quase funís, à fação, os guerreiros veteranos ingeriam Daime, entravam em trance e deixavam à intuição lhes guiar. Fué bem assim como encontramos um "reinado", ou grupo de grossos Jagubes, enfrente dos quais tínhamos passado antes várias vezes sem os perceber, tão fundidos estavam com o exuberante méio. Diferenciavam-se de outros cipós por uma mota de folhas com nerviações douradas que lhes crescia no lombo e porque, uma vez cortados a rente do solo, mostravam algo semelhante a um sol no corte, formado pela união dos seis tubos, mais um no centro, que compunham por dentro o talho. Após separada de suas bases a machado, todo o grupo pendurou da liana e começamos a puxar ritmicamente para abaixo, com todas nossas forças.

Após muito puxar, desenredado da copa da enorme árvore e das dos seus vizinhos, pelos quais tinha-se estendido, ascendendo durante anos, o Jagube, quase tão grosso e duro como um cabo de alta tensão e enrolado em espiral como o de um telefone, desabou acima da gente com toda a vida vegetal e animal que residia no gigante desde muitíssimas gerações: Durante uma meia hora -não estou exagerando- enquanto desenmaranhavamos os cipós e os cortavamos em fazes fatíveis de serem transportados a ombros através do mato até a distante canoa, foi impossível distinguir individualmente à cada um dos nossos comanheiros; já que os milhões de inocentes insetos de todo tipo que tínhamos desalojado de uma maneira apocalíptica, como quem destrói em um momento uma megápolis por explpsão nuclear, tampavam por completo nossas figuras, uns nos cobrindo e outros revoando em torno, formando uma ingente nuvem de doentes refugiados, talvez se perguntando ainda que classe de monstros seríamos, por que culpas estavam sendo castigados, e que razões de justiça cósmica teríamos para ter massacrado seu mundo, tão brutalmente.


Na Casa do Feitío, geralmente afastada e rodeada de floresta, os homens seguíamos depois, no meio de um respeitoso silêncio, atento e profundo, com o trozeamento a fação das lianas, a seleção, a limpeza extrema dos pedaços a base do raspado de musgos e pó das cortiças, alternado com a confeição, se não existía, de um enorme forno de barro com três ou quatro bocas de fogo; e com o derrube, transporte a ombros e trozeamento de muitas pesadas árvores para obter lenha para o forno... e, finalmente, a ritual “bateção” grupal, durante muitos dias e noites, dos trozos de duríssimo Jagube a mazazos contundentes e certeiros, bem sincronizadamente rítmicos, para criar uma vibração de energia coletiva (sinergía) que somava forças suplementares -o comprovei bem- às das forças conjuntas de cada indivíduo, aliviando bastante o peso das mazas, até que o grosso e compacto cipó era reduzido a finos fazes de fibras que já se podiam cozinhar.

Bateção: Poucas provas de poder mais intensas que aquela para um guerreiro espiritual; esmagando lentamente, durante horas intermináveis, aqueles troncos rígidos, como se fossem as partes mais duras e resistentes de nosso ego, que há de se emolecer no Bom Combate, molhando-as com nosso suor, envolvendo-lhas com a miração, as descobertas intuitivas e as esclarecedoras lições da Vida Interior, impregnando-as de orações, cánticos, sentido da honra, hombría visceral, compenetração com o grupo, perfeita atenção, constância viril... quando alguém não podia mais e levantava para se retirar, magicamente aparecia outro voluntário recém chegado para cobrir seu posto.

Acompanhava-se o trabalho de hinos, que qualquer um começava a entoar com voz trémula pelo esforço em qualquer momento, aos que somavam um homem mais, ou dois, e às vezes todos, hinos com os que se chamava ao ânimo aos guerreiros, para superar seu cansaço físico e mental e conseguir a façanha de resistir batendo até o amanhecer, o qual era saudado por um último cántico triunfal:

"Bendita a estrela que nos guia
É tão bonito o amanhecer do dia..."

E toda aquela tenaz dedicação concentrada e a perfeição no trabalho convertía-se propositadamente em uma oferenda de intenções positivas à Vida com a quual compensar as projeições de negatividade inconsciênte que a parte mas sombria de cada um de nós e da Humanidade individual ou coletiva emitiam automaticamente, sujando o astral do Planeta.

Jamais conheci outro povo de gigantes como aqueles... se tivesse que se cobrar em seu justo preço o imenso esforço e perfeita concentração da mão de obra empregada, cada litro daquela elaborado beberragem teria que custar bem mais caro que o do mais prestigioso dos cognacs artesanais europeus. Porém, naquele tempo, o Padrinho não permitia que ninguém pagasse nem recebesse dinheiro algum por tomar Daime; como muito, cobrava-se o envase e transporte, de ser enviado longe, e também aceitavam-se doações e ajudas
voluntárias à Comunidade, como hoje se segue fazendo, além das contribuições dos fardados estrangeiros, unidos por seu compromisso inicial; mas o Santo Daime não era objeto de comércio, nem sua comunhão estava reservada a quem pudesse pagar dinheiro por ela...
…De fato, nem usava-se ainda o dinheiro em Mapiá, só o troco de serviços. As famílias dos pioneiros que o tinham acompanhado desde sempre não duvidavam em chamar á porta do Padrinho ou seus filhos quando tinham qualquer necessidade. Por tanto, todo aquele imenso trabalho livremente entregue por eles, em todo momento disponíveis, era uma desinteressada oferenda de amor do Povo de Juramidám ao serviço da cura de qualquer irmão que chegar até lá em procura de ajuda, tanto como o principal estímulo a seu próprio desenvolvimento espiritual e harmonização comunitária.

Durante o Feitío, quem nele estavam -todos voluntários e sentindo seu voluntariado como uma alta honra- abstinham-se, no possível, de atender outros trabalhos da comunidade, que se consideravam secundários; não devíamos manter relações sexuais, como fazíam os chamâes indígenas, para permanecer em posse e manter elevadas todas nossas energias; e alimentavamo-nos exclusivamente de mandioca puríssima, apenas cozinhada em agua, sem sal.

Fazia-se o "chamado", ou invocação ao Espírito da Selva, que anima no Astral ao elementar da planta e lhe dá seu poder, e ingeria-se um copinho de Ayahuasca, ao menos cada duas horas, para manter forte o corpo - algumas das operações do Feitío requeriam grande e constante despregue de força muscular- e a mente bem concentrada no respeito aos materiais e a sacralidade do trabalho, comunicando-nos telepaticamente ou com leves gestos mais que com palavras, que mal erão pronunciadas em um susurro, e tão só se eram necessárias para a coordenação do trabalho.

Sem que ninguém, senão nosso interior, no-lo tivesse dito, acabavamos sabendo muito bem que a harmonia ou desarmonía interna de cada um e de todos impregnaría a mistura como se fosse uma esponxa -todas as coisas são recipentes ou invólucros de energia mental-, e que provocariam elevadas ascensões ao céu ou vertiginosas quedas aos infernos subconsciêntes durante as sessões de ingestião posteriores. Assim faziamo-nos intuitivamente consciêntes de nossa grande responsabilidade.

Os guerreiros mais experientes, rodeados de espessa fumaça branca que saía das panelas metálicas -tão grandes que para as transportar tinhamos que cruzar um pau entre suas asas para poder leva-las ao fogão entre dois homens-, remexiam constantemente a mistura para evitar que as folhas queimassem; entretanto, não deixavam de inhalar o aroma carregado de essência de Ayahuasca que saía direto das perolas baixo eles, e notava -se muito bem na expressão de seus rostos como suas mentes voavam naqueles limpos fluídos, que se espalhavam amplamente pela selva, tal como bafaradas de incienso oferecido à Rainha da Floresta e aos seus caboclos astrais.

Outros veteranos -eu vi um dia ao próprio Padrinho Sebastião o fazendo- colhiam o Daime já filtrado numa totuma (um vaso feito com a metade de uma casca dura de um grande fruto da selva), e escanciava-no repetidamente, alçando-o e o vertendo em jorro sobre a panela, para que a Bebida de Poder arejar-se e oxigenar-se antes de ser engarrafada em grandes garrafas de vidro verde, esféricas e de pescoço longo, como as provetas dos alquimistas medievais que vêem-se nos pórticos románicos da velha Europa. Todas estas manipulações do líquido resultante da cozinhada realizavan-se com a alta atenção, solene calma, delicadeça e respeito com que se estaria servindo a um Ser Divino.

Havia momentos, no silêncio majestoso e vivo da Casa do Feitío, em que eu notava claramente a superposição do Mundo Astral sobre o Físico, o que fazia a cada objeto vibrar como a câmera lenta ante a minha sentida percepção, em uma dimensionalidade bem diferente da habitual... ou, seguramente, era minha consciência quem estava observando tudo desde outra dimensão.... Aquele recinto era um Laboratório Mágico que trazia-me relembranças de outras vidas ...ou entrevidas? nas que me via participando em trabalhos semelhantes.

Já que aquilo não era uma simples química ou cozinha, senão uma alquimia vibracional; e a boa vibração meditativa e a compenetração camarada do grupo elaborador era tão importante como a perfeição do sem fim de cuidadosas operações que realizavamos.

...Quem menospreza o Chamanismo por considerá-lo uma forma de espiritualidade própria de povos primitivos, centrada predominantemente no poder operativo sobre os elementos naturais, é porque geralmente não o conhece senão através de seus próprios preconceitos culturais, ou raciais, ou de classe cultural ...ou, pior ainda, dos preconceitos alheios.

Por outra parte, a civilização moderna tem penetrado de tal maneira nos lugares mais remotos com o poder de suas comunicações, que hoje em dia não deve existir já um chamanismo predominantemente operativo mais que nas muito escassas tribos amazônicas que ainda não têm sido contatadas. E quase todos os chamães atuais são tão eclécticos como a nossa Era, juntando a seu saber tradicional algo de gnosticismo e esoterismo ocidental mais conceitos de espiritualidade oriental, que concordam perfeitamente com as visões obtidas pelos canalizadores chamánicos nos seus trances. De jeito que, ao poder da operatividade têm juntado o de um verdadeiro intelecto científico (aplicado à tentativa de explicação do seu manejo das energias sutís) e o poder muito forte do coração intuitivo, complementado com uma maneira de entender tão entranhavelmente a Mesagem de Cristo, que para si a quisessem ter muitos dos que se dizem cristãos.

Além disso, igual que dão-se num mesmo contexto cultural religioso pessoas como Saõ Francisco ou Saõ Juan de la Cruz (ou seja verdadeiros mestres de espiritualidade direta) e, ao mesmo tempo, uma multidão de clero de igreja fosilizado e inconsciênte, crentes frios e não praticantes, e até cruzados e inquisidores… assim mesmo encontram-se, no Chamanismo, feiticeiros, magos negros, picaretas e farsantes aos montes, junto a Mestres de Vida e Realização, com um brilho de amor-sabedoria tão evidente, sob sua singela aparência, como o que se desprende de qualquer verdadeiro santo ocidental ou iluminado oriental. Claro que, para perceber essa evidência, ha-se de ter olhos que vejam e sensibilidade espiritual suficiêntemente evoluída como para vibrar com aquilo que é vibrante. Quem alguma vez conheceu uma esmeralda, já não o deslumbram mais as bijuterías de fábrica.


... Durante as muitas operações da preparação do Daime, igual que durante as cerimônias, mantinha-se uma estrita separação de sexos, para aumentar a vibração de cada indivíduo da equipe com a vibração coletiva do seu género, a fim de conjugar depois alquímicamente, da maneira mais intensificada possível, as puras energias sinérgicas de cada polaridade.

As mulheres encarregavam-se, no Templo, da suave e carinhosa seleção e limpeza, folha por folha, entre cánticos, do elemento feminino da mistura, as folhas de Rainha; e não podiam nem sequer chegar perto da Casa do Feitío, onde os homens esmagavam o cipó até reduzi-lo a fíos fibrosos que se cozinhavam nos enormes caldeirões metálicos, alternando-os em camadas com as folhas, que iam sendo trazidas por um homem, segundo as guerreiras as iam deixando no ponto. A mulher que achava-se menstruando não podia participar nos trabalhos, ainda que sim ingerir a poção no himnário, porque se supunha -talvez por influência dos índios- que os fluídos etéricos de vida elementar que ela estava eliminando com o sangue atraíam a muitas entidades de baixa vibração que sugavam avidamente o ectoplasma ou fluído etérico daquelas energias para recarregar-se, de modo que era preciso mante-las afastadas do Daime. Tampouco uma mulher menstruada podia manipular ou transportar garrafas da Poção Mágica.

Aquela explicação de tal tabú não acabou-me de convencer, parecia demasiado simplista... posteriormente, aprofundando nos mitos indígenas amazônicos, encontrei que há abundante constância neles de que em tempos anteriores ao patriarcado, todo o conhecimento e prática da magia era domínio exclusivo da mulher e estava unido a sua capacidade gestativa e procreadora. Sem dúvida, o conceito mais arcaico de Deus (em todas partes do mundo) era feminino: a Grande Mãe Criadora.

Se, no momento da ovulação, toda a potente e misteriosa energia da mulher concentra-se na construção da Vida, no momento da menstruación, pelo contrário, a mesma energia se torna destrutiva, voltada a eliminar os elementos vitais que não chegaram a fertilizar-se.

Os indianos representam este aspecto destruidor da Deusa sob o temível arquétipo de Kali, a cortadora de cabeças, ou Energia de Transformação Universal, que desfaz sem piedade dissolve as formas caducas que já não servem às suas funções. Para os gregos Hécate era a feroz deusa encarregada de disgregar dos cauces da Vida e barrer, tudo quanto pudesse bloquear ou estorvar o seu eterno fluir.

Como, ademais, o ciclo eliminador ou menstrual costuma se acompanhar de moléstias fisiológicas que produzem certa irritação no humor feminino, não é de estranhar que, durante seu período, a mulher fosse contemplada, nas tribos ancestrais, como a alguém potencialmente perigoso para a harmonia da comunidade, já que o incremento involutivo de seus poderes sexuais passava por uma fase aparentemente negativa, que podia alterar ou viciar as qualidades mágicas de preparados que, como as bebidas de poder, são o resultado de uma alquimia emocional ou astral-mental conjuntada de ambos sexos, e não só de uma simples química ou cozinha.

Por conseguinte, a maioria das lendas amazônicas contam, baixo diversas versões e nomes que, um dia, um herói solar baixou do céu e lutou contra a chefa das sacerdotisas lunares, que tinham acabado por converter a magia, unida ao poder fascinador do seu sexo, em instrumentos de dominação psicológica das tribos, ou seja, em bruxaría, o que tinha submetidos a elas aos homens, como puros provedores e força servil de trabalho.

O herói solar venceu a Bruxa-Mor, a violou, e arrebatou para sempre às mulheres o conhecimento mágico, bem como os instrumentos musicais sagrados, que serviam para fazer as invocações aos espíritos aliados das chamãs, retirando-lhes também as plantas de poder que as ajudavam a entrar em trance e se comunicar com as dimensões invisíveis, de Nossa Realidade.

Instaurou-se, desde então, um patriarcado que tem mantido até hoje relegadas e submetidas às féminas das tribos, as quais têm que se manter afastadas da Oca Central do povoado, onde se guardam, baixo exclusiva vigilância dos homens, os Meios Mágicos. Em algumas comunidades indígenas, a mulher é inclusive mandada longe durante sua menstruação e não lhe hé permitido tocar nada para não o contaminar. O conhecimento mágico só é revelado aos varões por médio de iniciações secretas, e estes, muitas vezes, até chegam a aprender, durante elas, uma língua diferente da geral da tribo, que serve para falar das coisas importantes e transcendentaiss, e que jamais hé ensinada às mulheres nem ás crianças dependentes delas.

Hoje em dia, as tribos encontram-se sofrendo um processo de decadência e desintegração que parece irreversível, e grande parte dos tabús ancestrais parece que já não têm força para se impor, mas ainda muitas aldeias continuam celebrando a festa de Juruparí, o mencionado herói solar, na que as mulheres e as crianças devem se encerrar herméticamente nas chouças familiares, sob penas severíssimas, enquanto os varões apoderam-se da aldeia durante um dia inteiro ou dois, soprando as frautas mágicas e tomando ritualmente a amarga mistura cocida do cipó e das folhas do Poder.


As folhas do pequeno arbusto Chacrona ou Rainha (A Rainha da Floresta), bem mais fáceis e rápidas de cultivar que a liana Jagube, contêm um alcaloide ao que o primeiro pesquisador europeu desta planta, Richard Spruce, botánico inglês, chamou, em 1851, "Telepatina", porque abre nossos sentidos etéricos à percepção da Dimensão Astral, na qual o espírito individual e o coletivo ressoam juntos, e onde habitam o resto de entidades desencarnadas que formam parte das relações atuantes de cada encarnado, e com as que podemos contatar.

Mas a potencialidade visionária da Rainha só actua após que o tremendo poder da energia (acumulada, condensada e reduplicada em dínamo pela resistência oferecida por cada uma das curvas espirais em que a liana Jagube se enrola desde o humoso solo da selva até o céu aberto em suas altas copas) …nos dá o vigor necessário para vencer a força de gravidade do ego e da sua realidade quadriculada, suportar a explosão de nossos esquemas mentais rotineiros e nos projetar à exploração consciênte dos abismos subconsciêntes do vasto, profundo e escuro oceano emoçãoal interior, cujo fundo é a memória coletiva arcaica da Espécie Humana.

Essa memória contém-se no Inconsciênte Astral, em cujos estratos inferiores mais densos arrastam-se os espíritos sofredores e formas pensamento demoníacas, chamadas assim as que conformam nossas energias mais baixas e contaminadas, e onde temos de livrar, durante cada sessão, uma batalha individual-coletiva na qual, ajudados pelas evocações positivas e as energias angélicas das dimensões mais elevadas da nossa Identidade Essencial, teremos que limpar e transmutar nossa negrura a puras batidas de luz.


17- AUTOEXAME INTERNA

A Bebida de Poder chegava ao palatar com um sabor tão horrivelmente desagradável, que não tinha jeito de que fosse causar vício. Muitas vezes senti noxo só de pensar que ia ingerir-la daqui a pouco. A gente a tomava, não por gosto, senão reconhecendo a necessidade de uma purga médica. Muitas pessoas vomitavam justo após beber, inclusive os veteranos; e, quase sempre, a maioria dos novatos antes de que tivesse decorrido uma hora, a não ser que tivessem um ego tão hipócrita, pétreo e resistente que precisasse uma longa crise de despiadada e confusa lucidez para se abrandar e desprender.

Porque aquilo era como um ácido dissolvente dos venenos do corpo e da alma, que desgaxaba de suas escondidas bases e colocava ante o olho da consciência todos nossos defeitos, medos, insuficiências, carências, dívidas, lembranças de erros e delitos, ódios, rancores, covardias, desconsiderações, promessas incumpridas, desamores, ressentimentos, farisaicas autojustificações, abusos de poder, gulas, perezas, vilezas, obscenidade... mostrando o escuro rebanho das nossas emoções, formas-pensamento e ações indignas da nossa alma, de uma maneira perfeitamente reconocível, apesar de vesti-los, às vezes, ante a miração, com imagens de nossa simbologia subconsciênte pessoal, tais como demônios e monstros para os cristãos, ou feras terríveis e duendes encantados da selva para os índios amazônicos.

Já que o Daime tinha mandado a dormir ao cão Cerbero, guardião dos infernos mentais, ao ego lógico- crítico, Príncipe do Autoengano, Mestro das Ilusões, quem, incapaz de viver suportando a lembrança de suas covardias e canalhadas, porém, ao mesmo tempo demasiado egoísta, inconstante e preguiçoso como para reconhecer e tentar corrigir cada erro reconhecido, prefere xogar-lhos ao esquecimento do poço subconsciênte, fechá-los com os sete cadeados da autojustificação, apagar a verdadeira história de sua memória imediata e substituir-lha por uma versão acomodada a não danar sua cuidada imagem de se mesmo, tão nobre e honorável.

No entanto, o Subconsciênte não foi criado para albergar lixo psíquico, senão para que fosse Templo Sagrado de nossa Identidade Real, isso que os cristãos chamam o Cristo Interno, o Eu com maiúscula; a Mónada, e para residência dos Arquetipos, ou modelos originais de criação e evolução harmónica, as Hierarquías os dnossos guias subconsciêntes, ou as diferentes opções ou cánones de manifestação e desenvolvimento de nossa Identidade Real em cada encarnação, isso que no Santo Daime chamavam-se “os Seres Divinos”.

E como a Identidade Real, o Eu Sou, é omnipotente e o ego apenas o piloto automático do seu veículo tridimensional, um aplicativo feito de conceitos matrizes combinados em programas, um mordomo virtual cuja função é cuidar dos tres andares da nossa casa corporal… Mordomo presumido e iluso, que tende a esquecer seu lugar, e que tenta, sem clase enhuman, de se fingir o dono e o amo do prédio...
Calma, tarde ou cedo o Eu, desde seu trono multidimensional, acaba esboçando a jogada mestra que faça escorregar em sua própria armadilha ao ego, sofrer o peso de suas contradições, reconhecer a malfunção, tentar se corrigir... e continuar sua evolução baixo a direção, não da ´personalidade, senão da alma, mais atento e mas honesto, até a transmutação e fusão definitiva da Mónada Individual com a Identidade Real Regente deste Plano.

No caso dos espíritos sofredores que ali nos encontravamos, a jogada do nosso Eu Maior tinha consistido em fazer que nossa busca diletante de sensações fortes com as quais evadir-nos da lembrança de nossa inconstància para aprofundar em nós mesmos, tivesse-nos empurrado ao fim do mundo, encerrado na Amazônia e colocado ante nós, de uma maneira impossível de eludir, aquelas realidades que a gente sempre tinha-se negado a ver.

Porque não estamos viajando sozinhos por este planeta, como um vagabundo caprichoso e errante: todos nós vimos com uma missão importante ao mundo, como parte mínima, mas fundamental, de toda uma engranagem cósmica feita de diferentes graus de consciencia (o que é mas importante num barco: a chave do motor ou qualquer um dos parafusos que sujeitam a hélice?).
A Hierarquía de nossos espíritos guias, nossas relações essenciais, a parte mas sutil de nós, a que ficou (quando encarnamos na Terceira Dimensão) evoluindo em outras frequências, isto é, no resto das nossas dimensões de realidade… mantem-se sempre de olho em nós, para nos proteger, e para apoiar e orientar a nossa evoluçao, que também é da deles, -respeitando, no entanto, nosso livre albedrío, sem o qual não poderíamos escolher para aprender e "ganhar consciencia”.
“Nossas relações mais adiantadas”, os Seres Divinos, trabalham ao nosso favor combinando as "casualidades" cósmicas (magia de sincronicidade) para que, por muito dormidos que estejamos, a missão acabe nos envolvendo, nos acordando, bem com prazer ou com dor, -sensações que para o Eu Espiritual e Eterno não são mais que estimulantes psicoquímicos que servem para espolear seus veículos materiais continuamente recicláveis -, e, ainda que decorram muitas encarnações -para o Eu não existe o tempo-, nos levará por fim a nos completar como instrumento útil e a cumprir o destino universal para o que fomos emanados do Um e que nós mesmos antes de encarnar, atuando como pura consciência do Um, tínhamos traçado por objetivo do seguinte ciclo de manifestação.

Cumprida a missão, nossa individualidade virtual diluí-se e retornamos à fusão com a Unidade, como retorna à mente um pensamento, depois de acabado o razonamento que o gerou; retornando carregado com o conhecimento da sua experiência, o qual deposita na memória até que tenha que sair, com ele como bagagem, a uma nova missão conscienciadora da Mente Cósmica que Somos.

Tantos anos após, eu reflito sobre tudo aquilo, ato os cabos, teço o tapate e descubro um quadro que me dá uma idéia aproximada da realidade que vivi… porém, naquele momento, em Mapiá, cada vez que me enfrentava ao Daime carregado dos meus condicionamentos e de tanta negrura acumulada, ia como a uma batalha a vida ou morte, e a própria quotidianeidade ali, em contato mais direto com os espíritos pouco polidos de meu próprio nível, era toda uma aventura cheia de riscos, dos quais o pior era baixar demasiado a guarda da discriminação e ficar aletargado e fanatizado nas próprias fantasías espiritualistas, como aconteu com tantos iniciados.

Em todos os sentidos, fué uma experiência duríssima para mim, a causa, sobretudo, do endurecidos que estavam minha própria rebeldia, individualismo e desconfiança para os demais.



18- FAZER-SE HOMEM

A Terapêutica do Daime consistia na catarsis, e isso era uma maravilhosa maneira de se libertar, para aqueles que eram capazes de se perdoar a si mesmos, recomeçar de uma maneira mais harmónica e ficar ou sair de ali, para viver, em adiante, de uma maneira impecável, firmados em sua própria confiança na sua re-descoberta identidade essencial de Ser Divino, de Filho de Deus, e muito alertas a não deixar que erros sem corrigir fossem se acumulando de novo.

No entanto, aquele sistema ainda portava em seus estratos inferiores, por sincretismo e mistura não depurada de culturas, ainda apesar da visão cósmica do Padrinho e das consciências de elite que lhe seguiam de perto, a parte mais reacionária do catolicismo conservador: a ideia de um Deus externo, juiz e ditador inflexível, que disciplinaba aos transgressores de sua Lei durante a sessão do Daime; e a idéia deste mundo como um vale de lágrimas, onde vimos a purgar as nossas culpas.

Minha hiper-crítica e violenta incapacidade para seguir suportando este reacionarismo, após ser obrigado a engolí-lo à força durante os primeiros 23 anos de minha vida, na Espanha Negra do general Franco, fez que a parte mais rebelde e julgadora de mim forçasse àquela que queria aprofundar apesar de tudo, a acabar marchando de Mapiá.

Porque parecia-me que aquela visão do mundo, a de um Deus a quem temer, conduz quase sempre à formação de uma mentalidade dependente, sadomasoquista e fraca, baixo uma falsa aparência de fortaleza rígida e disciplina heróica: o vírus do fascismo. E com o fascismo aparece o submetimento cego da maioria às arbitrariedades dogmáticas e à inquisição daqueles que, aproveitando-se de um grau de autoridade que lhes fué concedido só para servir, cponvertem-se em intérpretes hierárquizados da Vontade Divina: A prepotente academia de sacerdotes e escrivas, baseando sua autoridade sobre a letra morta da lei, e os hipócritas seitários de sempre, dominando politicamente as comunidades e (apesar da prédica contínua do amor, do igualitarismo, da valorização e da confiança no irmão pelo Padrinho), loucos por encontrar a palha no olho alheio.

Já que o Daime dava conhecimento súbito sobre a própria realidade, mas "saber e não pôr em prática o aprendido é não saber ainda". O esforço construtivo da própria VIRILIDADE ou FEMINIDADE ESPIRITUAL vem marcado pela redução de distâncias entre a teoria e sua realização efetiva. Tão só converter a luz do conhecimento recebido em fogo de amor, em ação realizadora no Plano Físico, justifica nossa conquista e ilumina nosso méio; o demais só serve para reforçar a soberbia intelectual do ego. Muita firmeza guerreira, sim, por puro convencimiento mental a base de mirações, mas pouco amor, que é levar a fé à prática; Firmeza e Amor são os dois galhos principais da Árvore da Vida, assim como da fachada do Templo do Auto-Conhecimento, mas Tanto a Àrvore como o Templo têm que ter um galho pilar central, aquele do equilíbrio entre ambos extremos, para que todas as esferas ou sefiras de poder do Ser se comuniquem-se para se unificar no propósito, a fim de que o Macrocosmos possa derramar suas bênçãos sobre o microcosmos.

A Ayahuasca é uma poção com um poder incrível para a autoexame interna, mas ainda ninguém me falou de que em algum lugar exista uma planta sagrada que provoque, por sua pura ingestião, nossa realização prática; esta só é produzida pelo nosso esforço de entrega humilde, amorosa e construtiva ao trabalho evolutivo quotidiano: Trabalho na melhor harmonia possível, ao serviço de nossos irmãos, vendo a luzde Deus até no mais aparentemente perdido deles.

Essa era a verdadeira messagem vital do Padrinho, seu exemplo, apoiado por um ritual de grande poder que servia para nos ligar com todas nossas relações espirituais; isto é, com a parte mais voluminosa do iceberg de nossa identidade submergida no subconsciênte coletivo e composta por milhares de entidades. O uso do Daime não era mais que a medicina que servía para recuperar aos mais doentes e descarriados... O dedo do Padrinho servia para apontar ao Amor; ainda que muitos ficavam presos ao dedo e não ao que apontava.

Uma medicina é uma coisa muito benéfica quando se usa para rebaixar a gravidade de uma infeção, enquanto se corrigem as causas que motivaram a doença, o que é o único que a elimina de raiz.

Mas a mesma medicina pode converter-se numa droga nefasta quando o paciênte vive acalando ou aliviando suas dores com ela, sem corrigir a causa da doença, que continua se desenvolvendo mascarada e convertendo ao paciênte em um dependente contínuo do médico e do farmacéutico.

Assim sucedia naquela comunidade com um bom número de pessoas, que por causa da noção católica de eternos culpados que portavam, e pela própria facilidade comunitária de tomar Daime continuamente (ainda que, de forma oficial, se aconselhava, salvo caso de doença, não comunga-lo mais de uma vez cada quinze días), não tinham tempo nem perspectiva para refletir sobre os horrores descobertos em seu subconsciênte, corrigir suas causas e re-armonizarse consigo mesmas, senão que acabavam acomodando à ideia de que aqueles monstros constituíam sua verdadeira identidade e, por conseguinte, assistiam à cada nova sessão para pedir perdão a um Deus castigador e longínquo e para receber seu castigo em forma de um agitado balanço do ânimo ou "má viagem" -ao que chamavam "pea"-, do quual saíam doloridos, mas, no fundo, aliviados, porque o viam como uma espécie de pagamento ou multa, que permitia-lhes seguir vivendo igual, sem corrigir as causas, até a próxima surra.

Às vezes é possível compensar os erros cometidos, às vezes já não, mas sempre é possível corrigir as causas, que se encontram em nossas más tendências e hábitos negativos, em nossos demônios pessoais, que não são outra coisa que nossas energias angélicas quando sujas e descuidadas. Uma boa limpeza é capaz de transmutá-las positivamente, sempre que a gente fique depois atenta e vigilante, para não tornart a chocar, maquinalmente, com a mesma pedra, já que o desatento automatismo, e não a maldade consciênte e premeditada, é o motivo principal de nossa repetição de erros.

Ainda que a maioria dos homens e mulheres de selva que criaram a comunidade com o Padrinho eram provados guerreiros da Luz, alguns deles até verdadeiros Mestres, toda uma aristocracia do espírito com a que ligavam-se em seguida os mais consciêntes e polidos daqueles que chegavam de fora, a difussão do Daime fora da Amazônia tinha feito que também achegaram-se a Mapíá, nos últimos anos, quantidades cada vez maiores de gentes cidadãs, procedentes, sobretudo, de Rio de Janeiro, onde ergueu-se uma grande igreja daimista -Ou Ceu do Mar- dirigida por um xenro de Sebastião Mota; e não só eles, senão até muitos estrangeiros que, tal como o Mestre Irineu e o Padrinho tinham anticipado naqs suas mirações, teriam que sucumbir à fatal atração sobre os espíritos aventureros que exerce o mistério e o encanto natural da rota que bordea a Grande Floresta até Macchu -Pijchu e além, até o coração da Amazônia, rota que eu chamava o Caminho de Aquaria...

Alguns brasileiros procedentes das enormes urbes do Sur, antigos militantes esquerdistas, surpreenderam -se de encontrar, isolada do resto do Brasil, uma comunidade comunista por natureza, que quase se correspondia com seu longamente sonhado modelo utópico de sociedade... se não fosse porque aquele era um comunismo fraternal, de primitivos cristãos, sem outra estructuração política que a liderança no trabalho, tipicamente amazônico, dos guerreiros mais capazes de prestar esforçados e inteligentes serviços à comunidade, e da atenção respeitosa aos conselhos dos mais idosos, nas reuniões comunitárias. Isto é, o velho sistema tribal.

Um daqueles membros do "Povo Vindo de Afora", que até tinha sido guerrilheiro e escritor durante os sinistros anos da ditadura, Alex Polari de Alverga, integrou-se tão bem, através de seu amor ao Padrinho, que não só fundou um importante centro daimista em Mauá, nas montanhas ao norte do estado de Rio de Janeiro, senão que virou o maior propagandista do Daime por médio de seus escritos.

Polari entendia, superando sua visão revolucionária anterior, que a nova força motriz da História nesta etapa já não seria, como tinha escrito Carlos Marx, a luta pelo poder das massas cegas e inconsciêntes de desherdados materiais, pessoas que, realmente, não podiam aspirar a renovar o mundo mais que superficialmente, substituindo, se o conseguissem, as classes sociais dominantes, para tinguir-se com sua mesma mentalidade, assim que a arrecadação pública começasse a corromper-les de ambição... Tal como os governos socialistas acabaram demonstrando na suas experiências históricas, especialmente aqueles que chegaram ao poder pela força, e que só puderam-se manter nele, convertendo aos países que anteriormente tinham jurado libertar, em opressivas prisões.

A mudança real não viría deles, cogitava, senão de pequenos grupos de gentes sensíveis que acordariam aqui e lá, ao desenvolver uma antena mental suficiêntemente potente como para sintonizar às instruções atuais do Programa Evolutivo da Humanidade, que a Fraternidade Branca depositou na atmosfera que nos circunda. Cada receptor, indivíduo ou grupo, filtrará a Messagem Renovadora através de seu próprio condicionamento cultural e o tinguirá de suas próprias insuficincias, quereências e preconceitos pessoais ou tribales; Porém, andando o tempo, veria-se que, sob a palha egoica ou local, o conteúdo essencial do recebido por cada grupo será similar e comum …e válido, para todos os seres humanos… sem exclusivismos.

... Isso me fez pensar que neste momento em que o mundo todo converte-se em uma aldéia, onde os mass-média acabaram com as mentalidades contrapostas das classes sociais, uniformizando-nos a todos em uma subcultura vulgar, superficial, morbosa, pessimista, masificada, macia, mezquinhamente pequeno-burguesa em sua visão da Vida, controlada, manipulada e consumista-consumida, onde fazem-se um o materialismo capitalista com o socialista... a alternativa liberadora só pode vir do eclectismo profundo, re-descubridor da Essencia Fundamental comum.
Essa Essencia é o Tesouro de Sabedoria que os verdadeiros Mestres e Iniciados de todas as culturas e etnias da História têm chegado a descobrir, cada um sob o colorido formal, ritual ou folklórico, de seu estilo próprio e sua freqüência energética, isto é, de seu Raio específico, uma das sete frequências do Arco-Iris.

"Quando a terra esteja doente e os animais desaparecendo, chegará uma tribo de gente de todos os credos, cores e nações. Gente que crerá nos fatos e não nas palavras; Serão chamados os Guerreiros e Amazonas do Arco Íris, e restaurarão a antiga beleza da Terra".

-Profecia dos indígenas norte-americanos-

Este Tesouro oculto no interior de nós mesmos e desvelado, será a semente atual e eterna transmissora do mais importante conteúdo da experiência humana; e as pessoas que a plantarão na terra fértil das jovens gerações planetárias, para que dela cresça a Àrvore Multicor da Vida do Terceiro Milênio, serão, logicamente, as mais sensíveis e profundas daquelas etnias que menos se comprometeram no processo massificador e superficial que produz a decadência por sequedade (ao ter perdido o contato com suas raízes), do que antes foi orgulhosa Árvore da Civilização Ocidental... aliadas e irmanadas com os espíritos geniais, rebeldes e adiantados que, tendo nascido e desenvolvido no Sistema Imperante em decadência, o vivem ao máximo, morrem a ele antes que ele morrer, e ressuscitam, vivencialmente vacinados contra o vírus que o degenera, e cheios de força. Estes são os Pioneiros da Nova Era que cresce… as potentes sementes de regeneração que lança a própria árvore moribunda do ciclo ido.

Como sempre, os últimos serão os primeiros, e aos mais humildes são-lhes reveladas coisas que os cultos e poderosos não tiveram olhos para ver.

19- LUTAS DE PODER

Dizíamos que, no antigo esquema comunitário, a liderança pertencía naturalmente, aos mais entregadamente fieis e eficazes dos antigos pioneiros e seus filhos, aconselhados pelos velhos que mais davam para confiar... Acima de tudo, nem assuntos rituais e fundamentais, era indiscutível a autoridade do Padrinho Sebastião e de seu compadre, o Padrinho Correntes, outro druída do mato, pai de meu iniciador, o mestre de guerreiros Chico Correntes. Havia outras Madrinhas, e outros Padrinhos, tanto idosos como jovens, que eram verdadeiras fadas e anjos encarnados; mulheres tão firmemente femininas, garotinhos tão despiertos e guerreiros de tal talha, que deixavam-nos inevitavelmente consciêntes, com seu exemplo, da diferença que há entre um Homem e “uma ideia de homem”. Poderia prestigiar muitos nomes, mas só destacarei a Odemir, o apaciguador de rebeldes, a quem iam parar os mais duros toxicômanos chegados das grandes urbes, a quem ele sabía devolver sua própria dignidade como ninguém. Também encantava-me Regina, cujos hinos, vibrantes e marchosos, me pareciam os mais alegres de todo o Santo Daime.

Na geração jovem, o filho do Padrinho, Alfredo -um total artista da vida, com um aura de cálida simpatia que sentía-se a vários metros de distância-, parecia claramente bem dotado para ser seu sucesor, a título de Rei Salomão, ou, senão, seu outro filho, Waldete, com vocação de sumo sacerdote disciplinador, de quem diziam que canalizava a energia do arcanjo San Miguel; e também Alex Polari, o mais prestigioso dos homens vindos do Sur, trabalhando na produção de Daime para aumentar a projeção da Doutrina para o mundo. Após eles, havia uma brilhante e crescente formação de impecáveis comandantes e comandantas daquele vigoroso povo de Deus em marcha.

Em um nível bastante por ebaixo destas figuras, que luziam com indudável luz própria, começaram a se formar grupos de aspirantes à estructuração política da comunidade, ao redor daqueles membros mais manipuláveis dela que, por seu parentesco com as famílias dos antigos pioneiros de maior relevància, tivessem possibilidades de herdar algum comando... e estabeleceram-se bastantes alianças e enlaces matrimoniais com eles.

Resultaram ser los enlaçados, alguns dos jovens nascidos em Mapiá, os que não tinham seguido por própria escolha consciênte ao Padrinho selva adentro, em busca de independência e isolamento, como seus maiores fizeram, para jogar o jogo da transformação, senão que estes jovens encontraram-se (por simples nascência o e sem conhecer outra vida que aquela), sendo os principinhos e princesinhs da nação esforçadamente levantada por seus pais. Uma nação muito primitiva e muito precária, mas que aqueles interessantes jovens vindos da cidade estavam dispostos a modernizar... com a condição de intercambiar com a civilização a mais refinada produção da comunidade, o Daime, em troco de bens de consumo.

Toda esta luta pelo poder temporário, aquela desafiante probação contínua do respeito a Deus no respeito ao irmão que a escola comunitária era, estava em pleno auge quando eu cheguei a Mapiá e produzia fatigosas tensões, que repercutiam forçadamente no estado de saúde do Padrinho, o qual agravaría-se definitivamente pouco depois... Sempre os reis morrem vítimas de seus súbditos.

Cada qual vê em um lugar aquilo que se corresponde com o nível no que sua consciência se encontra; no estado em que se encontrava a minha, eu flutuava, como um golfinho, acima e abaixo; por acima relacionava-me com parte daquela aristocracia do espírito para cuja sã emulação o melhor de mim aspirava, e ficando fascinado pelas suas amostras de firmeza humana e de amorosa luz interna... voltado para abaixo, tendia a empantanar minha atenção morbosamente no lado mais escuro de Mapiá, e a procurar a palha no olho daqueles espíritos com os que convivia mais de perto, tão sofredores e divididos pelo conflito de seus egos como eu mesmo: odeiava aos fiscais indelicados, porque também era, inconscientemente, um outro inquisidor, sem compaixão nem mesura.

No fundo de todo anarquista libertário há sempre um intolerante ditador. Por toda parte eu vía uma seita. Estava convencido que a estes grupos enfrentados de caciquinhos intermédios convinha-lhes manter ao povo produtor ignorante e submetido a sua direção, e para isso, como escreveu Hitler, nada melhor que a censura e o medo, que fazem aos governados facilmente manejáveis... e passando a vida em contínua "fofoca", ou seja, metendo o nariz no que faziam ou diziam os demais (ou deixavam de fazer ou dizer).

Opinava eu que, em nome da superioridade do conhecimento interno experiencial que se extraía do Daime, menosprezava-se demassiado a cultura externa da escola pública, base, no entanto, da independência individual e a democracia. Os mestres da Escolinha mal podiam ensinar outra coisa que os hinos. Isso, quando havia escola, porque as famílias tinham naquele tempo verdadeira necessidade de mão de obra e nem alunos nem mestres comiam se não saíam a colheitar seus próprios feijões os dias de colheita.

Por outra parte , resultava-me insufrível que aqueles fiscais e sargentinhos -que eram os que mais em contato estavam com a massa do povo e dos visitantes- abundaran no inquisitorialismo e carregassem as tintas sobre o sentimento de culpa dos eternos pecadores, para manter às pessoas humilhadas e submetidas, bem respeitosas das hierarquias daqueles fariséus… Em fim, pára que seguir?... meu olho mais crítico tentava ver ali, refletida, a velha história de qualquer religião fundada por um iluminado, que depois os mais medíocres de seus seguidores tentarão institucionalizar, fosilizar e a converter em instrumento de domínio social (a não ser que surjam líderes à sua altura, que mantenham a conexão direta com A Fonte).


20- RENASCEI!

Ante tudo isto, o Padrinho indignava-se às vezes e nos chicotava: -“Vossas mães só têm parido vossa parte animal, o Homem é algo que tem que ser construído sobre ela por vocês mesmos... Hai que renascer! ou é que voçês querem ficar em abortos? O Homem distingue-se do animal porque soube cultivar seu espírito, renunciando ao egoísmo sobérbo, aos irrespeitosos jogos de poder e à maledicência, e descobrindo a Deus no amor que se solidariza, que comprende e dá valor até ao mais pequeno dos irmãos. Não há outro caminho! Deus é a união amorosa de todos nós! Satã é o espírito de divisão, de fofoca e de intriga!... Aquele que ainda seja um aborto de Homem quando sua norte chegar, conseguirá que morra com ele sua potencialidade espiritual individual; encontrara-se no Astral com o verdadeiro inferno que seu negatividade projetou sobre ele durante sua inútil vida, e terá que vagar com dor por ele até encontrar quem lhe faça uma caridade!”

Referia-se o Padrinho a que o aborto de Homem (com maiúscula) viraría um anônimo espírito sofredor do Baixo Astral, forçado, por sua falta de luz própria, a se arrastar pela suprema treva, acossado pelas formas- pensamento diabólicas por ele mesmo geradas, somadas as escuras formas energéticas acrescentadas a elas por afinidade; até que um dia, por fim, conseguisse perceber a luz interdimensional da vela consagrada de uma mesa espírita, conseguisse ligar com a energía dos participantes, solicitar auxilio e se expressar através de um medium, ou seja, um espírito ayudador encarnado que lhe fizesse a caridade de permitir-lhe partilhar do seu campo eletromagnético conetado a sentidos físicos, que o adoctrinase, valorizasse e lhe desse uma oportunidade de fazer, desde o Astral, algo do trabalho de ajuda e consolo a outros irmãos necessitados que ele não foi capaz de fazer enquanto esteve no Plano Físico.
Tão só assim, o sofredor conseguiria reunir o mínimo de energia espiritual com o que sair dos níveis mas tétricos do Baixo Astral e ascender a outros onde já pudesse receber algo mais de apoio dos Guias (ou Anjos, ou Virtudes Puras do Ser) correspondentes ao seu raio ou sua falange vibratoria... até que lhe fosse concedido de novo o privilégio... mas quem sabe quando! de encarnar de novo em um corpo humano, para repetir curso.

- “Vocês não sabem valorizar a grande lotérica que tocou-lhes -dizia o Padrinho- para poder evoluir com todas as possibilidades de ganhar consciência que brinda a ação amorosa. Para isso é que foram dotados de um corpo físico e não para andar procurando o día todo entretenimentos vãos, papo furado oral e mental, satisfações mesquinhas do ego ou posses materiais... se vocês o souberem, não xogaríam ao lixo, como estão xogando, o seu precioso tempo de encarnação”.

Sebastião Mota falava de como, cada vez que acendia-se a vela consagrada da mesa espírita, se formava uma fila enorme de espíritos sofredores, todos cheios de ânsia por aliviar sua angustiosa solidão e fome de Luz, expresando-se, por turnos de incorporação, através de um medium, para reciclar-se minimamente, colhendo algo da energia-atenção dos assistentes, ou das mais elevadas e compassivas orações por eles.

Ao terminar-se o trabalho, muitos invisíveis não tiveram ainda a oportunidade de ser atendidos, e estariam atentos a acudir à fila, uma após outra sessão, até consegui-lo... ou então, desesperar-se (cada vez mas esgotadas suas reservas de vital energia-consciência) e, cheios de ressentimento contra tudo, se converter em exús, ou seja em espíritos malignos totalmente inconsciêntes, verdadeiros diabos-tiburões dos níveis mais baixos dos Planos Astral e Físico, que fariam todo o possível por arrancar uma porção de energia lá onde pudessem, tornando-se, por causa de sua fome atroz de vitalidade consciênte, raivosos obssesores de qualquer desgraçado que tivesse suas defesas psíquicas tão abertas pelo vício, que lhes permitisse se instalar na sua aura, colados a ela como lapas, para vampirizá-lo, encorrentando-o com sua influência, e precipitando ainda mas rápido sua decadência.

Pelo contrario, aqueles espíritos que tinham conseguido receber algo de Luz, cuidavam, pela conta que lhes tinha, de não desperdiçar a oportunidade; voltavam uma e outra vez, atentos a fazer méritos sendo úteis, e convertiam-se nos colaboradores e aliados fixos da mesa espírita, ajudando a curar doenças astrais, separar obssesores das auras dos pacientes, desbloquear nós energéticos, amaciar rigidezes ou desfazer trabalhos de magia negra.

Um dia, finalmente, apresentariam-se para agradecer toda a caridade recebida e se despedir, pois já tinham, afortunadamente, via livre para ascender a níveis mais altos do Astral... o que enchia de satisfação redentora a todos os mediums que trabalharam com eles, ajudando-lhes a elevar sua própria energia cada vez que transmutaban em positiva, dentro de sua emocionalidade pessoal, uma energia negativa afín à do espírito ajudado...

Sebastião Mota mesmo tinha conseguido elevar, em seu próprio trabalho de polimiento espiritual, a muitos sofredores que vinham de níveis ínfimos de degradação como, por exemplo, um endemoniado Exú da linha chamada Tranca-Rua, famoso por sua inteligente perversidade, ao que acolheu em seu coração sem limites, depois que o espírito obsesor soltou ao feiticeiro ao que estava possuindo, quem assim pôde morrer libertado daquele terrível peso, após o Padrinho aceitar tomá-lo sobre si.


Com amostras tais de verdadeiro amor redentor, eu não debería ter-me sentido molesto pelas provocações daqueles que precisavam sugar energia-atenção dos demais, senão comprender-lhes, como fazia o Padrinho, acolhe-los no meu amor e, crendo sem a menor dúvida em suas potencialidades divinas internas, sustentá-los confiada e paciêntemente em minha visualização mental, como quem cultiva uma planta ou um filho com todo cariño, até ver como essas virtudes divinas manifestavam-se por fim nos meus opositores... Esse era o cristianismo de Sebastião Mota e seu principal ensino vivo. Mas eu estava muito bruto ainda, tinha pouco amor e paciência, e minha emoçãoalidade estava ainda bem longe do entendimento da mensagem de Cristo... apesar de que a memória recordava muitas das palavras e exemplos atribuídos a Ele nos Evangelhos.

Meu soberbo ego continuava opondo uma imensa resistência e negava-se porfiadamente a aceitar arbitrárias e destemperadas autoridades jerárquicas, salvo unicamente as que emanaban de uma nobreza e sabiduria evidentes, como a do Padrinho... Quando chocou forte com os egos de alguns caciquinhos intermédios, decidí não continuar em Mapiá, por causa daquela mesma vã rebeldia hipercrítica com a que me auto-excluí de tantos grupos de crescimento e realização, ao longo de minha vida ou vidas
Antes de me auto-excluir mais uma vez, ainda tive tempo para fazer algumas observações astrais e para receber meus próprios presentes-lições do Pai Juramidám, o que iré relatando.

20- O ARCANJO

Lembro uma tarde em que nos vestimos de branco e azul e fomos caminhando por entre as lindas cabañas de madeira de Mapiá, até nos reunir ante a Casa da Estrela. Um laboratório exagonal especialmente construído e astralmente acorazado para a prática do trabalho mágico.

Entramos ordenadamente e cada um fué colocado, pelo chefe de sessão e seus promotores, em seu lugar de poder na apertada corrente humana de energia que se estava formando.

Guerreiros a um lado, guerreiras ao outro, como sempre, para jogar com as energias complementares dos sexos; no centro, junto à cada vértice da mesa de cerimônias, que tinha forma de estrela de seis pontas, se sentou um dos seis mediums ou canalizadores mas sensitivos da Comunidade. Após uma ingestión ritual de Daime, todos nos recolhemos em nosso espirítu para invocar as potências de nosso Gênio Planetario Diretor particular e demais Guias.

Cada participante prestava consciêntemente sua energia ao esforço comum de criar uma egrégora, isto é, uma forma pensamento coletiva de energia espiritual coletiva acumulada e condensada em forma de ponta de seta ou ponte para O Divino; uma esfera subtil de comunicação interdimensional na que a elevação da sinergía -o conjunto sincronizado de nossas invocações e desejo de ligar- propiciasse que pudesse se manifestar uma poderosa Entidade, soma amplificada das potências do mesmo signo que se continham no microcosmos individual dcada um de nós, e no Macrocosmos que também éramos em grupo e em Essência, e que nos completava.
Os seis mediums incorporaram, cada um, a uma guia pertencente à falange comandada por seu regente planetario.
Entre os seis, pediram depois ao Eu Sou a manifestação de um dos mais poderosos arquetipos de nosso subsconsciênte sobre a mente do coletivo: Júpiter, Senhor do Fogo.
E pediram-no, invocando, com seu "chamado" específico, o descenso sobre nós da energia espiritual do Arcanjo Miguel.
Não esquecerei, enquanto viva, a sensação que me posesionó naquela sessão, a mais forte que senti dentre todos os trabalhos coletivos desenvolvidos em Mapiá; minhas visões e sentimentos, referidos àquela sessão, são absolutamente indescriptibles.
Só dizer que meu fascinación, surpresa, assombro, respetuoso temor, ante as mais poderosas manifestações da Natureza, quando ela desata em pleno suas potências -uma tempestade no mar, uma erupção vulcânica, um terremoto, um tifón- são pouco para esboçar sequer uma ideia sobre minha sentir quando aquela cálida onda de imenso poder espiritual nos inundou de repente, nos separou do habitual, nos envolveu até nos fundir com ela e, nos arrebatando em trance, nos elevou a uma dimensão onde Nosso Ser se contemplava a Se Mesmo, em absoluta paz, acalma, harmonia e abundância.
Horas passaram ou minutos? naquele estado, no que o ser era pleno, em que nada faltava, como nada pode faltar a um dos quatro Arcanjoes que se postran ante o trono de Deus.
Que que se via? Que que se entendia? Não tinha nada para ver nem para entender, só tinha o ser. O ser sendo o Ser. A SEIDAD. E isso continha em si mesmo todas as visões, todos os entendimentos e todas as sensações. E ao mesmo tempo era algo entrañable, vazio, singelo, conhecido desde sempre. Nada do outro mundo, algo que está em todos nós quando estamos em paz.
Se alguém me pergunta em algum dia:- "Pára que te serviu tua experiência no Daime?" -Eu poderia responder muitas coisas, soltar todo o conteúdo deste livro... mas, realmente, o mais importante de todo fué que o Daime me fez saborear, ainda que só tivesse sido por um momento, esse estado de plenitude no que eu era eu e tudo estava claro e armónico.
Uma coisa é oir ou ler a respeito disso ou traduzir a sonhos de realização os anseios mais profundos de teu coração, e outra, chegar ao provar experiencialmente, o viver, o sentir com todo teu corpo, emoção, intelecto e espírito juntos.
Agora tenho um norte em minha vida. Até nos períodos em que a torrente da vida me xoga a seus rincões mais tenebrosos, onde habitam a dúvida e a confusão, eu sei a onde re-me dirigir assim que posso levantar cabeça um moomento: sê o que quero e o que busco em meu quotidiano e sê o que, tarde ou cedo, encontrarei: recuperar e fazer minha para sempre aquela específica freqüência vibratoria de minha energia, aquele estado expandido e intensísimo de emotiva e lúcida consciência de Ser, de perfeita integração e unificação exaltada com tudo.
- Mas... e se não fué mais que uma ilusão virtual dos sentidos, uma fantasía vã provocada pela droga? - arguye o advogado do Diabo.
- As imagens míticas que afloran do subconsciênte em estado de trance, não são meras fantasías sem sentido, a psicologia clássica de Jung e seus discípulos já as reconheceu como símbolos constantes de realidades arquetípicas que se contêm no inconsciênte individual dcada pessoa tanto como no Subconsciênte coletivo de toda a Humanidade; ainda que suas formas externas mudem em cadacultura, sua essência comum é reconocible; através de uma linguagem não raçãoal de imagens, o Gênio Subconsciênte avisa e aconselha ao consciênte para que se limpe do que não lhe convém e adapte seus esquemas emoçãoais e mentais às novas situações pelas que atravessa, da maneira em que mais corretamente pode o indivíduo fluir a favor da Corrente Cósmica nesse ciclo.
Nenhuma droga pode proporcionar-te experiências que não se achem contidas nas potencialidades de tua ser: se uma planta de poder não consegue senão te dar um vislumbre passageiro desse estado de consciência, deste elevado nível em que pode vibrar tua energia, que não é mais que um grau mais alto que aquele no que vibras normalmente, te imagina a que níveis pode ascender a qualidade desse estado quando consegues centrar tua vida nele, já não com substâncias psicoactivas, senão te enchendo de amor a todos os seres e de unicidad... e vivenciándolo de uma maneira ao menos tão contínua, como vivenciamos nossas limitações, quando nossa consciência está centrada no plano material convençãoal.
Agora sê que existem universos paralelos que convivem no mesmo espaço e tempo, mas em diferente dimensão de consciência. Viver em um ou em outro só depende de onde sintonices (em que canal fixes) o dial de tua atenção principal.

Quando acabou a sessão era de noite. Já estabámos fora da Casa da Estrela sem que me lembre muito bem como saímos. em cadagrupo, algum promotor consagrou e pôs a rondar um pito de Santa María... Quando aspirei, senti como se meus lábios estivessem quatro metros abaixo de mim e a fumaça me chegasse, sem quase sabor, por um longo tubo invisível e transparente que tivesse no ar, entre meu veículo carnal e minha consciência. Assim, pude me dar conta de que meu corpo etérico estava aspirando os éteres da erva e que ainda me achava fora do físico, desdobrado, flutuando bastante acima dele, ainda que ligado a ele por um fio subtil.


21- O MALIGNO

"Só existe um nível de consciência por embaixo do humano: O plano chamado "Infernus", onde habitam as naturezas irreversíveis. Aquelas incapazes de assimilar o único sentimento que sustenta o mundo: o amor."

Carlos Pacini, Entrevista em Jun.1988

Lembro outra noite em que nos achávamos reunidos no Templo numa sessão de limpeza e cura. Desta vez não era em Mapiá, senão em outra comunidade do Santo Daime próxima à vila amazônica de Boca de Acre, chamado Anhangás, sobre o grande rio Purús, barroso afluente da Cobra Grande, onde fiz muito bons amigos.

Vários mediums novatos estavam prestando seus auras e seus corpos à incorporação de espíritos sofredores ansiosos por expressar-se para pedir ajuda. O normal era que se tratasse de espíritos de desencarnados ainda muito apegados ao plano físico, por tanto impedidos para ascender a seguir a sua evolução em planos mais sutís. Aqueles infelizes sentiam a necessidade de confessar alguma coisa que corroía suas consciências, entrar em contato com algun familiar para pedir ou dar perdão, resolver qualquer conta que deixaram pendente ao abandonar este mundo ou, simplesmente, receber consolo e energetização espiritual, a base de comunicação fraterna e orações, que lhes permitissem aumentar sua taxa vibraçãoal o suficiênte como para sair das trevas angustiosas do Baixo Astral onde se achavam e ascender a planos mais altos nos que pudessem ser acolhidos por espíritos de maior nível.

Não era raro se encontrar com espíritos que, por causa de uma morte súbita ou acidental, ainda não estavam convencidos de que tinham desencarnado (tão real se sente nosso corpo etérico, o verdadeiro veículo interdimensional de nossa consciência), e que tinham que desapegarse definitivamente dos planos físico, emocional e intelectual; a mesa espírita cumpria assim uma função de orientação, humanitário consolo e ajuda energética muito importante, além de servir para receber a espíritos colaboradores de luz algo maior, que trabalhavam em aconselhar ou curar aos encarnados que o solicitassem, o qual contribuía a seu progresso vibracional tanto como ao dos ajudados.

Desde que eu chegara ao Brasil, fazia já cinco anos, estava fascinado pelo espiritismo, verdadeira religião prática do país, ainda que oficialmente a maioria eram católicos ou protestantes; e não tinha perdido ocasião de infiltrarme, fazendo de ayudante de muitos bruxos, tratando de lhes descobrir o truque; porque no fundo, meu soberbio raçãoalismo europeu não podia aceitar que todo aquilo fosse outra coisa que pura autosugestión manipuladora actuando sobre um povo ignorante, supersticioso e bem mais emoçãoal que crítico.

No entanto, junto a muito que se sentia como impostura ou ilusão, eu tinha pressênciado também coisas inexplicables, que abriam uma brecha em meus esquemas raçãoales, e agora, desde que o Daime me projetava astralmente, entendia muito bem que a vida raçãoal não é mais que um 10% de nossa vivência integral; E em um ambiente como o da Selva Amazônica, que é o principal vórtice astral do Ser Terra, a percentagem era ainda menor.

De repente, todas as energias dos participantes na sessão se puseram tensas; o corpo de um dos mediums fué incorporado de uma maneira mais violenta que o habitual e o espírito visitante se negava a se identificar.

As repetidas demandas do comandante ou chefe de sessão, um guerreiro loiro de bigote e muito jovem, filho dos primeiros colonos do lugar, não obtiveram resultado; assim, demo-nos conta em seguida de que aquela entidade não estava ali para pedir luz, senão tratando de se possesionar do corpo do medium, de suas forças e percepções.

- Solta-o! Sobe! -ordenava o chefe de sessão, começando a pôr-se nervoso.

- Não o solto! Este cavalo é meu! - Respondia o exú com uma voz horrorosa, demoníaca, enquanto o pobre corpo invadido dobrava-se como sob um grande peso, contorsionándose igual que se uma marionette de teia fosse.-

- Que o soltes! -insistiu o comandante- Solta-o ou vas levar pea!-

Justo então, o obsesor tratou de sacar às sacudidas o corpo do medium além das defesas psíquicas do templo. O chefe de sessão agarrou-o de um braço e teve um tremendo forcejeo; os outros participantes estávamos assustados e não sabíamos que fazer. Alguns deixamos nossos postos e corremos a reforça-lo. Mas nosso comandante acusou imediatamente o debilitamento da sinergía do grupo e o conato de pânico e voltou-se a nós sem soltar o braço, bramando com imperiosa raiva: -Tornem à mesa! Sigam cantando! Firmeza!-

Regressamos envergonhados a nossos postos e reentonamos os hinos enquanto aquele bravo guerreiro debatia-se só contra o teimoso exú. De repente, encontramos-nos cantando um hino enormemente elevador da energia anímica grupal:

"Tenho entrado na batalha ao ver meu povo decaer
Temos de vencer, temos de vencer,
temos de vencer se a Deus pedimos o poder!
Oh querida Virgen Mãe, que poder que tu me dás!
Com tua força e com tua luz não me podem derrubar!"

No meio do hino, assim que a sinergía mental do conjunto elevou-se o suficiênte, outro medium começou a ser incorporado: era uma mulher mulata muito flaquita, mas pelo hino saludatorio que os participantes entoaram em seguida, cantando com os olhos fechados, como se o que se estava desenvolvendo no salão não tivesse importância comparado com o que estavam vendo na miración, percebi que o espírito que acabava de se encarnar era uma poderoso guia do Subconsciênte Coletivo, o caboclo Tupinambá, flecheiro indígena da falange de Oxossi, o aspecto masculino de Vénus, Senhor do Bosque (o Inconsciênte profundo), do Ar (O Mental) e dos silfos (as inspirações intuitivas).

Imediatamente lançou-se ao combate contra o exú, separando a nosso comandante, quem regressou sudoroso e reasumió seu posto à cabeceira da mesa, exhortándonos de novo a manter a firmeza no poder do Eu que Eramos e a conjuntada conexão que conformávamos. Somo-se, com voz cansada mas marcial, ao hino geral, muito estimulante, que nos seguia animando a todos a nos enfrentar ao que fora, e a confiar na pura energia de limpeza transmutadora da Mãe Divina, que a concentrada coesão do grupo canalizaba sobre seus aliados astrais e o medium, depois da ter invocado dantes com nossas orações cantadas.

Incorporado na frágil mulatinha, o tremendo flecheiro do astral já estava livrando feroz briga com o exú. Eu me achava tão pendente do que ocorria no plano físico, que perdi por completo a miración; desde minha visão ocular habitual só dava para observar a ambos mediums contorsionándose de um lado para outro, em um extremo da mesa, se dirigindo golpes parecidos aos da luta popular brasileira chamado Capoeira, com o punho fechado ou com a mão aberta, conformando estranhos mudras; mas com golpes que jamais chegavam à pele, como se só fossem dirigidos ao aura envolvente do corpo.

O resto da gente a minha ao redor seguia cantando com os olhos fechados, sem perder detalhe da luta real que se estava desenvolvendo no plano astral, no espaço da mente coletiva. Por duas vezes, o exú tratou de tirar o corpo do medium fora das proteções do templo, e as duas vezes o flecheiro tampou-lhe enconadamente a saída.

Durante briga-a energética, o obsesor lançava rugidos entrecortados, enquanto a guia instava-o a render -se e a soltar ao "cavalo" em uma estranha jerga gutural, metade português e metade tupí-guaraní macarrónico. Por fim, o exú fué tocado por um golpe fluídico em algum de seus centros etéricos fundamentais e se desplomó.

Nesse momento, a cansado guia subiu ao astral e uma nova entidade de ajuda incorporou seguido na mulatita. Pelo canto ou ponto saludatorio, entendi que se tratava de outro flechero da mesma falange, o caboclo Arariboia, quem imediatamente se lançou à luta.

Mas desta vez já não teve forcejeo; depois de umas puñadas e alguns passes magnéticos, a guia ascendeu ao astral após dizer:

-Este já está arranjado.-

Dizem os brasileiros: "Sobe o Santo, baixa o Santo"... assim, ainda incorporou na mulata uma guia mais da mesma falange; a popular cabocla Jurema, uma espécie de Diana Caçadora Lunar da mitología subconsciênte indígena, que ademais é o espírito de uma planta de poder, tipo acacia ou mimosa, cuja raiz contém dimetiltriptamina, o mesmo alcaloide visionario que metaboliza a Rainha ou Chacrona. A cabocla fué saudada por todos com um alegre cántico:

"Jurema, sua folha cura, Jurema, sua seta mata,
quem é filho de Jurema, jamais se perde nas matas".

Mexendo o corpo da medium com uma soltura graciosa que esta, por si mesma, jamais teve e devolvendo o saúdo à participação como se de uma cantora de samba se tratasse, simplesmente se certificó do K.Ou. astral do obsesor, isto é, de que já estava totalmente fora de combate, e o fez regressar, submetido, à dimensão dos espíritos, onde tinha, sem dúvida, uma guarda astral o esperando; dedicando-se depois a dar passes ao corpo do medium libertado, para limpá-lo de todo resto de más energias e realimentarlo etericamente.

Depois, deixou-o repousar reciclándose, enquanto ela dava conselhos médicos a alguns paciêntes da sala, já completamente relajada; conselhos nos que abundaban banhos descontaminadores de maus fluídos e defumações com ervas, folhas e cortezas da selva... Finalmente, passou um momento partilhando alegremente com uma velha conhecida, ahijada sua, como duas comadres no mercado, quase esquecidas do resto do pessoal, que seguia cantando seriamente hino depois de hino.

Quando a simpatiquíssima cabocla regressou ao Astral e teve um descanso na sessão, eu me acerquei a ambos mediums. Nem a mulata nem o quase posesionado tinham a menor consciência nem lembrança de todo o que tinha sucedido em seus corpos dez minutos dantes. Disseram-me que tinham estado viajando por uma aldeia de índios do Astral, onde os trataram com muito cariño, assistindo como convidados a belos cánticos e danças indígenas; O corpo do segundo medium via-se algo fatigado, mas sua voz soava tão tranqüila como se tivesse acabado de acordar de uma siesta plácida.


22- SINCRETISMO

Além dos Sete Grandes Orixás, Primeiros espelhos reflectores da Vontade Divina, ou Regentes Planetarios, ou Espíritos Puros Arcangélicos, ou Hierarquía intermediária de um Deus Um e Trino tão Alto, tão Pura Consciência e tão innombrable que nem se lhe representa nem se lhe oferece culto, a Umbanda Afrobrasileira cultúa, ou pelo menos respeita, a uma oitava supra-entidade que se reconhece como O Príncipe deste Mundo: Exú, o Ego Dualista, submergido ainda no conflito mental interno entre o bem e o mau, o guardião da Ombreira que separa a dimensão física das outras mais sutís e a quem, necessariamente, há que pedir permissão, contentar, convencer, sobornar, enganar ou embriagar, para que abra a guarda e permita a exteriorização dos arquetipos planetarios do subconsciênte profundo em seu espaço mental semi-lógico, reservado normalmente para a atuação exclusiva de nossa personalidade, com todas suas máscaras habituais.

As forças sutís que compõem a entidade chamada Ser Humano, sejam espirituais, mentais ou astrais, precisam sempre um "substratum" material (conformado por substâncias dos quatro elementos) que faça de medium ou veículo sensível para sua manifestação no plano físico; este substratum é seu pólo negativo, está dedicado inteiramente a satisfazer as necessidades materiais do Ser, e comanda-o uma parte de Sua Consciência que em psicologia se chama a Personalidade e em Aumbhandan o Exú-Guardião.

O Exú Arquetípico é uma energia tão abstracta que, ao igual que os Orixás, jamais incorpora pessoalmente. Em seu lugar fazem-no seu corte de exús sub-arquetípicos, entre os quais há, igual que entre as guias, entidades femininas que são representadas na estatuaria de culto como uma espécie de guapas diablesas chamados Pomba- giras. O próprio Exú representa-se baixo a figura clássica do Diabo, no que os cristãos converteram ao velho deus Pan, seu competidor mais resistente no campo, o "pagus" latino, onde demorou muitos anos em deixar de ser cultuado pelos "paganos" ou camponeses... com seus cornos, patas e fila de fauno, representava para eles o poder espontáneo e vital da Natureza, a energia física pura, o poder do sexo e a fecunda geração sobre a matéria; mas tarde foram-lhe acrescentados camada vermelha e tridente neptuniano.

Mas isso só acontece por causa do sincretismo: a confusa substituição de seus símbolos ancestrais por símbolos católicos que os escravos africanos se viram obrigados a fazer durante o período colonial, para poder seguir cultuando a seus espíritos aliados baixo formas permitidas pelos opresores.
Assim, converteram a sua Deusa da Lua na Imaculada Concepção, ao Deus da Guerra em San Jorge e ao da Caça, um flechero, naturalmente, no asaetado San Sebastião. San Sebastião era a figura cristã trás a que os escravos negros da colônia tinham cultuado a seu velho Orixá, o flechero Oxossi, Senhor da Selva e dos silfos astrais, que são as consciências que animam ao mais puro dos quatro elementos materiais, o ar, e o comunicam com o quinto subtil: o elemento Eter, onde a energia pura do Verbo começa a se moldar em forma.

Em realidade, o conceito africano de Príncipe da Terra dista bastante do conceito católico do diabo:
O setor mais conservador e reacçãoario do catolicismo instituçãoal se fué convertendo, após criar-se a Inquisição em 1231 na Alemanha para combater a herejía maniquea, queimar em Verona em 1278 a duzentos Cátaros e afogar em sangue o Sur da França na Cruzada contra os Albigenses... em uma religião maniquea. É uma lei: Quando uma ideia se combate pela força, ambos contendientes acabam por sintetizarse, os extremos se tocam.
O Maniqueísmo divide ao mundo em dois extremos opostos irreconciliables, Deus e o Diabo, em perpétuo conflito... o dualismo convertido em religião.

O maniqueísmo das religiões do Livro, tanto o dos muçulmanos Hausas que os capturavam em Africa para lhos vender aos negreros portugueses ou britânicos, como o daqueles supostos cristãos alvos que também lhes negavam a alma e os tratavam como bestas de ônus, acabou contagiando aos pobres escravos, que, conservando suas magias como única arma contra suas explotadores, converteram ao Exú Protetor em Exú Vingador e todo seu ressentimento ante aquele inexplicable genocídio em formas-pensamento de ódio e de rancor chamadas Kimbas, que eram os agentes astrais encarregados de canalizar a Magia Negra ou Kimbanda para o tiránico amo.

Foi tão grande e tão traumático o conflito das raças no Novo Mundo, tais suas sequelas de negatividade astral e magia negra, que desde pouco dantes do princípio do século XX, os Ascendidos Gúias Astrais de cada raça (Os Pajés índios, os Babaliawó negros e os Mestres brancos), tiveram que unir suas forças para elaborar um sistema magístico que contivesse elementos de cada tradição inicial, para que ajudasse a despejar o ambiente e reconducir à reconciliação, por médio de adoutrinamento, purificação, cura, consolo, entendimento, solidariedade e perdão, aos antigos espíritos inimigos, enfrentados de novo em reencarnações atuais, e que lhes brindassem oportunidade de resolver suas ligações e dívidas kármicas e se unificar.

Assim nasceu a eclética Umbanda... Da mesma maneira, veja bem, está-se ancorando agora mesmo na egrégora de Aquárius através de seus servidores mais sensíveis, um sistema magístico global que será capaz de conciliar e aunar em um objetivo de elevação multidimensional comum a todas as raças e culturas do Planeta.

O dualismo extremista é uma mentalidade estranha ao bom espírito africano, tão cheio de ritmo que seu vaivén risueño, dançando cadenciosamente de um a outro extremo, parece justo o contrário da rígida polarização inmovilizada em um extremo, desde onde se nega e combate ao outro, que acabou com o equilíbrio helénico quando o maniqueismo zoroástrico-judeu-cristão substituiu, por decreto de Constantino, aos velhos deuses olímpicos da Civilização Grecolatina.

O símbolo da Umbanda Esotérica é uma esse deitada cujos extremos se unem por uma linha horizontal Uma das curvas da esse se comba acima da linha horizontal, a outra por embaixo . É um signo dinâmico, vivamente unicista, alquímico, conciliador e sintetizador dos extremos, como o Yin-Yang taoísta. Não é de estranhar que o arquiteto Oscar Niemeyer o escolhesse como modelo estrutural de seu desenho do espléndido Edifício do Congresso, em Brasília; uma cúpula aberta, acolhedora, receptiva, junto a outra fechada, intimamente recolhida em meditación; Entre ambas, um plano horizontal bem colado a terra que as comunica; Excelente forma simbólica para expressar a harmonia convivencial e o talante conciliador do crisol de raças e culturas que vai sendo, cada vez mais, o Brasil, Grande Mãe Continental, o país com maiores potências acuarianas que conheço, tão amoroso, tão amado... Saravá Brasil!


23- ENCONTRO COM O PADRINHO

O Padrinho Sebastião Mota era um puro homem de selva e um líder nato, seu rosto podia assumir, sem quase mudar de expressão, um aspeto tão majestoso e cheio de autoridade natural que ninguém ousaria discutir, nem por um momento, uma ordem sua, como também podia parecer de repente um menino pequeno, tão cheio de alegria e felicidade que os corações mas duros se abrandavam e docificavam, querendo lhe agradar e lhe amar. Estou muito grato à Vida por ter-me levado a conhecer a tal ser de luz.

A Luz impregnava-lhe tudo, por dentro e por fora, apesar de que, quando eu o conheci, já estava muito doente. Tão luminoso e puro pareceu-me que quase o via transparente; tão simples, que de início, cometí o erro de confundir a sua simplicidade com ingenuidade; Porém, deseguido ele revelou-se ante mim, -dandome uma sentida lição interna-, como a síntese alquímica de toda uma vida de experienciais pesquisas e descobertas sobre a complejidade profundísima da alma humana.

Eu tinha visto antes fotografias de Sebastião Mota, mas o que se encontrava então ante mim era um magro idoso de mãos sarmentosas, longa barba branca e tão frágil como uma construção de palha roída pelo cupim; parecia estar já com um pé na vida e o outro no além; não ficavam nele restos aparentes do homem lendário, do gigante que foi capaz de edificar, sem mais médios que sua coragem e a dos homens e mulheres que lhe seguiram. Eles levantaram com suas mãos uma pequena nação quase independente, no coração da floresta mais selvagem do mundo.

Assomado à janela de seu quarto, naquela casa avarandada que era a ponte de comando desde onde dirigia a nave do Povo de Juramidám, rumo à Terra Prometida nas visões, o Padrinho fitava-me com gravidade, como perguntando quem era eu e a que tinha vindo. Algo violento, porque me faltaram as palavras adequadas para me interessar convencionalmente pela saúde de um ser que se via claramente que já não tinha nenhuma, preferi passar em seguida a me apresentar a mim mesmo.

Assim, comecei a explicar ao Padrinho que considerava meu passo por Mapiá como uma etapa mais de uma longa peregrinação em busca do conhecimento da vida e de mim mesmo, peregrinação que começou fazia bastantes anos em minha pátria, ao outro lado do oceano... olhava àquele idoso homem do mato, analfabeto, que me escutava atenciosamente e que, vez por vez, franzia o cenho, como estremecido por uma dor surda que vinha de muito adentro, e perguntava-me se ele teria alguma ideia de onde estava Espanha, Europa, ou sequer o Oceano Atlántico Tentei selecionar as palavras mais singelas possíveis para falar-lhe de minha caminhada e de minhas buscas, de minhas inquietudes, dos livros que tinha lido, de minhas viagens pelo mundo, dos Mestres que tinha encontrado, das ocasiões em que fui iniciado e do grande volume de conhecimento eclético que fui acumulando em meus arquivos mentais, apesar de ser ainda tão joven. Falei de meu encontro com a Magia no Brasil e do que pensava sobre o caráter interno ou externo das energias que realmente se incorporavam no Espiritismo; Depois expliquei como tinha sentido minha primeira ingestião de Ayahuasca, menos de um mês antes, na Colônia Cinco Mil de Rio Branco, e a respeito das intensíssimas experiências internas que provocou em mim a bebida de poder em Boca de Acre, Anhangás e agora em Mapiá... falava e falava, e minhas palavras eram recolhidas pelo ancião como por um poço insondável.

Uma parte de mim estava muito contente, porque jamais tinha achado a uma pessoa que escutasse tão bem, tal como se ele tivesse se tornado a pura atenção; outra parte de mim me dizia que aquele rudo canoeiro amazônico só me escutava por cortesía, e que não estava entendendo nem a metade de minhas palavras. Finalmente, minha segunda parte impôs-se e fuí sentindo-me desalentado, aborrecido de meu discurso inútil e até sentí noxo de tanto falar de mim mesmo; finalmente esfrieu de tudo e calei, quase cortando em seco.

Nesse momento, o ancião deu-me a impressão de crescer e crescer e fortalecer-se; sua aparente fragilidade desapareceu e o gesto de dor que franzia seu cenho converteu-se em pura determinação. Sua mirada parecia conter todo o espaço e sua voz soou calma, mas surpreendentemente firme, quando disse:

-Todo isso eu o sei, porque eu sei.

E então eu desinflei-me de uma, como um imenso balão, tão só de vaidade cheio, que de repente pinchou... e soube que era evidente que ele sabia e que seu saber brilhava tanto e com tal luz própria, que em um instante varreu todas minhas arrogantes ínfulas e suposições, meu bobo jogo de ego e toda a imatura presunção com que tinha estado tentando lhe impressionar. Voaram todas minhas máscaras como arrastadas por um tornado e encontrei-me em bolas psíquicas ante o Padrinho, que parecia um tremendo deus antigo, um Jehová ou um Saturno cheio de poder, dor e sabedoria; e vi-me refletido no espelho de seus olhos como um doente crônico de ânsia divina, louco pela Luz e temeroso, ao tempo, de me consumir no fogo; um desgraçado estúpido agarrado como uma lapa ao seu inteleto que, apesar de ter tido a sorte de vivenciar tantas experiências, não fora capaz de aproveitar nem uma delas até o fundo, e ainda seguia picotando e buscando; um adicto à procura, como tantos, mas só para confirmar o já conhecido; um espírito vagabundo mais fascinado pela própria busca mental e por seus variados métodos, formas, técnicas e definições conceituais... que pelo Objetivo Real Unico e Definitivo entrevisto, em cujo desconhecido Reino não parecia ter meu coração verdadeiro desejo, pressa, vontade e paixão de desembarcar e adentrarse, para me fundir e me perder em Ele, depois de queimar de uma as apodrecidas naves nas que fazia anos que errava por suas orlas...

Encontrei-me de novo caminhando pela aldeia, de retorno a meu alojamento, a cabeça baixa, confundido, sem lembrar claramente como acabara a entrevista com o Padrinho, nem sequer se me tinha despedido dele. Mapiá dera-me sua primeira grande lição. Naquele dia envergonhei-me, no espelho da transparencia do Padrinho, da enorme distância em anos-luz que ele me fiz vislumbrar entre o que eu achava que sabia e o que na verdade era...


24- ENSINOS RECOLHIDOS

As vezes seguintes que encontrei ao Padrinho, alguma delas acompanhado por sua esposa, a firme e bondosa Madrinha Rita, já era como se a gente se conhecesse de toda a vida: eu permanecia muito caladinho, sem destacar para nada nem escrever, e sorvía cada uma de suas palavras, que, ainda que ditas para todos os presentes, parecia que contestavam exatamente a todas as perguntas que eu tivesse podido fazer-lhe e inclusive a algumas que, apesar de me interessar, nem sequer estavam ainda claramente enunciadas na minha mente.

Lamento que, ao lembrar seus ensinos, os que mais assimilei, ou as reflexões que suscitavam em mim, o tenha que fazer com meu próprio estilo, entendimento e exposição e não com suas exatas palavras, como gravado, já que era bem saborosa a simples e alegre forma de se expressar do Padrinho, colocando de vez em vez profundas passagens da sua própria vivência ou fragmentos de hinos, ou de histórias da Bíblia contadas de uma maneira personalíssima, enfeitadas por uma rica gesticulação e sons onomatopéyicos bem amazônicos... Escritores como Alex Polari ou como Francisco da Cal que, ainda que nascido espanhol, levava muitos anos vivendo lá, têm sabido registrar essa graçaexpressiva, e a eles vos remeto.

De qualquer jeito, o que ele dizia era muito menos inspirador que o tom e o brilho de seus olhos, ou de seu sorriso, quando o dizia. Isso é intranscribível, mas dava valor total a suas palavras; o valor daquilo que é claro que se sabe, porque se viveu em todos os níveis do viver; o valor do que em um Mestre é evidente e que, em sua essência, ainda que sua forma parecesse diferente, coincidia com o melhor que eu tinha assimilado de meus outros Mestres e experiências.

Dizia que o grande desafío do homem não é encontrar conhecimentos, já que isso vem por si só, se a gente move-se minimamente por seu próprio camino-coração, e cada um acaba sempre sabendo perfeitamente o que lhe convém; O grande desafío é pôr em prática o que já sabe que lhe convém ou, pelo menos, tentar. Se o conseguir ou não, isso também vem só… em geral depende da ajuda que o Cosmos digne-se prestar a seu merecimiento. Mas toda a dignidade e toda a grandeza humana, acha-se em fazer todo o possível por merecer realizar-se como dignos filhos de Deus e em fazer todo o possível para atinguir o objetivado. Isso é o único que é verdadeiramente importante de nossa experiência de vida e nossa única missão: sair do robot e renascer ao Espírito.

Para fazer merecimiento, é necessário conseguir purificar ao máximo nossa emoção e nosso intelecto, acalar um pouco a vaidade oral e mental da personalidade e esforçar-nos em ser o mais perfeitos e amorosos possíveis em nossas realizações e serviços, para que o Pensamento Puro de Deus e sua Pura Energia possam ressoar através de nosso rendido canal como uma fonte que canaliza rego fértil para o mundo.

Antes de tentá-lo, devemos examinar a fundo nossa intenção: se está fedendo nela um mínimo de apego, ânsia de protagonismo, de influência, de lucro, nossa intenção está viciada de egocentrismo e a tentativa não poderá sair bem ou, ainda que saia, mais será uma fonte de problemas que de satisfações para nós, e sem´pre um retardo evolutivo.

Temos que ser, antes de mais nada, bem consciêntes da relação amorosa com nossa família, e pensar que todo relacionamento, com persoas, animais ou plantas, e con todo o nosso méio, é uma oportunidade que oferece o Cosmos para que alguma de suas partes se harmonice com outra que anteriormente estava em desequilíbrio com respeito a ela.

Quando chocamos com alguém, isso é porque nossos demônios interiores reconheceram-se no espelho dos demônios similares de um irmão, a cujo divino espírito interno devemos lhe agradecer a oportunidade de que nos permita autoexaminar-nos em sua patética personalidade externa. Nosso diabo é, sobretudo, um constante opositor, um soberbo crítico demoledor que sempre quer ser o que diga a última palavra; porém, o que mais raiva lhe dá é encontrar-se frente a outro diabo como ele ou até algo pior que ele. Aí, aprontará briga como fazem os cães, salvo que o veja tão inferior a ele que possa menosspreza-lo; ou tão superior, que prefira passar prudentemente desapercibido.

Satã em nós, isso que os doutos chamam o ego, a máscara, é só a sombra inevitável da luz que projeta Deus em nós, o Eu, que se converte no EU SOU quando um chega a se fazer verdadeiramente consciênte do que o É até o fundo da alma. Inclusive nesse momento, continuará existindo sombra, isso é uma lei física inevitável enquanto a gente viver nesta dimension dual, mas a luz será tanta, e tão esplendorosa, que o que ficar de sombra, servirá para realzar a luz.

No momento em que nos fazemos consciêntes de nossa Identidade Essencial com Deus, tudo nos está permitido, salvo recair na dúvida ou no temor -a inconsciencia- ou em comportamentos indignos de aquilo que afirmamos que Somos. Se EU SOU, tudo posso explorar, qualquer caminho é meu, enquanto o cruzar com consciência e coerência comigo mesmo... tudo quanto chamamos virtude ou pecado, bem ou mau, depende tão só de nossa intenção e atitude ante as coisas. Para manter-se Sendo é, pois, necessário, examinar continuamente nossa intenção.

“Se EU SOU, tudo está em mim e se eu sou tudo e todos, que inimigos posso ter?... se até o diabo acha-se contido em Deus, é uma emanação Sua, como minha sombra o é de meu corpo... e Satâ cumpre uma missão ao serviço da Ordem Divina, ele e seus escuros, não o duvideis- dizia o Padrinho- eles estão aí como estão no estádio os obstáculos para o atleta; não para deter sua carreira, senão para lhe permitir mostrar sua capacidade de superá -los, para poder se tornar um campeão; já que não se pode ascender ao Céu, com toda a sabedoria que te exigem à entrada, sem antes ter conhecido as tentações, provas e quedas dos infernos e a dor da eleição incorreta, bem como a saber te levantar de novo e buscar o melhor sem errar outra vez. Para subir ao Céu há que se aprender antes a amar até ao mesmo Inferno”.

Realizar o Amor em um mesmo é trabalhar num cultivo que começa pela autoestima. Só amando-se a si mesmo pode-se amar aos demais e a Deus. Porém, há que amar-se a si mesmo, não por nossas circunstâncias materiais, que nos foram dadas pela Vida, nem pelo que temos conseguido aprender, ou acumular ou destacar... já que aquilo mesmo que se ganha, volta-se a perder e jamais chega a nos satisfazer totalmente. Devemos amar pela confiança e a consciência de que é Deus, nosso Eu Superior, quem está animando nosso corpo e dirigindo nossos passos; e devemos amar aos demais e a tudo, porque é a mesma Presença Divina quem nos anima e nos liga.

“Viver no EU SOU significa ser Um com tudo, ser tão amigo de todo e de todos como de si mesmo, pois não há diferença... você tem que ser amigo até do diabo, começando pelos capetinhas que levamos dentro, nossos defeitos; pois a sua amizade já os está transformado em anjos... mas se eles fizessem bagunza demais, afastem-os de vocês como fez Jesús, simplesmente ordenando ”vade retro” em nome de vossa própria consciência do EU SOU: "Não tentarás ao Senhor teu Deus..." Não há diabo que se resista a isso! –assegurava Sebastiâo com firmeza- mas é necessário ter muita autoconfiança, ou seja muita fé, para dizer isso bem convencido... Não se contribuiu nada novo em espiritualidade, desde o tempo de Jesús, que superar tais amostras de poder conetado. Se o Cristianismo fosse compreender e praticar aquilo que Jesús mostrou e disse, este mundo seria um Paraíso!... mas o Cristianismo, irmanzinhos, quase nem tem começado ainda”.

A quem tem consciência do EU SOU não se lhe ocorre desconfiar, nem muito menos, falar mau de ser nenhum. Como o vai fazer sabendo de verdade que os outros são um mesmo? E como vai ser orgulhoso nem invejoso? ...para isso faz falta que exista algo fora de um ao que um se comparar. O sentimento de separatividade com respeito a qualquer outro ser é o sintoma mais claro de que a gente caiu na armadilha da ilusão. Se algo nos parece oposto a nós, é que só está aí para que tentemos unificá-lo... unificar, sintetizar, conciliar, esse é o trabalho do Servidor da Luz sobre este mundo.

A primeira desconfiança demoníaca, a pior de todas, é a dúvida respeito da própria identidade e potencialidade divinal... Vemos-nos a nós mesmos tão insignificantes e cheios de pobredumbre que parece-nos irrisoria a idéia de que seja Deus nossa verdadeira Identidade... então preferimos situá-lo, como uma vazia abstração, num Céu mítico, e justificar nossa negligência em pôr-nos ao trabalho de Ser, chamando-nos de pobres homens mortais pecadores, e xogando a toallha antes de começar o inevitável combate que há que se livrar para que poder desenvolver nossa semente. Mas eu vos digo que não vos podereis chamar homens, nem sequer pobres homens, se não acreditais nas potencialidades de vossa semente divina e se nem sequer realizais a tentativa do desenvolvimento, pois essa tentativa por chegar-se a realizar no Espírito é o que diferença ao homem da besta, e não essa razão covarde, que só vos serve para minusvalorizar e duvidar.

“Aqueles que reprochan ao Espiritismo –dizia o Pádrinho em outra ocasão- que seus mediums abram-se à manifestação de qualquer espírito, e não só ao Eu Superior e à guiança dos grandes Mestres Ascesionados da Irmandade Branca, são tão sobérbos como aqueles outros que reprochavam a Jesús por se deixar acompanhar pelas prostitutas, os publicanos, pelos pecadores, a canalha... Não podem entender que os grandes espíritos de vibração altíssima, tal como o de Jesús, têm vindo a este mundo para dar ajuda, para valorizar e confiar na transformação dos espíritos irmãos mais descarriados, encarnados ou não, ou seja, para redimir a mais baixa vibração, absorvendo-a e transmutando-a com o toque da sua alta Luz... Eis aí o Eu Sou recarregando as baterías do Eu Inconsciênte, porque quem É, sabe que ambos são O Mesmo.... Quem teme se contaminar pelo contato com um espírito vagabundo, é que não está demasiado seguro da proteção de sua própria pureza... Porém, tampouco podemos deixar-lhes que sejam eles quem imponham as regras! a incorporação não é para brincar, senão para trabalhar, curando, consolando, adoutrinando; quando um espírito põe-se a perder o tempo da sessão com brincadeiras ou papo furado… Firmeza!, temos que mandar que suba e dar-lhe turno ao seguinte...”

Todo mundo é medium, todo mundo é canal, estes corpos de carne e estas mentes inteligentes e sensitivas não foram criadas para outra coisa senão para que fizessem de tronos, veiculos e instrumentos da ação do Espírito de Deus sobre este Plano Físico... que por que há mas mediums entre a gente ignorante que entre a gente culta? Pois, simplesmente, porque quanto mais se inteletualiza o ser humano, mais orgulhoso está do conhecimento racional concreto adquirido, que não é seu, senão o discurso do mundo comúm, tanto aquele situado à direita do sistema como o situado à sua esquerda.
Porém, se sentir mais importante e único e eleito e diferenteom relação aos demais irmãos, significa, claro, se sentir um ego separado, perder a conexão visceral com o resto do Ser que somos… ou seja, ao perder o amor, o sujeito já não pode se sentir Um com Deus, que é o Tudo, e sem esse sentimento, não há canal possível. Pois como vai-se manifestar em mim algo diferente de mim mesmo?
... Pelo contrario, se você é humilde e pequeno, dentro de você cabe a infinitude do Universo...”

“...Que como diferenciar, na miração, entre as visões do Eu e as fantasías do ego? O coração sabe diferenciar isso muito bem, mas se você não acostumou-se antes a escutar a voz pura de seu coração... então é bem fácil confundí-lo com seus delírios de grandeza e de absurda transcendência da sua personalidade!... mas olha uma coisa que os diferença: O ego sempre pressume de ter atingido, ganhado, conseguido algo... isso é o que lhe faz se sentir tão importante, ele tem tal complexo de estar vazio, que passa a vida trepando, mas até em seus cantos triunfais nota-se a ânsia, o temor escondido a que seu castelo de naipes derrube de repente.
O Eu, pelo contrário, é sereno, sereno... e jamais duvida nem teme. Não precisa presumir de nada nem conseguir nada... Ele sabe Quem É desde sempre, e que o seguirá sendo ainda que lhe dispam, lhe cuspam, o insultem, dêem-lhe chicotadas como a ladrão e matem seu corpo físico numa cruz, no meio de terríveis sofrimentos realmente sentidos. O ego sempre precisa audiência para sentir sua existência, e para isso está sempre inchando imagem... o Eu, ainda que nem seu próprio canal perceber toda sua grandeza, não tem que fazer propaganda; a pouco sensível que u seja, a Verdade de sua humilde vocezinha tudo o enche...”

O sofrimento é prova obrigada na Escola da Vida; como quando poda-se um frutal, ou igual que num parto, ele serve para provocar uma valiosa colheita, depois de dar-nos enormes lições intensamente sentidas, acelerar nosso processo de entendimento, provocar uma esticada, um renascimento. Quando o próprio Jesús passou por ele, foi para dar exemplo de como sobrellevá-lo dignamente, igual que o envelhecimento, a decadência da matéria e a morte, que é a última grande prova do guerreiro espiritual...! Mas livre-nos Nossa Senhora de acostumar-nos a sofrer, estagnar no sofrimento e perder a visão da cara mais bela de Deus sobre a Vida! o pessimismo, o desespero e o morbo são demoníacos; quem deixa de acreditar na saída a uma luz maior que há ao final de cada túnel, quem se deixa derrubar, sairá por fim e seguirá vendo negro túnel durante muitíssimo tempo após, e sofrendo por sugestão, por muito que brilhe o sol...

Temos que parar de uma vez de queixar-nos de todo e de todos, de temer, de duvidar... Temos que aprender a ser Deuses, que para isso é que estamos nesta matéria! Porque antes que patrão, marinheiro, e antes dee poder reger uma estrela, um espírito tem que se saber revestir dos quatro elementos e conhecé-los a fundo... benditos nossos erros, que são nossos Mestres! Abençoadas as pessoas com quem temos problemas, pois são nossos próprios problemas os que estão-se vendo em seu espelho, para nós os corrigir, tolerando, superando os choques, perdoando, valorizando aos demais, fazendo-nos pequenos e servindo!

Tudo o que há sobre a Terra, tudo quanto acontece, está bem feito de mais! Quem desenhou-o fiz assim para nosso progresso! Mais que orar para pedir, já que nosso Eu Superior sabe o que precisamos para valer e jamais deixa de prové-lo, oremos para agradecer pela Vida e sua perfeição. Queixar-se, duvidar, desconfiar dos demais e de si mesmo, é como orar ao invés: Isso serve para provocar que caia a desgraça sobre nossas cabeças!

“O trabalho fundamental de um Servidor da Vida é AMAR E REZAR; por isso ele não pode ter dúvidas quanto ao que significa rezar corretamente: Rezar não é dirigir-se a um Pai distante e externo a nós para soltar acima dele as nossas covardias, temores inseguranças …ou as queixas e caprichos ilusórios de nosso ego…Nem muito menos tentar bajular a Deus ou comprar seus favores em troca de forçadas promessas... todo isso não são senão atitudes infantis, indignas de um Guerreiro. Rezar, para este, deve ser esvaziar –se de Ego, colocar-se na lembrança de Quem Ele É em Essência, deixar que sua antena mental centre-se no EU SOU que anima seu espírito, e passar um momento ligado e completamente a disposição, oferecido ao Mais Alto de Si Mesmo, às Mais Altas Ideias Originais, como limpo e oco canal, por se Deus desejasse enviar algo de sua Consciência a esta dimensão inconsciênte de Sua manifestação, na qual vivemos, através nosso… Isso é rezar: servir de transmissor entre a Terra e o Céu; e não andar mendigando bobagens nem se queixando de bobagens”.

Perdidos no médio da selva faz-se evidente nossa insignificância: a pequenez, fragilidade e limitação da condição humana. É para derrubar-se a chorar o inseguro, mudável e efêmero do nosso estado, preenchido de ignorância, de imperfeição, de erro, de decadência e de morte... O único que mantém firme a autoestima do homem e lhe dá ânimos para seguir vivendo e trabalhando no desenvolvimento da vida em seu méio, é sua DIGNIDADE. E o que é a dignidade? pois não mais é que a lembrança subconsciênte, ou a intuição, anseio, esperança, crença, de que somos algo mais que estes corpos de matéria cambiante, estas emoções fracas ou tolas, e esta razão ansiosa que só serve-nos para descobrir nossas barreiras e ilusões e duvidar de tudo.

A nossa gente tem uma vantagem: O Daime mostra-nos com absoluta clareza que todo o mundo material em nosso meio, igual que nossos corpos, é só uma construção mental nossa. Também nos faz perceber que a mente que construiu-os é Uma e Eterna, e que se algo somos nós, somos uma consciência, isto é, um dos olhos inmateriais dessa Mente Eterna que constrói os Universos e joga seu jogo neles. O Daime dá-nos evidência de que nós Somos com O Unico que É para valer. O Daime confirma-me que Eu Sou, além de todas minhas vivências na limitação. Com uma evidência como a que o Daime nos dá, a firmeza de minha dignidade não deveria fraquear nem ante as maiores provas do jogo do viver, como não fraqueou a firmeza de Jesús, nem a fé em sua Identidade Maior, ante a paixão a que foi submetido, apesar de sua humana angústia e sofrimento.

“O que significa ter firmeza, a qualidade imprescindível do guerreiro ou da guerreira espiritual? Pois sobretudo, ser comprenssivo, compassivo e amoroso sem ter lástima, nem dos outros nem de si mesmo. Compadecer é comungar com o sofrimento e limitação de nosso irmão, sem deixar de ter na mente e na língua que só trata-se de um ciclo da aprendizagem de um espírito tão indestrutivél e eterno como o nosso… E comungamos com sua paixão até ajudar-lhe a superá-la, porque ambos Somos Um, e a paixão de ambos e a de todos os seres é a mesma.
Ter lástima, no entanto, é deixar de centrar-nos no Eu Sou, na Realidade Essencial de cada um e de todos nós, para aceitar e difundir a imagem carregada de imperfecções e limitações do ego queixoso e pessimista com que nos emascaramos ou nos emascaran os que não nos valorizam. O valor do amor de uma mãe por seu filho, ou de uma amante por seu amado, radica em que, se focando na sua melhor visão dele, aduba e rega seu crescimento na direção correta. A verdadeira compaixão é estar com teu irmão quando ele te precisa, mas não com seus fantasmas”.

Firmeza é sujeitar atenta, firme e disciplinadamente o tronco da nossa evolução, para que não se entorte. E sobre o que podemos sujeitá-lo? pois sobre sua raiz, que é nosso sentimento de dignidade, isto é, a autoestima de fazer-nos dignos daquela Realidade Maior que sabemos que Somos: Filhos de Deus. Este sabê-lo mesmo, não só acreditá-lo, é o que é FÉ. A firmeza da fé que nos guía e a dignidade de ser um guerreiro, uma guerreira espiritual, se demonstra não queixando-se nem julgando jamais: nem dos outros, nem de nós mesmos, nem muito menos da vida. Tal como a gente vê o mundo, o mundo se conforma ao redor; por isso todos somos responsáveis por que o mundo em que vivemos seja como ele é. Aceitemos o que fuimos capazes de criar, aceitemos como nos construimos a nós mesmos, ainda reconhecendo os erros, e , a partir daí, tentemos melhorá-lo tudo.

Esta é a qüestão fundamental do destino e da potencialidade do homem: Se todas nossas esperanças e os sonhos que impulsionam nossa luta estão dirigidos à criação de um mundo melhor e a nos colmar com algo Maior... Não vai ser nossa Criatividade Divina… a mesma que colocou em nós esse anseio, suficiêntemente misericordiosa como para nos ajudar a manifestá-lo?

Há que mostrar que um é um guerreiro sendo constante! Jamais, jamais desistir da tentativa de pôr em prática aquilo que queremos ser! Sem render-se, nem derrubar-se, sem duvidar da vitória aqui, agora e já! Seguros, como anjos encarnados, de que a Realidade na que vivemos é, e sempre será, só o fruto de nossos sentimentos e pensamentos atuais e prévios... Sem preguiza, sem autocompracência, sem autojustificação, nem desánimo, nem choradeiras, nem cinismo, sem comparação com ninguém nem com nada! Com o único que podemos nos comparar é com o que éramos antes de que a tentativa nos dignificasse! Começamos a fazer-nos verdadeiramente homens, não quando conseguimos nossa autorealizaçãp, senão quando nos concentramos na Nobre Tentativa de reconhecer, sair e superar o conformismo rotineiro, a mediocridade vital, a inércia e preguiza mental, emocional e física de nossa visão da “normalidade” conhecida, à qual, ainda que lhe pareça muito formoso o ideal de se unificar com Deus, no fundo segue considerando isso um sonho tão inalcanzável como poético, e então se foca na falsa segurança de confortar aos corpos materiais, por muito que se veja sua imparável decadência diária.

Amados Filhos de Deus, jamais aceitarem as resistências do ego a entrar em uma real disciplina para ser transmutado, nem seus muitos truques... ele tentará, por todos os meios, usando todos os enganos, desviar e projetar sua própria porcariada sobre os outros irmãos, dividir o grupo, deixar o trabalho e a mudança para amanhá, semear confusão ou desánimo …ou ridículo no método eleito para se transformar; ou disfarçar-se de santo, fugar-se, cair fora, separar-se ou envolver ou interessar a vontade em objetivos diferentes que se vem como preferentes ou prévios... A vã dispersão é o estilo do ego; Satã, como Caim, seu primeiro medium, é o eterno vagabundo; mas a Constancia na Unificación, ainda que o mundo pareça destruir-se ao redor da gente, é o estilo do Eu Divino. Por qualquer caminho que um Servidor da Luz escolher, ele encontrará a Deus, mas só se o percorre disciplinadamente até o fundo.

Se conseguíssemos manter-nos limpos e abertos como uma criança, veríamos a Deus na selva como as crianças o vêem com seu coração... Deus é o mistério da Vida, que te faz guinhos desde qualquer lugar ao que olhes, ou desde os olhos de um irmão... mas estamos tão obcecados pelas quatro mezquinharías que nos preocupam e ocupam todo o dia, que não prestamos atenção... Aí, o Daime serve para isso, tu o tomas, te limpas, e imediatamente percebes que as preocupações que ocupavam toda tua atenção não valiam a pena, e quando elas se esvaecem, o que fica ante tí é a grandeza sem limites da verdadeira Vida, que é a do Espírito que somos... Devemos prestar-Lhe mais atenção, assegurar nosso tempo de vida real, não perder a nossa encarnação em fantasías, que a maior parte das vezes nem sequer são fantasías agradáveis, senão entretenimento sem graça ou até puro maltrato mental que nos damos... quem vive ligado com o Poder Real, vive feliz.

O que a gente é, para valer, é um canal, uma antena; igual que o cipó do Jagube sobe, enroscándose às árvores mas altas, desde as folhas empodrecidas que formam o solo escuro da selva até o céu aberto e luminoso, assim nós somos um medium, um canal ondulante de limpa energia espiritual, pelo qual a dimensão espiritual comunica-se com o plano físico, o alimenta e o eleva com sua Luz. Porém, se nossa atenção está só colocada em procurar mezquinharías materiais, ou em adormecer ante a televisão, a matéria se acumula, tupe o canal e o fecha, e a Luz já não pode passar, nem para o mundo nem para nós, e assim, a vida vira uma prisão e um inferno, uma vaziedade e um aborrecimento corrosivo, uma depressão contínua, que é isso o que significa a falta de luz, de significação, de realização da nossa missão evolutiva... Há que prestar atenção e permanecer enfocados ao alto! Vocês podem imaginar uma planta que crescesse só para abaixo, porque é por aí que chegam a ela a água e os minerais? pois assim vive muita gente, rastrejando, únicamente atenta ao sujo solo da Vida.

A Liberdade é o disfarce favorito desse egoísmo vagabundo: É bastante fácil reconhecer em nós ao demônio da sensualidade por seu aspecto vicioso e ao demônio do medo, por sua contínua desconfiança agressiva e mal-humorada; mas nosso maior trabalho de exame das nossas reais intenções, consiste em desemascarar ao Mestre do Engano, ao Demônio da Autojustificação, que sempre trata de se fingir o Eu Real, a dignidade virtuosa, a honorabilidade invendível, a firmeza da justiça, a luz da sensatez e, sobre tudo... o guardião zeloso do sacrosanto livre alvedrío humano. Um Filho, uma Filha de Deus, tem sempre que pôr a esse diabo hipócrita em seu lugar! A única verdadeira liberdade consiste em libertar-se dele para sempre, queimando-o no fogo da discriminação e transmutando-o no Ánjo da Singela Transparência, esse com cara de criança, que em uma mão sustenta sua espada flamígera e na outra as chaves do Paraíso dos Puros, daqueles que não se preocupam mais da liberdade de escolhas… porque já sabem Quem São e já escolheram O Melhor!

“O mundo de ilusão não somente está aí afora; todo quanto captam nossos sentidos, todo quanto percebe nossa mente, é ilusão também. As mirações todas são só imagens símbolicas através das quais o Eu Sou nos fala do que nos convém saber, mas de jeito nemhúm são a Realidade. Nem sequer o fato de atingir a sensação permanente de lúcido vazio profundo, é tocar A Verdade nem a Realização, ainda que esta-se chegando pertinho dos seus portais. O vazio, irmanzinhos queridos, é a última das ilusões, quando você consegue eliminar por fim a esse ego que ainda percebe ao vazio COMO ALGO DIFERENTE DE SI MESMO, você terá um salto da consciência, um ajuste, e sua verdadeira natureza revelará-se em sí mesmo como se revela em sí seu ego quando acorda cada amanhã. Por aí é que você começará a libertar-se da ilusão, mas AINDA NÂO É ISSO A ILUMINAÇÂO PERFEITA, ela irá manifestando-se aos poucos, à medida que se amplia sua visão interior e que seu aspeto externo vai-se fazendo um reflexo transparente do Eu Total que voçê vai sentindo adentro.”

Jesús prometeu-nos que, após Ele, viria o Espírito Santo a nos iluminar. E o que vocês acham que é isso do Espírito Santo? Deus que volta ao mundo em forma de pombinh branca, por ver se assim nos convence melhor que encarnando em um corpo humano… ou o espírito de cada homem ou mulher que compreendeu a Jesús fazendo o esforço de santificar-se para canalizar em si a Deus e se iluminando ao conseguí-lo?... A nossa gente do Daime, junto à massa crítica da Nova Humanidade, tem uma grande missão por diante: conseguir que todo um povo realize em sim ao Espírito Santo e se ilumine... se uma quantidade suficiênte grande de seres humanos conseguem-no, ninguém duvide que eles transformarão ao resto da Humanidade que a sua Luz se acercar, por puro contágio, igual que um pocadinho de fermento transforma a uma grande massa em paõ abençoado...

“E o que significa santificar-nos e nos realizar, meus caros?... Pois não é outra coisa que dar provas, dar depoimento, da santa realidade daquilo que acreditamos… na santa realidade de nosso próprio viver quotidiano: Se achamos que Deus é Amor, Harmonia, Verdade, Liberdade e Justiça e se achamos que somos os Filhos, a Igreja, o Trono de Deus sobre este mundo físico, se confiamos que é verdade tudo aquilo que Jesús e todos os grandes Mestres nos disseram que éramos, e se confiamos no que sempre está a dizer a parte mais pura de nosso coração... então, realizar-nos é fazer real sobre o mundo a Deus, de tal maneira que o mundo possa ver em nosso pensamento, nossas palavras e nossas ações as virtudes de Deus que a gente canaliza SENDO EM DEUS; e não, simplesmente, representando a Deus, o fingindo ou falando dele como algo glorioso, porém, distante, que está lá acima, lonxe, no alto do Seu Céu... E nada, nada ao que possa aspirar um homem ou uma mulher é mais santo e maior que isto.

Isto é o que eu quero, meus irmãos, minhas irmás: que aquilo que tem sido a felicidade das felicidades para mim, que é levar o conhecimento espiritual dentro, seja também a felicidade de minha irmandade, minha família, meu povo. Quando este povo, que ainda agora se está fazendo, que ainda é criança, tenha firmemente ancorado a Deus na sua mente, quando ele saiba que Deus é seu saber… mudará totalmente seus antigos conceitos limitantes, mezquinhos... ou sobérbos… e ese povo fará-se tão forte e tão dono de si mesmo -apoiado na maior Fortaleza do Universo- que poderá contribuir com sua verdade, seu amor, sua justiça, sua abundância, sua prosperidade e sua caridade à mudança para melhor do mundo inteiro, a essa mudança imparável e natural, para a unidade e a igualdade fraternal de todos os humanos a que nos leva a torrenteira da evolução, mudança à que contribuirá nosso povo tanto com seu exemplo como com sua ação impecável, navegando à favor da Correnteza Divina. E então, este povo terá-se realizado, igual que eu realizei-me fazendo caso ao que Meu Ser me dizia, servindo de base, de chão, me humilhando, fazendo-me solo, e desde o solo agradecer a Deus à cada momento, para que qualquer um que O buscasse, encontrasse uma firmeza humilde mas segura sobre a que elevar-se a Ele”.


Capítulo 25- AS TRÊS ESMERALDAS

O Padrinho Sebastião tinha claríssimo, e não se cortava em afirmá-lo, que havia realizado em si mesmo o “Eu Sou”; que porque ele Era, sabia, e que opinava, não sobre o que acreditava, senão sobre o que conhecia… não por especulação nem pelo ter ouvido de outros, senão por té-lo bebido e degustado da Fonte Original que manava do seu interior.

Com a maior naturalidade e segurança, dizia que por ter-se realizado como Homem e ter realizado seus sonhos, era um aspeto de Deus Encarnado, e que todos podíamos chegar a sé-lo também se confiavamos o suficiênte em nós mesmos e em todos nossos irmãos; e ao dizê-lo, não deixava de parecer lúcido nem modesto, e palavras tão fortes, que poderiam soar como uma irreverência sobérba, prepotente e néscia em qualquer outra pessoa, sobrecogíam a quem o escutávamos, com o sentimento de que a evidência do que dizia transparentava-se através dele e da debilitada apariència de sua matéria que, no entanto, eu vía brilhar de Autenticidade… com aquele mesmo brilho que tinha entrevisto antes na matéria jovem e serena de Carlos Pacini.

Ao longo de nosso caminho vital passamos por numerosos mestrinhos e Mestres, aos que só podemos compreender se seu entendimento da Vida não se encontra em um nível demasiado acima do nosso: eles nos convidam, às vezes com um curtíssimo contato ou com uma breve sugestão, a explorar novos espaços de nosso imenso campo de posibilidades evolutivas. À medida que vamos ascendendo, tambien nós, apesar de nossa gigantesca ignorância, poderemos fazer de vez em vez o papel de mestres ou transmissores do consolo e da instrução divina, ante aqueles irmãos que vêm detrás, que ainda são mais ignorantes ou confusos que a gente, e que realmente no-lo demandan. Pela Lei do Amor, todos estamos aqui para ser cuidados e servidos pelos mais veteranos e ps irmãos maiores estáo obrigados a cuidar e servir aos menores e aos mais novatos que eles. Por essa mesma Lei, a gente ascende de nível quando tem trabalhado bem e sem afâ de lucro, de predomínio ou chefía, de reconhecimento externo ou de vaidade interna, e sem expetativa alguna, para ajudar a outros a subir àquele modesto degrau a onde tínhamos conseguido chegar, em lugar de defender ciumentos nossos mezquinhos logros contra a "concorrência".

Mas ditoso que aquele que conhece a um Mestre Realizado, é alguém que conheceu-se a si mesmo até o fundo e o cume do grau humano que tocou-lhe ascender, e ao conhecer-se nele, terá conhecido a Deus em sua própria Essência, meta fundamental de todo ser, cada um no extremo e na altura das possibilidades cognitivas de seu nível em cada relativo momento da eterna e infinita escalada do Ser. Depois de uma experiência ascensional assim, que desvela para sempre o Grande Mistério da Vida, que dissipa para sempre todas as dúvidas e medos do ego, definitivamente transmutado no Eu, já não existem mais diferenças entre as dualidades aparentes, acima e abaixo, dentro e fora, no individual e no Tudo, para este Homem com maiúscula, realizado, feliz, respirando Seidade por todos os seus poros, transparentando o brilho divinal do Eu Sou através de sua pele, tanto como de suas palavras de doce fogo.

Nada transforma mais a uma pessoa, nem sequer a mais poderosa planta de poder, que este modelo vivo, próximo, estimulante, de um ser que, tendo nascido como todos nós, na ignorância e na limitação, conseguiu acordar e se ligar continuamente com seu Ser Cósmico (Nosso Ser Cósmico), até SER Um com ELE, que é o mesmo que SER UM COM TODOS NÓS NO MAIS PURO DE NÓS ...que é o mesmo que ser O Amor.

Um Mestre é suficiênte ensino por si mesmo, por sua só existencia e exemplo, e pouco mais precisa explicar. Ele apenas é, e mostra aos demais homens como pode-se chegar a ser um Homem Completo, alguém que já não espera “aparecimentos de Deus", mas que dá depoimento da existência de Deus sendo-O e, ao mesmo tempo, amando, o que quer dizer, confiando e estimulando a manifestação divina em qualquer homem ou mulher, já que ele sabe onde é que Deus está: Deus manifesta-se nesta dimensão quando os seres humanos se estimam, se veneram e dão-se valor entre eles com harmonia. No Povo de Juramidám, chamava-se Padrinhos e Madrinhas às pessoas com autoridade ética, isto é, às que tinham desenvolvido um verdadeiro nível de realização no amor, claramente reconhecível por todos os demais.

Quando eu via ao Padrinho Sebastião tão dolorido por sua doença, minha alma pedia-me que tentasse algo por aliviar-lhe: Carlos Pacini tinha-me ensinado que, se uma pessoa aceitava voluntariamente receber seu abraço, aquele que ele dava em nome do próprio Eu Maior do abraçado, que é o mesmo Espírito Divino que anima à cada homem, seus bloqueios energéticos podiam se desfazer ou relaxar em um momento... Porém, eu cogitava que O Padrinho era todo o chefe de uma Igreja e me perguntava como reagiria ante a oferta da transmissão da energia de um homem desconhecido, supostamente autorealizado, e por intermédio de um estrangeiro que ainda não era mas que um buscador... Pensei-o muito, pois até parecia-me presuntuoso por minha parte propor-lho, sobretudo após ter mostrado tão estupidamente toda minha imatura vaidade em nosso primeiro encontró. Porém, finalmente, armei-me de valor e o fiz.

O Padrinho demonstrou sua boa fé (fé em mim, apesar de minhas carências) e sua humildade, escutando- me com toda atenção e respeito e dizendo ao final tão só:

- “Pois venha esse abraço”.-

Pedi um tempo para preparar-me bem e, na manhá acordada, fuí à cabaña isolada onde ele fazia um retiro com sua esposa. Ele estava muito aberto e ficou muito contente após o abraço, que transmiti tratando de me esvaziar completamente de ego, de fazer-me um puro canal. Brincó alegre e sentou-se no chão de madeira da cabana como uma criança e chamou-me sorridente a seu lado com grandes gestos. A Madrina Rita parecia espantada.

- “Agora eu vou-te dar o que eu sei -me disse, como com complicidade-, e o que eu sei são três coisas:

"A primeira coisa que sei, é amar a Deus com loucura."

"A segunda, que em qualquer parte onde um homem queira construir algo, não para sua própria vaidade nem lucro, senão por verdadeiro amor a Deus na Humanidade, na que Ele reconhece e Se reconhece, os mais poderosos espíritos do Astral e os melhores filhos de Deus sobre a Terra estarão de olho nele para ajudar-lhe. E ésto eu sei, porque foi o que aconteceu comigo."

"E a terceira... é um conselho que dou-te para aproveitar a fundo o poder do Daime: Estuda na miração tuas vidas passadas e observa a que tipo de trabalhos te dedicavas e com que tipo de pessoas: Quando o tenhas claro, não desperdiçes mais tuas energias nesta encarnação com outras atividades: foca-te inteiramente nàquela para a que foste emanado como espírito e aos poucos se te irão juntando os parceiros e parceiras que foram emanados contigo para serem células do órgão cósmico criado para realizar vossa missão. Realizando-a, vos realizareis".-

Estes foram os conselhos pessoais que recebi dele e eu os chamei “as Três Esmeraldas do Padrinho Sebastião”. Algo após sua morte, pintei em Rio de Janeiro um grande quadro no qual via-se ao Padrinho remexendo o Daimeno caldeirão do Feitío, enquanto a Rainha da Floresta, saindo da fumaça atrás dele, xogava a Água de Vida na panela como em cachoeira. Pelo invés do quadro, escrevi as Três Esmeraldas, e depois fuí ver a sua xenro, chefe da colônia carioca do Santo Daime, chamado Céu do Mar; e entreguei-lho pára todo o Povo de Juramidám, rogando-lhe que o enviasse a Mapiá. Aquele bravo comandante de guerreiros, de quem muitos diziam que tinha coração de jaguar, não pôde conter a emoçãoalidade, e um par de lágrimas empanharam seus olhos quando desenvolvi o lenzo ante ele.

Comentando um pouco as Três Esmeraldas -suponho que com as recebidas por cada um de seus discípulos se poderia juntar um tesouro incalculável- apontarei, em primeiro lugar, que a loucura de amor do Padrinho por Deus expressava-se da mais sã das maneiras: dando exemplo de confiança ilimitada na divinidade interna de cada homem ou mulher, isto é, valorizando ao irmão. E denunciando a maledicência desvalorizadora e disgregadora, porém, ao mesmo tempo, assumindo-a paciêntemente sobre seu coração redentor, para fazer a Tentativa de transmuta-la em Amor Fraternal Comunitário, aceitando, com ela, a dor que carregar a cruz da negatividade de seu Povo implicava.

Sobre a Segunda Esmeralda, é fácil ver que para o Padrinho, o trabalho de tentar a manifestação do Céu na Terra era a realização mesma e o amor manifestado em ação; trabalho desapegado, rendido ao serviço do Eu Coletivo, alegre, consciênte, humilde, limpo, atento, ordenado, perfeito, constante... que confiava sempre em fazerse, com isso, digno canal de poderes maiores que os próprios para o levar a cabo, e que o conseguia.

E sobre a Terça... convém ter muito cuidado com a presunção espiritual, com as fantasías do ego que se disfarça de santo para parecer o Eu. Cuidado com ir em busca de visões de vidas passadas e trazer-se só reis e rainhas e profetas e apóstolos e personagens gloriosas das histórias que temos lido ou escutado. Nosso Eu, em realidade, é o Eu de toda a Humanidade e o Eu Eterno; e todas as histórias são suas, porque Ele é o Unico Ser, que está vivendo todas as vidas do Universo num presente contínuo e circular. As lembranças do passado que o Daime nos traz, se efetivamente ele as traz e elas não são fantasías do Astral ou falsas interpretações do ego, são as sugestões, as representações pictóricas, que nosso Eu Superior nos faz para orientar o caminho que atualmente percorremos.
Importa pouco se estas visões são realmente retalhos de vidas passadas de um espírito individualizado ou sonhos ou imagens simbólicas, arquetípicas e coletivas, cenas do Teatro Divino; o que importa é a mensagem do subsconsciênte, do Supremo Artista Criador, que nos chega através do episódio, aquilo que nos faz refletir para endereçar e animar nossa caminhada ao que é nossa necessária missão no engranaje cósmico, por modesta que seja; e não para inflar ainda mais nossa autoimportância presumindo de ter sido Salomão, Elías, Saint Germain, ou a soma sacerdotisa dos Incas.

Se damos a nossa consciência tamanho e visão de partícula subatómica e com ela contemplamos isso que chamamos nosso corpo, vemos, que, em última instância, a matéria que nos envolve e na qual residimos, está conformada por uma dança rítmica e geométrica de pontinhos bipolares de luz que contêm informação. Por aí acercamo-nos a nossa essência: luz mental carregada de informação sonora, que combina-se "ad infinitum" para gerar mais informação: O interminável jogo do Ser autoconhecendo-se.

Nossos genes são microuniversos que contêm em si, como cada parte de um grande holograma, toda a informação que o Ser gerou desde que o primeiro gene humano fué usado como veículo da Consciência Divina. Há uma correspondência entre os chakras humanos e os filamentos luminosos que compõem o DNA: à medida que vão-se alinhando ordenadamente nossos chakras, comunicando-se consciêntemente e acendendo-se, também no inframundo genético vão-se alinhando, comunicando e acendendo mais filamentos de DNA, e a ingente memória cósmica ou Arquivo Akahico Coletivo e nossas infinitas identidades eternas, e a informação divina contida nelas, estará a nossa disposição, da mesma maneira que a ingente Rede Internet e todos seus universos de informação humana despregam-se ante nossa tela quando aprendemos a utilizar corretamente os comandos de um computador...
…No entanto, nosso DNA humano está cheio de virus, os virus que contaminam o discurso do decadente sistema que nos informou e que ainda nos informa e influencia, tanto desde fora, como desde dentro, desde nosso físico, emocional e mental concretos. Precisamos morrer para a vida comum e renascer como almas, para obter um novo e purificado código genético, que se corresponde com os paradigmas do Novo Tempo.

Assim foi como todos os grandes Budas se iluminaram: Saindo da vida “normal e comum”, retirando-se ao deserto interior e ao silêncio, se identificando cada vez mais com a pureza da alma, substituindo suas células densas pelas que conforman um corpo de luz com o qual elevar-se a sua Mónada. Viver na Mónada é viver a iluminação.
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Para percorrer ese Caminho Evolutivo, hai que deixar totalmente de prestar atenção ao Mundo de Ilusão dos corpos densos da personalidade, do ego, e só prestar atenção ao QUE NA REALIDADE SOMOS calar, se auto- observar, orar, servir abnegadamente, coligar-se com a hierarquia dos Seres Divinos, é a chave. Ante essa boa disposição nossa, Eles reorganizarão as nossas potências para levar luz até à mais escura das partes do nosso Ser, Essa é a a Missão de Amor e Redenção de todas as Consciêncisa, de qualquer grau. Os maiores talentos que ainda temos de adquirir, porque nos correspondem, durmem em nossos infernos interiores. Até lá debemos descer para resgatá-los.

E a propósito da missão: Convém que recordemos que rarísimo é o trabalho realizado por uma sozinha célula. Geralmente foram destinadas, desde antes da encarnação, um grupo de almas do mesmo raio ou de raio afín, que hão de se encontrar e trabalhar bem unidas para formar um órgão que realize uma função. Temos que estar atentos, abertos e ativos para reconhecer com o coração, a nossos possíveis colaboradores, para poder solidarizar-nos primeiro e nos associar depois com eles de maneira eficaz no momento oportuno. Há muitas formas e graus de comunidade construtora de um mundo melhor.

Já seja usando um estimulante psicoactivo como medicina para os mais doentes e alienados aprender, emotiva e intensamente, a orar, meditar e autolembrar-se, ou não o usando se não é necessário, um verdadeiro guerreiro ou guerreira da Luz deve ser capaz de seguir o caminho, tendências intuitivas ou vocação innata que têm vibrado amorosamente em seu próprio coração desde sempre, já que o amor é o cauce da consciência; e convém- lhe confiar em seu intuição para se abrir aos sinais e os encontros mágicos que A Vida porá ao seu passo; encontros nos que A Vida se revestirá de variadas formas para lhe entregar suas instruções e as ferramentas com que realizar sua missão, a fim de que, quando já esta esboçou-se claramente, possa o Servidor da Luz se entregar ao serviço transformador de si e do mundo, até o fundo e sem a menor sombra de dúvida, rebeldia nem desvio, aceitando disciplinadamente os retos, as dificuldades, as derrotas, os reconhecimentos do imperfeito, a correição, as demoras... e o respeito à organização natural com que se lhe apresentou a equipe destinada a realizar a funçao de todos, sendo capazes de enxergar à Vida, Deus, dentro de todos oss camaradas, já sejam subordinados, iguais ou chefes, e confiando neles como se confia na própria esposa ou nos filhos ou, melhor, em si mesmo.

Quando hoje, tantos anos após recebé-los, transcrevo estes conselhos do Padrinho, sinto que, ainda que tenham valor universal, são também uma receita específica para curar a doença espiritual particular que aquele grande sanador descobriu em minha própria alma quando fitou-me até o fundo, com seu olho sábio de Homem Realizado... minha mente vagabunda tem precisado estes sete anos para aceitá-los, digerí-los e comprovar, ao longo de muitas outras experiências, que efetivamente, são medicinas que meu ânimo precisa. Peço a Deus, e ao espírito do Padrinho em Ele, que me dê valor, vigília constancia e energia para os pôr em prática já, e com todas minhas possibilidades. Escrevo-o …casualmente? no Dia de San João de 1996, a grande festa do Povo de Juramidam.


Apesar de ter tido relativamente pouco contato pessoal íntimo com o Padrinho -sua doença mantinha-o algo retirado e todos o amabámos e tratávamos de não lhe atrapalhar- o ví muitas vezes em minhas mirações. A Ayahuasca facilitava o desdobramento astral e a comunicação telepática. As sessões estavam cheias dele.

...Ou, melhor diria, cheias de sua Identidade Cósmica, facilmente comunicável por ressonância quando o trance do Daime nos fazia atingir, ainda que fosse minimamente, a dissolução das falsas máscaras da personalidade que tem tampado tanto nossa própria Identidade Cósmica, que nível de Mónada é a mesma do Padrinho, e a de todos os Mestres, já encarnados ou ascendidos, e de todos os seres realizados de todas as dimensões, já que não existe senão um Único Ser, Mestre de Si Mesmo, em todo o Universo, e Nele estão contidas todas as individualidades -ou personagens que representa- ao longo de Sua eterna manifestação em todas as vidas destas personagens Suas.

Igual que só há uma água no Planeta Terra, ainda que parte dela esteja fazendo de mares, parte de rios e lagos, parte de gelos, parte de nuvens e vapor atmosférico e que outra parte conforme o volume principal dos corpos de todos os seres vivos... Em qualquer molécula desses estados de manifestação da água, encontra-se a mesma faísca divina e a mesma percepção e memória de Si mesma que se encontra num poderoso Arcanjo, a Suprema Consciência do Elemento Água Planetãrio, que rege todas as transformações, a suprema organização e a evolução viva deste componente da eterna Energia Divina. O Elemento Água é o mesmo que, a um nível menos material de vibração, conforma todo nosso Mundo Emoçional ou Astral.

Sebastião Mota sabia ésto porque ERA, e assim prometeu a seus sucessores e discípulos que estaria sempre com eles, se ressoavam com ele para valer, através de todas as dimensões da Eterna Existência, unidos no mesmo Espírito. O Padrinho inclusive acrescentou que no dia em que seu povo conseguisse deixar a um lado a desvalorização do irmão e começasse a viver realmente em harmonia, ele regressaria entre eles, para renovar e actualizar sua Doutrina, como Jesús tinha feito com a Lei dada por Moisés aos judeus.


26- A RAINHA DA FLORESTA

A maioria das vezes que contatei-no nas minhas trances, o Padrinho não estava só. Acompanhava-o sempre uma dama de resplandecênte fermosura, ainda que vestida de maneira muito singela. Quando se dirigia a Ela, Sebastião Mota parecia um rei antigo, como aquele corajoso e idealista Rei Dom Sebastião, de tanta saudade para os portugueses.
O Padrinho parecía o mais cavaleiroso rei cavaleiro, se dirigindo à emperatriz mais alta. Ela era a Rainha da Floresta, sua ánima Arquetípica, sua Lua, a Senhora da Água. Sua Virgen, sua Mãe Divina, ou Aspeto Feminino de Deus, a mais entranhável forma em que um homem pode amar a Deus com emoção e pensamento, antes de transcender toda forma, toda emoção e todo pensamento.

Grande, extraordinária mulher deveu ser a Madrina Rita, para que seu amor e sua ecuanimidade inspirassem em Sebastião Mota tal adoração pelo aspeto feminino da Divinidade, o qual podia espelharse na alma pura que assomava aos olhos de sua parceira. Sempre há uma altísima mulher inspirando a um grande homem, como mãe, ou como amante, ou como musa...
Benditas sejam todas as mulheres que sabem fazer-se sacerdotisas da Vida sustentando com firmeza Seu arquétipo na matéria, para que o lar seja um templo onde cada membro da família possa religar-se com o mais elevado de si através da litúrgia da perfeição no amor, na singela harmonia quotidiana bem consciênte, e através da nossa fussão ou casamento alquímico com a parte pura de nossa alma, que geralmente acabamos descobrindo refletida na alma complementar, a dessa pessoa amada que habita o corpo de carne e osso de sexo oposto que nos acompanha e que, a pesar de conflitos, choques e até separações, a pesar de ver e conhecer claramente nosso lado escuro, sempre nos aceita, apoia, tolera, consola, acredita em nossa evolução, coopera em nossa missão vital.

Há períodos predominantemente femininos ou masculinos na História: Durante os femininos se gestan as ideias e sentimentos matrizes de um mundo novo, em complementar oposição pacífica ao mundo velho. Isso faz- se na penumbra; delicada e caladamente, como em uma sementeira, e vão-se regando amorosamente as plantinhas que desabrocharam.

Durante os períodos masculinos, aqueles paradigmas que melhor se desenvolveram são real-izados, ou alçados desde o ventre feminino do subsconsciènte da Humanidade ao mundo real do nosso plano tridimensional de manifestação
Isto é, os material-izamos sobre a terra, depois de roturá-la, após os plantar, adubar, arrancar com mão de ferro as más ervas e colheitá-los; tudo isso baixo o ardente sol, testemunha de uma concorrência durísima entre as jovens mudas ou modelos mais poderosos de desenvolvimento humano, até que um deles consegue adueñarse, sentar seu hegemonía sobre a maioria do campo e seu estilo... e após dar fruto, agostar e decair, corromper-se, para que outro ciclo de desenvolvimento algo mais próximo à ideia da perfecção do Plano Cósmico para esse momento, possa se manifestar em seu lugar.

Este Novo Ciclo em que estamos, esteve atér agora gestando-se à sombra, na matriz da Imaculada Concepção das Formas, o aspeto feminino ou Inteligência Criativa da Trindade Logoica que conforma o nosso Ser Planetario, que sempre está empenhado, como qualquer ser divino, na tarefa em melhorar suas criações... Agora mesmo estamos iniciando, com o final do Segundo Milênio, um período predominantemente feminino, cujo papel principal consistirá em equilibrar, com sua intuição conetada, o excesso de intelecto denso e concreto ao que temos chegado com nossa evolução anterior. O Novo Momento Evolutivo exige agora um acordar do coração, tanto nos homens como nas mulheres, as quais, após masculinizar-se bravamente em Occidente, dominando as fraquezas da emocionalidade inferior e exteriorizando seu guerreiro interno para exigir seus direitos, começam a descobrir de novo a grandeza de sua Feminidade e a reasumi-la com livre consciencia e sem molezas.

O filho do novo equilíbrio entre cabeça e coração, será o desenvolvimento da sabedoria intuitiva nas vanguardias da Humanidade. Aquarius é, realmente, Aquária neste começo da Transição a um mais alto patamar da Consciência.

Um sempre ESTá no Ser, é inevitável, mas quando, ademais, um É no Ser (Ser é algo que requer a consciência integral de SER, não se pode SER inconscientemente, num Universo Mental), basta com evocar (imaginar, dar forma no mental), ou invocar (chamar por seu nome a alguma Energia Consciênte que se supõe já definida nos planos sutís)... a qualquer dos Seres, Irmãos Maiores nossos, que integram a Hierarquía da Consciência do Ser (que é Nosso Ser), para se dar conta de que absolutamente todo O Todo reside e tem residido eternamente em nossa Essência imortal, na qual Todos somos Um.

Esta é a base do poder mágico de manifestação: Nosso convencido chamado consegue que o que, desde sempre, tem existido em nós -todo o qual se acha contido no Plano Cósmico de Evolução-, precipite-se, (se apresente ante nossos sentidos como posibilidade de materialização).

Porém, a condição para tal ato mágico é que nosso todopoderoso subsconsciênte, (que é a Identidade Astral do Ser Humanidade), tem de evidenciar sem dúvida alguma, com a maior FIRMEZA, que, quando evocamos ou invocamos, sintamos nosso Poder Divinal com absoluta clareza espontánea e com absoluta segura confiança no Que Realmente Somos... Isto é, com a mesma segurança evidente com a que que sentimos normalmente que somos capazes de converter nosso pensamento em palavras faladas ou escritas...

Eis o que distingue a expressão segura e firme do adulto, quase automática de tão fluída, da vacilante da criança, a qual, quem escuta, pouco diferença se está fantasiando ou realizando... pelo que não lhe faz muito caso a maioria das vezes. Da mesma maneira reage o Subconsciênte Cósmico ante a maioria de nossos infantis caprichos, rara vez inteligentemente desejados e menos ainda, mantidos firmemente no tempo.

- "Cada qual merece o que sonha" - dizia o poeta colombiano León Octavio Osorno... O Universo sempre nos responde, envolvido em qualquer disfarce com que queiramos lhe invocar, se o chamado parte do mais autêntico e seguro de nós mesmos. As teorias fundamentais da Física Quántica atual fazem qüestão de que O OBSERVADOR CRIA A REALIDADE SEGUNDO A ESTÁ OBSERVANDO, modelando-a com as expetativas subconsciêntes ou consciêntes que projeta junto com sua observação.

No mental mágico cheio de segurança em seu EU SOU do Padrinho, e na sua imaginação embelezada pelo amor de sua esposa e da misteriosa majestade da selva em que nasceu… sua Anima, sua Dulcinea, seu próprio Feminino Interno, a parte mais pura da alma de Sebastião, era a Senhora de sua Inspiração, mensageira intuitiva do Plano Cósmico, como também tinha sido para seu Mestre, Irineu Serra, a Sua Própria desde que a Senhora se lhe apareceu sobre uma canoa, que navegava pelo rio da miração. E como eles, eu também descobrira, nas visões do Daime, a minha Amada Interna, que era o mesmo Espírito Feminino do Eu Sou que Somos, O que promove o amor fundamental de um homem pela Vida Mesma, ao mesmo tempo em que por sua dupla complementar, seja interna ou externa, em cuja Essência reside ese Espírito: Santa María, Amazona Aquaria, dizia-lhe eu em minhas êxtases, depois de receber seu Chamado.
... E outras vezes Ela aparecia como a Senhora da Cachoeira, Vénus-Oxúm, a estrela-guia de meus caminhos de peregrino, minha musa, minha professora, Yemanjá, Isis, a Guardiã do Conhecimento, A Senhora da Água, Gal, Alma-Lluc, Regina Maris, a Mãe da Luz, a Rainha dos Anjos e dos Elementares...
A Virgen Mãe Terra, a Natureza, a Maga, a Imaculada Concepção das ideias, das imagens, o raio de luz que se filtrava para minha solidão entre as copas da selva, A Senhora do Subconsciênte Emocional, a Soberana da Floresta Mental. Anima Mundi, Gaia-Flora-Shavastia-Pachamama, o arquétipo dos arquétipos, A Rainha informe das cambiantes formas, a metáfora das metáforas, a Deusa Mãe, minha eterna companheira, confidente, cúmplice, conselheira, minha alma gêmea, meu amor. A Vida.

A Vida é o eterno ato de amor do Ser Consigo Mesmo.

A Rainha da Floresta era a supraentidade principal do Povo de Juramidám, raro era o hino em que faltasse seu nome; Entendia-se que a Selva era o Coração do Mundo, a Porta do Astral, e que o coração do Astral era a Senhora do Supremo Amor. Explorador e canoeiro, o Padrinho passou a última metade de seus anos penetrando a Selva do Subconsciênte sobre as águas do Daime, ao igual que tinha passado a primeira metade navegando a Amazônia de igarapé em igarapé... Um aventurero nato que, quando a selva física já não teve secredos para ele, cruzou a porta interdimensional e foi embora a navegar pela selva astral, fazendo aliados e construindo colônias também nela.

Com ele acabaram-se os tempos heróicos, idealistas e românticos do Povo de Juramidám e talvez também da Amazônia: A última vez que conversei com ele em Mapiá, acompanhado por meu anfitrião, seu compadre, o Mestre carpinteiro Dom Manuel, o Padrinho achava-se só no recanto afastado onde se construíam as canoas, pelo velho procedimento de queimar e esvaziar um grande tronco de árvore, e olhava-as tristemente, como os caballeros de antanho deveram olhar a seus amados cavalos no dia em que o mundo começou a se encher de veículos a motor. Antes de ir embora, pediu-nos nossa ajuda para revirar uma canoa não acabada de construir, mas que já tinham abandonado... e que se estava enchendo de terra e residuos vegetais que acabariam por apodrecé- la. Agora tudo quería-se comprar fora!.

Meses após, encontrei-o de novo no Ceu Do Mar, Colônia do Santo Daime em Rio de Janeiro:

-Padrinho, Como vai essa vida? - perguntei com carinho, beijando sua mão para pedir-lhe a bênção, segundo o velho costume amazônico.

- Pouca vida fica já, pouca vida...- respondeu-me beijando a minha; e, efetivamente, escassos dias mais tarde, o 20 de Janeiro de 1990, enquanto todos os guerreiros e guerreiras do Daime cantavamos celebrando seu Santo em todos os templos do Brasil, o Padrinho subiu ao encontro de sua Rainha Inspiradora como um caudilho triunfal, a entregar o cetro do reino construído na selva, a ofrendar a Essência do Sonho Realizado e do Arquétipo plenamente manifestado.

O último ato de serviço do Padrinho Sebastião Mota foi participar em um hinário em uma Igreja Daimista que se tinha separado, tentando tender uma ponte de confiança na reconciliação entre os irmãos que escindían sua Nação Espiritual com suas lutas de poder.


27- A INSPIRAÇÃO

Após uma dura adaptação a Mapiá, que uma grande parte dos visitantes que chegaram comigo não foi capaz de resistir -viver ali supunha participar continuamente em um esgotador trabalho de derrube e trozeamento de árvores e outras mil operações dirigidas por homens muito rudos-, consegui ser mais ou menos aceitado pelo setor do Povo de Juramidám que mais se relacionava comigo. Aqueles ásperos gigantes que extraíam tudo da selva, desconfiavam, e com freqüência menosprezavam, aos doutorzinhos da cidade que chegavam ali carregados de bens de consumo e ideias organizativas e que, por causa de seu nível cultural exteriormente mais alto (chamavam cultura à programação do Sistema), pretendiam fazer-se os amos, ainda que sua eficácia no trabalho solidário não chegava nem a um quarto da talha da de um pioneiro amazônico.
Eu fiz muito bons amigos, especialmente entre os autênticos homens de selva, que eram os que mais naturalmente tinham entrado na mística do Daime, já que suas mentes eram primitivas, porém, puras e corajosas, enquanto o pessoal das urbes tendia a misturar tudo com suas paranoias cidadãs, entre as quais, a mais marcante, era o instinto de competição individualista... isto é, trepar por acima de todos os demais.

Não eram poucas as pessoas sensíveis que acabavam por receber algum hino dos seus guias astrais no trance do Daime, hino que normalmente indicava à cada um aquilo que mais tinha que trabalhar, assinalando ao mesmo tempo seus melhores caminhos, ainda que todos eles eram muito simples e pareciam-se bastante (em uma primeira audição), tanto na letra como na música, e o verdadeiramente diferente era o ritmo da vibração que continha cada um, ou seja, o deva e suas inspirações. Um hino pode arrancar de teu interior um torrente de imagens-lições e, um momento mais tarde, as mesmas estrofas talvez desencadeiem toda uma cachoeira mental de sentidas intuições, com um caráter completamente diferente daquele que predominou nas anteriores.

É curioso que, ainda que os daimistas anglosaxões já têm recebido do Astral hinos em inglês, os de fala castelhana os recebem, até agora, em português, que, por certo, é outro filho do latim mais musical, suave, maleável e fluinte que o espanhol; tanto assim, que na Idade Média, quando na corte de León já todo mundo empregava o récio e viril castelhano como língua oficial, a poesia lírica e amorosa dos trovadores, continuou fazendo-se, durante mais um século, em galaico-português, que se considerava ideal para ser declamado ou cantado. Alguns daimistas hispanos temos feito a experiência de traduzir hinos ao castelhano para cantar com nossos amigos, facilitando-lhes seu entendimento, mas, indefetivelmente, eles mesmos acabam por nos pedir que os cantemos juntos em português, ao que a qualquer espanhol se adapta rapidamente, encontrando gosto e graça em entoar nessa língua irmã, tão doce e feminina.

Eu não recebi nenhum hino, senão um poema. O transcrevo aqui em portugués, ainda que ele estava no galaico-portunhol sintético com o que eu pensava no Brasil, tal como me chegou, com todo seu sabor original, ainda que nem aos acadêmicos galegos nem aos portugueses parecería-lhes corretamente escrito. Porém, é fácil comprender o pouco que eu importava-me das academias no meio do universo natural da Amazônia, praticamente sentido como outro tempo ou dimensão, outro espaço sideral, o invés do planeta, o outro lado do espelho... Este poema, em fim, dá uma boa ideia da exaltação emocional com que eu vivia o ambiênte místico-mágico de Mapiá.

TRADUÇÃO MUITO LIVRE:


EU NÃO QUERO TER VONTADE

Eu nao quero liberdade, minha vontade é de Deus,
Já não tenho mais vontade, fora dos desejos Seus.
Os desejos dá Rainha são os sonhos de meu ser,
toda a liberdade minha se ennobrece em A server.

Eu nao quero liberdade, eu não quero mais escolhas,
todo meu prazer agora é deixar a Ela fazer.

Conduzido pela Virgem, eu nao sinto mais fraqueza;
Ela me tornou completo, Ela virou-me firmeza. .

Dando-me a beber ou Daime, disolveu miñas correntes;
Os anjos fizeram festa junto as selvagens nascentes.

Com meu fação na destra, ante os caboclos do Astral,
nomeou-me defensor do seu Reino dá Floresta.

Seu abraço vegetal acendeu meu olho interno,
para explicar-me o passado, minha busca, meu inferno.

Cada um dois meus amores foi reflexo dá Senhora,
espelho, ilusão, chamada, saudade dá Deusa Amada.

Ela é a mais pura emoção, Ela é todas as damas,
a Voz do meu coração, minha Eterna Enamorada.

Ela é Meu Ser Real, o mistério do Uni-Verso,
sem mais veus, sem mais saudade, o Cosmos feito Unidade.

Miña Mãe, Irmá, Ideal, minha encontrada metade,
todas as belezas juntas, A mais Alta Majestade.
Sol, Lua, Estrela, Galáxia, minha lámpada interior,
o fogo que me consome, a Origem Pura do Amor.

Mapiá, Set. 1989


É muito difícil dizer se este poema foi ou não um presente de forças alheias e superiores do Astral ou de minha própria inspiração subconsciênte; eu estou convencido de que as palavras "próprio" ou "alheio", "superior" ou "inferior", só servem para nos entender superficialmente no mundo da ilusão dual da Dimensão Física e do Astral Inferior, porém, daí para acima, isto é, da consciência velada à consciência clara, a separatividade individual não mais existe, e tudo é naturalmente Um e a mesma coisa.

A mim não me parecia que aquela maneira de receber visões, hinos e revelações, que a gente mais sensível tinha durante o trance de Daime, fosse muito diferente da percepção estética intuitiva e do entendimento imediato, ainda que não lógico, do sentido essencial das imagens subconsciêntes que os artistas estamos acostumados a ver aflorar do nosso interior com o nome de inspirações criativas; Um verdadeiro artista é sempre um canal bem afinado -No Brasil diría-se um "medium"- entre seu consciênte masculino externo e seu arquétipo subsconsciênte da Musa, isto é, seu feminino interno inspirador (só é uma qüestão de ajuste de termos se o artista é uma mulher).

Mais genial será o artista quanto melhor ligado com seu Gênio Interno e mais sintetizado com sua Musa; mais original, quanto mais identificado sinta-se com sua Origem (e quanto mais fluidamente ele incorpore, ou manifeste, ou expresse, seus arquétipos especificamente innatos ou originários, seus "Orixás", o qual marca o estilo pessoal profundo de cada mestre. Assim era como o Padrinho manifestava a São Sebastião-Oxossi-São João Batista). Um "Artista Divino" é um Mestre que se autorealizou, fazendo-se um com o mais autêntico e real de si mesmo através da Via da Arte.

Ligar com o Gênio Interno tem, como tudo, vários níveis; em cada um deles, O Gênio se mostra baixo um aspecto ou disfarce, ou personagem diferente:

No primeiro nível, físico, mostra-se como o desafio que se lhe propõe ao artista, ao construtor de si mesmo, ao guerreiro, ao mago… de criar com suas mãos uma nova harmonia do tipo que seja, sobre o plano em que vive em um corpo, vivificando-a e corporizando-a; dotando-a, ao mesmo tempo, de um espírito original, a partir de uns quantos elementos materiais, quanto mais escuros e humildes melhor, para tratar de comprazer a Seu Ser com uma nova obra excelsa saída de suas mãos. Um bom desafioo tem de ser um desafio genial.

No segundo, emocional, o artista enfrenta-se à obra em processo de maneira muito íntima, estabelecendo-se uma clara dualidade obra-executante na que o sentimento impera; é a parte da confecção da obra na que há uma busca, uma ânsia, uma dúvida, e um impulso penetrante que tem muito de sensual. A energia flui, diretamente, desde o centro do sexo, sutilmente excitado e concentrado, até o centro da frente, atrás da qual se acha o Centro Piloto que coordena, e que dirige a mão, a qual segue com ritmo as compulsões do sentimento... Uma obra genial contém uma profunda busca e uma enorme tensão emocional.

No terceiro, inteletual, porém, intelectual sutil, o Gênio manifesta-se quando, no meio do maior problema técnico e psíquico, justo no momento em que o pintor não é capaz de ver ainda uma solução harmónica para o conjunto do quadro e tudo parece deslavazado... surge uma faísca adentro, um trovão lampejante de entendimento que ilumina o caos, e o executante "mira" o quadro. Esse é o momento em que se manifesta A Musa Amada. Todos os revoltos e enfrentados sentimentos da busca anterior ordenam-se então, sob um só ponto de vista harmónico e cheio de significação. Ela, o seu complemento interno, a Metade Oculta do que você é, inspira o entendimento do conjunto.
Isto é o afloramento súbito da análise intuitiva que tinha ido se processando por dentro, enquanto o autor enfrentava-se dualmente à obra, querendo-a analizar desde fora. Uma obra genial resolve todos seus enfrentadíssimos contrastes de uma, com um simples traço intuitivo.

Do quarto a o... digamos sétimo, ainda que é só um dizer, o Gênio se manifesta em seus níveis mais complexos e sutís, quase poderiamos chama-los espirituais, se o Espírito não o fosse tudo... Neste ponto, a obra só demanda acabamento, mas nesse acabamento, e em saber deter-se no ponto justo em que o Mistério se revela sem se desvelar, é onde se vê o nível de maestría do artista.
Chegando ao sexto nível, o artista já não é mais um artista somente, senão uma mistura de artista, místico, filósofo e cientista... um alquimista, um transmutador. Uma obra genial é matéria densa transmutada em Espírito vivo.

O Gênio-Gênio aparece, por fim, como o nível de tua consciência no que já podes contemplar as consciências parciais de todos e cada um de teus anteriores níveis, com uma consciência global, de conjunto, que as unifica a todas e na qual, cada nível é só uma função das muitas que compõem o mecanismo sutil de funcionamento da Mente Cósmica.

Uma obra genial é total, universal e cósmica; expressão de Deus actuando desde a mente e os sentidos humanos. E uma riscosa aventura humana, que qualifica toda uma encarnação, que converte ao artífice todo na sua obra e à sua vida na essência da obra. …Porque a maior obra de Arte é a própria transformação do operário num criador imortal, divino… não ante a galería, senão ante o Espírito; e as obras externas só são o espelho-pretexto para sua transformação interna.

O mito grego de Prometeu ilustra muito bem o arquétipo do Artista Divino, que se põe em risco absoluto, realizando a tentativa de levar luz aos homens através de sua obra, ainda que tenha que roubar o Fogo Vital do Céu. Deus é a Criatividade Mesma e nós somos seus filhos jogando o Seu Jogo: Este mundo não é senão uma escola de artistas cósmicos, onde treinamos o manejo da mais limitada das energias (a matéria), a fim de conseguir o domínio de nosso poder innato de Logos criadores e sustentadores de mundos, que é nosso destino de Espíritos Multidimensionais Adultos… de Humanos realizados totalmente.

Nessa altura da Pirámide do Conhecimento, já não existe diferença alguma entre os que acessam à iluminação por uma ou outra cara, uma ou outra via. Quando chegou-se ao topo, as escadas, os metódos que se usaram para subir, abandonam-se, e o peregrino ascende ao cume por seu próprio pé.

…No entanto, outras pessoas diziam-me que meu poema não tinha nada a ver; que os hinos se recebiam como um "insight", completos, totais, acabados, em português brasileiro e com sua música, sem possibilidades de correção ou aperfeiçoamento posterior; e nunca de maneira nebulosa, a pedaços que vão-se completando depois, como costuma se manifestar o fenômeno de inspiração artística.

Talvez penso que seguramente aquelas pessoas tinham razão, mas então a mim isso não me acabava de convencer. As melhores obras de inspiração artística eram puros insights, que fluiam na treinada mestría expresiva de seu criador. Os pintores contemporâneos apreciavam mais um primeiro esboço em estado puro que um trabalho aperfeiçoado a base de relamimentos e correções, o que costuma lastrar de matéria pesada sua espontaneidade; Mozart escrevia de seguido a música que ouvia em sua mente, dizem.

A maior aspiração da Arte atual reside em ver ao homem expressando-se espontánea e criativamente, não desde o que foi aceitando do variado discurso do mundo, nem das fantasías da sua imaginação, senão o que descobriu como VERDADE INDUVIDÁVEL desde seu Eu Autêntico e Profundo, além das fórmulas estereotipadas que lhe foram impostas em sua aprendizagem social, e que se perpetuam pelo uso da linguagem, a lógica... e pelo medo a não ser aceite, se o artista sair dos postulados artísticos ou cientistas tidos como mais progressistas pela valaorização os “entendidos” ou daqueles que, simplesmente, conseguiram pôr-se de moda, ainda que não os compreendam nem seus criadores.

Jamais ví que o Daime tirasse do interior de uma pessoa algo que não tivesse estado ali antes. Nenhum espírito que eu tenha visto se incorporar sobre um medium mostrava um nível cultural ou de inteligência superior ao habitual neste, conquanto parecia agudizar e fazer mais fluída a manifestação de suas próprias potências internas, como quando, por efeito de uma droga ou do álcool, o indivíduo consegue se expressar direto desde seu inconsciênte, sem as limitações e inhibições da racionalidade e sem bloqueios ou timidezes emocionais (O qual era o objetivo principal dos artistas Surrealistas europeus de princípios do século XX).

Fenômenos como começar a falar ou a escrever em línguas estranhas ou a respeito de situações históricas ou dados culturais que não têm nada a ver com a formação de um, só podem-se explicar pelo contato telepático ou ressonância na Essência com as egrégoras do Subconsciênte Coletivo da Humanidade que todos portamos holograficamente em nossas profundidades, lá onde a individualidade se dilui (O Registro Akáshico tão mentado pelos esotéricos)..ou como a egrégora ou a memória genética racial ou familiar... ou como relembranças de vidas passadas... Ainda que, então, eu estva bastante convencido, de que não é minha efêmera personalidade a que recordava ante-vidas, senão minha Identidade Coletiva Regente: O Ser Humanidade em mim, que viviu todas as vidas da Humanidade e guarda memória.

Faz muitos anos, fumei por primeira vez um cigarro de maconha, um vaciado, nas Ilhas Canárias espanholas. Encontrava-me desenhando quando começou o alcaloide a fazer efeito em mim. De repente, ví claramente projetado sobre o papel o desenho que acabava de esboçar minha intuição criativa na mente. Estava tão claro como se fosse uma diapositiva, um “slide”, desde minha frente projetada; tanto, que não tive mais que pasar -lhe a mina caneta por cima e calcar-lho como se calca um desenho com papel transparente ou papel carvão.
Excitado pelo espanto, passei toda a tarde desenhando daquela maneira, mas o fenômeno já não repetiu- se jamais de uma maneira tão consciente, por muito que fumei maconha, pois suponho que já estava incorporado e automatizado. Deixei de fumar para limpar minhas percepções, e um tempo despues repeti, mas não tornei a captar a projeção, ainda que sim a fluidez que dava estar criando tão espontaneamente como se eu calcasse. Mais tarde decatei-me de que o que se ganhava em fluencia, perdia-se em exatidão e perfeição, que parecem atitudes mas próprias do hemisfério esquerdo lógico e medidor, que do direito intuitivo e lúdico.

Aquilo me fez pensar muito sobre o processo de criatividade artística e isso que chamam revelações ou visões. Continei achando, durante anos, que não estavam muito claras as fronteiras entre ambas. Hoje penso que minha personalidade física, emocional o mental não pode criar nada, só repeter o que aprendeu e conhece. Quem pode criar é a Mónada, o espírito individual, se bem conetado com a Fonte de toda criação.

Quanto a desenhos, estou acostumado a deixar que os conteúdos de meu subconsciênte tomem forma no papel, de uma maneira quase automática, com mina caneta ou marcador, e só quando já se pode adivinhar uma forma, a acabo definindo melhor com poucos trazos. É uma técnica que eu aprendi dos Surrealistas, mas que também emprega o Espiritismo na preparação de mediums, treinando-lhes assim na Psicografía, ou escritura automática.

Desenhando deste jeito, começei em Mapiá a receber inspirações. E eram todas como cartas de um Tarot... O Daime atuava como estimulante de minha inspiração e um torrente de insights de imagens simbólicas ia a minha mente e produzia fáceis e rápidos desenhos sobre minhas teias, os quais me assombravam por sua segurança de execução e profundidade de conteúdo metafórico-mítico. Era uma fluidez muito superior à que tinha tido em meu grande mês de criatividade na florida finca "Shavastia", em Goiania.

28- O TAROMIDÁM
Nos momentos que me deixava livres o duro trabalh
o de Mapiá, fiz um primeiro baralho de cartas para todo o Povo de Juramidám e o entreguei ao guerreiro que tinha sido meu introdutor e meu primeiro amigo em Mapiá, desde antes, inclusive, de ter chegado à Comunidade. Era um chileno capaz de fazer funcionar um motor com arames e astilhas, continuamente dividido entre sua fascinação por todo o ambiente do Daime e sua ânsia de sair de ali de uma vez, e viver de novo sua liberdade individual sem tanto fiscalzinho nem tanto empecilho regulamentar.
Confessou-me estar convencido de que eu estava louco e pode que não lhe faltasse razão... ainda que também é possível que estivesse olhando-se em minha teimosadefesa da minha egoica dignidade individual como em um espelho, no qual contemplava seu próprio conflito interno. Também eu me projetava nele e descobria cuan fortemente rebelde a suportar bridas de qualquer tipo era nossa alma hispana de potros bravíos.

Já desde o primeiro momento percebi que nem o nome das cartas, nem sua numeração, correspondiam-se com as do Taró Clássico, mas não quis modificar nada, porque aquilo que me tinha chegado eram insights intensamente sentidos e fluidamente recebidos.

Já que era diferente, denominei TAROMIDÁM a meus 24 Arcanos Maiores em honra a Midám, o Logos Filho, o Mestre Interno em linguagem local. O segundo baralho melhorado de cartas foi feito especial para o Padrinho Sebastião, utilizando suas próprias palavras e imagens habituais.

O Padrinho encantou-se com o Taromidám e esteve nesse dia muito alegre e confidencial comigo. Então, eu ousei pedir-lhe que se considerasse meu trabalho de desenhista como contribuição útil à estensão da Messagem Essencial da Comunidade e não, como julgavam alguns, um jogo de cidade ocioso e improdutivo.

Assim, roguei-lhe que me desse um litro de Daime -Eu tinha direito a ele, acrescentei, já que tinha participado no feitío- e um pouco de tempo livre, para confeiçoar um Taromidám que levar pelo mundo, no que trataria de sintetizar a essência do aprendido em Mapiá, somado aos ensinos de quem seguia considerando meu maior Mestre, Carlos Pacini, cujo abraço acedera a receber o Padrinho por meu intermédio. Por então eu ainda não percebia que, quando se chega ao nível de Mestre, todos eles são O Mesmo... e ficava comparando as cascas que envolviam-lhes.

O Padrinho ordenou gentilmente que me dessem a garrafa e me eximissem de alguns trabalhos; o que despertou mais invejas e concorrências entre o círculo dos espirítus adormecidos com os que, por causa de minhas próprias limitações, afins às suas, tinha-me tocado conviver.

Também foi mecenas desta obra Dom Manuel, o velho carpintero, colega do Padrinho desde a juventude de ambos, em cuja casa estava eu alojado; abençoado seja seu espírito onde for que hoje esteja. Ele brindou-me toda sua colaboração, aprecio e amizade para que eu fizesse o mais comodamente possível meu trabalho, e foi desse modo que pude retornar a meu amado oficio, meu caminho-coração, desenhando concentradamente de dia e de noite, à luz de uma fumeante lámpada de petróleo, sem deixar de dedicar muitas horas aos trabalhos comunitários, participar nos hinários ou arrimar o ombro no dia inteiro, quando tinha feitío ou colheita de feijão.


29- ASCENSÃO DA FORÇA

Sempre que podia, tomava ritualmente meu copo de Daime de amanhecida, e perto de uma hora mais tarde, quando começava a sentir a suba daquela poderosa Força desde o plexo solar à cabeça, agarrava meu fação e uma pasta com minhas cartas de tela, imprimadas com pintura latex branca, e partia pela trilha que se adentrava na floresta.

Ao chegar aos limites dos espaços devastados com a mata virgen, pedia respeitosamente permissão à Rainha da Floresta para entrar em seus domínios a fazer meu trabalho, e depois continuava com confiança. A energia ia subindo até que o guardião do umbral, mina controladora personalidade externa, cedia o comando de meu corpo e de minha mente à incorporação de meus próprios arquetipos originais subconsciêntes.

A primeira vez que eu tivera uma entrevista com um Guia do Astral, o caboclo Pirinám do Pará, incorporado na medium Dona Teresa de Icoarací, lá em Belem no 86, ele me disse:

- “Vejo a teu redor poderosos guias que te protegem, especialmente uma entidade feminina resplandeciênte. Pela vibração parecem-se a Yemanjá e a Oxossi, mas não são eles... são entidades de outro país, não os conheço”.-

Naquele momento eu não dava o menor crédito ao espiritismo, ainda que fascinava-me, como podem fascinar a um viajante os contos e lendas dos novos países que vai conhecendo. Parecia-me uma exótica comédia de expertos feiticeiros que logravam manter feliz e contente ao bom povão brasileiro a base de pura sugestão. Infiltrei-me pouco a pouco entre eles com a secreta intenção de desvelar as imposturas, acendendo, entretanto, como amável ajudante, muitas velas nas cerimônias sagradas...

Porém, o que finalmente descobri, maravillado, é que a Magia, por trás de sua ropagem folklórica, era a forma mais eficaz de psicologia profunda e a terapêutica mais liberadora que nos tinha legado a sabiduria do passado através das pessoas simples e puras do povo humilde e escravo, a quem lhes tocara o papel de transmissores. Uma ferramenta única de ordenação do laberinto da mente, a base de símbolos reconhecíveis e usáveis, para ajudar ao homem entrar em contato rápido, irracional, útil e prático com suas potências divinais.

Agora, graças ao Daime, minha razão discriminadora, o cão-cerbero inflexível da mente ocidental, acouraçado de materialismo pseudo-científico, retirava-se a descansar de sua borrachera de Ayahuasca, e no portão desguarnecido que faz de fronteira entre o consciênte e o subconsciênte começavam a aflorar, entre as néboas do sonho, os meus Guias Ancestrais, talvez os deuses arcaicos ou inventados de minha Galiza nativa: A luminosa Gal, envolvendo de prata as barbadas carbalheiras em noites de plenilúnio; o iniciador Lug, guardião do Caminho das Estrelas que mas tarde chamaria- se de Santiago; o solar Aurens, incendiando o oceano de reflexos dourados, frente ao Cabo do Fim do Mundo, baixo cujos alcantilados despediam o dia com seus cánticos as loiras sereias da Costa da Morte... e muitas outras entidades de nomes confundidos ou esquecidos, mas que personificavam, cada uma delas, um pedaço de minha eterna memória essencial, um resumo energético de cada experiência de manifestação.

... Até então só caminhara pela segura trilha feita pelo homem, atento a não me perder no imenso labirinto da selva e com muita prevenção contra as feras; mas, de repente, sentia que uma entidade primitiva, rude, um selvagem que nem quase falar sabia, incorporava-se em mim. Aquele Marte subconsciênte, talvez uma lembrança genética do homem prehistórico que em uma remotíssima encarnação tinha veiculado a mina Mónada -ou quiçá a personificação do arquétipo elementar que ainda hoje rege meu tálamo, meu cérebro reptil automático-, tomava conta de mim com um rugido e então eu sentia uma cachoeira de extraordinária força me penetrando, e meu punho fechava-se apertando duro o cabo do fação, que se tornava imediatamente um raio cortante, desafiador da fúria da fera mas ousada. Aí, eu sabia, sem a menor dúvida, que nenhuma serpente nem onça teriam ânimo para me enfrentar, e então abandonava a segurança da trilha, substituída pela confiança total no instinto da entidade acoplada À minha aura que comandava minha vontade, e deixava-me perder entre a maranha da selva.


30- TRABALHO NA FLORESTA

Durante dez minutos ou meia hora, deslizava-me silencioso e ágil como um animal entre cipós e matas exuberantes, sem precisar sequer me abrir caminho à fação. Introduzia-me na catedral vegetal onde os troncos projetavam até o céu suas nervaduras em colosais abóvadas de cruzeiría que mal deixavam filtrar raios de luz na penumbra... até que por fim encontrava, com absoluta evidência, meu lugar, o lugar de poder, que cada vez era diferente. E eu sabia internamente que ese, e não outro, era meu lugar; e que ele era tão seguro como se uma muralha invisível e circular me protegesse.

Naquele momento deixava o fação a um lado e sentava-me no solo, pernas e braços cruzados, vegetalmente relaxado, fundido e enraizado no seio cálido e úmido da Terra, prendido ao tempo do Céu, muito além do azul imaginável, por um fio de poder que antenava minha fronte... e já por fim acomodado, a penumbra parecia se iluminar por fluídos de luz que me chegavam das árvores, como se tivessem estado esperando-me até então.

Nesse instante, meu selvagem regressava ao Astral e outro de “meus eus” incorporava-me: o monge adolescente. Com o maior fervor, calma e devoção, absolutamente centrado no terceiro olho e sentindo-me tão leve e vazio como se minha matéria estivesse se desintegrando em uma pura dança remoinhante de electrons, focado todo eu em meu Verbo, sentindo o fogo que gerava-se em cada palavra, oferecia uma viva oração à Virgen Mãe Terra, cujos braços vestidos de follagem sedosa envolviam-me, rogando à Rainha da Floresta se dignasse enviar-me material para meu trabalho. E Ela enviava-o.

Vinham então sobre mim mirações tão intensas e luminosas que sentía-me quase levitar no ar, sentado como estava, leve, oco e traspassado pelo Poder, sem deixar de musitar as entranháveis orações aprendidas de criança, como uma landainha interminável que me ligava intensamente com a Origem de todas as energias. Minhas orações tinham-se tornado meu respirar, e meu centro respiratório já não estava mais nos pulmões, senão na base do nariz, ativando a pituitária e a pineal: Todo meu ser individual fusionava-se agora com meu Ser Cósmico em uma inspiração-expiração que, quanto mais profunda, lenta, sentida e desfrutada minha oração, mais clara e sensível a miração fazia-se.

Sentia-me rodeado de luz, envolvido em luz, penetrado de luz e todo eu era uma fogueira cálida de luz; deleitado por uma parte no prazer de ser tomado até meu último átomo pelo amor da Vida, e suportando, por outra, uma elevação tão intensa e acelerada de minha energia, que parecía-me que poderia explodir em qualquer momento. Luminosas geometrías coloridas dançavam dentro de minha mente ao ritmo de minhas orações, girando e girando e convertendo-se em formas reconhecíveis, até conformar uma carta completa do Taromidám que ficava gravada em meu cérebro. Às vezes mais outra, e até três cartas... que depois permaneciam se repetindo ante minha visão astral, enquanto eu agradecia uma e outra vez, com as mãos abertas e os olhos fechados, sentindo a todos os elementares da selva dançar alegremente, compenetrados com todos meus elementares internos, ao redor do fio luminoso e ondulado de meu agradecimento incesante, que me ligava ao Céu, ao mesmo tempo em que A Terra latejava baixo meu corpo como a pele morna, turgente e suorosa de uma amante; respirava em curtos e profundos intervalos pelo nariz o fogo rosa-violeta do ar, mas sabendo que era o ar quem, na verdade, respirava-me.

Via-me desde dentro e desde fora, penetrado por tudo e penetrando-o tudo, minha cabeça aberta como um cálice, gozando até o não-limite do amor com O Mistério, que me inundava de muitíssimo mais Conhecimento que o que podia assimilar, desbordando-me orgasmicamente, atravesando-me. Na miração, a bela Musa Amada, feita pura flama luminosa pressa em minhas entranhas, abraçava meu cérebro nu contra seu peito e também o coração e o cerebro, e o coração de cada uma de minhas células, consumindo sua matéria e transmutando-a... e toda a Criação falava-me intimamente ao cérebro e ao coração, e tudo quanto me falava era eu mesmo.

Ao cabo, tomava consciência de que a messagem já estava perfeitamente gravada na sua totalidade e que ela não faria mais que se repeter; e então eu lançava fluidamente meu primeiro esboço sobre as telas como quem pare, deixando para mais tarde o acabamento.

Levantava-me após, e despedia-me agradecido dos espíritos sábios das árvores e da terra que tinham-me acolhido e envolvido em sua amorosa rede de influências energéticas... uma das vezes decateime que meu guia subconsciênte tinha-me levado a escolher um lugar de poder justo ao pé de um super-grosso cipó de Jagube, escasíssimos já nos arredores de Mapiá, até o máximo rastrejados... e eu tinha estado, sem saber, sentado o tempo todo e apoiado de costas em seu alto e entortado talho, de musgos e líquens barbado, tal como um idoso duende do bosque. Quando o descobri ao me levantar, ainda em trance, vibrava transmitindo toda a sabedoria da selva por médio de luminosas ondas espirais de cores, que ascendiam e desciam desde suas raízes em terra até as altas copas ao céu livre assomadas e viciversa, impregnando de dourada claridade todo o ambiênte em torno com sua aura, como se ele fosse a antena de um emissor telefônico telúrico-cósmico.

Uma vez levantado, voltava a se incorporar em mim o selvagem, que fazia-me deslizar sem ruído nem vacilação pelos intrincados vericuetos do labirinto vegetal, até re-encontrar a trilha humana, guiando-me com absoluta segurança.

Retornando alegremente à aldeia, percebi em várias ocasiões que me desdobrava, não já num arquétipo, senão em dois ou três: Uma vez senti ao selvagem guerreiro a minha direita, sujeitando o fação com firmeza, enquanto a minha esquerda, caminhando etérea como se flutuasse, ia a Vénus das Cachoeiras, bela e delicada como um anjo, portando ao braço minha pasta carregada de pequeñas telas, instrumentos de desenho e ideias aquarianas. Amazona Aquária, a estrela-guia de meus caminhos de peregrino. No médio, eu sentía-me ao mesmo tempo dividido neles e como incorporando uma terceira personagem: um adolescente messageiro levando suas cartas de amor à Vida para quem quisesse recebé-las, escoltado por um anjo de ferro e outro de luz.

Por fim chegava ao limite do bosque e ali despedia-me da Rainha da Floresta cheio de agradecimento, retornando à minha personalidade externa.

Voltado de meus trabalhos na selva a Mapiá e à casa do cavaleiroso Dom Manuel, sentava-me à sua mesa e passava uma hora dando acabamento aos desenhos recebidos, enquanto o efeito do Daime ia baixando. Nunca como então abençoei o alto dom que supunha ter nascido com vocação de pintor, de des-velador do Mistério invisível na forma, e de ter desenvolvido aquela habilidade mágica, apesar de encontrar-me em um lugar onde não era talvez especialmente apreciada... Dom Manuel dizia-me que poderia chegar a sé-lo, se aprendia a talhar objetos e móveis de culto nas madeiras preciosas da selva, já que a arte de utilidade litúrgica é o único luxo bem mirado em uma sociedade que ainda se encontra na sua fase épica.

Havia no Templo e na Casa da Estrela dois fastuosos cruceiros de dois braços, talhados nas madeiras mais nobres, por um artista genial de cujo nome não guardei; quando os olhava durante os trabalhos, belamente ornados com círculos e estrelas, lembravamam-me as arcaicas cruzes ceremoniais que os celtas esculpiram em pedra irlandesa e bretõa para resumir nesse símbolo o equilíbrio cósmico.

Ante isso, eu refletia sobre como a sofisticada e decadente sociedade da que eu vinha, tinha ido transformando aquele primeiro conceito da Arte, que surge numa comunidade austera e natural como uma cara oferenda à Divinidade dentro e fora do homem, e como uma ferramenta ritual, simbólica e útil de identificação com o Inasível, como talismã de elevação emocional e ordenação mental do coletivo através da sugestão da forma... em algo que alguns críticos de Arte Contemporânea definem como "Aquilo que não serve absolutamente para nada"... salvo para epatar, ou seja provocar descaradamente um instante de leve escândalo à sobérba encastilhada na rotineira ignorância do conhecido…e para especular no mercado de picaretices e ilusões culturais com preços infladíssimos, manipulando estratégias de marketing; assim como para expressar a vaciedade das almas alienadas da maioria dos cidadões do sistema, entre elas as desses mesmos críticos.

...O resto da manhã passava-o fazendo “coisas sérias": isto é, lavando cacharros e roupa no rio, ou cozinhando para Dom Manuel e para mim o único que podía se comer naquele pedaço da Amazônia: "farofa", um refogado de farinha de mandioca, mais feijão, acompanhado de espetos de pescado à brasa, se houve sorte na pescaría, ou arroz, macarrão e um pouco de tomate, cebola ou delícias exóticas semelhantes, se por fortuna algum visitante as tivesse trazido do Mundo Exterior, já que qualquer hortaliza terna que se tentava plantar lá, era picada rapidamente e transportada em pedazinhos ao cupinzeiro. Transformar nosso espaço de selva em um jardim, como diziam os hinos, se referindo à transmutação de nossas energias brutas em sutís, não era tarefa fácil, precisava-se enorme paciência e constância.

Havia, isso sim, fruta suficiênte, variada e com sabor de paraíso; só busca-la e colhé-la; e algumas vacas Brahma, tipo cebú, que davam leite para as crianças... as galinhas não duravam muito em Mapiá: de repente precipitava-se sobre alguma delas uma águia do alto bosque e levava-a à vista de todos. Os animais domésticos, naquele médio, tinham que re-despertar seus instintos selvagens para sobreviver. Que eu saiba, não se caçavam os bichos da selva, por proibição expressa do Padrinho, salvo nos primeiros tempos do assentamento dos daimistas em Mapiá, nos quais não havia outra coisa para comer.

A humildade de nossa alimentação compensava-se amplamente com a generosidade com que todo quanto se conseguia se repartia entre os irmãos: Um visitante podia ir comer a qualquer casa, seguro de que quando entrasse, todos fariam um novo plato, restando partes à ração que lhes tocava, o qual não era uma nobreza exclusiva dos Filhos de Juramidám, senão típica de todo o bom Povo Brasileiro.

Pela tarde eu perguntava o que havia para se fazer e colaborava nos trabalhos da Comunidade, que faziam -se com perfeição, mas sem ânsia nem pressa, para que fosse um prazer trabalhar, e sempre cantando com pura alegria.

Ao dourado entardecer …que atardeceres e amaneceres os da selva! que beleza a do banho no rio ao fim do dia!... eu entregava mansamente minhas energias diurnas à água, memória do planeta, enquanto banhava-se o céu em colorido sobre o bosque infinito, ao mesmo tempo em que todas as aves e insetos interrompiam suas atividades e punham-se a dar graças à Vida cantando nas copas... Depois do banho, aseado, eu subia à aldeia e entrava em qualquer casa de família onde se ouvisse uma guitarra ou uma maraca, ou palmas batendo, somando- me ao grupo que, ao redor da mesa, presidida por uma vela acessa em seu centro, entoava os belos hinos de Oração com fervor. Aquele povo não tinha televisão, mais canal, bem que tinha, e sintonizando-o, passava o tempo olhando a Deus em sua primeira face física, tanto a de si mesmos -a vida interior, familiar, comunitária- como a da pura natureza envolvente: a Criação. Aquelas gentes estavam isoladas do resto do planeta pelo oceano da selva, mas passavam o tempo viajando por todos os mundos possíveis a sua infinita criatividade sobre o tapete mágico da miração.

Fascinavan-me as crianças que povoavam aquelas singelas casitas de madeira e telhado de uralita, que, quando chovía, ressoava como mil tambores: criançass loiras, morenas, negras, índios, orientais, belos seres resultantes do cruzamento de todas as raças no fundo do caldeirão do Grande Alquimista, no Coração do Mundo, a geração da Unidade Planetária, os autênticos nativos do Povo de Juramidám. Crianças super-sadias de olhos puros e vivazes, olhos de noite Lua Cheia, desbordantes de alegria e de inteligência natural, que nadavam como peixes desde bebês, que aprendiam sozinhos a tocar quanto instrumento musical podiam agarrar, começando pelas maracas, meninos que evoluíam na Roda de Energia do Templo em perfeita formação, orgulhosos de suas fardas... pequenos guerreiros e amazonas; crianças fortes e responsáveis que trabalhavam eficazmente desde muito pequenas, colaborando com sua família e com toda a Comunidade, e que sempre, sempre, sempre, estavam rindo.

Crianças amadas como só no Brasil são amadas e mimadas as crianças por suas famílias; meninos expresivos, carinhosos, profundamente observadores, corajosos e discretos, acostumados a olhar diretamente e com simpatia aos olhos de qualquer um; meninas que tinham-se banhado em Ayahuasca desde o momento de sua concepção, que tinham recebido a Bebida de Poder através de sua mãe durante a gestação e a lactância, e todos eles eram batizados com Santo Daime ao nascer, pondo-lhes seus pais uma gota na boca com o dedo.

Ao anoitecer, baixo a grande lua moura tropical e o infindo concerto dos grilhos e as râs, eu ia pela Casa da Estrela, a assistir a limpezas etéricas ou curações, que faziam-se mais dramáticas por causa do forte contraste de luz e sombra que produzia a luz das velas nos rostos; ou bem ao Templo, a cantar e dançar no himnario até o alvorecer...
Um jovem do Sur disse-me um dia: - “Eu estou aqui porque esta é uma religião de alegria; não vejo melhor maneira de sentir a Deus e ao Amor, que cantando e dançando toda a noite junto a meus irmãos, frente a minhas irmãs, com luz sobre todos nós e com o coração aberto”.

Quando havia Feitío, eu jamais deixava de ir, com freqüência junto ao meu anfitrião; e fazia qüestão de honra não deixar de bater Jagube até que se dissipavam as últimas sombras da noite. Já não me lembro a que horas dormia e, no entanto, jamais estive tão forte nem realizei exercícios físicos tão intensos.

Quanto mais escrevo, mais duvido que alguém que não tenha estado ali o possa entender. Nestes escritos eu tenho usado muitas vezes a palavra magia, no entanto quase nunca a usávamos em Mapiá, como tantos outros termos de minha própria formação que aponto para dar uma explicação subjetiva dos fenômenos que experimentei. Em Mapiá não tínhamos consciência de estar fazendo magia alguma, nem sequer falávamos dela. Simplesmente vivíamos na magia e parecia-nos incrível que alguma vez em nossas vidas tivéssemos perdido tanto tempo e energias devotando-nos à aquisição das vaidades do Mundo de Ilusão, em lugar de empregá-las, antes de mais nada, em reconstruir, afirmar ou fortalecer nossa religação interna.

Nos dois anos seguintes, já quase saindo do Brasil, elaborei 86 cartas mais, os Arcanos Menores, que juntadas aos 24 Arcanos Maiores, o Taromidám recebido em Mapiá, conformaram as 110 Cartas ou Estelas do Peregrino.
Os 86 Arcanos Menores são algo já completamente diferente dos 24 Maiores: um jogo de Arte e Psicologia. Constituem minha reflexão posterior sobre o que aprendi de minha experiência pelos caminhos de Peregrinação de Santiago e de Aquária, baixo a luz xogada em meu espírito por meu aprendizado com Carlos Pacini, com o Daime e com o Taromidám.


31- O EDEM

Caminhando por Mapiá, doíam-me na alma os munhões de árvores decepados que se viam aqui e lá. O Povo de Juramidám dizia-se defensor da floresta, porém, jamais lhes ví replantar uma árvore das muitíssimas que cortavam continuamente, para construir cultivos ou casas, ou para alimentar o fogo no Feitío. Confio em que a jovem geração de chefes descendentes do Padrinho tenha podido mudar as costumes de sua gente, caso contrário, a bela Nova Jerusalém poderia parecer hoje uma cidadezinha vulgar como tantas, já que no curto tempo que vivi na comunidade, ví desaparecer as altas árvores que ainda ornavam o centro da aldeia, em torno do templo, a um ritmo bem mais acelerado de destruição que aquele que degradava e envilecía as contaminadas cidades do Sudeste do Brasil.

Nesse mesmo ano, a soma das áreas que foram queimadas em toda a Amazônia conformou uma estensão calcinada que, somada, dava o tamanho da França; os satélites artificiais registraram-no e houve um alerta mundial e um coro internacional de hipócritas protestos dos habitantes dos países industrializados, que tinham sido os primeiros em promover um modelo de civilização no que o lucro imediato e desconsiderado primava sobre todos os demais valores, e também os primeiros que tinham começado a assassinar seu próprio ecosistema e que continuavam assassinando-o, enquanto criticavam aos brasileiros mais pobres e arriscados, que tentavam sair da miséria fazendo-se proprietários de um pedaço de selva ...só que no marco de uma política estatal de colonização nefasta, que lhes atribuía títulos de propriedade, não quando tinham conseguido transformar o mato selvagem num jardim habitável e sustentável, fornecedor de alimentos e bens, senão, simplesmente, quando tinham queimado tudo quanto antes havia, para criar uma precária pastagem para umas poucas vacas famélicas.

Tempo mais tarde veio a Conferência Mundial para o Médio Ambiênte em Rio e deu para ver nela que a hipocrisia era, com tudo, menor que a irresponsabilidade cínica daqueles que tinham interesses tão grandes em que as coisas sigam como até agora, que nem se importavam, não já pelo futuro de todos, senão nem sequer por seu próprio futuro. Em 1997 houve nova conferência em Kioto, e seu protagonista principal tornou a ser o egoismo cego e suicida dos governos dos países mais industrializados.

Um homem, ou uma mulher, é a conjuntada síntese de milhões de vidas minerais, vegetais, animais, astrais, espirituais, micro e macroscópicas e multidimensionais, isto é, de Seres Divinos, ou emanações do Unico a Sua imagem e semelhança, iguais em essência e potencialidades, criadoras de seu próprio destino e bastante autónomas (quando expandidas em seus níveis mais amplos de de freqüências), porém, cada um situado em seu próprio grau de consciência e nível vibratorio, e todos evoluindo em seus processos; os quais formam uma comunidade biológica de células vivas e especializadas, suficiêntemente complexa como para poder servir de canal autoconsciênte de manifestação à Consciência Cósmica.

Salvando as diferenças, o equivalente ao homem no mundo vegetal são as árvores, esses acúmulos ingentes de vida natural, eternos meditadores e transmutadores de energia telúrica em cósmica; disse-mo em Anhangás a sua maneira um velho siringueiro, que tinha passado quase todas as manhãs de sua vida percorrendo o comprido e sinuoso caminho selvático que enlaçava as trinta ou quarenta árvores de caucho às que extraía sua preciosa seiva e aos que conhecia tão bem como um leiteiro à suas vacas, já que eram seu médio de vida e, como costuma ser o médio de vida de cada homem, sua escola principal de Conhecimento da Vida.

Aquele ancião fez-me a honra de levar-me a percorrer com ele seu labirinto, me descrevendo as coisas espantosas que os profanos nem podem vislumbrar por falta de raízes na selva; Ele nomeou cada árvore, cada inseto, as úteis propriedades de cada folha da selva, me contando, ao tempo, aventuras da época de sua juventude, das vezes em que teve que lutar contra feras ou índios bravos que o espreitavam para converté-lo no seu jantar, ou daquelas outras nas que se lhe apareceram, a ele ou a seus vizinhos, os espíritos encantados e duendes do Povo Invisível -o terrível Curupira, uma espécie de ugro ou cíclope peludo; as Senhoras das Águas, que raptan meninos para os converter em pajés curadores; O Boto, ou golfinho rosado dos rios amazônicos, que se disfarça de homem para dançar forró nas festas dos povoados ribeirinhos, e fugir, após deixar grávida a alguma moza entre as matas da orla; ou o Sací Pereré, um anaozinho nu que só tem um pé e que anda para atrás em círculos, para desorientar aos caçadores abusões e fazer-lhes perder no mato-... e, no meio daquelas estórias tão saborosas como alucinadas, o velho ia me brindando de passagem umas gotas da sua sabedoria.

Ele disse, com sua simplísima linguagem de caboclo, que quantas menos árvores ficarem no planeta, mais embrutecido, desligado e infeliz será o homem; que a missão do homem sobre a Terra não é converter aos Reinos da Natureza bruta em insensível artificio, senão em um jardim vivo, ordenado e agradável para todos os seres. Que algun dia as nações disputarão-se a energia sutil da pouca beleza e agua natural que restará no planeta como hoje disputam os jacimentos de petróleo e de minerios preciosos... que andar por e entre as árvores, foi a escola de habilidade e equilíbrio que os antropoides tiveram, justo antes de se converter em humanos; que foi aí onde desenvolveram as mãos multi-úteis que permitiram-nos depois criar civilizações, e também o sentido tridimensional, a partir de onde se desenvolveu nossa razão concreta e medidora.

Entre as copas da selva, o maior inimigo de nosso avô foi a cobra, e é por isso que, ainda hoje, só pensar nela nos dá calafríos.

- “Se na Biblia diz-se que o paraíso primigénio, o Edem, era uma floresta e que a serpente mostrou aos nossos antepassados o fruto da Àrvore do Bem e do Mal, o que esse símbolo significa –confidenciava-me o velho druida amazônico com seu rústico português arcaico, feito de intraduzíveis conceitos nos que fundiam-se o sonho mítico e o sonho da vida quotidiana-, é que os antropoides mais evoluídos da selva tornararam-se homens no dia em que ousaram provar pela primeira vez a Ayahuasca, sendo que o cipó de onde procede tem a forma de uma grande cobra que se enrosca numa árvore.

O poder e a sabedoria da Serpente Vegetal elevou de forma gigantesca a vibração dos seus chakras, abrindo suas mentes instintivas de animais à autoconsciencia, e com ela, ao livre alvedrio que trás a responsabilidade por si mesmos, junto com o sentido intuitivo do correto e o incorreto e, com ele, a perda da inocência e da impecabilidade, e o esquecimento da segura, ainda que automática, guia do instinto”.-

Fiquei impressionado por aquela nova versão a respeito do mito da Árvore do Bem e do Mal do Edem, que coincidia muito bem com todas as minhas experiências do re-despertar da consciência ética e da estética natural e profunda, como primeira reação do subconsciênte para polir-se, uma vez desbloqueado pela Bebida Sagrada.
Perguntei-lhe após por outras plantas de poder, como os fungos; e ele respondeu-me:

- “Sim, conheço muitos, mas o poder e a sabedoria das consciências encantadas que eles contêm, que são elementares da terra e da água, e que respondem tão só a nossos estímulos astrais, não tem nem comparação com aqueles que vivem no Jagube, que são altos silfos do ar, que ressoam muito bem com os do fogo elétrico da atmosfera, e que estão acostumados a transmitir diretamente sua vibração à nossa mente, e não só a nossa emocionalidade, a pouco que abramo-nos à contemplação da beleza da Natureza, os mais elevados pensamentos do Ser Planetário, do Qual as árvores são suas antenas.

- ...Por isso, na Biblia, Deus sempre chama ao deserto a Seus médiums, canalizadores e seres de contato, sejam poetas, artistas ou profetas, ou crianças puras ou gente apaixonada, para falar-lhes através dos Silfos do bosque ou das Salamandras das altas montanhas, os quais ressoam nas outras consciências elementares semelhantes, que conformam nosso próprio corpo. Se a consciência do canal já está bem acordada, Ele o faz, de maneira mais direta e com muitíssima mais potência, através da Hierarquía Divina dos Seus Arcanjos, Anjos ou Virtudes Divinas, que ressoam com as próprias virtudes que os Homens ou Mulheres com maiúscula desenvolveram através de seu autocultivo interno.

- Tudo no Universo está Vivo e é Consciência; qualquer forma, uma planta, uma pedra, não é senão a casca densa que as energias dinâmicas de Deus, Arcanjos, Anjos, Espíritos Humanos e Devas, moldam sobre Suas próprias energias estáticas, o que chamamos os Elementares da Terra, a Água, o Fogo, o Ar e o Eter, para construir diferentes veículos materiais ou personagens, mais ou menos sensíveis, como estes mesmos corpos nossos ou o desta árvore, com os que Ele manifestar-se e poder jogar Consigo Mesmo seu Jogo de Amor, Evolução e Conhecimento de Si Mesmo, assim como da combinação e despregue de Suas infinitas possibilidades sobre o Plano Denso, e sobre todo o resto dos Seus Planos.”

- “No entanto -, advertiu-me o ancião num tom de voz mais baixo, voltando-se a mim de repente, e achegando seu rosto ao meu ouvido, como para contar-me um segredo- há que se saber tratar com os elementares. igual que há que se saber tratar com os espíritos sofredores do Astral: …sempre a disciplina do ritual por diante, sempre o protocolo sagrado para tratar com eles com todo amor, mas com uma verdadeira formalidad, autoridade, orden, seguridade e distância... caso contrário, você dá-lhes um dedo e eles podem querer combinar- se com o braço tudo... eles não têm tão claro como nós o sentido do que é correto e do que não, eles são como crianças brincalhonas e, às vezes, até como verdadeiros animais... ou diavinhos; e podem aproveitam-se. Por isso nunca se deve tomar, simplesmente, Ayahuasca. Eu tomo, unicamente, Santo Daime, o que significa Ayahuasca consagrada por um ritual... o que também quer dizer que, passar o que passar, Deus e todos os Altos Seres Divinos estarão controlando a sessão”.

Quando, à volta de nossa excursión, após cruzar o rio Purús, acabávamos de amarrar a canoa e nos dispúnhamos a subir a ribanceira para sua casa, o velho ainda acrescentou:- “Escuta à floresta de noite, quando estejas em trance de Daime, e ouvirás, através dela, os discursos de amor que trocam o Céu e a Terra e todos os projetos de Deus nos quais eles estão trabalhando”.-

Segui a sua sugestão: e posso assegurar que não há canto gregoriano mais sagrado que aquele que, no cair da noite, eleva-se desde a selva ao céu estrelado, procedente de todos os seres de todos os Reinos naturais, transmitindo o amoroso agradecimento e os louvores da Terra à Vida Cósmica de uma maneira não demasiado diferente, no entanto, à como faziam os templarios do Daime nos himnarios. Em minha miração, as vozes de todas as criaturas da floresta conjuntavam-se n,uma extraordinária sinfonía de ondas vibrantes que ascendiam para o espaço conformando geometrías luminosas em construções indescriptíveis, ou cruzando em todas direções, entrelazando-se com as influências energéticas proveniêntes das estrelas, e se combinando e se modificando com elas, até criar na maleável substância etérica neutra do mental cósmico, um tapete de mutantes formas que encaixavam umas em outras, configurando organicamente um novo paradigma planetario, com os apelos de todos os seres.

Os elementares do ar e do fogo estructuravam-se por semelhanças vibratórias em redes energéticas que formavam verdadeiros campos de força sobre a imagem mental conjunta, e o novo projeto do mundo ia se edificando e superpondo ao antigo, tal como um gigantesco holograma luminoso tridimensional no plano subconsciênte coletivo, ou astral, do Ser Planetario que somos, enquanto os elementares da água e da terra preparavam-se para acabar de materializá-lolo no plano físico.

Como cada uma das ondas, procedentes de insetos, pássaros, animais, homens, árvores, o corpo mineral e aquático do planeta e as vibrações procedentes de cada estrela… tinham seu próprio movimento colorido em brilhantes lampejos pontilhistas e danoarines, bem como seu som específico ante meu olho astral, concluí intuitivamente em que aquele concerto mántrico colosal feito de tão diversos como bem compenetrados instrumentistas, devia ser o que os sábios chamavam A Música das Esferas.

Focando-me mais nela, o que significa atendé-la participando, e não só como um observador, decatei-me de que sua base melódica era um compasso dual, durante o qual cada ser individual emitia um chamado, uma petição ou um requerimiento… conformando a soma sinérgica das infinitas perguntas entrelaçadas e repotenciadas em si mesmas… a resposta do Ser Total, que tudo enchia-o em contraponto.

O conjunto constituía uma escala caleidoscópica de graves e agudos infinitos, entrecruzados num mandala sideral que abrangia toda a abóvada noturna, expandindo-se e se contraindo em brilhantes ondas espiraladas compostas por bilhões de pontos luminosos, cujo movimiento, centrífugo ou centrípeto, alternava-se ao ritmo de minha respiração (ou minha respiração ao seu), fenómeno que fez-me pensar que não respiramos, senão que somos respirados pelo próprio movimento rítmico da vida… e que nossa harmonia individual consiste, simplesmente, em não oferecer resistência ao fluxo e reflujo natural de tudo, assim como em acompasar-nos da forma mais consciênte e afinada possível com ele. Com o qual minha energia elevava-se à paz, à êxtase e às mais luminosas visões, através das quuais a Sabedoria inerente à Harmonia manifestava-se no marco natural de minha mente harmonizada.

A partir daquela noite em Anhangás, ficou bem claro para mim o poder imenso do pensamento holístico e da oração, a mantralização e o canto grupal, bem como a responsabilidade que implica cada movimento energético nosso, até o produzido pelo mais vão pensamento. O mundo e nossa vida são como são, porque assim é construido pelos desejos que emitimos. Se soubéssemos pôr-nos de acordo para pensar juntos um modelo ideal de mundo, teríamos construído o Céu que almejamos sobre a Terra há muitos séculos. O mito da Torre de Babel exprime muito bem como a ignorância fanática e a ambição seitaria  egoísta, separatista e competitiva, desconcerta, destrói e dispersa a empresa elevadora conjunta e faz-nos desabar na confusão geral e no caótico "Salve-se quem puder!" individual. 




32- GUERRA E PAZ

Após eu sair de Mapiá, passei uma temporada entre Boca de Acre e Anhangás, no meio de gente simples de coração hospitalário, ricos nessa nobreza que todo o dá, e mais se tiver, que é natural entre os habitantes da selva e do deserto... Anhangás foi para mim como um segundo curso da Universidade do Santo Daime, que eu pudem aproveitar muito bem, porque já estava mais preparado para lidar com aquele poder e aquele conhecimento. Tive ali formosas amizades com as gentes do lugar, regentado por um Centro Daimista, mas, também, experiências de confronto com um grupo de guerreiros originários das urbes do Sur, que tinham vindo desde Mapiá a organizar um Feitío, ao qual uni-me.

Para então, tinha-se feito já quase insuportável para mim o conflito entre o conceito de um Deus distante, juiz e punidor, que tinha-nos aprisoados neste mundo-inferno para pagar nossas culpas, humilhar-nos e fazer-nos arrepender, o qual era a visão geral predominante entre as gentes que estavam na base, bem católica e bem convecionoal, da pirámide da consciência do Daime (e no próprio programa que eu tinha-me o imposto desde menino, que alimentava minha parte mais sombria)... e o outro conceito, mais caro à minha personalidade, de um Deus interno, próximo, animando com Seu espírito Sua própria matéria, Quem conduzia evolutivamente ao mundo para a iluminação e a feliz auto-realização.

Parecia-me que só tinha duas verdadeiras religiões no mundo: A do Deus do Temor e a do Deus do Amor, e que as sociedades e as pessoas se conformavam como reacçãoarias e fascistas, pessimistas, apocalípticas, inquisitoriais e reprimidas ou bem como progressistas, liberais, otimistas, tolerantes... segundo o conceito básico de sua visão de Deus e da vida... ambos conceitos acabaram por conformar ante mim a cara e a cruz, o aspecto luminoso e a sombra, de minha própria experiência; e acabei polarizando-me num dos extremos e projetando em outros aquilo que não podia suportar, nem dentro nem fora de mim mesmo.

O conflito, que começou a se formar dentro de mim em Mapiá, mas que não tinha chegado a desbordarse durante a mina estadía ali, seguia aumentando de pressão e estava já a ponto de fazer explodir meu ânimo. Contra aqueles que acreditavam estar em posse da verdade, eu alçei meu protesto, no fundo igual de convencido de estar em posse da verdade. Assim, deixei-me cegar pela dualidade e estava excessivamente crítico e com muita vontade de me desafogar.

Um sempre acaba se convertendo em aquilo que não ama, sobretudo se compromete sua energia e suas emoções na ação do criticar, que é uma autoidentificação negativa, já que só criticamos aos demais porque nos sentimos unificados com seus aparentes defeitos, e negamos, odiamos e combatemos à nossa própria sombra neles; caso contrário, nos resultaria bem mais indiferente a vida dos outros e o rumo que queiram lhe dar.

Em um momento de indiscreção e de néscia geralização, minha temperamental impulsividade espanhola, já fervendo, soltou ao vôo um par de chifradas, comentando ante meus colegas de feitío que tinha visto entre a maioria dos guerreiros de Mapiá mais rigor que amor, mais culto ao poder que à misericordia e mais orgulhoso fanatismo que entendimento equilibrado da Doutrina; estes julgamentos prepotentes, vindos de um gringo -no Brasil chama-se gringo a todo estrangeiro-, que ademais não parava de afirmar sua liberdade de pensamento e de sustentar conceitos unicistas mais teóricos que assumidos (que aos guerreiros mais católicos, dogmáticos e que menos tinham compreendido o EU SOU do Padrinho, podiam parecer blasfemos ou heréticos), valeu-me a animadversión do capitão da equipe do Feítio, tocada a dignidade de seu ego por aquela ofensa a sua autoimagen de firmísimo Iniciado pertencente a um "Povo Eleito".

Este era precisamente o companheiro que eu mais apreciava por sua dedicação atenta e firmeza impecable no trabalho, todo um jovem aspirante a comandante; e ademais apoiaram-lhe vários de seus camaradas, os quais começaram a cruzar sardónicas apostas sobre quanto demoraria o Senhor Juramidám em ajustar-me as contas por minha soberba e minha rebeldia, me mandando uma boa "pea" durante o trance do Daime.

Desatou-se assim uma vibração de batalha psíquica -da que todo mundo estava pendente, se formando um coro de animadores de briga ao redor de ambos bandos, como sempre que erupciona um conflito…. E estavamos no lugar menos adequado para isso: o lugar da elaboração da Poção Mágica, o que provocou que, mais tarde, aquela má vibração desse lugar a tormentosas viagens durante os himnários, nos que correram energias muito pesadas entre nós (Parecia-me estar captando, com clareza telepática, como meus oponentes projetavam sobre mim, com seu desejo de castigar-me, uma forma pensamento astral que era sua própria imagem do Deus Castigador, para que viesse a derrubar minha estabilidade emocional durante a aceleração da energia; ainda que também é possível que, em parte, não estivesse percebendo senão minha própria paranoia subconsciênte pela hostilidade que imprudentemente tinhaa desatado -seguramente maior que meu arrependimiento por ter falado de mais- …e meus esforços mentais para criar proteções psíquicas a meu redor e afirmar meu equilíbrio interno, não me deixavam atender à melhor parte da sessão, com o que a defesa de minha estabilidade se convertia na própria inestabilidade).

Nossa desarmonía chegou a afetar inclusive ao astral dos outros participantes, pessoas que não tinham nada que ver, até que o velho siringueiro, chefe do templo, chamou-nos firmemente à ordem e à reconciliação, que foi muito reticente pela outra parte... Como resultado daquela luta, vim compreender que nunca pode-se sair completamente indemne de uma confrontação energética, já que estamos submersos numa atmosfera emocional comum; e que a vitória maior de um guerreiro é, simplesmente, ser capaz de andar por qualquer parte sem ter que tirar jamais sua espada da vaina, nem para se defender; isto é, por ter-se feito absolutamente humilde e inofensivo, apesar de seguir sendo poderoso (isso era o "se humilhar" do Padrinho Sebastião); e inofendível, ao ter aprendido tanto a não provocar a ninguém, como a não aceitar provocações ou desafíos, situando nossa autoidentificação bem mais por acima do ego, que é o único que pode se esquentar por um insulto a sua falsa autoimportância.- "Quem fica bravo, perde"-, dizia bastantes anos antes Teuctlí, o chamán chichimeca.

Assumi assim um pouco mais da minha própria sombra, isto é, minha própria intolerância contra a intolerância, o que acabou por me fazer evidente que a personalidade (a máscara que fabricamos com as virtudes que selecionamos como próprias) …é inseparável da sombra (o aspecto negativo dessas mesmas energias selecionadas, as quais, ao negar-nos a vé-las como nossas, as acabamos projetando sobre os demais)... Esta certeza ajudou-me a conceitualizar um ego algo mais sadio, vestido de humilde, ante o reconhecimento de que todo o que me molestava nos demais era só o reflexo do que mais molestava-me de mim mesmo.

A raiz daquela aceitação, concienciei e valorizei enormemente o poder do perdão, incluído perdoar também meus próprios erros, e os ver como duras lições, necessários degraus da aprendizagem. Seguidamente passei um tempo pintando um grande quadro no qual via-se a Jesucristo derramando toda sua amorosa energia de misericórdia em uma cachoeira de ondas sesgadas de luz purificadora sobre María Magdalena, representada como uma sensual mulata provocativamente vestida, que ao perdoar a si mesma, após aceitar as contradições extremistas do seu incendiário temperamento, ascende à libertação e ao êxtase. Presenteei aquele quadro (que desatou algumas polêmicas puritanas por causa da sensualidade aparente da Magdalena em sua luminosa fusão com seu Mestre e o sorriso de absoluto entendimento, quase cúmplice, com que Jesús a desculpa e a acolhe), à igreja de Anhangás. Lamento não conservar nenhuma fotografia, pois a lembro sempre como uma de minhas obras mais sentidas.

Daí em adiante, em quase todas as sessões espíritas em que participei veio fazendo-se cada vez mais evidente para mim que, igual que existem a nível multinacional, uma conspiração de desalmados interesses que pressiona inclusive aos mais poderosos governantes e manipula a influência dos médios criadores de opinião pública, provocando que em uns quantos lugares do mundo arda sempre uma guerra, em cujo rio revolto possam eles realizar rápidos e fabulosos negócios, cambalacheando armas, mercenários, alimentos, medicinas, materiais imprescindíveis... e conseguindo impressionantes contratas para reconstruir o país apóss a contenda, fazendo-lhe contrair dívidas impagáveis que o põem economicamente em suas mãos... de maneira semelhante, existe também no Astral uma conspiração de escuros interesses das Forças Involutivas, que suga grandes quantidades de energia etérica do conflito permanente de nossos egos.

As guerras coletivas exteriores que assolam tragicamente nosso planeta são só a exteriorização das guerras interiores que constituem o estado emocional normal de nossa consciência individual, quando ainda encontra-se cegamente submergida no pântano da dualidade, rebosante de sangue-sugas astrais.

São as sangue-sugas astrais que fazem crescer à violência em nosso ânimo forças internas ou externas a nós? existem seres extra ou intraterrenos que se alimentam da baixa vibração produzida por nosso medo, nossa arrogância, nosso ressentimento? Sem dúvida que existem, e no trance do Daime eu as vi às vezes reptando sobre o solo, com aspecto de escuros monstros transparentes, ou morbosos diabos que espreitam qualquer mínima apertura das defesas psíquicas, qualquer queda da positividade, para se prender a nossa aura e vampirizar quanto possível nossas reservas de luz vital.

Mas não há nenhuma força no universo alheia ou externa a nós, se o contemplamos desde suficiênte altura; absolutamente todos os seres astrais que afetam a nosso mundo pessoal, para bem ou para mal, são criações nossas, permanecem unidas a nosso campo de freqüência para sempre, desde que nossas emoções, palavras pensamentos e ações as emanaron (são "nossas relações"), e elas consideram-se com todo direito a seguir se alimentando, enquanto puderem, das energias escuras que as conformaram.

Todas essas larvas astrais que continuamente nos influenciam, demandando-nos ações, sentimentos ou pensamentos afins a sua própria baixa vibração, para nós gerar energias que possam absorver, porque ser de seu mesmo tipo de freqüência, todos esses filhos mentais demoníacos que nossa ignorância ou negligência tem engendrado, mantêm um estado contínuo de guerra em nosso interior com todas as potências luminosas de signo contrário, igualmente geradas por nós, e que alimentam-se do extrato etérico das mais elevadas vibrações que produzimos.

A impressionante miração do evangelista Juan no Apocalipse, na qual o trigo é finalmente separado da palha, ilustra esta guerra interna entre os extremos de nossa dualidade, que a todos nos divide e nos enche de ansiedade, ansiedade que consome uma enorme quantidade de nossas reservas vitais, que se exprimem ali onde pomos nossa atenção em cada momento; Ansiedade contínua que não nos deixa desfrutar em paz da vida, e que projeta-se a outros cada vez que puder, porque é menos sangrante para nós brigar com outros que connosco mesmos.

Bem mais antigo, também fala da mesma coisa o mito sumerio-hebreu da luta entre anjos e demônios, seguida da expulsión de Lucifer e suas legiones do Céu, obrigados por Miguel e a sua Hoste de Luz. Porém, ademais, ilustra a Segunda Lei de Manifestação... (a Primeira diz que "acabamos sempre manifestando em nós mesmos e realizando no nível material e concreto aquilo que mais temos desejado e ao que temos concedido maior atenção interna e externa")... A lenda diz que a Consciência Suprema pediu a alguns dos Espíritos Divinais mais próximos a ela, que concebessem e criassem em si mesmos a dimensão mais densa daquelas nas que O Ser desejava Semanifestar ao início deste ciclo.

Mas aqueles espíritos omnisciêntes ficaram aterrorizados ante a visão do que se lhes pedia: Tinham que fazer o papel do malvado do Jogo: criar, encarnando-a em si mesmos, a Sombra Absoluta, a limitação, a doença, o medo e a inconsciencia, tinham que servir de obstáculo e de desafío aos espíritos que iam jogar o Jogo Evolutivo... Lucifer, o altísimo anjo reitor de Vénus, o esplendoroso Luceiro da Alva, representou aquele papel, tão ingrato como importante, do Teatro Divino (porque não há o Bom sem o Mal, numa representação), de tal modo que rebelou-se com seus colegas de missão, se negando a manifestar o extremo oposto ao da Luz.

Aquela rebelião de uma Unidade de Consciência, cujo papel fundamental é percebê-lo tudo, o conceber tudo, manifestá-lo tudo, lhe valeu densificar-se de maneira automática, cair interdimensionalmente. Arrastrando pelo peso de sua própria negação aos desejos do Supremo Amor, até a vibração mais baixa do Ser... para vir a ser, precisamente, aquilo que se negara a conceber, fòrmula que a Justiça Cósmica dispôs pára que ele conseguisse conhecer intimamente aquele estado limitado, e amá-lo, e entender que não há nada que seja mais alto ou mais baixo, nem mais belo ou mais feio, em um universo unicista. Isso só tem realidade para as ilusões do Ego contraído.

Diz a Segunda Lei de Manifestação: "...Acabamos realizando e manifestando em nós mesmos aquilo que nos negamos a considerar, a conceber, a compreender ou a amar, até que, vivendo em carne própria, aquilo que temos menosprezado, criticado, rejeitado ou odeiado ou, simplesmente, o que não temos considerado com amor, isso mesmo chama-nos à fusão e ao entendimento com ele, já que num Universo em que tudo é Um, nenhuma parte do todo é desprezível, nem nenhum aspecto do Jogo Unico da Consciência".

...A falsa paz é um momento de vibração contraída e de tenso repouso entre o último conflito e o seguinte que se prepara. A paz real é um estado no qual cada parte enfrontada da dualidade em conflictio por fim se superou, se aceitou, se amou… com o qual, automaticamente, a cosciencia expande-se e se chega a uma consciência de Unidade na Essência, na que todas as criaturas são nossas irmãs, e na que aceitam-se sem resistência todas as leis naturais que nos regem, bem como todas as personagens que no teatro de nossa mente actuam, já mozinhos ou vilões, luzes e sombras, porque somos Nós Mesmos quem temos elaborado as regras de nosso jogo e sabemos que sem conflito não há aventura evolutiva, e sem obstáculos, limitações ou desafios não há superação nem autoperfeiçoamento.

Dependendo que um alma aceite e ame a sua sombra como complemento de sua luz, e a ambas juntas como estrutura de seu Jogo, ou não a aceite ...pode-se viver a vida como um jogo monótono, repetitivo, predecível, circunscrito a um mundo nojento, por arqui-conhecido, onde tudo é mesquinho, no qual continuamente recai-se nos mesmos erros, no qual as emoções predominantes são a irritabilidade, a agresividade, a frustração. a baixa estima, o remorso e o temor, irmanados ao sentimento de culpa, à preocupação, à tacahería, a cobiça, a desconfiança, a acuciante solidão, a ansiedade, o stress, ao materialismo mais aplastante, o aborrecimento, e o contínuo confronto bloqueante com o resto do mundo...

...Ou pode, pelo contrário, viver seu jogo como uma contínua e excitante aventura, um entusiasta passar de porta a porta, cada uma se abrindo a novos universos de experimentação de nossas infinitas possibilidades; uma intensa experimentação em ascensão, na que novas e novas aprendizagens vão-nos chegando, cada vez mais interessantes, e mais com freqüência trazidas pela mão do prazer que pela da dor; fazendo-nos sentir que a vida é uma mágica viagem interminável, que tudo está muito bem feito como está; que a dor, o risco e até as circustanciais derrotas, não são mais que os elementos que dão maior intensidade ao jogo.

... fazendo-nos sentir que somos indestrutíveis, que cada ocasião em que caímos é um pretexto para nos levantar em um nível mais elevado imediatamente após; que a Providência existe e que é incrivelmente generosa com quem confia nela para valer; que cada homem, mulher ou criança que a gente conhece é um novo companheiro de jogos, quem chega trazendo na sua mão uma chave para convidar-nos a penetrar, sobre as asas do amor e da amizade, em mundos exóticos e diferentes... e até que o aparente inimigo que um tem enfronte, é só um desafío que A Vida nos coloca por adiante para nos obrigar a um esforço maior, que nos permita acessar a uma oitava superior do jogo, e que o implacável rival, finalmente, revelara-se como um camarada de altura, um cúmplice, um mestre, e até um salvador... já que, por trás de todas as máscaras do Teatro do Mundo, há sempre o mesmo Ator Único.

É o estado de Paz Real, ou de freqüência vibratória expandida, o que traz consigo uma clara consciência que nos permite viver A Vida em toda sua infinita variedade, grandeza e esplendor, mantendo-se calmo no olho do furacão, um não se sente como um indivíduo separado em concurrência com todos os demais, cuja ascensão suporá forçadamente nosso descer; senão que compreende, com absoluta evidência, e experimenta, que há um só propósito e um mesmo objetivo essencial em todos os elementos que constituem nosso Eu Maior, inclusive os aparentemente opostos ou indiferentes: a saúde e o desenvolvimento do órgão é a saúde de todas e cada uma de suas células e viciversa. A Terra sente-se como nosso corpo físico coletivo. E, dentro dela, a Humanidade em bloco, como um órgão mental e funcional com um único propósito evolutivo ao serviço do Grande Organismo Cósmico.

Somos peças de um puzzle holográfico, é necessária cada uma das peças para completar a unidade; ademais cada peça, em si mesma, abrange a totalidade do que somos. A doença, o câncer, podem aparecer por causa da influência de nossa mente individual, competitiva e separada, sobre a inteligência receptiva das células que nos conformam; quando um grupo delas decide seguir a tónica marcada pelo regente do corpo e, em lugar de colaborar com suas irmãs, começam a concorrer, o caos e a autodestruição instalam-se no organismo... e não serve operar e extirpar... até se corrigir a maneira de pensar, novas e novas células seguirão contaminando-se de separatismo.

Diz meu amigo, o médico Jose Luis Gil Monteagudo -comprometido lutador pela Paz -, que cada um de nós somos como um computador muito sutil que está equipado com uma programação mental produto de sua experiência no tempo. Este programa condiciona nossa percepção da realidade e, portanto, nossas respostas. Como o programa está contaminado por uma espécie de vírus informático, fruto do medo transmitido de pais a filhos durante gerações, nossa percepção da realidade é errónea, e nossas respostas bastante desajustadas.

Tomar consciência de que existe um programa errôneo, que foi nos inculcado pela carência de luz que supôs a materialização de nosso ser no denso Plano Físico (e pelas entidades de sombra resultantes, as que alimentan-se de nosso medo, de nosso orgulho, que é o emblema diferenciador com o que dignificamos o escudo do medo; do interesse egoísta que o medo gera, e de nossa contemplação fragmentária e parcial do fenômeno humano, que diminui nossa consciência), é crucial para desativar ese programa.

Porém, como a lógica humana común -forma de pensar absolutamente relativa e limitada a nossa identificação com nosso veículo físico, emocional convencional, mental concreto e o meio material que percebe- opera a base do mesmo programa, tudo nos faz pensar que funcionamos normal e corretamente, e que a causa de nossas desarmonías e conflitos pode ser externa, pelo que nossa primeira reação é buscar a alguém a quem xogar-he a culpa. Isto chama-se autoengano, e é uma muito poderosa força destrutiva, sobretudo como autodestrutiva.

O medo é o resultado de ter-nos identificado demasiado estreitamente com algo tão frágil e efêmero como nosso veículo físico, até o ponto de quase ter esquecido aos nossos imortais corpos sutís, bem mais próximos à Essência. É como se uma célula, obsediada com os limites de seu membrana biológica envolvente, perdesse de vista ao Amor, isto é, à Energia Consciênte do conjunto do organismo que equilibradamente a mantém cohesionada e, por tanto, a anima... é como se ela considerasse ao resto do conjunto como externo e alheio a seus interesses, e a suas células irmãs como concorrentes, e até como inimigos.

Este é o típico pensamento egocéntrico, paranóico e autolimitado que surge do fato de contrair nossa freqüência vibratória por causa do temor, e só muda essa miserável mentalidade para um grau de qualidade mais alto quando se expande a freqüência, ao se elevar nossa onda vital sobre um autêntico ato de amor.
O Amor é uma força impessoal e irracional que agrupa a todas as aparentes individualidades, encauzando-as na evolução progressiva e harmónica do conjunto, que sempre aponta para a conciliação de aparentes contrários numa perfecção maior, a reunificação, a confluência na Globalidade da quual fomos emanados.

Nossa tarefa principal na vida, nossa Tentativa de guerreiros espirituais por manter-nos despertos, consiste em decatar-nos que levamos conosco, como a outra cara de nossa luz, esse programa errôneo temeroso, separatista e néscio chamado “Vida Humana Comúm”, e que devemos chegar a conhecé-lo bem desapaixoadamente, a compreender as razões de sua existência, a amar a justiça e a sabedoria que o pôs aí como contraponto de nossa evolução ascendente en um tempo já ultrapassado, e a toreá-lo com hábil atenção de guerreiros, para que, após conhecer suas leis, o tenhamos bem vigiado, de maneira que, ainda que seu discurso interminável continue soando nas nossas mentes como música de fundo, isso não nos impeça utilizar a maioria da energia de nossa atenção em manter-nos ligados com o Programa Divinal o Plano da Hierarquía inserido, também, desde sempre, em nosso "disco rígido", que tem acesso à Grande Memória Universal.
Agora bem, o Plano da Hierarquía não tem nada de rígido, éle é bem flexível e adaptável, e com contínuas actualizações ás oportunidades da nossa Transição a mais altos níveis de consciencia… mas o Programa Divinal só funciona quando nós tocamos as brancas teclas do amor e não as cinzas do medo... Uma vez abandonadas as rotinas automáticas da “Vida Comúm”, controlada a sombra pela vigilia permanente da alma que monta agora o carro tirado pelos tres corpos densos, alma que sempre deixa que seja o Eu Superior, a Mónada, quem leve as rendas, a sabedoria e a paz voltam a fluir espontaneamente e tudo se sintetiza, se expande e melhora, porque o Eu Superior está sempre ligado com a Grande Rede Universal.

Quando é o ego, e não a Alma e a Mónada, quem dirige o carro da nossa consciencia, seu programa mental errôneo gera uma espécie de filme que se projeta sobre a tela de nossa atenção pensante. Assistimos a ese filme maluco tanto durante o dia como durante quase todos nossos sonhos; O que acontece nele está baseado em fatos reais, mas tão distorsionados, que tal roteiro quase não tem já nada qa ver com a realidade que o inspirou.

No estado de freqüência vibracional contraída e, portanto, de consciência diminuída, adjudicamos papéis às personagens que aparecem em nosso palco vital, e fazemos todo o possível porque elas se acoplarem a nosso argumento. Tudo deve cuadrar com as expetativas de temor, separatismo e desconfiança que albergamos. Tudo veremos segundo a cor dos óculos deformados que decidimos usar.

Esse filme parece tão real, nos hipnotiza de tal maneira, que é muito difícil lembrar que podemos apagar o projetor e sair de suas influencias viciadas pelo medo. Menos o lembrarão aquelas pessoas que fizeram da TV o mestre das suas vidas, imperando dia e noite sobre as suas mentes.

O Bom Combate de guerreiros e amazonas espirituais por manter-se numa visão unificada e pacífica da Vida, nosso amoroso esforço quotidiano para aumentar a sã e lúcida capacidade de confiar, perdoar, tolerar e respeitar, tanto desde nós mesmos como em nosso meio, se pode resumir em:

1B- Saber que, enquanto a gente mantenha sua freqüência vibratória em níveis densos, estaremos submersos na dualidade, a crítica destrutiva e estéril, a separatividade e os programas negativos e tendenciosos, todos eles obstáculos ao nosso impulso ascensional unificador.

2B- Conhecer o próprio filme, o próprio programa manipulador, e suas tendências.

3B- Mantê-lo controlado, dedicando-lhe um mínimo de energia de atenta vigilância, e reconectar com a Realidade que Somos, elevando nossa vibração por médio de oração e serviço desapegado a um mundo melhor, que englobe, também, a aceitação da sabedoria e à justiça de nossos ultrapasados condicionamentos.

4B- Gozar da formosa visão e experiência da Realidade, que supera e neutraliza qualquer programa involutivo se um se mantém focado no alto de Si Mesmo.

O Amor é a força que gera a vida, a humilde e gozosa utilidade cooperadora, a confiada apertura ao desconhecido que produz a sabedoria e o perfeiçoamento, a tendência à unidade, a saúde, e a constante busca da mais alta harmonia, a alegria compartilhada, a realização.

O medo, pelo contrário, atrás de sua aparência de escudo protetor de nossa sobrevivência, só leva ao isolamento, à preocupação, a prepotência oca, a ansiedade, a avarícia, a desconfiança, ao pensamento fragmentado, parcial, negativo e mesquinho, à separação, o câncer, a triste e lenta decadência, a morte prematura em solidão.

O medo é só a ausência do amor. O covarde ocultamento individual abafados nas nossas courazas -que mais que para proteger-nos só servem para nos asfixiar- quando deixamos de achar que somos Quem Somos. O auto-aprisonamento na escuridão.

Essa escuridão escolhida, ademais, produz dois terríveis efeitos: deforma nossa visão da realidade de uma maneira grotesca, e propícia que aquilo do que queremos nos proteger materialize-se ante nós tarde ou cedo. Atraímos sempre qualquer coisa na que fixamos emotivamente nossa atenção, já seja uma atenção esperançada ou preocupada.

Já que, sendo como somos, unidades perceptivas da Consciência Cósmica dentro de Si Mesma e de Seu Jogo de manifestação, qualquer um dos Seus conteúdos mentais que não somos capazes de conceber, compreender, amar e harmonizar, por muito negativo que nos parecer, tendemos naturalmente a encarná-lo, ao viver em nós mesmos, para nos dar a oportunidade de conhecé-lo intimamente e o assumir. Deus não deixa ocos de sombra no Seu caminho.

Quem padece medo, desarmonía, doença, solidão, confusão, aborrecimento, irritabilidade, rancor ou misaría, é porque não tem fé suficiênte em Si Mesmo, é porque esqueceu que nossa Essência é a Suprema Força, a Fonte de toda Harmonia, Saúde, Amor, Sabedoria, Criatividade, Paz, Perdão, Riqueza... Manancial Divino que não para de fluir, enquanto estamos ligados a Ele pelo Amor. E esta conexão chama-se Autoidentificação, convição por evidência experiencial direta, ou seja, por fé.

Todo passo adiante na evolução depende da corajosa confiança do eu para se abrir ao "não eu aparente" ao Desconhecido Cósmico, ao "outro" distante ou vizinho… Apertura que lhe traz re-criação, intensidade de vivência, conhecimento experiencial e integração num universo maior, mas também um verdadeiro conflito até que o sujeito ajusta-se, dando e recebendo, conseguindo e cedendo, temperando... Pelo contrário, cazulo que não se abre para ser fecundado, por medo aos insetos ou à intemperie, murcha e apodrece sem chegar a converter-se em fruto.

Qualquer acontecimento negativo que nos causa ansiedade e dor, vem causado pela carência de fé, de confiança em si mesmo e nos demais que Somos, que é a mãe da positividade conciliadora.
Quando alguém sentiu medo e nos atacou, vista essa agressão desde a visão real do organismo dos organismos que chamamos Deus, significa, singelamente, que alguém fechou-se ao amoroso fluxo da vida, e tem deixado de transmitir A Força que a todos nos mantém. Bloqueio sempre quer disser: angústia, mal-estar, irritabilidade, ressentimento, ira, agresividade, cair cegamente em males piores... o que é seguido de desastre, dor,autoexame, lucidez, reconhecimento, purificação, reconexão, superação, nova expansão vibracional...e a seguir caminhando.

A sabedoria multi-perspectivistica e totalmente expandida de Deus percebe sempre, com clareza absoluta, o que realmente querem dizer todos nossos pensamentos, sentimentos, palavras e ações negativas: Ante Sua Consciência Universal vêem-se como o que realmente são: raivas de criança; farsas sugadoras para absorver a energía-atenção alheia, ansiosos chamados a uma "cura urgente de amor" de um ser que, ao estar separado de sua Fonte, sofre o indecível e tenta se libertar, projetando sobre outros a culpa que sente inconsciêntemente por causa da sua auto-separação.

Como actuar com respeito a isto? Sabendo que nossa atenção é criadora... estaremos fazendo magia negra se só a concentramos nos julgamentos dos erros e na busca de culpado, como é a tendência mais automática de nosso competitivo programa escravizador. Quando dirigimos a energia negativa de nossa atenção para as carências de alguém (ou para nossas próprias carências), aumentamos a freqüência de sua (e da nossa), negatividade e contribuímos á sua, (e á nossa), mais funda dependência daquele vício.

O sadío é atuar conforme à Lei do Amor: sem deixar de perceber os aspetos negativos, mantenha a sua atenção principal aberta a todo volume ao amor, e colocada no mais alto de cada indivíduo –o seu Eu Sou- e confiando em suas infinitas possibilidades de Filho de Deus, sem julgar nem criticar... assim você reforça seus anjos interiores, ajuda-lhe e se ajuda a si próprio a progredir e fazendo que, tarde ou cedo, também você possas desfrutar dos benefícios que seu progresso trouxe pára todo o organismo Humanidade que somos. Isso é o que queria dizer O Padrinho quando repetia sem parar: "Valoriza a teu irmão, todos somos Seres Divinos".

Todo Mestre aconselha olhar ao mundo e a teus irmãos com os olhos de Deus: só esses momentos de comum-união (os que expressam a Realidade unificada que Somos) merecem ser lembrados e contados como experimentação real da vida; todo o demais não são senão os disculpáveis sonhos ilusorios do ego densificado e estagnado na era anterior, quem mata seu aborrecido tempo, ou vendo-os representados na TV, ou montando com eles, na sua imaginação filmes de heróis e vilões monolíticos.

Os sujeitos mais agressivos têm uma necessidade maior de paz e de comprensiva atenção que aqueles que se acham mais perto de certo equilíbrio. Um sincero gesto de receptividade e simpatia pode fazer-lhes ressoar com a vibração de uma pessoa serena, sobretudo se essa pessoa, a sua vez, afirma-se com fé na Suprema Serenidade para fazer-se canal dela. Em isso residia a terapêutica espiritual do sacramento católico da Confessão.

Se realmente afirmamos-nos no Ser que Somos, não há nada que temer de um agressivo, pois desde ali ele vê-se como uma parte carente de nós mesmos, pedindo consolo a gritos atrás de uma máscara de raiva que facilmente escorrega da sua face após que lhe permitimos se desafogar…para deixar ver uns olhos cheios de lágrimas de aliviado arrependimento; Também não haverá nada que perdoar, já que se estamos no Ser, nada nem ninguém pode-nos fazer verdadeiro dano.

Mas se, em lugar de enxergá-lo desde a altura adequada, desde uma perspectiva unificada, contemplamos a ese sofredor desde o pensamento contraído do ego, nosso perdão nunca será completamente sincero; já que, consciênte ou inconsciêntemente, alimentaremos o ressentimento, ao acreditar na realidade de nossa ferida ou da suposta ofensa. Ofender-se, reagir à contra, alterando-nos emocionalmente, desligando-nos da Fonte do Amor e levantando o escudo do medo e a espada do rancor como conseqüência de sentir-nos tocados por uma provocação, é um sintoma de debilidade e de que a gente se identificou com algo muito vulnerável, com um ego medroso, e não com Seu Ser, tornando-se assim o mesmo que se teme e que se odeia.

Só conseguiremos nos libertar do fantasma do medo quando deixemos de nos identificar com o frágilíssimo ego, que não agüenta um sopro, e quando descansemos na invulnerabilidade da nossa Identidade Divinal.

Os humanos que se habituam a viver em níveis de vibração pouco consciêntes são xogados continuamente para uma ou outra polaridade extrema pela Lei da Balança: ou bem estão subindo a Roda ou a estão baixando, para em seguida inverter o movimento: o sábio apoia-se no fiel da balança, nossa Essência, que está acima das Leis porque foi Ela quem as fez todas. Identificados com o Ser, saímos-nos da Roda do Samsara, ou da eterna repetição de programas duais opostos, e permanecemos na eterna serenidade que é própria Daquele que inventa, dirige e goza do jogo sem se esquecer de Si, e que pode, em todo momento, sair a jogar despreocupadamente enquanto deseja jogar, sem se identificar com as personagens de seu jogo, além do necessário.

Como broche final daquela lição da Vida, quando justo terminei o quadro da Misericórdia, do Perdão e da Reconciliação, chegaram a aquele Fim do Mundo amazônico uns visitantes procedentes do mundo exterior, que me deram a notícia do século: O Muro de Berlim tinha sido derrubado...

O Muro que separava a antiga capital alemã em dois mundos incompatíveis, bem perto do qual eu tinha vivido edurante minha estância em Berlim, simbolizava tragicamente a terrível confrontação de aparentes opostos que tinha marcado a toda minha geração e às duas anteriores: a do malvado patrão sanguesuga e o pobrecinho e explodido operário, a do bloco ocidental capitalista e o bloco oriental comunista... o fantasma da Guerra Fria, a dualista espada de Damocles que ameaçara ao mundo com a destruição atômica global desde antes de eu nascer… tinha-se dissolvido. E como? Pois, simplesmente, por corrupção do lado que mais acusava de corrupção e decadência ao seu adversário... algo que parecia que ia durar até o Apocalipse final, tinha-se volatilizado como um mal sonho da noite para o dia... Se verdadeiramente fossem ensinados os ciclos anímicos da História nas escolas, e não só os fatos e seus episódios, o povo planetário desenvolveria um maior sentido do humor e levaria muito menos à sério aos fanáticos.

Saí à horta que rodeava minha cabana e colhi todo quanto ananás no seu ponto encontrei, para dar um humilde banquete de agradecimiento e celebração aos mensageiros de tão grande notícia, a única verdadeiramente importante que tinha chegado a mim desde minha aterrissagem em América do Sul, seis anos antes.


33- AS REDES DA ILUSÃO

Aquilo fez-me meditar muito sobre as redes de ilusão que influencian nossa visão da vida; não se falava de meu país na imprensa ou na TV brasileira, espelho de mediocridades, como não fosse para comentar as bombas que tinham colocado os terroristas da ETA no País Basco ou em Madri, de tal maneira que para qualquer desconhecedor da situação real, soava como se Espanha estivesse quase à beira da guerra civil e numa situação de ordem e segurança pública totalmente caótica; quando, em realidade naquele momento se estava convertendo no país mais livre, democrático e moderno da Europa, e onde com maior qualidade real de vida e mais em paz se vivia, apesar do progressivo desgaste e corrupção do governo reeleito imperante, do desemprego oficial e do desencanto do povo em frente às expetativas com que confiaram nos socialistas, como se hoje em dia um governo pudesse fazer sua própria política, sem contar com a pressão dos intereses dominantes na comunidade internaçãoal que lhe rodeia.

Algo semelhante ocorria na imprensa ou TV espanhola com respeito ao Brasil; o "Correio das Más Notícias" fomentava, em primeiro lugar, a desconfiança do ser humano em si mesmo; apoós disso, nos demais e, por fim, no mundo inteiro... morbo ante a palha no olho alheio, víciosa deletação ante o escândalo, expectação ante o negativo, cinismo, imprensa amarela... os meios de manipulação de massas, que só consideravam vendíveis as notícias sórdidas, unicamente falavam do Brasil para sujar sua imagem com sensacionalistas e noxents reportagens sobre a degradação e matança dos menores abandonados nas ruas das megápolis; o qual não era mentira, mas tão só uma ínfima parte da verdade e a outra face, a mais sombria, de um dos países do mundo onde as crianças são mais amadas e consideradas e onde o povo, muitos milhões de boas pessoas, apesar da injustíssima distribuição da riqueza, possui por natureza a maior sabedoria social -ou Arte de Saber Viver em alegre, aberta, pacífica e carinhosa harmonia interna e externa- de que eu tenha dados em todo o planeta. Não há pessoa sã que conheça o Brasil e suas gentes e não os acabe amando.

Quando nos himnarios do Santo Daime os participantes visualizávamos o corpo astral da Terra absolutamente contaminado pelas mais escuras vibrações e trabalhávamos até o amanhecer bombardeando aquela ingente fumaça de poluição psíquica com nossas melhores vibrações de Amor solidario e cooperador, Consciência de Unidade, Beleza, Paz e Liberdade, resumidas na firmeza guerreira e no entusiasmo com que semeávamos a noite de hinos sagrados, estava claro ante minha miração que a parte mais asqueante do dragão astral que a negatividade da humanidade doente emanara durante o dia, tinha sido fundamentalmente gerada pelas formas- pensamento procedentes dos mass-média, somadas ao impacto pessimista e resignadamente morboso (ou já insensivelmente indiferente) que suas imagens produziam nas mentes de seus milhões de leitores ou telespectadores, as quais não podiam, inconsciêntemente, fazer outra coisa que se juntar no astral para elaborar um projeto mental apocalíptico, que conduz à Humanidade para sua autodestrucção por pura Magia Negra de autosugestão negativa.

Vocês tem ouvido ou lido sobre o assassinato Vudú em Haiti? Pois ele parte das mesmas premisas: Quando um feiticeiro quer eliminar a alguém, faz chegar àde sua casa uma série de signos rituais que lhe informam -e a toda sua comunidade- de que está sendo atacado magicamente. Isso rompe imediato a estabilidade emocional do agredido e abre suas defesas psíquicas; todos seus familiares e vizinhos entram em pânico também e fugem dele, como se fuge de alguém sobre quem tem caído a peste da má sorte.

Se a pessoa não tem uma gigantesca firmeza interna para proteger seu ânimo com bom humor, concentração de sua atenção em algo construtivo e fé total e comunicante com seus aliados angélicos e divinais, a autosugestão negativa acaba por penetrar nele, por lhe amargurar a vida e somatizar, isto é, convertendo-se o que era um vírus astral ou emocional numa verdadeira doença física ou em algum tipo de loucura paranoica que, finalmente, pode chegar-lhe a causar um dano mortal.

Cumpre-se assim o objetivo do bruxo assassino, quem o único que fez, realmente, fué contaminar de informação negativa o meio psíquico de sua vítima; que é a mesmo manipulação à que dedicam diariamente todo seu esforço e seus poderosos meios humanos e tecnológicos, bem consciênte ou inconsciêntemente, a maioria das empresas de informação mundiais.

"Quem não ama, contamina o médio ambiente"

-León Octavio Osorno-

No final do Segundo Milênio em que, por pura necessidade de sobrevivência, se pôs de moda a Ecología e as jovens gerações tomaram a bandeira da denúncia de todo aquilo que degrada o planeta, ninguém parece estar ainda suficiêntemente conscienciado de que o que mais o degrada, não são as fumaças dos motores, os vertidos químicos em rios e mares, as guerras ou os incêndios de bosques, que são só as folhas e os galhos da Árvore da Corrupção, senão o pensamento negativo da Humanidade, que é seu tronco; e, nas raízes do tronco, a manipulação desse pensamento pelos meios de comunicação de massas prostituídos ao serviço da fofoca mais degradadora e morbosa, da mediocridade vergonhenta, do lucro desconsiderado e irresponsable de uns quantos grupos de pressão que cultivan o envilecimento dos valores humanos, como método para converter ao cidadão num consumidor mais fácil de dirigir, mais alienado, mais passivo e mais idiota...

Transmutemos suas raízes, contenhamos os julgamentos que emitimos sem amor sobre os demais, construamos ao Homem em nós mesmos em lugar de viver nos queixando do mal que vai o mundo, e a Árvore da Morte convertera-se na Árvore da Vida e da feliz autorealização do Planeta. Exijamos a conscienciação das raízes sobre o poder do Verbo e o bom uso das Leis de Criação. Essas raízes são Os PROFISSIONAIS DOS MEIOS DE INFORMAÇÃO E SUA RESPONSABILIDADE para com todos os demais cidadãos; porque de nada adianta andar podando periodicamente os galhos; se as raízes continuan envenenadas, poda-las só conseguirá produzir frutos de degradação aindamais resistentes e poderosos.

Há demasiado tempo que nossas consciências são em grande parte controladas por manipuladores sem escrúpulos, Forças Involutivas tanto do Plano Físico como do Astral, que cimentan seu poder na descrência na potencialidade divina do homem, ao mesmo tempo que exhaltan as suas energias de medo, de desconfiança e de limitação, as quais fazem engolir à Humanidade quatro a seis vezes ao dia, e de esta minusvalía provocada por sugestão que eles se lucran e se alimentam.

Todo o sistema social chamado "normal" que nos rodeia está baseado no medo, na desinformação ou na informação manipulada; o Estado surgiu como um pacto social motivado pelo medo; o medo faz que nossos impostos paguem um funcionariado improdutivo cada vez maior, uma burocrâcia que só tem como justificativa de sua existência nosso temor a autogovernar-nos, a auto- administrarnos, a aprender a nos curar por nós mesmos, a auto-protegernos e nos cuidar; o medo tem criado as classes sociais, o racismo, as cárceres, os manicomios, as inquisições, as cidades superpovoadas, as fronteiras, os muros, os partidos, a polícia, os exércitos, as guerras... imagina-te todo quanto desaparecerá da nossa vista quando todos vivamos -e não está longe esse amanhecer-, nos sentindo todos UM para valer.

Entretanto, melhor que uma indesejável censura que possa servir de pretexto aos manipuladores de consciências para coartar ainda mais a mínima liberdade de expressão que temos com muito esforço conseguido... trabalhemos, cada um a sua maneira, por formar a todas as crianças em geral desde as Escolas, e aos futuros profissionais da comunicação em suas Faculdades, já sejam jornalistas, escritores, artistas, músicos, informáticos, cientistas, sociólogos, políticos... na concienciação responsável e cuidadosa do imenso poder da Imaginação ou Verbo Humano para o bem ou para o mau; e de sua importantísima influência específica sobre a construção do Paradigma Coletivo.

Crer é criar; não crer, com apaixoamento, é criar em si mesmo aquilo que se nega. Conheçamos as Leis de Manifestação, e usemos-lhas para o bem de todos.

Na miração, eu visualizava às vezes ao "Correio das Más Notícias" como um gigantesco volvo negro que ateaçava até quase o estrangulamento ao Planeta Azul; só as energias de sentida autoconfiança positiva em nós mesmos, na vida e na Humanidade e o reconhecimento da justiça daquela sombra acumulada, energías luminosas que lançávamos toda a noite sobre a atmosfera astral com nossos hinos, unidos ás do resto dos seres orantes da Terra, conseguiam dissolvé-la e difuminá-la temporariamente... ATENÇÃO: Precisam-se voluntários para unir-se ao Bom Combate.

Porém, cuidado com cair em tendências apocalípticas escapistas ou reacionárias: Existem muitas seitas e grupos de supostos lutadores pela Nova Era, que perdem a maior parte de sua energia construtiva em viver se queixando, denostando ou atacando ao velho mundo, com o qual recaem nas mesmas atitudes agressivas, negativas e intransigentes de seu inimigo, tornando-se igual a ele.

Pior ainda é a postura daqueles "espiritualistas" que têm perdido de tal maneira sua fé na capacidade de renovação do espírito humano, isto é, de Deus na Hierarquía, na Humanidade e no indivíduo, bem como a compaixão por seus irmãos e a responsabilidade pelo poder de suas projeções mentais -que conhecem muito bem-, e que vivem contaminando o mental e o astral do planeta com um programa igual de morboso que o dos mass-média sensacionalistas, emitindo continuamente -e até de forma sinérgica e ritual- uma solução de futuro que passa pela salvação de uns quantos eleitos vestidos de branco, que serão evacuados pela frota de naves extraterrestres ou angélicas, como em uma nova Arca de Noé, enquanto as outras três quartas partes da Humanidade obtêm o castigo a sua maldade sendo destruídas pela guerra global, a fome, as inundações e, por fim, o fogo do subsolo, que se converterá assim em seu inferno... Quando todo isso tenha ocorrido, as naves os devolverão à Terra silênciosa e desértica, onde por fim poderão ser felizes, cultivando alfaces e tomates no ermo, ainda fumegante e calcinado, enquanto cantam hinos sagrados, satisfeitos de não ter já ao redor a vizinhos molestos e profanos que pensem e atuem de maneira diferente à deles.

"O estado mental que mais precisa de guia, de iluminação e de amor é o daqueles que vêem o tempo todo aos demais seres humanos como um rebanho de pobres pecadores desorientados, precisados de guia, de iluminación, de amor, e de perdão."

Thaddeus Golas

A realidade material em que vivemos é sempre a colheita da imagem do mundo que anteriormente temos semeado no plano mental e regado no astral com nossa sentida emocionalidad. Cada quem merece o que sonha: Os meios de comunicação e os apocalípticos catastrofistas de qualquer tipo podem chegar a ser uma arma mil vezes mas perigosa que todo o arsenal atômico mundial, sobretudo agora, que os avanços cibernéticos nos achegam a uma cada vez mais sensitiva Realidade Virtual ...Vocês imaginam a alguém como Adolf Hitler -que também era um apocalíptico- dirigindo um monopólio televisivo ou controlando uma rede mundial de alta tecnologia em realidade virtual servida por Internet?

... E não haverá um mundo descontaminado, lúcido, livre e em progresso real até que os homens e mulheres de boa vontade da Terra exijam e conquistem seu direito, tanto a não ser manipulados psicologicamente pelos grupos de pressão acaparadores das grandes correntes informativas, como a um acesso igualitario, responsável e descentralizado aos Mass-Média -os avanços técnicos o estão fazendo cada dia mais factível-, e a sua utilização construtiva e consciênte como alimento são, harmonizador e elevador da mente social global, para a evolução positiva integral da Humanidade.

No entanto, o homem não será completamente Livre (com maiúscula) enquanto sua informação só provenha de fora, dos parciais interesses de outros, por médio de aparelhos e redes de comunicação desenhados pela indústria e o comércio com o principal fim de lucrar-se, de sugar sua energia emocional ou de construir opinião a sua medida.

É necessário que aprendamos a desenganchar-nos do Correio das Más Notícias para que possamos nos ligar –por méio da oração, a mantralização e o serviço abnegado- com a única Fonte Veraz de Informação Cósmica e permanecer nela com o coração aberto, levantando para isso em nossa fronte a antena capaz de sintonizar com o ilimitado Canal Do Amor, cujo diretor é nosso Mestre Interno.


34- EFEITO SELVA

Quando mais tarde eu descrevía tudo aquilo com um estado de consciência completamente racional e urbano, parecía-me profanar minha experiência; parecía-me que não tinha nada a ver com ela. Como quase não teve nada a ver tomar Ayahuasca, tempo após deixar a selva, em Rio Branco, Brasília ou Rio de Janeiro ou Mallorca, apesar do sincero entusiasmo de meus companheiros templários, os guerreiros e guerreiras daimistas, e da excelente direção dos comandantes e comandantas de sessão.

Por fora do seu contexto real e do contorno terapêutico adequado, sem o contínuo revigoramento físico do trabalho disciplinado e duro no mato, sem a comunicação etérica íntima e mágica com as poderossísimas energias puras dos espíritos da floresta no Coração do Mundo, sem a inmersão emocional no sentimento de um povo livre que se desenvolvia espontaneamente em seu próprio sonho épico em realização; longe do contato mental com os autênticos Homens da Selva e sua cultura, e carente da comunhão espiritual com terapeutas titulados por uma sabedoria da talha do Padrinho Sebastião... aquilo foi-se convertendo para mim quase como um ritual escapista qualquer, no méio da agitada vida laboral e social da urbe, cada vez mais próximo ao hábito rotineiro.

Porque existe algo que só posso denominar “EFEITO SELVA", que eleva ao máximo nossa sensibilidade; sair da Amazônia produziu em mim uma espécie de saudade profunda e insatisfação, parecida ao famoso "síndrome do astronauta", que padecía quem ficava incapaz de se libertar de sua saudade do espaço e de se adaptar de novo à prosaica Terra. De tal modo que acabei por não mais tomar Daime. Quando uma querida amiga me reprochou por ter deixado tão grande Mestre e medicina, respondi-lhe, com o maior amor, que um discípulo digno de um grande Mestre tem que demonstrar que o é, renunciando finalmente a seu apoio e saindo a praticar os altos vôos aprendidos com suas próprias asas, por sua conta e risco e em solitario. E que a melhor medicina só prova sua eficácia quando o paciênte que a tomava deixa de tomá-la, porque já se sente são.

De qualquer jeito, para mim, o Santo Daime vai muito além do rito de ingestión da Bebida de Poder, que é só a primeira porta a uma maior percepção. Os ensinos de sua Doutrina e o exemplo de seus guerreiros e amazonas, como todos os de meus outros Mestres, vivem incorporados em mim e me guiam (quando me deixo guiar) pelos mais claros rumos.

Um de meus maiores prazeres continua sendo me reunir com vários irmãos e irmãs para cantar hinos ou mantrams ou orar; de fato, todo o melhor que sinto, penso, digo, escrevo, pinto, faço, é um contínuo hino à mágica beleza da Vida Cósmica, que me mantém tão pleno como intensa e serenamente apaixoado dela.

Nesta vida só importa seguir concentradamente o Caminho-Coração que a nossa Alma sente que deve escolher em cada momento. A minha, após abrir-se graças aos ensinos de Carlos Pacini e do Santo Daime, já encontrou cursos superiores da Escola Evolutiva que seguir cursando. Por isso não tenho saudade por regressar a Mapiá algun dia, nem tenho curiosidade para inteirar-me pessoalmente de como evoluiu a Comunidade depois da morte do Padrinho, ainda que seria gostoso passar um tempo com Chico Correntes ou com quem aparecer, e talvez saudar de novo, olhando-os de frente desde adentro, aos guardiães astrais dos lugares onde tive as experiências mais intensas da minha vida… Sem saudade nemhuma, porque a maioria dos meus Guias que tinham estado dentro de mim desde sempre, continuam estando aí e me levando a mais altas aventuras espirituais cada día, graças a Deus.
Porém, não cabe dúvida de que a Amazônia, o Povo de Juramidám e a Ayahuasca nos brindaram (a mim e às minhas relações invisíveis) a maior oportunidade para conhecer-nos intimamente e compartilhar extraordinários momentos juntos. Muito gratos por tudo isso. Esse agradecimento é a razão deste livro.

A morada do meu Pai
é no Coração do Mundo,
onde existe todo ou Amor
e tem um segredo profundo.

Este segredo profundo
está em toda a Humanidade,
se todos se conhecerem
aqui dentro da Verdade...

(Hino do Santo Daime)

Que vosso Feminino Interno, se sois homens, ou vosso Mestre Interior, se sois mulheres, guiem-vos também pelos caminhos da Síntese e o autodescobrimento.

Porque a Identidade Real que os estereótipos fantasmais do ego ocultam a nossa percepção, e que se adivinha na raiz das potências dos arquétipos subconsciêntes da nossa imaginación, nossas visões e nossos sonhos, é a mesma para todos nós:

A do Filho, o Espírito Consciênte da Humanidade Planetária, o Verbo Encarnado, o Intimo, o Cristo Cósmico que somos quando Somos.

Boa viagem, irmão, irmã caminhante.
AQUELE ABRAÇO.



35- CONCLUSSÃO

Refletindo sobre as qüestões fundamentais:

1-A vida é um Jogo no que o Ser Cósmico se experimenta a Si Mesmo através das experiências vivenciais das infinitas personagens que representa.

2- Cada experiência é válida em si mesma para o Ser e neutra, ainda que lhe pareça positiva ou negativa, feliz ou frustrante, boa ou má, virtude ou pecado, àquela unidade individualizada de Sua Consciência que a experimenta sentida e vivencialmente.

3- O Ser com maiúscula -chamemos-lhe assim, para nos entender- se manifesta e se realiza com cada experiência. Sua personagem individualizada, ademais -chamemos-lhe o ser com minúscula ou a Mónada, ainda que lembrando que ela é uma pura parte do Mesmo-, aprende algo com essa vivência e evolui para um maior grau individual de consciência.

4- Involução e evolução são, para o Ser, simples elementos de seu jogo; cada vez que Ele deseja montar um novo cenário para Seu Jogo, faz que suas personagens involuam, isto é, se auto-limiten, rodeando-se de dificuldades, obstáculos e sombras dentro e fora de si mesmas, com o qual, ademais, perdem a lembrança de Quem São em realidade, e com ela, toda a omnisapiência e omnipotência do Ser.

5- Evolução significa que, a partir dessa ignorância e limitação iniciais, os seres, através das infinitas vivências e experiências, vão tratando de superar ou sortear suas limitações, acumulando com isso sabedoria e potência até que, um dia, auto-lembram-se de Si, de forma integral e entranhável. Aí, seu absoluto convencimiento evidente devolve-lhes sua Identidade Divina, sua omnisapiência e sua omnipotência eternas.

6- Chamaremos transformação à cada vez que os seres, como conseqüência de suas aprendizagens vivenciais em confronto com seus obstáculos, conseguem ampliar sua consciência para além de seus limites anteriores. A transformação pode ser grande ou pequena, sempre é parcial e nunca integral, e pode ser bastante duradoura ou breve, retornando neste último caso o sujeito a níveis de consciência inferiores aos que atingiu durante ela.

7- Chamamos Iluminação, segundo o que ensinam as tradições orientais, ao único tipo de transformação que não é parcial nem temporário, senão integral, constante e tão irreversível como quando o menino se converte em garoto: A energia vital, por fim dirigida consciêntemente pela vontade, depois de uma longa prática, vai ascendendo de chakra em chakra, ativando-os.
O sexto chakra é um órgão não físico, espiritual, que está situado no corpo sutil em correspondência com o plexo que há entre as sobrancelhas; quando a energia vital chega até ele e o ativa, diluen-se as ilusões individualistas e separatistas do ego e percebe-se claramente a unicidade divina que há em tudo; sente-se, de uma maneira integral, nossa unificação amorosa com tudo, e são sentidos o passado, o presente e o futuro desde a omniabrangente perspectiva do aqui e agora eterno do Ser que somos, e que sempre temos sido, ainda que estivéssemos cegos a tão espléndida realidade, por causa da contração de nossa energia-consciência na baixíssima onda do egocentrismo, a separatividade, o desamor e o medo.

Na Era anterior, que já está finiquitando, Podia-se elevar a energia vital consciênte até o sexto chakra e ativá-lo com um bom orgasmo sexual tántrico ou com um bem canalizado trance, produzido por ingestião de plantas de poder. Em ambos casos abria-se um portal interdimensional, mas só de uma maneira flutuante, em vislumbres, sem que tenha um bom assentamento nem fixação de nossa consciência sobre uma estrutura energético-mental suficiêntemente sólida como para agüentar esse tremendo aumento da voltagem durante muito tempo (sem que se esquenten os cabos e se funda a ordem mental).

O fortalecimiento das vias sutís de percepção, para que elas se convertam em veículo seguro e constante dessa poderosísima energia, diziam os Mestres orientais, só se conseguia através de uma prática constante do yoga meditativo: e tão só após que todos os veículos do meditador tinham sido convertidos em perfeitos canais da mais alta das energias, podía-se acessar à evidência constante de que ele é O SER MESMO.

Este AUTOCONHECER-SE, no qual se desterra para sempre a dúvida, junto com sua corte de limitações, não se adquire por vislumbres de autolembrança, senão por perfeita disponibilidade de todas as potências do Ser, quando por fim podem ser utilizadas (dentro da medida humana) por um conjunto corpo-mental adequado. Esta evidência integral e constante funde ao sujeito com sua Autoidentificação Real até a medula dos ossos; o qual, mais que o transformar, o transmuta.

8- À vista do previamente exposto, é claro para mim que todo quanto se descreveu neste livro são métodos, formas e instrumentos da era anterior, que provocam indudáveis transformações, parciais, graduais e sempre temporárias. Algumas destas transformações experienciais, como as produzidas na autopercepção pelo Santo Daime, podem chegar a ser até muito potentes, e a nos fazer avançar bastante no caminho, mas nenhuma delas produz, por si mesma, a definitiva Iluminação, meta fundamental da evolução humana (ainda que a tão desejada Iluminação só seja uma porta ao seguinte degrau das eternas evoluções supra-humanas do Ser).

9- As substâncias psicoactivas enteógenas mal servem para uma coisa: mostrar-nos, durante um tempo limitado, uma freqüência de onda na qual a nossa mente, uma vez purificada, pode vibrar dentro da maior integração harmónica com todos os seres, em unicidade e plenitude. Conhecer essa freqüência é importante: indica-nos o objetivo que devemos atingir. Mas, em minha opinião, é um caminho de ilusão mais tentar manter-se nessa onda a base, exclusivamente, de ingestião freqüente de psicoactivos externos. O que deve-se fazer é potenciar o maior psicoactivo interno, que está, continuamente e sem custo, a disposição de todos nós: a prática real do Amor Incondicional Universal ...e aplicá-lo constantemente, convertendo nossa vida quotidiana em puro serviço abnegado. Nunca as circunstancias cósmicas foram tam propícias para essa grande mudança como neste momento.

10- As vias chamánicas que utilizam plantas de poder, se fossem autênticas, nunca fazem da ingestião contínua de substâncias psicoactivas seu principal objetivo: As substâncias são um méio, um despertador, uma medicina potenciadora, e jamais um fim. O fim é chegar a expandir tanto a própria consciência a base de pequenas transformações, que o sujeito consiga viver na onda do amor universal e a unicidade sem necessidade de mais muletas. De fato, no Mapiá que conhecí, tanto os chamãs indígenas como os Padrinhos e Madrinhas do Daime precisavam cada vez menor quantidade da Bebida de Poder para entrar em trance, até que só comungavam uns pinguinhos como símbolo sacramental. Estas vias auto-cognitivas, ademais, estão sempre respaldadas por uma sólida doutrina e disciplina comunitária de vida. É altamente recomendável conhecê-las dentro de seu contexto original, uma comunidade fraternal inserida na natureza virgen, que é nossa maior escola de sensibilidade e realidade.

11- Seja simples ou intensa nossa aventura vital individual, parece ser que a Iluminação encontra-se além da mera acumulação de experiências, aprendizagens e transformações. Não se conquista, chega, simplesmente, quando o servidor da Luz desapegou-se e já abandonou toda ansiedade, inclusive a de transcender. È então que se encontra realmente preparado para a receber.

12- Por conseguinte, busque cada qual, segundo seu caráter e tendências, sua própria maneira de experimentar a vida mais ou menos intensamente, para se transformar em aquilo que lhe interessa, que há um método ou uma via para cada ser dentro da infinita abundância universal, e todas elas podem ser tão corretas e válidas como relativas... Mas ninguém espere de nenhum método a Iluminação definitiva, que talvez chegará por si sozinha inesperadamente, como Santa Graça, no dia em que seja capaz de caminhar de forma espontánea por si mesmo uns metros além de onde se acabaram os últimos métodos e experiências, sem sequer estar mais pensando em se iluminar.



Manuel Castelín

Villamaga de Vigo, Galiza, Espanha, Maio 1992.
Revisado e ampliado em Villamaga de Palma,
Ilha de Mallorca, Espanha 1996-97
Traduzido a Português e remodelado em Vilamágica da Chapada,
Arca do Tempo, Portal da Baléia, Alto Paraíso de Goiás, Brasil 2011.
ANEXOS PARA ESTUDIOSOS
1- INFORMAÇÃO BIOQUÍMICA

Como dados puramente botánicos e químicos, segundo o Professor Antonio Escohotado -entre outras coisas, um dos grandes experientes mundiais em psicodelia-, em seu estupendo livro "Aprendendo das drogas" , a Ayahuasca, também chamada Hoasca, Yajé, Caapi, Marirí, Dap'a, Mihi, Kahi, Natema, Kamarampi, Pildé ou Pindé e outros muitos nomes... é uma mistura bem cozinhada de uma grande liana da selva -tão grossa e comprida como aquelas que Tarzão usava para se deslocar nos filmes- e algum outro aditivo vegetal. O cipó, que entre o povo do Santo Daime se chama Jagube e em latin científico "Banisteriopsis Caapi", contém -como a Yohimbina, a Rauwolfia e a Peganum Harmala mediterránea-, IMAOS, ou seja, alcaloides beta-carbonílicos inhibidores da monoamino- oxidasa naturais e antagonistas da serotonina ou 5-hidroxitriptamina, tais como harmina, tetrahidro-harmina ou harmalina, e uma série de bases relacionadas, estimulantes antidepressivos do tom vital, que a sabedoria ancestral indígena soube complementar e potenciar com extratos de outras plantas da selva.

O aditivo usado pelos daimistas é conhecido com os nomes de Rainha, Chacrona, ou "Psychotria Viridis", mas sabe-se que os índios e outros ayahuasqueiros chegam a misturar com a liana Banisteriosis Caapi até quase uma centena de plantas pertencentes a 38 famílias vegetais diferentes, que foram catalogadas por diversos investigadores como recipentes de Dimetiltriptamina (DMT), uma substância altamente visionaria, mas que unicamente pode injectarse ou se fumar, e cujos efeitos só durariam um máximo de dez minutos, se não fosse por sua combinação com os IMAOS do Jagube.

De que maneira o chegariam os índios a descobrir? mediante uma arriscada experimentação coletiva de séculos, ou por revelações dos seus guias astrais? ...esta acertada combinação não somente permite-lhe ser bebida, senão ademais, prolongar bastante tempo seu efeito e reduzir muito a brusquedade de seu impacto psíquico, com uma toxicidade mínima e uma eficácia máxima, pelo que a Administração Brasileira não tem encontrado justificativas suficiêntes até agora -ainda que não deixou de fazer suas tentativas-, para a fazer figurar na lista de drogas controladas ou proibidas; proibição que somente serviria para facilitar o enriquecimento das máfias que explodem a fascinação do ser humano por todo aquilo ao que não tem fácil acesso.

Os Daimistas diziam que o Jagube dá a força e a Chacrona a luz, e os consideravam respetivamente como elementos masculino e feminino de uma alquimia que tinha que ser elaborada separadamente por homens e mulheres até sua síntese na cozinhada do Feitío. Uma mistura habitual vem a conter 40 miligramos de IMAO por 25 miligramos de DMT.
Para comparar, 200 ou 300 miligramos de IMAOS artificiais (ou seja, umas sete vezes mais, e muito tóxicos), são as doses habituais que os psiquiatras ocidentais costumam administrar diariamente a seus paciêntes depressivos para os manter mais ou menos inconsciêntes de suas angústias existenciais, que bem sabemos que não são outra coisa que os chamados apremiantes do seu corpomente e da sua alma para que paciênte por-se a examinar que é o que precisa mudar na sua vida para achar nela o lugar e missão que sua Mónada o Eu Superior, ou Espírito Individual escolheu realizar antes de reencarnar.
A maioria destes psiquiatras consideram um mau inevitável a somnolencia letárgica, fadiga permanente, baixada de defesas, acumulação de resíduos não assimilados no organismo, incompatibilidade com grande numero de alimentos e muitos outros custosíssimos efeitos secundários, derivados de sua grande toxicidad, em troca de aliviar os sintomas externos da angústia que aqueixa a seus paciêntes... e muito poucos professionais abordam seriamente o duro trabalho de mergulhar ao fundo do subsconsciênte do deprimido, em busca do reconhecimento e remoção consciênte das CAUSAS de sua depressão crônica (o lixo psíquico acumulado que distrae, vela e estagna o destino da alma), como obriga a fazer o Daime a seus ingestores desde as primeiras tomadas... Em lugar de combater o mau na sua raiz, dedicam-se a ir podando, simplesmente, suas folhas externas, com o que têm paciênte para para toda a vida.

Quanto à substância visionaria contida na Chacrona, diz o Professor Escohotado que ela atinge uma margem de segurança tão alto que os cientistas nem conhecem sequer dose letal para os seres humanos. Também não pode produzir dependência física, nem os angustiosos e desesperantes "síndromes de abstinencia " que geram muitas drogas estimulantes ou sedantes quando se deixam de tomar.

A maioria do peso de uma planta visionária está formado por pura água, celulosa, hidratos de carbono, proteínas, gorduras, sais minerales, pigmentos... tão só um por mil dela são verdadeiros princípios psicoactivos. Por essa razão os químicos isolam esta parte mínima e fazem-na cristalizar. Uma vez cristalizados os elementos puros que lhes interessam, faz-se possível os reproduzir em laboratório, isto é, sintetizá-los. Foi assim como Albert Hofmann obteve o alucinógeno de desenho mais potente que existía até agora: o LSD, ou dietilamida do ácido lisérgico, que é o princípio psicoactivo do fungo chamado Ergot ou Chifrinho do Centeio, planta que, sem dúvida, tinha um papel muito importante nos Mistérios Iniciáticos que os antigos gregos celebravam perto de Atenas, no famosíssimo Templo de Eléusis dedicado a Démeter, deusa padroeira dos cereais.

A vantagem de um preparado sintético é que não sabe tão mau como a maioria das plantas e que não há perigo de introduzir nada nele que cause efeitos não desejados, além de que se pode medir a dose exata que se ingere, única maneira de experimentar cientificamente com ela. Uma dose mínima de concentrado puro em pó ou pílula pode produzir o duplo do efeito que produz algo que vai misturado com muitos elementos diferentes, os quais o corpo tem que separar e metabolizar, com considerável despesa de energia.

Ficaria por ver se estamos-nos perdendo algo verdadeiramente importante quando eliminamos o resto da planta porque os analistas não souberam encontrar-lhe utilidade visionaria; uma pincelada laranja aparece mais intensa ante nossas percepções se rodeada de azuis ou verdes, que se isolada das outras cores, ainda que não tenham parentesco com seu tom. Ademais uma planta é um ser vivo com um espírito elemental, que é quem verdadeiramente pode influenciar o nosso, e não só simples compoentes matéricos isolados do seu invólucro físico.
Os químicos não têm achado princípios psicoactivos nas samambaias (avencas) nem no muérdago, mas um dos aditivos que alguns índios amazônicos acrescentam sempre, não sabemos por que, à Banisteriopsis Caapi ao fazer sua bebida de poder, são os avencas Lygodium Tenustum e Lomariopsis Japurensis, bem como Prhygylanthus Eugenioides, que pertence à família do muérdago, aquela planta que os druídas celtas cortavam com foice de ouro e a maior cerimônia, depois de subir nas carbalheiras sagradas.

As PLANTAS DE PODER são assim chamadas porque sua ingestião exerce uma ação tão poderosa sobre nossa consciência habitual que, practicamente, muda ou transmuta toda a nossa vibração. Que é o que faz que os produtos metabólicos nitrogenados das plantas que têm propriedades alcalinas (alcaloides) produçam esse impresionante efeito?... Pois parece ser que a estrutura química dos alcaloides vegetais é muito semelhante, ou idêntica, a nível molecular e atômico, à dos hormônios que segrega nosso corpo para que façam o papel de inibidores ou transmissores de impulsos e códigos de informação entre os neurônios de nosso cérebro.

Para explicá-lo de uma maneira muito singela, parcial e simplista: imagina-te que te encontras em uma situação não habitual que te obriga a fazer um esforço para acordar mais do teu letargo rotineiro: alguém te ataca, ou teu carro fica de repente sem fréios, ou te apaixoas... imediatamente o corpo reage pondo-se a lançar ao torrente sangüíneo (sem parar-se sequer um segundo a consultar qual é a vontade do ego que oficialmente governa nesse momento sobre o conjunto de teu organismo), quantidades extras de hormônios cerebrais (serotonina e adrenalina, por exemplo), que facilitem uma comunicação mais rápida, coordenada e eficiênte dos neurônios encarregados de se enfrentar com a situação nova que está se produzindo, dando preferência à ação das áreas mais intuitivas e lúcidas e fechando os portais daquelas outras que precisam de muita despesa de energia e tempo e cálculo intelectual para tomar decisões que, sem dúvida, estariam viciadas pelos preconceitos do ego pensante, suas dúvidas, seus medos e suas vacilações.

Bom, pois resulta que quando tu tomas um alcaloide que contém umas substâncias que, a nível estrutural, são practicamente idênticas à serotonina e adrenalina do teu organismo, estes psicoactivadores actuam igual que eles: ignoram ou adormecem, ou enloquecem, ao ego racional controlador e deixam sair ao Eu Intuitivo com toda sua lucidez holística e purificadora. Com o ego controlador neutralizado, a sensibilidade geral agudiça-se e o Supraconsciênte, o Consciênte e o Subconsciênte de nosso Ser fazem-se um, o Um Multidimensional que sempre foram e que, simplesmente, não podia se expressar com fluidez porque o ego se empenhava em separá-los para adaptar tudo a seus esquemas prefabricados e compartimentados, aqueles que ele podia controlar sem demasiado esforço, dentro de uma visão do mundo muito limitada pelo encadenamento ao voo vital a rente da terra, dentro de seus hábitos mentais materialistas e archi-conhecidos.

Naturalmente, o que acontece é algo bem mais amplo, e em nosso estado de “consciência contraída" habitual ou “consciencia egoica”, quase não temos perspectiva para compreendé-lo: as ondas cerebrais predominantes em esse estado que chamamos "normal" de consciência "desperta", passam a ser substituídas por outras que normalmente só usamos nos momentos em que sonhamos, em aqueles nos que estamos criando ou nos que estamos amando com todo nosso ser: estados de “alta atenção integral”, não contraída nem dispersa, senão expandida e concentrada.

Isso significa que, nesses momentos, o Ser está funcionando livremente, através de um espírito criativo e incontrolável que Ele pode canalizar sem travas aqui e agora, depois de ter limpado e apurado seus canais, os quais podem então perceber o mundo como se o mundo fosse novo para nossas percepções (fazer-se como crianças, para entrar no Reino dos Ceus).
Conseguir se manter neste estado de maneira permanente, é a meta de toda espiritualidade, e melhor ainda, se não fossem necessãrias as muletas químicas nem as mentais. Tanto as plantas de poder como as crências cegas só permitem visões e sensações temporárias dessa altísima freqüência, mas nunca assentamentos constantes nem definitivos nela.
2- A QUESTÃO ÉTICA

Não se deve confundir moral e ética: o primeiro termo, latino, significa costume, o código de costumes e normas de comportamento, e definição de “normalidade”que uma determinada sociedade aceita e impõe aos seus cidadãos… ou seja, preconceitos sociais. O segundo termo, grego, significa toda uma libre e corajosa procura pessoal e interna sobre o que tem ou não tem valor e dignidade para nossa alma e nossa evolução espiritual.
Estudemos se pode ser ético e válido um atalho para a espiritualidade, no qual se usam plantas de poder. Naquele momento, há vinte anos, eu pensaba, que quem opina que não o é, está bem em seu direito buscar outros caminhos que, pessoalmente lhe pareçam mais puros ou meritórios (porém, sem descalificar as livres escolhas de ninguém).
... Ainda que, tal como está de distraída e alienada a Humanidade, a espiritualidade sem muletas (oração, mantralização, contemplação, meditação e serviço amoroso abnegado) me parece, e me sigue parecendo, inatinguível para a imensa maioria.
Quem está obçecado pelas aparentes terríveis limitações que rodeiam a condição humana, acha que todas as coisas importantes têm de ser obtidas tão só através de um enorme e sofrido esforço.

Como nosso pensamento, aquilo no qual acreditamos, cria nosso mundo, se tu o acreditas assim, terás que fazer realmente grandes sacrifícios para chegar ao alto de tí mesmo. Quando o consigas, após ter escalado o bico pela parte vertical, pendurado do precipício, talvez te encontrarás na cume com aqueles que têm chegado lá, subindo em menos da metade de tempo, pela escadaría confortáve que havia pelo outro lado, os quais talvez te felicitarão por tua façanha esportiva, mas sem dúvida têm chegado antes que tu a onde queriam, e o estão desfrutando igual, ainda que sabem que não vão ficar a viver no cume.

Diz Thaddeus Golas: "À iluminação não está nem aí, com respeito à maneira em que você chegou a ela". E também diz: "Iluminação é toda experiência de ampliação da consciência para além de seus atuais limites".

...Porém, os Mestres realizados de Oriente fazem qüestão de que uma verdadeira iluminação é constante e definitiva (ao menos para esta encarnação), e não uma curta e brusca flutuação desde nossas ondas mais baixas à uma olhada ao degrau seguinte da alta escada da consciência, para, em menos de três ou quatro horas, ir voltando abaixo, cheio de saudade.
No momento atual, eu pensó da mesma maneira, o bom sería viver permanentemente na Luz, e não andar acendendo e apagando, como vagalume, tal como é a vivência habital das chamadas “boas pessoas” …ou da mayoría dos tomadores de Ayahuasca, na vida comúm.
Eu sei que uma Espiritualidade sem apagões exige uma corajosa renovação quotidiana da consagração que se fez como Servidor da Luz, não acredito mais em iluminação que dura toda a vida (a menos que a gente morra justo após dela)… se tivermos que seguir vivendo neste mundo de ilusão. Como Jesús dizia: “Santo só é Deus e o justo peca sete vezes ao dia”.
Com tudo, ainda que na atualidade prefira seguir tentando o camino místico de oração, mantralização, contemplação, meditação e serviço amoroso abnegado (em companhia de uma comunidade bem organizada, creadora de Novos Paradigmas e bem ligada com a Hierarquia, que propície 24 horas ao dia a focalização nessa espiritualidade sem muletas químicas)…sería um ingrato com o Santo Daime, se não reconhecesse que ele foi o Portal pelo que passei a descubrir e obter a sentida evidência da realidade do Mundo Espiritual, vinhendo do materialismo pseudo-científico do mundo común em que a maioria encontra-se empantanada.
Por isso continuo a traduzir este livro, porque penso que, por pouco que esta Medicinha desperté, é, sem sombra de dúvida, o mais potente despertador que existe, para a maioría de zombis que povoam o sistema (inclusive para os que se gaban de ser rebeldes ao mesmo) e, quem sabe, uma vez iniciado o Caminho da Luz com esas muletas, os mais fortes poderão um día deixar elas a um lado com agradecimento, e tentar seguí-lo sobre seus próprios pés, confiando no Poder Superior que descobriron usando-as.


A ingestião de psicoactivos dentro de um contexto sagrado tem sido uma via utilizada pela Humanidade desde a Prehistória para que qualquer possa comprovar que nossas energias sutís são uma realidade, que expandiendo a freqüência vibratoria de nossas energias estas tornam-se enormemente mais consciêntes, e que aquilo do que uma consciência expandida nos fala é, essencialmente, a respeito do amor de todos por todos e da imensa lucidez, sabedoria e bem-estar que tal tipo de amor produz em quem o vive.

Nossa mente está conformada por um enorme número de consciências elementares que passam o tempo brigando entre si, se contradizendo, tratando cada um deles de fazer-se com o poder de dirigir o conjunto. Essa anarquía interior é um bom reflexo da desarmonía desconjuntada na que encontra-se nosso mundo exterior, a sociedade humana, com suas contínuas lutas entre indivíduos, fações e países, e viciversa.

Os psicoactivos, sempre que devidamente ingeridos num contexto sagrado, conseguem que todos esses egos subconsciêntes se aceitem, se ponham a dialogar entre si de uma maneira que o consciênte capta como clara reflexão intuitiva, minimizm suas diferenças, consigam chegar a algum tipo de acordo e adiantem ao sujeito, em menos de duas horas e em virtude de sua harmonia, a experiência entranhável e sensível de Unidade Interior, de Totalidade e de Integração com Tudo, a qual é demasiado intensa para ninguém a esqueçar.

Bem é verdade que tal experiência não tem sido mais que um vislumbre efêmero de Unificação, bem é verdade que não foi possível manter-se nela mais que um momento, porém, em adiante, ainda que o sujeito retornar a cair em freqüências quotidianas mais baixas, ele estará motivado a procurar viver em estados de vibração expandida, em lugar de contraída, e acabará descobrindo, se é inteligente, que a maneira melhor de propicia-los, ainda melhor, que voltar a tomar uma e outra vez psicoactivos de ação efêmera, é... ENTREGAR-SE APAIXOADAMENTE AO AMOR UNIVERSAL, a via de elevação que experimentou-se como a mais verdadeira, segura e direta, durante todos os trances.

Qual é a outra alternativa ou o passo seguinte ao descobrimento químico das Realidades espirituais? A Mística Clássica: ascetismo, liberação do supérfluo, desapego das ilusões materiais e da vida convencional, familia inclusive, renuncia a projetos e conquistas pessoais e a toda competição, retiro a um lugar onde seja possível se concentrar, bem individual ou comunitariamente, em permanecer ligado com a alma e com a Irmandade dos Seres Divinos sem distrações, oração, mantralização, orden monástica, silêncio oral e mental, jejúm (sobre tudo, de julgamentos, de preconceitose focalizações no pasado ou no futuro, de desejos vulgares, de crítica, de queixas, de palavras inecesárias, de fenómenos psíquicos e de toda ambição ou expectativa de resultados, até de resultados de elevação espiritual), purificação, contemplação, meditação… e, imprescindível, serviço amoroso e abnegado, com alegría ou seme la, aos necessitados de todos os reinos, junto à paciente e constante construção de novos paradigmas para um Novo Mundo mais elevado durante o resto da vida, com a certeza de que é preferível sofreer ou perder o corpo físico, antes que renegar do pacto evolutivo realizado pela alma ante nossas sete Mónadas ou ante Deus que as habita com Sua Luz.
Eu demorei até os 61 anos para poder amadurecer o suficiente como para escolher com gosto essa via. Há 20 anos, ainda não estaba preparado, ansiava sempre descubrir, comprobar e fazer as coisas já; e as plantas de poder deram-me essa imediatez que eu pedia. Só depois compreendí que aqueles poderes eran poderes de vagalume, mas isso me fez um ardente aspirante a convertir-me em digno instrumento do Poder que jamais apaga, o Poder de Deus sem muletas.

Entretanto, aquele primeiro degrau iniciático que o Santo Daime me forneceu em 1989, não foi uma iluminação integral, nem profunda, nem constante, mas, pelo menos, agora posso imaginar o que significa iluminar-se: tal conceito deixou de ser uma entelequia o uma crença para se converter num objetivo que me interessa…E não mais pelo fenómeno, não mais pelas sensações, que já as viví com a Ayahuasca, senão pela abençoada conexão com à Pura Essencia do Divino.
Esse é, pois, o sentido dessa primeira etapa da Escala Inicial Humana onde as plantas de poder te despertam do letargo comúm e te instruem: fazer-te sentir, com evidência sensível, o que é que viemos a atingir nesta Escola da Vida. Depois disso, repotenciados por esse estímulo, temos que ser guerreiros bastante para nos propor aceder a degraus superiores sem mais medicinas.

Os animais e a Humanidade vêm usando estimulantes psicoactivos enteógenos (enteógeno significa "viver a experiência de sentir a Deus dentro de um") desde que o mundo é mundo para se purgar, se curar, vigorizar-se, se inspirar ou ter um vislumbre da alta vibração de consciência expandida, para a quual todos os seres tendem naturalmente. A ninguém parece-lhe mau que um yogui realize um jejúm prolongado que produzirá, junto com exercícios respiratórios de aumento rápido da seu oxigenação cerebral, uma alteração psicoquímica no seu metabolismo …que não se diferenciaría muito do efeito que causa a ingestião de drogas parecidas, na sua estrutura, aos inibidores ou estimuladores naturais do cérebro.

De forma semelhante atuam algumas febres, por exemplo a malária, na qual padecem-se fortes alucinações. Mas nem o yogui vai iluminar-se só por comer vegetais ou jejuar ou enfebrecer, nem o daimista vai conseguir a “Seidade” ou “ATO DE SER O SER” que conquistou o Padrinho Sebastião Mota…com só beber Ayahuasca cada dia; faz falta, ademais, um consciênte trabalho quotidiano com a consciencia e o serviço aos demais, como o que ele teve constantemente… E isso não precisa ser um sacrificio. A contínua auto-correção e conexão, quanto mais serenas e desdramatizadas melhor; junto a um amor universal em permanente ação misericordiosa e desapegada... o que inclui, também desapegarse também da sobérba espiritual ou do orgulho do "eleito" que escolhe se realizar de uma maneira mais meritoria, estranha e difícil que a dos demais.


Todos chegaremos lá acima, ao Mais Alto, irmãos e irmãs, a iluminação não é só coisa de Cristos e Budas, ninguém vai ficar sem seu êxtase tarde ou cedo, porque a tendência a se unificar com Tudo está contida em nosso programa evolutivo eterno, de uma forma tão natural como a tendência a crescer após a infância, ainda que alguns estimulem um crescimento maior jogando ao basquete... Caminhemos, sem pressa e sem perder o tempo, cada um a seu ritmo e a sua maneira, e que todos muito o desfrutem.

PORÉM, ATENÇÃO: Aquele que acha que tem milhares de encarnações por adiante para conseguí-lo, e que, por tanto, pode se dedicar a, simplesmente, coçar o umbrigo em esta, poderia se encontrar, em sua próxima manifestação sobre o Plano Físico, que sua consciência eterna não siga caminhando a partir das facilidades evolutivas com que terminou a atual, senão que séu meio ambiente de aprendizagem retrocedeu muitíssimos passos para atrás em qualidade.

A Natureza é nossa grande professora; observa um frutal: milhares de flores, mas só uns centos delas conseguem desenvolver frutos. Ao cabo, vem um vento e xoga ao chão flores e frutos. Há muitas flores que portam em si a semente de sua transformação em uma futura árvore, mas é claro que nem elas nem os frutos que caíram ao solo demasiado verdes terão as possibilidades que tem aquele fruto que cai o suficiênte maduro para que sua polpa nutra à semente durante o delicado período de sua germinação, arraigo e primeiro crescimento.

Bom, pois, é não se esquecer de madurar o próprio fruto... caso contrário, a semente pode apodrecer sem germinar ...e teria que recomeçar outra enorme evolução desde o princípio: desde o Reino Mineral... ou talvez consiga germinar, mas para se desenvolver raquítica e fraca, em sua nova vida, por falta de nutrintes.

Em todas as tradições tribais, avós do que hoje são as orgulhosas sociedades civilizadas, iniciou-se aos aspirantes a guerreiros, depois de demonstrados seus valores de jovens adultos, no contato com os aliados astrais da tribo e no autodescobrimento energético das dimensões invisíveis, abrindo suas percepções por médio de alcaloides sagrados ou outras substâncias enteógenas.

Não existe uma sóla cultura importante no planeta que não tenha conformado as raízes de suas cosmogonías ancestrais em um período tribal de grande integração com a natureza, há mais de cinco mil anos que se usam plantas de poder para entrar em contato mental com os arquétipos divinais que formam as matrizes do Programa Evolutivo no subconsciênte coletivo de toda a Humanidade; os arquetipos sempre têm sido os mesmos, mas cada grupo humano trazia-os a uma forma material venerável, os revestindo de suas próprias concepções éticas e estèticas: Sempre o homem criou a seus deuses a sua imagem e semelhança.

E não só isso: uma vez criados seus mitos específicos, cada sociedade humana construía toda sua organização cultural em torno deles, bem como seus valores essenciais, religiões, leis e costumes. Todo o mundo que temos construído, incluída a sociedade tecnológica atual, é produto das visões de nossos ancestrais, depois da ingestión ritual de alguma planta ou fruta, fungo, cactus, infusão ou vinho mágico.

Busquemos pistas na própria mitología sumerio-judeo-cristã: Que classe de fruto seria o que assinalou o Grande Tentador (com uma maliciosa proibição) a nossos mais remotos ancestrais no paraíso da Natureza Virgen (ou talvez da Lemúria ou Atlantis), para que se animassem a ir a fundo no Grande Jogo da Involução pre-Evolutiva (densificação do espírito e formação de invólucros físicos de distintos sexos para ele), mudando sua consciência de pura unificação por uma consciência dual e um sentimento de separação e culpa? Somos a conseqüência da embriaguez de Noé depois de sua entusiasta celebração por ter sobrevivido ao Diluvio? Por que a ingestião de um pedacinho de pão e um pouco de vinho é o sacramento mais importante do Cristianismo?

Remeto a quem tenha interesse ao livro de Antonio Escohotado antes citado, e a outro seu, em três volumes, titulado "História das Drogas"; também ao de Josep María Fericgla "Ao trasluz da Ayahuasca" , no quual se esboça uma interessante hipótese sobre como as substâncias enteógenas estão na base de toda formação de culturas. Por minha parte, não tenho preconceitos contra as Plantas de Poder, se usadas sacralmente, de forma sensata e positiva, isto é, para ajudar a acordar do sonho profundo no que quase sempre nos mantêm submergidos a legión de elementares que conformam nosso ego, e para Auto-religarnos com nosso Eu Autêntico dentro de um respeitoso ritual.

Em minha geração tem havido muita gente que só atua seguindo critérios externos impostos pela moda; assim, quando pusseram-se de moda o naturismo, as medicinas alternativas e o ecologismo, houvve muitas mentes fanáticas e elitistas às que lhes parecia um pecado social ou, quanto menos, uma cafonice, tratar uma infeção com antibióticos ou usar um tractor numa comunidade alternativa em lugar de carroças de bois, como nossos avôs. No entanto, quando todos os remédios tradicionais falhiram, os antibióticos salvaram suas vidas; e seguro que se eles precisassem viajar a outro continente, utilizariam um avião, e não uma caravela.
As plantas de poder, acompanhadas por seu corpo filosófico e vital e, sobretudo, por uma intenção re- ligadora com os Arquétipos espirituais de cada cultura, são uma medicina e uma terapia equilibradora, didática e orientativa, encaminhada a nos re-dirigir a nosso destino fundamental quando estamos muito doentes e perdidos, não são um objetivo nem um fim em si mesmas.

Eu não tenho antipatías preconcebidas contra as plantas psicoactivas, nem contra os antibióticos nem contra a tecnologia moderna; e não os tenho porque os conheço, e sei que são tão neutros, naturais e úteis como o é o fogo, quando usados por uma mão prudente. Igual que o fogo, também podem servir para destruir ou autodestruir-se, mas isso já não depende do método, senão da atitude e a inteligência de quem os usa.

Quem tem amor, moderação, força de vontade e consciência, tem liberdade real, porque sabe como a usar; todo quanto foi criado é bom e está a nossa disposição; só de nossa atitude e de nosso grau de responsabilidade, correta intenção e prudência ao usá-lo, depende se fazemos com isso magia branca ou negra.

Sou consciênte dos tremendos preconceitos que desata uma postura favorável para o livre alvedrío no uso ou não de plantas de poder e, muito freqüentemente, as pessoas às que confiei sinceramente a minha postura, deixaram de me ver como me viam antes, para projetar a partir de então sobre minha pessoa a imagem popular estereotipada do drogadicto insalvável.

De pouco serviu que eu desse todo tempo exemplo de comportamento moderado e de mente clara e consciênte, trabalhadora e cabal; a etiqueta de vicioso era mais fácil ou divertida de julgar e considerar que, simplesmente, observar à pessoa; com o qual, inclusive indivíduos bem degradados pelo abuso do álcool se sentiam mais virtuosos que eu, e até com direito a me condenar como delinqüente, pelo simples fato de que o álcool é uma droga oficialmente tolerada, enquanto algumas das plantas psicoactivas das que falo neste livro ainda não têm sido socialmente aceitadas, e nem sequer estudadas de maneira profunda, experiencial e imparcial pelos pesquisadores.

Estaria muito bem que os Estados formassem, considerassem e tratassem aos cidadãos verdadeiramente adultos como adultos, ao igual que os Conselhos Tribais fazem; e não que continuem nos mantendo em uma eterna minoria de idade, entregada à tutela e ao arbitrio dos "experientes" oficializados, que geralmente têm sobre estes assuntos um conhecimento mais teórico que prático, quando não se limitam a servir descaradamente, sem a menor oposição, as diretrizes emanadas daqueles que preferem tratar a seus administrados como um rebanho estúpido de consumidores aletargados, masificados e dóceis a sua influência; isto é, como seres infra- evoluídos em seu potencial humano, porém, facilmente governables e manipuláveis...

... E com respeito às drogas visionarias, não há magia negra pior nem mais hipócrita que as proibir oficialmente em nome da moral e previdência pública, para poder se enriquecer vendendo-as clandestinamente e adulteradas, por vinte, trinta, quarenta vezes seu valor no mercado negro. Demassiado com freqüência, quem faz a lei, faz a armadilha.


3- PARA PREVENIR:

Aparte dos típicos riscos de vício ou dependência psicosomática, ou de envenenar-se por sobredose (o que converte aos estimulantes em depressores ou em verdadeiros venenos), ou por juntar-lhes álcool (isso sim que pode ser mortal), ou outros estimulantes, ou por consumí-los com demassiada freqüência... (conseqüências da inmoderação e os excessos de quem experimenta sem um mínimo de maturidade emocional ou de um guia experiente), dois são os principais perigos das substâncias especificamente visionárias:

-O PRIMEIRO PERIGO implica-o o derrube dos esquemas prefabricados de falsas suposições e julgamentos sobre os que se assenta nossa estabilidade psíquica, isto é, a personalidade, a máscara, o ego, a "Boa Imagem" que paciêntemente temos fabricado a base de autoocultar-nos o que menos gostamos de nós mesmos e de presumir contínua e exageradamente daquilo do que nos gabamos.

a Ayahuasca, como também os fungos Psilocibes, a Mescalina do Peyote, o cactus Sampedro ou São Pedro e (dizem, eu nunca os provei) a Amanita Muscaria, o Ergot ou Chifrinho do Centeio, e outras plantas visionãrias tradiçãoalmente usadas como sagradas por muitas culturas, (além do sintético, ainda que excelente LSD), desmontam de vez, assim que fazem efeito (se corretamente acompanhados de um ritual de séria e sentida invocação à Luz Divina), todo quanto não tem base na sua mente… e submergem você na loucura mais lúcida -um redemoinho de códigos mentais pre-racionais vertiginosamente caótico, sem nenhuma referência estável- até que você encontra. em suas profundezas, uma rocha segura à qual se asir, rocha que não pode ser outra (não há outra), que sua Identidade Real, o Ser Autêntico Espiritual e Cósmico que você eternamente tem sido.

Este Ser é tão real que ninguém deveria deixá-lo de sentir, mas desde a sua adolescencia, você -como todos nós- tem-se esmerado em enterrá-lo baixo toneladas de máscaras ocas com as que preferiu se identificar, fortemente influenciado por uma programação social que tem estabelecido como paradigma de “normalidade" a mais fácil, baixa e comúm das alienações psíquicas: o Materialismo, ainda que tratando de moderar sua voracidade autodestrutiva, facilitando no mesmo pacote ao povão certas doses de moral religiosa ou ética cidadã tradicionais, encaminhadas a mantê-lo tranqüilo, consolado, moderado em suas ambições e, sobretudo, conformista com as diretrizes dos membros da minoria dominante, para quem tudo está permitido, enquanto saibam guardar as aparências elegantemente.

MUITA ATENÇÃO: As plantas sagradas de poder visionário, enteógenos, nas que jamais se perde a consciência desperta, senão que se intensifica, NÃO devem-se confundir, nem de longe, com os alucinógenos da família das solanáceas psicoactivas, tais como as daturas, a mandrágora, o belenho, a alface silvestre e a beladona, bem como as brugmansias andinas (borrachero), que, além de ser muito tóxicas, submergem você em uma viagem tão inconsciênte que muito facilmente esquece que tem tomado um alterador psíquico. Um amigo meu tomou faz muitos anos na ilha canária de Tenerife, um chá de Datura Extramonio, e seus acompanhantes tivemos que recorrer a todas nossas dotes de convencimento para disuadir-lhe de pegar seu carro e lançar-se às estradas caminho da sua casa, o qual teria podido ser mortal para ele e para outros; nosso amigo estava seguro de que aquele chá não lhe tinha feito o menor efeito e estava aborrecido, mas havia passado toda a meia hora anterior tentando colocar uma fita cassette no prato do toca- discos.

Em Colômbia, a Escopolamina contida em uma solanácea arvórea da família das daturas, chamada “Borrachero”, tem sido empregada por alguns delinqüentes para dobregar as vontades de suas vítimas, até o ponto de que as chegavam a acompanhar a seu banco, onde lhes faziam assinar cheques através dos quais desvalijavan o conteúdo de toda sua conta impunemente. Após ser drogada por um simples bombóm ou bala de concentrado, ou pelo conteúdo de um spray fumigado ante sua nariz, a vítima perdia sua clareça mental e, tampouco lembrava mais tarde de nada de quanto tinha-lhe acontecido.

O Tabaco Rústico usado pelos chamães amerindios em seus ritos, nada tem a ver com o que se comercializa em Ocidente em forma de cigarros ou cigarrilhos; é um verdadeiro modificador do estado da consciência: não qualquer substância tem poder para fazer que os espíritos de antigos inimigos mortais sintam-se de novo irmanados após fumar juntos o Cachimbo da Paz.

As plantas visionárias sagradas, enteógenos, bem diferentes dos alucinógenos, produzem, além de uma mudança da freqüência cerebral predominante e de uma hiperactivação dos neurotransmisores, um grande aumento da oxigenação do cérebro (como perseguem, também, as práticas profundas do Kundalini Yoga e da Meditação Dinâmica, mediante inspirações ou exercícios acelerados), o qual ativa o despertar, a expansão emocional e vibracional, a lucidez múltipla e o afloramento à consciência de todos os conteúdos da mente, em uma zarabanda de inconexas imagens novas, aparecendo e desaparecendo a toda velocidade ante um olho interno que ficou sem marcos reconhecíveis de ordem e medida, já que todos estavam monopolizados pelo ego lógico, que foi o primeiro em se desintegrar ao começar a aceleração.

Se nesse momento não tens um mínimo desenvolvimento espiritual que te permita invocar a teu Núcleo Sólido Eterno, bem podes perder na loucura e quando, por fim, a droga remeta em seus efeitos, e a memória de tua ego volte a montar o edifício de teus esquemas rutinarios habituais, não seria estranho que ficasses sofrendo o temor subsconsciênte de estar vivendo apoiado em uma ideia do mundo absolutamente frágil, que qualquer vento emoçãoal pode jogar de novo por terra no momento menos oportuno, e se instalando em tí a paranoia ou a angústia existencial, até que te voltes realmente louco em tua confusão, sem asidero possível, ou até que comeces, por pura necessidade, a buscar o Autêntico de tí mesmo.

Pelo contrário, se tem tido um desenvolvimento espiritual em tí, mas não o suficiêntemente aberto e infinito, profundo e holístico, senão encajonado e limitado pela fijação fanática e supersticiosa a uma visão religiosa muito parcial, a seu estilo, sua linguagem e seus símbolos -o de fora-, é possível que fiques mais preso ainda ao símbolo envolvente e a tua seita, te fazendo, depois de tua experiência, mais fanático e mais supersticioso ainda.

Já que, ao não estar tu vislumbrando realmente a Essência Invisível que subyace depois dos símbolos de estabilidade aos que te agarraste para ordenar teu caos, senão que estás tão só olhando a casca que a envolve e lhe dá forma mental, -neste caso as imagens ou símbolos com os que tua crença escolhida representa a essa Essência (Que é universal e não sectaria)- pode ser que interpretes falsamente a solidez da Essência, a qual intuyes mas não vês, como prova subjetiva, mas evidente, da autenticidade do símbolo sectario que a revestia em tua mente, e que sim vês.

Não poucos furibundos profetas têm nascido de experiências semelhantes, que depois têm dedicado o resto de sua vida a impor sua "Verdade Unica" ao mundo, com absoluta intolerância para quem cultúa a mesma Essência, mas usando diferentes imagens, nomes, descrições ou símbolos.

-O SEGUNDO PERIGO das drogas visionárias não reside tanto na substância mesma, senão no ambiente no qual habitualmente se tomam: Quem fá-lo tão só dentro do espaço cerimonial e doutrinal de uma seita exclusivista, acaba por tornar-se facilmente manipulável por seus dirigentes ou pelo "que dirão" ou pela pressão de ghrupo de seus correligionários.

O Daime, por exemplo, fazia-nos muito sensíveis emocionalmente e muito impressionáveis, o qual provocava que os guerreiros ou guerreiras de nível cultural e crítico baixo, que podiam confundir a qualquer hierarca simplesmente político do Povo de Juramidám com um Mestre de Sabedoria, acusassem como “barra pesada” e profundo depressor qualquer chamado superficial à ordem ou qualquer sermão de um dirigente por motivos puramente regulamentares -e havia algún deles que erão muito pouco delicados em suas expressões- os mais fanátizados sentiam, nesses momentos, como se o mesmo Deus dos Exércitos tivesse baixado, furioso, a reprender-lhes.

Isto forçava comportamentos cegamente gregários e seguidistas, os quais, a sua vez -círculo vicioso- propiciavam o encumbramento de egos ditatoriais ávidos de poder sobre o submetimento masoquista dos assustados, quem tinham que jogar mão, para manter tão espúreo tipo de autoridade, a injectar maior medo por sugestão, maior superstição e maior censura, em nome, ademais, do Céu; todo o qual matava de dor ao Padrinho Sebastião naquela época e envenenava gradualmente o ambiente social da comunidade, a qual, durante a minha estancia em 1989-(outros visitantes, talvez mais puros que eu, só viam maravilhas-), ia-se sentindo mais e mais inquisitorial e seitária, o que desfigurava, inclusive, a sacralidade de algumas sessões de Daime, que não poucas vezes convertiam-se em um castigo psicológico coletivo para purgar uma falta contra a autoridade temporária, por causa da má vibração introduzida nas mentes dos participantes pelo sermão culpabilizador do dirigente, desencadeado justo quando começava a Força a se elevar.

Tais comportamentos desconsiderados e egocéntricos -felizmente, próprios de uma minoria de pequenos hierarcas ainda pouco polidos- me pareciam pura magia negra, mas foi, na verdade, fora do Povo de Juramidám, em Rio Branco, onde assisti aos maiores abusos e jogos bruxís de tentativa de domínio psicológico sobre as mentes hiper-sensibilizadas dos ayahuasqueiros; havendo tido, inclusive, que me defender, com todas minhas forças psíquicas, durante duas horas, do ataque telepático de alguém que me tinha convidado a uma ingestião na sua casa, e que, ainda que externamente não parava de falar, expondo vadias elucubrações filosóficas, estaba-me dirigindo, subliminarmente, uma landainha rítmica de messagens hipnóticas impositivas que eu captava no meu subconsciênte, e que eram tão poderosos que só pude me separar deles, concentrando toda minha atenção em desenhar na parede com um lápiz, enquanto ele seguia me falando, uma imagem sagrada da Virgem-Mãe a cuja Essencia (para meu sentimento, benéfica e protetora) pudesse minha mente se prender. Com tudo, passei os dois dias seguintes com a sensação de que tinha esgotado a metade de minha energia no combate psíquico não declarado contra o incógnito vampiro.


Acho que tem ficado claro, pelo exposto até agora, que o maior potencial de uma planta de poder, um enteógeno visionario, consiste em desmontar de uma todos os falsos esquemas mentais, positivos ou negativos, que a específica cultura na que nascemos nos meteu na cabeça durante nossa criança e educação (a fim de que nossas aspirações e nosso comportamento na vida se correspondessem com aquilo que constitui o canon ou modelo de “normalidade" aceitável como conveniente por essa cultura)... e colocar-nos, de repente, ante um vazio criador no qual podemos dialogar diretamente, além da dualidade e das imperfeitas categorias do pensamento lógico, com a Fonte Primordial de todas as culturas.

Esta Fonte de Luz que aparece em nosso interior quando dilui-se todo o que não era senão pensamento programado (e alheio, por não intimamente compreendido em suas causas)... não é outra coisa que o Ser Humanidade mesmo, o Gênio Subconsciênte Coletivo, o Espírito da Espécie Humana, o Regente das nossas Mónadas, que reside no mais elevado e profundo do subconsciênte individual de cada ser do Universo Humano.

A partir do silencioso diálogo interno com Sua arquetípica linguagem de imagens míticas, hinos e intuições, intensamente sentidas por nós como evidentes e confiáveis (já que nos sentimos desvelados e revelados, polidos, instruídos, aconselhados e confortados por algo que o coração CONHECE como O Amor Mesmo), podemos estructurar de novo todas nossas concepções mentais de uma forma mais lúcida, autêntica e personalizada.

O qual, ainda que não poderemos evitar re-traduzir essas descobertas subconsciêntes a termos explicativos extraídos de nosso antigo condiçãoamento cultural, sem dúvida suporá um ativo e pessoal avanço de nossa consciência (ainda que relativo), em relação com seu passivo e alienado estado anterior.

Nossa Identidade Maior, o Ser Humanidade ou Regente Monádico da Espécie Humana da Superfície da Terra, é uma altísima consciência intimamente ligada a sua própria Identidade Maior, o Ser Planetario ou Logos Regente da Terra, e este, a sua vez, ao Regente do Sistema Solar, e este ao Regente de vários sistemas, e este ao da Galaxia que chamamos Via Láctea; e assim sucessivamente, em uma Hierarquia Universal da Consciência que acostumamos tão só imaginar em uns poucos elos de uma corrente espiral infinita, formada por todos os seres do Cosmos, sendo cada um deles uma consciência mais ou menos autônoma (segundo o alcance de seus percepções e capacidade de livre ação) que se ocupa de animar e fazer evoluir sua própria parcela de influência vibratória.

O conjunto de todas as consciências dos múltiplos Universos funcionando interconetadas, conforma a Consciência Cósmica, o que é o mesmo que dizer que Deus é a inter-relação dinâmica e viva de todos os Seres Divinos, já que habita, ao mesmo tempo, no núcleo sutil de cada um deles e no conjunto, que Sua Vontade mantém coêrente, apesar de sua impensável diversidade.

Como é no Macrocosmos, é no Microcosmos, e se observamos aquilo que temos mais perto, nosso próprio corpo-mente, depois de ingerir um enteógeno, descobriremos facilmente como nossa "personalidade individual" é também um pequeno universo de consciências elementares mais ou menos autônomas e com freqüência conflituantes entre si, mas concatenadas em hierarquias e mantidas cohesas por uma invisível vontade de evolução positiva que rege o núcleo de cada uma delas… e o conjunto.

Isto é, pela Centelha Divina que anima cada ser denso ou sutil, desde a Célula até a Galáxia, desde o mais ínfimo elementar até o Arcanjo, passando pelo que chamamos o Homem, que é um bom exemplo de como todo o Universo está contido em potencial em cada uma de suas partes, tal como em uma semente contem-se a floresta.

A semente do que hoje é a orgulhosa Civilização Ocidental, que tem a firme ambição de se converter em modelo aglutinador da Civilização A Cortiça Terrestre em nosso tempo, foi seguramente esboçada em algum remoto passado pelas visões de algum recoletor de alimentos tribal, talvez uma mulher, e provavelmente após ter ingerido, "por acaso" algum psicotrópico natural que pôs a sua mente primitiva (acostumada a tão só reagir instintiva e passivamente aos condiçãoamentos do meio), em disposição de receber consciêntemente revelações de sua Divinidade Interna… com o qual passou a se converter em um canal original de produção ativa de cultura, sobretudo desde o momento em que passou a beneficiar a sua comunidade com as descobertas derivadas de sua recente lucidez.

Durante muitos séculos, enquanto os nossos ancestrais ainda viviam em pequenos grupos independentes, integrados em um ambiênte bem natural, que abastecia a todos por igual, o conhecimento mágico assim descoberto foi patrimônio de todos, e qualquer um podia entrar em contato direto com a Fonte Reveladora de seu interior, sem intermediários nem intérpretes, tão só ingerindo a substância da Planta de Poder. Assim tem sido até hoje entre os povos silvícolas, ainda que todos os amazônicos lembram um tempo mítico em que as mulheres quisseram monopolizar o uso dos enteógenos, o que acabou dando pretexto para que, na maioria das tribos, os homens se rebelassem, submetessem à mulher e, por contra, estabelecessem o monopólio exclusivo do patriarcado sobre o uso dos meios para entrar em trance interdimensional.

No momento em que surgiu qualquer classe de exclusivismo em relação ao controle dos meios para entrar em contato com Um Mesmo, e Nossas Relações Astrais, surgiu a Magia Negra. Mago Negro é qualquer mulher ou homem que trata de utilizar o maior poder do que dispomos, que é o de conexão com os Seres Divinos, em benefício exclusivo, bem individual ou da própria família, clã, partido ou classe social, assim como fazendo dele instrumento de manipulação e dominação do resto das pessoas circundantes.

Desse exclusivismo egoísta surgiram todas as teocrácias (regidas por uma restrita classe sacerdotal, aliada aos chefes guerreiros mais poderosos), as quais criaram as grandes civilizações coletivas nos diversos lugares do mundo onde as condições ambientais eram tão duras que os homens não tiveram outra chance, para sobreviver, que se agrupar em organizações numerosas, complexas e hierarquizadas.

Naturalmente, os sacerdotes e guerreiros ocupavam os graus hierárquicos mais altos e assinalavam ao resto da comunidade, em nome e en temor de Deus, o canon de “normalidade" e os objetivos e condicionantes que mais convinham ao seu bem-estar e à perpetuação do seu poder como classe dominante.

Para defender seu monopólio, a classe sacerdotal acabou por declarar ilegal e nocivo o livre uso de enteógenos (salvo secretamente entre seus graus hierárquicos mais altos, no seio de exclusivos Colégios Mistéricos e Iniciáticos), assim como por silenciar ou eliminar aos anciões que ainda sabiam reconhecé-los, elaborá-los e usa-los …e também se acusou de bruxaría e perseguiu àqueles cidadãos de a pé amponeses ou que ainda conseguiam encontrar as plantas sagradas, consumí-las, se curar da alienação geral e, mais grave delito ainda, que até tentavam curar a outros da “normalidade” imposta.

E igualmente foram apedreados ou queimados, como perigosos hereges, todos aqueles que chegavam a elaborar em sua mente um modelo evolutivo que não se correspondía com o da hierarquia dominante e que ousavam tentar comunicá-lo aos demais.

No entanto, como os modelos de “normalidade" dominantes estavam viciados em sua base, tarde ou cedo acabavam por arrastar a toda a comunidade ao conflito permanente, interno e externo, e à infelicidade. Mas como o Espírito da Humanidade não admite estagnamentos em sua dinâmica evolução, sempre acabava por inspirar a um pastor de ovelhas ou cabras ou camelos de alma honesta e pura e de coração cheio de firmeza, para que, no alto de uma montanha ou no deserto, abrisse de novo suas percepções à Fonte Interna e Inspiradora de novos paradigmas.

Isto acontecia, já por médio de um psicoactivo que aparecia "casualmente" como alimento, ou mediante sonhos visionários que, após desmontar toda a estructuração manipulada na que foi criado o sujeito, a re- estructuravam, ajustando-a às Verdades Universais reveladas pelos Seres Divinos desde seu Plano Arquetípico subconsciênte.

Assim surgiram os grandes profetas reformadores das antigas religiões, que, por muito puros que fossem, nunca puderam evitar que suas revelações fossem, inclusive antes deles morrerem, manipuladas por seus seguidores e adaptadas, como ideais e valores culturais, aos interesses de uma nova hierarquia sacerdotal e aristocrácia dominante.

Estude-se, por exemplo, no que se converteu a mensagem de Cristo e dos mártires em tempos de Constantino, Justiniano e dos primeiros papas romanos. A Humanidade avança incontenível para sua realização dentro do plano Evolutivo marcado pelas Mónadas da Espêcie, mas sempre fortificando sua firmeza transformadora, ante a resistência oferecida pelo mar de lama dos seguidores do ultrapassado.

Talvez o Espírito Regente consente o predomínio dos corruptos e dos magos negros porque, quanto maiores são os obstáculos que eles colocam, maior é o salto para adiante da Espécie toda quando seus pioneiros conseguem superá-los.

Qualquer pessoa inteligente pode aplicar este desenvolvimento até o dia de hoje, e entender como seguem sendo os interesses de controle das classes dominantes em nossa "democrática" Sociedade Ocidental os que seguem assinalando (com pretextos arbitrários e sem estudos imparciais que respaldem seus anatemas), como malditos e espúreos... ou viciosos e delinqüentes, a todos os que se atrevem a buscar vias eficiêntes, imediatas e acesíveis a qualquer um, de conexão pessoal e direta com a Fonte Interna Original, através de Plantas Sagradas; ainda que essa elite possa tolerar sistemas místicos e yóguicos porque sabem que só uns poucos conseguirão, com muitíssimo tempo e esforço, obter resultados dessa maneira, e que esses poucos são bem mais fáceis de controlar que as multidões.

Todos estes argumentos que me permito dar em favor da liberdade auto-exploratória, não deixam de considerar que os enteógenos são instrumentos poderosísimos de cognição que, irresponsavelmente utilizados, podem desestructurar os velhos esquemas de muitas pessoas pouco amadurecidas e deixá-las penduradas em uma insegurança total sobre si mesmos, por falta de uma base sólida sobre a que se re-estructurar. Este costuma ser o caso daqueles que se lançam a uma viagem psicodélica sem preparar sua psique nem o ambiente, e sem outro objetivo que curiosear e se divertir com novas sensações e fenómenos.

Pior ainda é encontrar-se com uma seita de magos negros que manipulam tua re-estruturação sobre cauces que se dirigem a criar em ti, ante ti mismo, um compromisso de obediência cega aos seus postulados e aos seus hierarcas. Lemba sempre, irmã, irmão, que você toma uma planta de poder para poder consultar com seu próprio Mestre Interno sem intermediários, e que ninguém tem o direito de se proclamar ou converter em seu infalível intérprete.

Assim, é recomendável sair correndo de todos aqueles círculos onde teu coração e tua cabeça intuam excessivo paternalismo, ou sacralização egoica do dirigente, falta de transparência entre a cúpula retora e a base, exclusivismo ou irrespeito a outras vias de conhecimento, dogmatismo, fanatismo, tentativas de controle sobre a ideologia e a vida privada dos membros, interesse econômico, político ou sexual.

A melhor das doutrinas pode falhir, à hora de aplicar-se, por carências dos seres humanos que a aplicam, e se converter em um sistema opressivo; de tal modo que se há de observar muito bem às pessoas com as que um joga jogos tão íntimos como o de despir a própria mente; “por suas obras os conheceredes”, mas não demoreis muito tempo em usar vossa discriminação.

TAMBÉM SÃO UM PERIGO os elementos negligentes ou torpes que existem até na melhor das comunidades de crescimento interno: Em Mapiá, durante a alquimia do Feitío, os guerreiros veteranos estavam continuamente vigiando que os novatos não fossem cometer o menor erro de ritual e, às vezes, podiam parecer excessivamente duros em suas reconvenções... Porém, tempo depois, já de volta a Rio Branco, onde existem muitas Igrejas nas que se sincretizam cristianismo e enteógenos, tive ocasião de compreender e aprovar o seu marcial nível de rigorosa exigência, ao experimentar uma "viagem" horrível, produzida pela ingestión de ayahuasca no templo de outra Igreja que não cuidava nem a disciplina, nem a perfecção ritual, nem a limpeza, tão pontilhosamente como os seguidores do Padrinho Sebastião.

…Já que o Daime é uma espécie de catalizador mental, um filme fotográfico em brancoo, onde se imprimem todos os pensamentos e sentimentos das duas equipes participantes em sua elaboração. Se elas conseguiam manter uma boa harmonia durante o Feitío, essa harmonia impregnaría posteriormente as sessões de ingestião da beberragem; mas, se criavam-se conflitos e tensões entre os participantes –e abundaban os carateres primitivamente sobêrbos, machistas e competitivos- …e estes, em lugar de vibrações de amor e de contato espiritual, impregnaban à neutra Ayahuasca com seus ódios, rancores, invejas e lutas de poder …teríamos depois tormentosas sessões, nas quais, o Mestre Juramidám colocaria ante nosso olho astral um espelho onde se refletisse cruamente o horror de nossos demônios interiores, os mesmos que correspondiam-se com as más energias que os elaboradores tinham deixado, negligentemente, que contaminassem a mistura.


Tomavamos um copinho de Daime, nos santiguando previamente, uma vez cada duas horas, durante o Feitío. Aquilo fazia que a gente estivesse se projetando astralmente quase o tempo todo, com mirações fortíssimas que, às vezes desdobravam nossa consciência e levavam nosso corpo etérico bem longe do físico; apesar disso, ali, mais que em qualquer outro lugar, era exigido um "ora et labora" no que você devia ser capaz de se manter muito atento ao trabalho, cada um no seu lugar e função, e com os pés bem postos sobre a terra, para poder te livrar do acosso inquisidor de alguns veteranos que eram verdadeiros "pinches tiranos", especialmente aqueles que sentiam a necessidade de se crescer acima das pessoas mais cultas que eles,e e que xogavam uma avalancha de acres críticas sobre os "urbanitas atontados" que cometiam o menor descuido, o que podia culminar até com uma grosseira expulsão do iniciante que, por olhar demasiado para adentro, cometia falhas no trabalho externo. Poucos dos novatos eram firmes bastante para agüentar -com seu emoçãoalidade hipersensibilizada- aquele duro trabalho e estrita disciplina; e muitos abandonavam com qualquer pretexto o Feitío no segundo ou no terceiro dia, pelo que sua estância em Mapiá se abreviaba forçadamente.

Mas os que conseguíamos superar a preguiza e molezaa física do homem urbano e re-encontrar -na obediência dignamente aceitada e na esforçada cooperação- nossa hombría arcaica, chegavamos a nos surpreender do extraordinário volume de poder energético que possuiamos e do que normalmente não temos consciência, por causa de nosso afastamento da natureza …e acabávamos adaptando-nos, por pura constancia movida pela vergonha.

Assim, quando conseguíamos sair da fraqueza e arrimar o ombro ao ritmo geral, deixando de falar bobagens que estavam por fora do real aquí e agora, de nos queixar ou de presumir do que achávamos que sabíamos, assim como demonstrando, ao mesmo tempo, alegre disposição, espírito de serviço, sem baboseiras nem submisión, colaboradora entrega, vontade de aprender praticando e respeito à veteranía daqueles ásperos gigantes, estes nos aceitavam por fim, e nos faziam descobrir toda a nobreza cordial de seus corações de caboclos guerreiros.


4- A SANTA MARÍA

"Santa María é a nossa Mãe,
Nossas filhas e nossas mulheres,
Mas é preciso muito amor,
De todas elas se consagrar."

(Fragmento de um hino do Santo Daime)

A organização atual do Santo Daime, CEFLURIS, há bastante que decidiu oficializar, por unanimidade do seu Conselho, que sua Igreja acataría respeitosamente a Lei Brasileira e a dos países aonde estende suas atividades, com referência ao não uso de substâncias declaradas ilegais por eles, assim que este capitulo só fala de tempos arcaicos e ingénuos do Povo de Juramidám, que cheguei a vivenciar e que sería hipócrita não mencionar; porém, ultrapassados, e, se hoube por então algúm delito contra o Estado em aquela remota e isolada floresta, os muitos anos transcurridos fizeram a aquele delito prescrever, portanto, ninguém deve relacioná-lo com seu presente.
O Padrinho Sebastião, além do Daime, tinha recebido do EU SOU (da sua Mónada Divina), a autorização para utilizar sacralmente outra planta de psicoactividade infinitamente mais leve, e muito conhecida hoje em dia, coisa, no entanto, que foi severamente criticada por seus antigos condiscípulos do Alto Santo, a Igreja do Mestre Irineu em Rio Branco, assim como por outros ayahuasqueiros... mas eles não tinham que manter unido a um povo de guerreiros e guerreiras no méio da selva: Estou falando da “Cannabis Sativa”, chamada, popularmente, “Maconha” e, dentro de um cuidadoso uso ritual e uma intenção elevada, “Santa María”.

Usava-se, sobretudo, como forma de propiciar distensão, harmonia e introspeção antes das assembléias comunitárias ou das "concentrações", que eram reuniões para o fino e profundo estudo grupal de temas específicos. Também durante ou depois de alguma intensa sessão com Daime na Casa da Estrela, para acalmar as emoções que tivessem de desbordado demassiado. Não se cultivava em Mapiá e levava-se um férreo controle de sua distribuição, de maneira que, oficialmente, só podia ser usada nas ocasiões adequadas, sempre sagradas.

Contava-se que lá pelos anos setenta do passado século XX, quando ainda vivia o Padrinho na Colônia 5000 de Rio Branco, ele teve uma visão na que aparecía um guerreiro para lhe oferecer uma nova planta curadora das doenças da alma. Pouco tempo apòs chegaram por ali os primeiros hippies: dois "malucos" mineiros e um argentino, gentes do "Povo do Caminho" que viviam vagando de um lado para outro com seus artesanatos. Sebastião Mota simpatizou muitíssimo com eles, que “fliparon” desde o primeiro momento com o Daime e passaram em seguida a fazer parte do Povo de Juramidám, ensinando àqueles rudes caboclos a comer hortalizas, que eles mesmos plantaeam e cozinhavam.

…Também plantaram outras coisas e, um dia, houve um escândalo porque um deles confessou, em pleno trance de Daime no Templo, que se tinha "enmaconhado" antes do himnário e que agora o estava passando mau por causa do sentimento de culpa. Ao ouvir a palabra "Maconha" toda a Comunidade espantou-se e persignou-se, como se o Capeta Satã tivesse invadido o Templo, já que tão só conheciam aquela "droga de vadíos, viciosos e delinqüentes" por referências carregadas de preconceitos.

Porém, o Padrinho jamais emitia um julgamento vão, e pediu aos hippies algumas folhas de Cannabis para fazer um “estudo fino e disciplinado ante O Poder”, igual que anteriormente tinha estudado os fungos Psilocybes e que depois seguiu estudando seriamente, (através de pesquisa por experimentação direta, e não teórica, vivisecionadora nem distante, como a dos cientistas), todo quanto psicotrópico lhe traziam.
Em muito pouco tempo entablou perfeita comunicação, não com a química, senão com o deva da planta, e apresentou-a a seu povo como aquela que lhe tinha sido anunciada na miração. Disse que nela estavam contidas as mais altas qualidades femininas (bem como as mais baixas, se usava-se mal), e a chamou "Santa María". Dom Manoel Correntes, seu compadre, que era a mano direita do Padrinho, recebeu do Arcanjo Miguel o ritual adequado para consagrá-la e o conselho de começar não a usando mais que uma vez cada quinze dias.

A Cannabis ou Canhamo é um psicoactivo de recente uso no Novo Mundo, já que não existia nele antes de que espanhóis, portugueses e britânicos a introduzissem em suas colônias para poder fabricar cordagens para navios com suas fibras. No entanto, adaptou-se maravilhosamente a diversos climas americanos, e já houve tempo sufficiênte para que muitos chamães nativos conhecessem suas virtudes e a incorporassem às suas cerimônias sagradas de contato com o Pai Céu e a Mãe Terra, entidades que conformam os aspetos locais mais elevados de nosso Eu Superior Planetário.

Sabe-se que faz mais de dez mil anos que se usa a Cannabis no Velho Mundo para produzir estados alterados de consciência. Provavelmente nómadas e caravaneiros levaram-na à Oriente e Ocidente desde a Ariana Ásia Central; os indianos a veneraram nos Vedas, a cultivaron com sacralidade e consagraram-na a Shiva, o Deus da Transformação, e a Indra, senhor do Firmamento Astral (e, por tanto, das viagens interdimensionais sobre o mágico tapete voador, geralmente conduzidas por um gênio).

No Budismo Mahayana tibetano consideram-lha também uma planta sagrada e se conta que, durante os seis passos da via ascética que conduzem à iluminação, Gautama, o futuro Primeiro Buda, se sustentava com o grande poder nutritivo e meditativo de uma semente de cánhamo ao dia. Assim mesmo, é muito empregada a Cannabis sacralizada, tanto hoje como ontem, nos rituais tántricos .

Cinco séculos antes de Cristo, o historiador helénico Heródoto contou algo sobre "A Sauna Escita": Os escitas, tribos de ginetes nómadas que viviam ao nordeste do Mar Negro, e a quem os urbanizados gregos consideravam como bárbaros selvagens, faziam uma espécie de tenda tipo iglú ou cabana de sudação bastante parecida aos “Inipis” dos Peles Vermelhas Sioux-Lakotas ou aos Temazcallis ou Temascais Mexicas, só que sobre as pedras ao vermelho vivo situadas no centro da sauna, xogavam-se, junto com algo de água, sementes e folhas de Cannabis, as quais produziam de imediato uma fumaça úmida que, ao ser inalada pelos participantes, no interior da cabana hermeticamente fechada por mantas de peles, os colocava em um intenso trance coletivo, tão purificatório como eufórico, que eles celebravam soltando exclamações de goço ...Parece ser que os escitas estavam "escitadísimos" lá adentro.

Hoje em dia, ela é a planta psicoativa mais difundida no mundo, mas esta grande difussão tem contribuído, também, a seu uso automático, profano e vulgar, ou seja, desacralizado. Eu dou fé, porque a conhecí muito bem (ainda que já deixei de usá-la), da enorme diferença que há entre fumá-la sacralmente …ou de uma maneira habitual e inconsciênte. E como isto, tudo. A vida é mágica, mas só se devem contar como vividos os poucos momentos em que nos relacionamos despertos e ligados com às maravilhas da Criação. O resto do tempo é puro letargo vegetativo ou infra-animaloide (porque os animais são bem mais sensíveis), pilotagem robótica... "zombiedade", com minhas desculpas por andar inventando palavragem.

À diferença do resto das plantas de poder, o princípio psicoativo da Cannabis não é um alcaloide, ou seja um composto nitrogenado, senão um azeite resinoso chamado THC ou Tetrahidrocannabinol, que se concentra bem mais nas flores ainda não fertilizadas que nas folhas. Também encontraram-se na planta outras 460 substâncias psicotrópicas em menor concentração, entre eles 60 cannabinoides de estrutura química parecida à do THC.

Há muitas maneiras de ingerí-la, mas a mais comum é fumar a resina concentrada das flores, sozinha ou misturada com as folhinhas mais finas picadas; ou picar simplesmente as folhas de qualquer tamaño e fumá-las. Em geral, quem usa a Santa María sacralmente, acaba por cultivar com o maior carinho artesanal suas próprias plantas de cánhamo, fazendo-se um com o deva da planta, com o elemento espiritual que estrutura seus elementos químicos, antes de incorporá-lo definitivamente à nossa próprio aura etérica por méio da pitada ou fumada.

O THC actua sobre o hipotálamo, que é o centro neurálgico que, na base do cérebro, segrega hormônios para a hipófisis ou controla o apetite. No cérebro, ativa neuroreceptores do tipo da Dopamina, que põem em marcha no Sistema Límbico respostas cerebrais das consideradas "de recompensa": perda parcial da sensação do tempo e diminuição da ansiedade produzida pela preocupação e a pressa; relax e tranqüilidade, aumento leve da líbido, que propicia a sociabilidade e a expressão do afeto, e alegre desinibição.
Ao mesmo tempo, potencia-se a parte intuitiva e, pelo mesmo, surge uma verdadeira falta de vontade de seguir realizando operações lógicas e calculadas, que, se formam parte do nosso trabalho, será interpretada como entorpecemento, dispersão e preguiza. Há um aumento da sensibilidade, uma diminuição de reflejos, os olhos irritam-se e avermelham-se, a boca seca-se e cheira forte à fumo, e aumenta algo a tensão e a taquicardia, por isso é bom canalizá-la no ritmo do canto e da dança a seguir. Atribuem-se-lhe, desde a antiguedade, numerosos efeitos terapêuticos, ainda que estes, devido ao preconceito e os interesses criados dos governos, jamais têm sido adequadamente pesquisados por uma equipe imparcial.

A maior parte da Cannabis que se fumava na Europa procedía, daquela, de Marrocos (a principal área produtora era a região de Ketama, Norte, nas montanhas do Rif) e consistía em resina apertada em pastilhas compactas e desecadas, ou seja, o famoso "Hachís". Os traficantes costumam acrescentar-lhe toda classe de substâncias espessantes que componham um quilo usando poucas gramas de resina real, sendo verdadeiros lixos algum dos elementos adulteradores. Depois, o consumidor abranda a pastilha, queimando-a um pouco, e a fuma misturada com tabaco, em geral procedente de cigarrihos industriais e comúns, o qual sim é adictivo e muito nocivo para a saúde, como todos já sabem, ainda que perfeita e hipocritamente legal, já que os estados obtêm uma quantidade enorme de impostos do envenenamento de seus cidadãos com uma droga que aumenta o automatismo e o letargo em que o sistema os mantém submersos habitualmente, sem risco de produzir neles nenhum perigoso (para a clase dominante) aumento da consciência.

Quando se vê a diferença entre uma plantinha cultivada com sagrado amor e algo ...mais ou menos parecido por fora, aumentado com Deus sabe que classe de porcariadas, e cambalacheado de Africa a Europa por Deus sabe que classe de vibrações, uma pessoa que respeita seu corpo e sua mente, acaba por abandonar um dia, definitivamente, como eu fiz, tanto os manuseados e adulterados produtos que os narcotraficantes vendem pelos rincões escuros, como o tabaco manufaturado de forma industrial e amplamente comercializado pelas mesmas grandes multinacionais mafiosas que enriquecem com as guerras, com as proibições legais, e com a exploração da fraqueza e a sordidez humana.

Muitas pessoas, em sua maioria cidadãos de países com ampla liberdade democrática duramente conseguida, têm formado movimentos que exigem a investigação imparcial e a legalização da Cannabis. Os estado-unidenses, que vivem em um dos países onde a repressão é maior e mais interessada, já não precisam recorrer aos carteis colombianos do narcotráfico para importar maconha, pois há tempo que têm conseguido adaptar a seus próprios jardins e quintais interiores uma espécie de excelente psicoactividad. Isso reduziu muito a criminalidade das máfias marihuaneras na Colômbia, ainda que foi substituida pelo crescente cultivo e produção de cocaína e morfina, cujas plantas básicas ainda não conseguiram cultivar-se no clima dos USA. O día que o conseguirem, os narcos gringos poderão seguir envenenando a seus patrícios sem intermediarios estrangeiros… e acabará por fim a sanguinária guerra civil que dizima ao pobre povo colombiano há mais de cinquenta anos

Na Europa, Holanda gaba-se da dignidade, graças à luta de seus cidadãos por conseguir manter suas liberdades cívicas (enfrentando corajosamente à crescente ânsia dos estados neocapitalistas pos-modernos por controlar ao máximo a vida dos seus membros), de ser um dos países mais tolerantes e permissivos, e cada ano se celebra em Amsterdã um concurso internacional que prémia a Cannabis caseira de maior qualidade, ainda que quase sempre costumam ganhá-lo os mesmos holandeses, tradicionalmente ótimos jardineiros, que têm chegado a produzir variedades magníficas.

Algumas legislações como a espanhola dos primeiros tempos do Socialismo, pareciam ser as mais avançadas –diziam por então alguns estudiosos do tema- em matéria de tolerância: ainda que estava proibido o narcotráfico, não estava penalizado o consumo nem, oficialmente, podem retirar de voçê uma plantita ou duas que cultives para teu uso, ainda que não convinha té-las à vista de seus vizinhos. O ensolarado clima espanhol é muito apropriado para o cultivo se rega-se e cuida-se bem e com carinho, como se cuida a uma dama amada, e não há María melhor que a de colheita própria.

Suponho que a maconha amazônica, como a famossísima colombiana, é das melhores do mundo, ainda que ali, em Mapiá, tratando como tratávamos com a poderosa Ayahuasca, na atmosfera de altíssima vibração astral que a selva é, nos parecia algo frouxinho, "apenas pra relaxar" como dizem os brasileiros, que de relaxar muito entendem. Agora bem, o Padrinho levava a Santa María muito à sério, e lançava palabras indignadas contra aqueles que se ousavam consumí-la sem consciência, fora das horas de lazer ou, pior, como um simples hábito automático.

Como o Universo é mental e tudo nesta vida é qüestão de atitude, segundo a atitude com que a gente a fumasse, o deva contido na planta influiría-nos de uma ou de outra maneira, bem positiva ou bem negativa. Por conseguinte, estava proibido o uso de "maconha" na comunidade, norma que coincidia com a Lei Federal Brasileira, mas estava permitido (e até abençoado) utilizar oportuna e sacralmente a Santa María, que não era outra coisa que a picante bruxinha Mari-Juana quando elevada a nível trascendente; o que só se conseguia cultivando-a e cuidando-a com sacralidade e tão só a fumando após que mudavamos nossa atitude e nos submergiamos em “Estado Interior de Templo". Então a consagravamos, fazendo o Sinal da Cruz com o vaziado antes de acendê-lo, o que equivalia a invocar a inspiração da Rainha da Floresta e de seus anjos sobre nossa psique através do poder da erva e a sincronizar sua mais alta vibração com a vibração mais alta do nosso espírito.

Depois deviamos "pitá-la" com consciência, com respeito e compartilhando-a fraternalmente: pegá-la com delicadeza, pô-la nos lábios, aspirar enquanto se invocava mentalmente: "Sol, Lua, Estrela", e passá-la a outro. E nada de perder a pitada com papo furado, nem a retendo enquanto se fala... Após um tempo de concentração silenciosa, no qual o éter retido da planta dirigía-se, inspirando pelo nariz, de chakra em chakra, coluna acima até o terceiro olho, antes de expulsar o resíduo, as pessoas canalizavam a vibração obtida para o alto, e agradeziam, logo de um momento de meditação, por médio de hinos, tal como faz o canário depois que se alimenta com canhmões ou sementes de Cannabis, que, por certo, fazem-lhe cantar muito melhor.

As melhores fumadas que eu disfrutei entanto que fumava, tiveram lugar sempre em um espaço consagrado, ante um respeitoso coletivo que passava o vaciado em completo silêncio. Quando acabam os cigarros, o comandante da sessão dizia: -"Concentração"- e todos fechavam seus olhos físicos e se concentravam no olho interno, elevando sua atenção para as mais elevadas emissoras espirituais que pudessem captar. Se um dos membros da mesa conseguía sintonizar com uma delas, era fácil que os demais ressoaram telepaticamente com ele, e que durante um momento todos comungassem intensamente de um momento mágico de conexão sinérgica com um espírito que era muito maior, em sua qualidade de amor e de sabedoria reveladora, que a simples soma das potências espirituais dos participantes. Algumas destas experiências são inesquecíveis para mim, e não têm nada que invejar a outras emocioantes comhuniões conseguidas em trance de Ayahuasca.

A planta de Cannabis pode chegar a medir até dois metros de altura e mais; quando estão todas juntas numa plantação aquilo parece uma selva. Astralmente, a energia que produzem é tão potente que, quando estão em flor, algumas pessoas pouco afirmadas até se sentem desmaiar entre elas. As plantas pedem muito sol e muita água, e cuidá-las e regarlas é uma labor meditativa que requer dedicação concentrada e muito fino amor; é bom que não ande demassiada gente entre elas, senão que tenham um ou dois cuidadores fixos, preferivelmente varões, que as amem e as mimen, e muito agradecem que se lhes fale e se lhes cantem hinos enquanto regadas. O mais refinado da planta é a resina e a flor, que contém a maior concentração de THC e uma energia de uma femininade maravilhosa.

Em Mapiá em 1989, as garotas jovens, perfumadas dessa “feminilidade” sillvestre, brava, felinamente natural e, ao mesmo tempo, modesta, das filhas da Floresta, sempre perguntavam -"é flor?"- quando convidadas a pitar, já que só esta parte da planta é digno oferecimento a uma donzela. Seus enamorados tentavam colher as melhores flores com delicadeza, secá-las, pendurando-as do teto de suas casas, envolver depois um vaciado com perfeição e, em seus momentos livres, confeiçoar umas caixinhas enfeitadas que pudessem ser adequado invólucro de seu presente e nas que pudessem expressar o muito que tinham pensado no objeto de seu amor durante o "feitío" ou a confeição meditativa. Depois, em qualquer momento, geralmente na igreja, onde todos coincidiam, as depositavam com discreção na mão de sua amada. Ela nada dizia, mas, na intimidade ou sob as árvores, abria com deleite a caixinha e fumava o presente, em cuja vibração comunicava-se telepaticamente com o presenteador. Tudo era assim de mágico em Mapiá, e a gente ia de surpresa em surpresa, de prestar um mínimo de atenção.

Como acontece com todos os psicoativos e medicinas, o ideal é deixar que decorra um tempo prudencial entre tomada e tomada; dessa forma, seu efeito será pleno e incidirá sobre o aspeto de tua vida que está demandando uma reflexão intuitiva. A Cannabis não é aditiva em si mesma, asseguram, de maneira que quem a usa de contínuo não é um prisioneiro da sua química ou espírito, senão de seu próprio automatismo rotineiro (dependência psicológica) se a consumir profana e automaticamente. Quando você prova um coçe de vez em vez, é são e sabe de maravilha, porém, tomando doçes no café da manhã, a sobremesa, a merenda e o jantar, você se empalaga, não inteira-se mais do doçe... e engorda, e se
embota.

Havia hinos que avisavam sobre a degradação de consciência e do mundo de ilusão que provocava quem fumava Santa María todo o dia: considerava-se, e com muitas razões, baseadas, não em preconceitos común contra a droga (pouco prováveis entre aqueles experientes consumidores de fortes psicotrópicos), senão na observação quotidiana da triste realidade de que a maioría dos maconheiros contínuos, salvo honestas excepções, tornavam- se vadios, passivo e indolentes no trabalho, desorganizados, glotões, inconstantes, fantasiosos, superficiais, dispersos, indisciplinados, indiscretos, irresponsáveis, e insolidários... e até circulava entre muitos daimistas a superstição de que também habia perigo, por fazer-se o amor após fumar, de ir adquirindo impotência sexual.

A realidade é que a Cannabis Sativa é mais bem um afrodisíaco que o contrário, já que, ao produzir uma diminuição da velocidade no ritmo habitual do indivíduo, permite um desfrute maior do instante, aumentando a finura de percepção dos sentidos, além da carinhosa cordialidade e de uma tendência a ir até o fundo nos sentimentos. Em um povo de durísimos guerreiros como o de Juramidám, a Santa María brindava a oportunidade de dar um necessário repouso à tensão lutadora e construtiva e de fazer aflorar a ánima feminina dos iniciados, junto com todo seu potencial de criatividade macia, suavidade e ternura, sem a qual é impossível o amor.
Pessoalmente, abandonei para sempre o uso da Cannabis, já profana ou sagrada, não só por me afastar do mundo de ilusão fantasiosa na que vivem quase sempre seus consumidores habituais, senão, sobretudo, porque fumá-la me incitava a ter saudade do fumo mais tarde, com o qual, ou consumía demassiada, ou caía, de estar perto da influencia contagiosa de fumadores, no terrível vício do cigarrilho industrial, que acaba sujando e entupindo as delicadas e preciosas vías respiratórias, portanto, rebaixando a mínimos a energía pránica, sem a qual qualquer sujeito corta todas as suas posibilidades evolutivas, alimentando os chakras de lixo sutil, ademais de malviver-morrendo como poluidor do mundo, desenergetizado e envelhecido, presso às dimensões mais baixas e dependentes do mundo común, do sistema e do seu karma contaminador e auto-destruidor.


5- SEXUALIDADE MÁGICA E TABU


"A salamandra tem o controle sobre o fogo sexual...
...não há fogo superior ao fogo do desejo sensual.
Se você tem domínio sobre isto será senhor da salamandra"

Carlos Pacini, "O Sol", Goiania 1988.


Agora bem, durante o jogo sexual, a Cannabis excita mais bem a mente que o corpo, e os machos rudes e durões que estão acostumados a uma relação puramente animal, isto é, excitar-se rapidamente até o clímax e se desafogar derramando-se, sem se preocupar demassiado pela preparação prévia ou a satisfação final da parceira, ou do intercâmbio afetivo de energias eterizadas, ficavam aterrorizados ao comprovar que o orgasmo se retardava e que às vezes até a excitação perdia-se. Aí, alguns pensavam que se estavam tornando impotentes.

Os amantes mais refinados, no entanto, que sabem muito bem que a mulher demora bem mais que o homem em se excitar a topo e em chegar ao clímax, ainda sem necessidade de ser altos iniciados no Tantra, desfrutam a fundo dessa diminuição da imperativa excitação masculina, jogando com ela sem chegar à perdé-la totalmente, dando lugar a um imaginativo e carinhoso prólogo de carícias que pode durar bastante,até que a intimidade da mulher se tornar agua lubrificante e ela própria pedir ser penetrada; jogando depois, com o movimento e a respiração controlada, a chegar e retornar da beira dos limites, em consciêntes ascensões e descensos, distribuindo ao longo de todo o jogo e todo o corpo o prazer, que na relação rude unicamente se concentra no último espasmo esvaziador; e educando, ao tempo, à parte mais instintiva de nosso veículo material, para por-se em tudo às ordens da vontade reitora, fazendo do potro selvagem sobre o que cavalgamos neste plano, e que tende a desbocar-se totalmente, um obediente Pégaso alado para nos levar voando até a Altura...

Quando por fim sua parceira se dissolve no puro prazer e no vazio do êxtase, o homem pode optar por se dissolver também, se derramando simultaneamente e transmutando sua energía à densidade, junto com a da mulher, no erótico portal interdimensional onde ambos fazem-se um... ou… coagular-se, canalizando consciêntemente a energia gerada de chacra em chacra, até a cabeça, onde servirá de sutil combustível altamente refinado à sua criatividade artística, construções mentais, projeição de energía curadora, meditação, decretação magística ou comunicação espiritual... ficando ademais, se a canalização estivesse bem feita, com uma verdadeira excitação agradável, jovial e construtiva durante todo o dia, até o próximo jogo de amor.

Esta era uma das instruções de Carlos Pacini para se manter canal do Espírito : A mulher -a terra, a água- dissolve-se, se sutilizándo; o homem -o fogo, o ar- se coagula para realizar-se... Assim é como a Alquimia se produz: Tudo quanto se visualizar no momento desta transformação é impulsado a materializar-se nascer sobre este plano, igual que os bebés nascem pela invocação e intensa combinação dessas potentes forças de ancoramento energético sobre o Plano Físico.
Quanto se constrói e se mantém nesses momentos na mente com clara consciência, intenso sentimento e voluntarioso desejo, manifestara-se magicamente no Plano Astral e depois no Físico, combinando-se os éteres cósmicos, estruturando-se e veiculando-se sobre a poderosa energia generatriz que a alquimia sexual condensou. Por isso há que ter-se infinito cuidado com o que se põe em mente e com que entidades o casal ou cada um dos seus parceiros se une mentalmente durante o ato amoroso, o qual é o maior ato gerador, não só de corpos físicos, senão de toda classe de envolturas mentais, astrais, etéricas e físicas para manifestar encarnadas sobre o mundo quaisquer formas que se mantivessem no pensamento e na emoção nesse momento em que abrimos as portas interdimensionais e comunicam-se entre si todas as dimensões de potencialidade do Ser Integral que Somos.

...Claro está que Carlos Pacini jamais recomendou outro estimulante psicoativo que se manter ligado, entregue e rendido o tempo todo, com o Filho no coração e com o Pai no terceiro olho.

Esta necessidade de transmutação da bruta energia generatriz animal em elevada energia generatriz mental e espiritual, é a razão da exigência do celibato aos sacerdotes de muitas religiões, das recomendações de controle aos sanadores chamánicos antes de transmitir a energia curadora ao paciênte, ou da proibição aos daimistas de manter relações sexuais desde pouco antes do início do Feitío, ou durante as ingesti-oes sacramentais de Daime (o qual brindava mais um pretexto a certos egos inquisidores, para colar o nariz na vida íntima do vizinho e fofocar abundantemente)...

Ligar com a altíssima Energia Divina depende, fundamentalmente, de converter em altíssima a própria energia básica que nos conforma. No processo de intercomunicar e avivar com energia vital apurada, sublimada e transmutada através de cada um de nossos sete chakras, de abaixo a acima, conseguimos, por resonancia, que se intercomuniquen e se unifiquem também todas e cada uma de nossas sete esferas dimensionais de Realidade, e que o poder das mais altas Mónadas das sete que conforman nosso Eu Sou transmita-se às mais baixas, se a nossa livre, consciênte e sentida vontade conjuntada o decreta, facilita e ancora.

...O que sim consistia um verdadeiro tabu entre o Povo de Juramidám -que era suficiênte liberal como para consentir que alguém pudesse ter mais de um parceiro ou parceira, se isso saía com pureza de seus corações-, era misturar ingestião de Daime e sexo. Contavam-se casos espeluznantes de pessoas que tinham transgredido tal tabú, conseguindo morrer ou enloquecer. Não sei se isto seria verdade porque, por puro respeito à sacralidade evidente do Daime, nunca decidi ultrapassar aquela lei não escrita, mas o que penso, é que no trance de Ayahuasca se está tão desdobrado do corpo que pouco daría para se concentrar no desfrute dos sentidos táctiles e densos; de fato, durante as primeiras ingestiões, mal se inteira um do sabor da comida que se toma comunitariamente depois do descenso da Força e o acabamento da sessão, ainda que a sensibilidade física retorna com a veteranía.

Por outra parte, é a mente a que estimula ao corpo durante a sexualidade, para o qual ela tem que entrar em uma verdadeira onda de concentração imaginativa na pura sensualidade material e animal; Isto é impossível de manter quando um está em plena miração, dissolvido numa Unicidade Cósmica na que todos nossos seres amados são Um conosco sem diferença, ou bem, girando vertiginosamente no Caleidoscópio das Geometrías Etéricas, ou enfrentado a seus anjos ou a seus demônios. Visto desde lá acima, o sexo, a grande motivação humana nesta dimensão, perde tanto seu possível interesse, como o podem perder os aviões de brinquedo para um garoto crescido que já cabriolea sobre as nuvens junto ao instructor de vôo, pilotando uma avioneta para valer.

Assim é a vivência do Mundo Espiritual com relação ao do Mundo Físico, e é por isso que, depois da experiência com a Ayahuasca, os verdadeiros iniciados e iniciadas deixam de temer a morte física, e se ocupam, durante todo o resto de sua vida, de não voltar jamais a se deixar morrer espiritualmente.

No entanto, existe uma dimensão trascendente e subtil da sexualidade e, deixando-se levar por sua onda com impecável consciência, se pode ser transportado. sobre ela. às dimensões mais elevadas da unificação dos espíritos. Quando por fim, horas após se ter acabado a sessão (e ainda que a mente segue flutuando em tal luz que nega-se a se dormir, a pessoa entrega seu corpo ao repouso junto ao do ser amado, basta com se abraçar, vestidos ou nus, para sentir-se telepaticamente ligados até o mais fundo. Tal conexão converte temporariamente a ambos amantes em um só ser divino; e para um ser divino não há tabus, nem leis nem regras, senão tão só aquela clara evidência interna do que é oportuno, harmónico e são fazer em cada momento, o qual surge de sua segura intuição com tanta espontaneidade, como surge o perfume de um broto aberto ao sol da manhã.


6- MAGIA TERAPÊUTICA

Se entendemos como Magia Terapêutica A AÇÃO INTENÇOADA DA MENTE SOBRE O ESTADO DE CONSCIÊNCIA DE UM OU VÁRIOS INDIVÍDUOS PARA PROVOCAR UMA EXPANSÃO FLUÍDA DE SUA FREQÜÊNCIA VIBRATÓRIA, e tendo em conta que “estado são” significa que a gente continúa a fluir evolutivamente para maiores níveis de consciência, e que “estar insadio” não é outra coisa que padecer um ou vários bloqueios que produzem uma contração nos aspetos mais limitados do ego e certo grau de estagnação evolutiva... conheci, em Peru e Brasil, três tipos de magia que quase sempre, em maior ou menor grau, eram usados CONJUNTAMENTE pelo mago, chamá, alquimista, terapeuta, sacerdote ou qualquer termo com que queiramos designar ao discípulo adiantado do Caminho que tivemos a sorte (ou o merecimiento) de encontrar para que faça para nós, em Nome da Vida, o papel de mestre, instructor, iniciador ou provador em cada etapa de nosso peregrinar por Ela:

1º- Magia de ação removedora de nossas corazas mentais.
2º- Magia de ação removedora de nossas corazas emocionais ou astrais
3º- Magia de ação desbloqueadora de nossos nodos etéricos.

Alguém poderia me sugerir que incluísse a Magia de ação transformadora sobre as causas dos trastornos especificamente físicos do indivíduo, mas prefiro lhe dar seu verdadeiro nome de Medicina, ainda que aqueles que acham que o dom e a licença para curar só se obtém junto a um diploma acadêmico, a denominem depreciativamente Curanderismo. Os curandeiros geniais -ou médicos que curam atuando como canais do Gênio Interno que nos anima-, resolvem, com freqüência, muitos casos que a medicina acadêmica desengana.

Ademais, a Medicina é, desde seus começos históricos, uma prática derivada do terceiro tipo de Magia, já que, deixando a um lado os traumatismos, a maior parte das doenças e trastornos somáticos têm como causa uma insuficiencia energética no corpo etérico do paciênte, que é sua armadura de proteção electro-magnética contra as vibrações negativas, vírus e microbios que em todo momento e lugar nos rodeiam. Quando algum bloqueio impede a livre circulação da energia vital, tudo começa a falhar no indivíduo: seu sistema inmunológico, sua estabilidade emocional e ssua claridade e independência mental; e estas três são as colunas sobre as que se apoia o edifício tudo de nossa saúde, corporal e integral.

Observei que os terapeutas ocidentalizados que se dirigem a discípulos ou paciêntes ocidentalizados, empregam mais as Magias Mental e Emocional, enquanto os unidos à tradição chamánica das raças negra e vermelha usam, preferencialmente, as Magias Emocional e Etérica, que causam imediato e palpável efeito sobre paciêntes e discípulos que pertençam a essas raças, e ligeiramente retardado nos mestizos.

Pessoalmente, opino que a raça de origem europeu, ainda que cada indivíduo é um mundo, é a que maior resistência oferece à mudança de seus esquemas mentais rotineiros e à manifestação do mundo interior em geral, devido, sobretudo, a seu maior carência de contato direto com a sutileza etérica da natureza pura, o qual desenergetiza os corpos e diminui a sensibilidade de suas percepções; e também ao desarraigo dos arquétipos e valores de suas próprias culturas e tradições vernáculas, o qual empobrece da mesma maneira a imaginación... e para que qualquer Magia possa fazer efeito, é preciso que funcionem dois agentes receptores básicos no paciênte ou discípulo: sensibilidade aberta e ágil imaginação.

Por causa da alienação televisiva que propiciam as forças involutivas, a imaginação dos cidadãos do sistema vai sendo cada vez mais passiva e menos ativa, isto é: Os sujeitos estão cheios de imagens, mas ele não as cria, como faría se lesse, escrevesse ou pintasse: está cheio de formas mentais criadas por outros; e o pior, junto a elas, o seu subconsciênte deixou-se impregnar e programar, quase sem seleção possível, por toda a pseudo-filosofia subliminal, a violência morbosa e a vulgaridade mesquinha da Sociedade de Consumo.

Em um nível chamado “culto”, as pessoas comúms que consumem e são consumidas pelo sistema, tem sido programadas pela pesada quadriculação intelectual que denominamos Cultura Científica, a qual, por muito que desconfiem de que não se trata senão de um dogmatismo mais, claramente classista e limitadoramente materialista, faz-lhes contemplar todas as formas de cultura não acadêmicas, sobretudo as próprias de outras raças de pele menos rosada que a européia, com um imperialista preconceito de superioridade e desconfiança. Muito especialmente quando eles captam que o fundamento dessas outras culturas é uma concepção religiosa e, às vezes, baseada em propostas aparentemente simplórias, legendárias, mitológicas ou unidas à repetição multisecular e acrítica de lendas tradicionais.


A Magia Emocional ou Astral é usada por todos os terapeutas, já que são nossas emoções, especialmente as mais sombrias, a pedra que se há de polir, o dragão que se há de submeter sem o matar, para que a cobra rastreira de nossa energia vital inconsciênte transforme-se na águia ígnea de nossa Consciência Cósmica e nos eleve.

Carlos Pacini, por exemplo, que era um alquimista bem ocidental, um mago de guitarra, moto e calza jeans, um messageiro de Aquarius, começava por positivizar teu emocional propondo te render a teu Mestre Interior Pessoal e transmitindo, no momento em que aceitavas auto-renderte sinceramente, a vibração de seu próprio amor inconfundível à Vida com um abraço. Nada mais simples.
Depois, suas três instruções básicas:
- Manter-se centrado e ligado com o Pai no terceiro olho;
- Obedecer rendidamente as instruções emanadas continuamente do Filho desde o coração;
- E canalizar para o alto a energia generatriz do Espírito Santo (a Mãe Terra-Água convertida em Mãe da Luz), sem desperdiciá-la derramando-a em vão.

Se você as seguia, a semente de pura paixão pela Vida, transmitida com seu abraço e por seu exemplo, começava a desenvolver-se. O seu astral abria-se a escutar ao Mestre Interno que sempre habitou em você, e a suas inspirações, o qual fazia muitos anos que você deixou de ouvir, por causa de estar sua atenção completamente concentrada na palavragem superficial do seu ego e também por falta de acumulação de energia vital suficiênte.

A partir de então e até hoje, eu jamais deixei de distinguir claramente a diferença entre as palavras internas do ego e aquelas (que falam algo mais baixinho), do Eu. Minha consciência virou minha Musa, minha Professora, e A Luz que dava sentido ou corrigia os anseios confusos de meu coração em cada momento.

Pacini dava, depois, umas poucas instruções dirigidas ao Mental, para ordenar o compreendido e manter harmonicamente unidos a cabeça e o coração. Por último, animava-te a seguir teu próprio caminho, sem depender de nada nem de ninguém, atento a não interromper jamais o diálogo interno com teu Intimo... e depois afastava- se de tí amorosamente: -"Adeus, meu Amigo, meu Irmão, muita felicidade, transmite aquele Abraço".- Há muitos anos que já não sei nada dele, do homem, mas sua vibração em mim é cada dia mais viva e maior, tão grande como meu agradecimiento para ele, Deus lhe mantenha tão feliz ou mais... Isto é um Mestre Moderno.

O Padrinho Sebastião Mota, no entanto, era um profeta antigo de uma raça e uma cultura mestiza. Dirigia- se preferencialmente a pessoas emocionais e instintivas inmersas na natureza. Ria da prepotencia vã do homem urbano; utilizava com maestría o imenso poder purgante, desbloqueador e purificador do Daime para curar ao físico e ao astral, e não tratava com o mental, senão para reventá-lo com mirações, sabendo que a gente só se pode abrir ao Novo, após derruir os castelos de preconceitos obsoletos anteriormente fabricados.

Conhecia, apreciava e usava com valor e respeito o imenso poder do mundo vegetal e a energia etérica das consciências elementares da selva, o Coração do Mundo. Aliava-se com elas e com a Irmandade da Hierarquia da Luz Planetária, para dar a batalha aos magos negros, os demônios e vampiros do astral; e vivia a vida como um dsafío, tentando preservar um modelo de sociedade alternativa unida à natureza e ao sentimento de soberana dignidade do antigo homem livre da selva.

Aconselhava substituir os prazeres enganosos e as satisfações medíocres e mesquinhas pelo Prazer dos Prazeres: SER A VERDADE.
Para isso conseguir, deve-se renunciar, o primeiro, a toda crítica malévola e maledicencia escandalosa contra os irmãos; atendendo, como valor superior, a manter a sincera harmonia comunitária; aprender também o nobre silêncio, refreando e controlando o pensamento e a língua; e a se polir, corrigindo os vícios e transmutando os hábitos negativos em positivos, para o qual, a melhor indicação era terapia de serviço abnegado aos demais, com trabalho duro autodisciplinador e fortalecedor (Karma Yoga à Amazônica). Isto desenvolvia uma grande firmeza nos guerreiros e guerreiras, que tinha que se equilibrar na fraternidade amorosa, e na atenta valorização do irmão, ademais de pondo cuidado de se manter integralmente limpos, sem obsessão nem complacência.

Dizia Sebastião Mota que era, como João o Bautista (e antes, como o profeta Elías), uma voz que clamava no deserto, chamando aos pecadores a se arrepender e se purificar. A água do Jordán com que batizava era o amargo Daime, que te confrontava com tua sujeira interna e te ajudava a mudar, com um tratamento de choque. Igual que o Bautista, o Padrinho anunciava uma Nova Era e um novo Cristo que nasceria nos corações de todos quantos trabalhassem, tão tenaz como profundamente, em seu autoexame e transformação.

Sua Escola era ideal para as cabeças mais inquietas e os corações mais duros. Talvez por isso tocou-me continuar a minha aprendizagem nela.

Seu método começava pelo desbloqueio e a limpeza de tua energia etérica mediante a bebida de poder, que ao mesmo tempo em que jogava por terra teus esquemas mentais enrixecidos ou moles, deixava de repente ao descoberto todos aqueles monstros emocionais que tu tinhas passado a vida tratando de esquecer ou disfarçar.

Ademais obrigava-te à reintegração na natureza, a sujeitar o individualismo inútil e errante com as regras de uma colectividade estrita, a recuperar tuas energias primárias a base de trabalho físico duro e a viver marcialmente com austeridade e disciplina, sem concessões à moleça, nem a que os vôos psíquicos te arrancassem os pés de tuas responsabilidades na terra e de tua sensatez, mantendo-te ligado com tua Fonte, ao mesmo tempo em que atento e útil à cooperação comunitária quotidiana: a pura via do guerreiro.

O Padrinho era um Bautista disciplinador que se dedicava, fundamentalmente, a chamar às almas rudes ao arrepedimento, à purificação e a limpeza, para que cada um pudesse encontrar o seu lugar e receber dignamente ao Eu Sou em seu templo interno reconstruído.

Carlos Pacini, pelo contrário, parecia falar para pessoas que já tivessem superado o primitivismo emocional e os traumas de autoculpabilidade: tratava-nos como a homens e mulheres livres e autosuficiêntes, e nos instava a confiar na Divinidade Interna que eternamente mora em cada homem ou mulher. Jamais se lhe ocorreu nos impor nada, apertar-nos, apressar-nos, reprochar nada, e menos, construir igrejas ou instituições, nem criar dependências individuais ou grupales.

Com freqüência, mostrava-nos o equilíbrio entre os pólos: Em um extremo, o vagabundo, o disperso; No outro extremo, o prisioneiro da disciplina, o escravo de sua própria rigidez. No médio, o alquimista, o ser livre, o conciliador de seus contrários, graças à magia do Amor e a confiança na Vida. Na Vida que Somos.

-"...Porque vocês não quererão ser guerreiros, não é?”-, disse-nos um dia no meio de uma conversa.

Eu fiquei olhando-o e não soube responder. Algo dentro de mim, seguramente o transfundo fascista de minha educação na Espanha de após a Guerra Civil, ou seu outro extremo, o anarquismo rebelde de minha juventude, comprazia a meu ego mais sutil, imaginando-o vestido com a ropagem heróica do guerreiro.

Pacini penetrou em minha mirada e lançou-me outra, profundamente significativa, na que li: “O que um quer, o acaba conseguindo”.

Agora, em Mapiá, eu me lembrava daquela mirada. E davam-me arrepios ao perceber que por fim tinha chegado a uma autêntica escola de guerreiros.


7- A UMBANDA ESOTÉRICA
Em Mapiá, além da tradição chamánica indígena da Ayahuasca, somada a um auténtico esoterismo masónico contribuição dos Velhos Mestres, praticava-se também o grande legado mágico da raça negra à cultura eclética brasileira: o espiritismo africano, muito misturado já com cultos cristãos, até chegar a uma síntese típicamente brasileira, conhecida como Umbanda. Nos últimos tempos tinha-se estabelecido na aldeia uma escola de mediums que estava muito frequentada por todo tipo de alunas e alunos. O próprio Padrinho Sebastião tinha sido medium sanador desde sua juventude, ou seja, que incorporava -fazia de canal de manifestação neste Plano- a dois espíritos de médicos que, ainda que há muito tempo que tinham desencarnado, seguiam prestando seus serviços desde o Astral.

O Espiritismo é uma das coisas que mais chamam a atenção aos europeus que chegamos ao Brasil: também é um dos temas mais difíceis de observar e comentar objetivamente por pessoas de outra raça ou país, pelo que prevenho ao leitor antecipadamente de que muito do que conto pode estar equivocado, por mau compreendido. Porém, durante anos, perguntei aos seus praticantes e deu para constatar que para a maioria deles, a coisa era tão misteriosa como para mim.
Eles sabíam como fazer, porém, não podiam explicar bem por que o fazíam, nem que era o que acontecía durante as suas sessões. Posteriormente, eu enteirei-me que ter sensibilidade mediúnica ou capacidades extra- sensoriais não era, forçosamente, um indicador de uma maior evolução, senão de karmas alastrados de encarnações anteriores em remotas Eras, como a Lemuriana ou Atlante, nas quais a Magia Astral (as vezes bem escura) presidía os paradigmas de “normalidade”, tal como na Era atual os preside o cientifismo racionalista.

Quando, nas sessões de limpeza e cura, o Daime começava a produzir desdobramentos astrais, as pessoas que têm faculdades mediúnicas -e rara é a família brasileira onde não há alguma- entravam de repente em trance, contorsionándose seus corpos como se estivessem sendo penetrados por outro corpo invisível, e saindo finalmente de suas bocas uma voz inusual, cantando um hino identificador -o "ponto de caboclo"- dando sinais de que um espírito do astral, incorporou no corpo emprestado (ou que, muitas vezes não passa de fazer ressoar sua energia astral ou etérica com a do medium). Aí, pedia permissão aos chefes da sessão para se manifestar.

Uma vez autorizado pelo comandante, o visitante expresava-se. Aí, inteirávamos-nos se ele era um espírito sofredor, um desencarnado que, por apegos ou remorsos terrenos …ou por falta de luz, não tinha conseguido se remontar a planos mais altos a seguir sua evolução, e se encontrava padecendo de desesperadas carências energéticas nas trevas do baixo astral... ou se estavamos ante um espírito já mais adiantado, daqueles que dedicavan-se a cooperar com as mesas espíritas em trabalhos de limpeza e cura dos corpos etérico e astral, trabalhos que eles podiam desempenhar melhor que ninguém, por se encontrar na mesma freqüência de onda que estes corpos.

Observei que a maioria daqueles espíritos já não autodenominavam-se mais com o nome usado na sua última encarnação (talvez porque isso já era passado semi-esquecido e de nenhuma relevância na sua nova vida astral), senão com nomes genéricos que correspondiam-se com cada uma das diversas linhas vibracionais presididas pelas entidades-guias mais conhecidas do espiritismo afrobrasileiro, as quais podiam se manifestar como caboclos indígenas, ou como velhos escravos negros, ou crianças brincalhõas. Apresentavam-se também em forma de elementares da selva e do mar (sereias, princessas, cobras e demais "encantados"), bem como "exús" de baixissísima vibração, ou cascarões astrais ou elementares malignos, alguns dos quais davam bastante guerra até serem obrigados a deixar em paz à pessoa à que estavam obssediando...

Entrar no tema das entidades que incorporam nos médiums, é entrar em um campo vastíssimo e confuso: cheguei a contabilizar até 150 "guias" diferentes, cujos nomes repetiam-se, não só em Mapiá, senão em toda parte do Brasil onde estudei as incorporações espíritas. Era claro que alguns destes nomes designavam a uma mesma entidade, que respondia a um caráter específico.

Pouco a pouco, fuí chegando às fronteiras da Umbanda Esotérica, e então decatei-me de que os espíritos do Plano Astral que baixavam a se incorporar nos mediums pertenciam a uma ou a outra de sete falanges, ou raios, ou coros, ou linhas, ou famílias, presididas, cada uma, por um arquétipo do Plano Mental que lhes dava seu caráter, os quais eram entidades tão altas que nunca desciam a tomar corpo no plano denso.

A manifestação de “guias" pertencentes a esta ou aquela falange acontecia mais favoravelmente em dias e horas específicas, que coincidiam com o ciclo astrológico clássico da influência predominante da energia de cada planeta sagrado sobre cada dia da semana e sobre cada hora do dia.

Distinguiam-se no ritual, não só por seus nomes, senão também por cores diferentes para cada falange, atributos e diferentes grafías na escritura sagrada, chamada também Escrita de Pemba, ou tambien Adámica, Wattan, Vatánica ou Devanagárica, em círculos de iniciados, os quais consideram que procede da antiquísima civilização Lemuriana, que a transmitiu aos Mestres da Raça Negra Drávida da Índia, quem, em sucessivas migrações, a levaram ao Egito Interior …e à espiritualizada civilização Yoruba do Centro-Oeste de Africa, de onde pasò à força ao Brasil durante o trágico período das travesías negreiras em busca de mão de obra escrava para as plantações do Novo Mundo.

Alguém confidenciou-me que estas grafías traçadas a giz eram acúmulos sagrados de formas-pensamento dotadas de brilho e som interdimensional, também de poder, para invocar ou evocar energias aliadas dos outros planos, e que tinham sido ensinadas no albor dos tempos às filhas dos homens pelo arcanjo Gabarael e outros Filhos de Deus que encontraram grato se fundir com suas auras terrestres, e que, compadecidos, como o Prometeu grego, por sua falta de luz, também as tinham iniciado na agricultura, o conhecimento das plantas mágicas e medicinales, e todas as artes e técnicas com as que a espécie humana pôde começar a civilizar-se.

As esquinas de todos os terreiros, ou centros ceremoniais de Umbanda e Candomblé, estavam sempre protegidas por aqueles mandalas feitos de inscrições vibracionais, e o primeiro que fazia o espírito guía-protetor de um templo quando incorporava no medium-sacerdote encarregado ("pae de santo"), era dar uma rodada pelas grafías de Pemba, para comprovar se estavam corretamente ativadas.

Em todos os terreiros havia também um recinto astral delimitado por grafías, onde se depositavam oferendas de cores, essências, alimentos, espécies ou fumo intencionadamente consagrados para que os espíritos do Baixo Astral ou da Natureza pudessem se alimentar de suas energias etéricas, já que mais valia te-los como aliados que como inimigos.

Como tudo é dual no mundo tridimensional, já Físico ou Astral, os Exús vêm a ser as sombras da luz, o pólo negativo das energias sutís positivas da Natureza. Com elas e com o poder agregador obtido da substância astral das oferendas materiais que lhes são oferecidas, eles criam veículos formais para si mesmos, se convertendo em elementares inferiores, inconsciêntes, amorais e brincalhões... ou verdadeiramente malvados, tal como os chamados "Kimbas", que se põem ao serviço do mago que lhes alimenta (branco ou negro) se os sabe controlar e dirigir com firme vontade, para influenciar os campos magnéticos do aura das pessoas que escolheu, já seja para as proteger ou para as atacar.

Geralmente estes Exús eram empregues para desfazer trabalhos sujos, já que "O semelhante cura ao semelhante", ou para retornar aos magos negros (praticantes de Kimbanda) suas próprias radiações de ataque psíquico. Alguns paes ou maes de santo empregavam-nos para devolver mau por mau; coisa que sempre me chocou, e influía muito sobre minha valoração posterior do mago em qüestão. Nenhúm verdadeiro Mestre espiritual entra em semelhantes atitudes. Inclusive para fazer o bem, ele aguarda a obter a livre aceitação ou solicitação do beneficiado.


8- OS SETE ORIXÁS

Em Umbanda, as falanges de guias ou aliados astrais (de diferente cor, temperamento e momento de incorporação), estão presididas por sete FORMAS MENTAIS ou entidades muito elevadas, altísimos anjos, por dizer de uma maneira familiar, emanações primevas da Fonte, quase deuses ou aspetos específicos de Deus, todos eles por embaixo da Divinidade Suprema (Olorún), que é incognoscível, abstracta e inasível (inasível no sentido de que, ainda que sempre se tenha em conta que Tudo é Um, à hora de operar magística ou energeticamente, há que invocar o Poder ou Virtude Divina específicos para o que se pretende realizar, ou seja, jogar mão das apropriados Guias subsconsciêntes arcangélicos ou angélicos e não de outros que não servem à oportunidade).

Estas sete entidades denominam-se "ORIXÁS" (Orixás quase soa, em português, como Origens), e entendi que conformam (como os Neters egipcios) a Hierarquía de Emanações Divinas que estendem, como os raios de luz de uma estrela, as diferentes qualidades essenciais de Deus por todo Seu Cosmos. Existe uma Hierarquía Divina de Sete Orixás Ancestrais (Os Sete Arcanjoes ante O Trono), que é a primeira transformadora da pura Vontade do UM …nas Leis que regem Sua manifestação na Criação Toda.

Os Orixás Primevos emanan de si aos Sete Orixás Intermediários, que constituem a Hierarquía Cósmica ou Grande Irmandade da Consciência; E estes emanan de si aos sete Orixás que regem cada Sistema Estelar ou Solar (dos planos Astral e Físico) como espelhos que refletem a luz que vem da Hierarquia Sagrada (Hieros= Sagrado) que está sobre eles; e estes, a sua vez, transmitem a Vontade Divina ou Plano Cósmico Evolutivo aos Sete Regentes Planetários de cada planeta do sistema, aos que chamamos Reitores da Hierarquía Planetária.

Os Orixás da Hierarquía Terrestre são, pois, os Senhores das Vibrações Originais que conformam e que controlam as forças sutís que geram as forças elementares da Natureza terrestre, tanto dentro como fora de nós: representam aos sete arquétipos ou moldes ou programas psicólogicos básicos da evolução do espírito humano neste planeta, as sete caras de nosso Ser; As Potências do Ser; Os mesmos Alhim, Alahim ou Elhoim dos hebreus: o nome (ou potência verbal) do que se reveste Deus no Génesis para criar o mundo, que é o mesmo dos Anjos ou Deuses Do Verbo. As sete cores ou notas musicais que resultam da manifestação ou éxpressão (multiplicidade, emanação, universalidade) da Luz Branca ou o Som do Silêncio do Um.

São, também, os Devas védicos, os Guardiães das Funções universais; os senhores, juízes e guardiães funcionais das potencialidades divinas; a soma das 7 letras evolutivas do Wattan (469) que se correspondem com os 7 planetas sagrados que nos regem astrologicamente (4,6,9, em sánscrito dá DEVATA, as Leis de Deus); As Letras Funcionais ou Fundamentais, equivalentes harmónicos e orgânicos da potência criadora da Palavra do Verbo. Os sete tipos, em soma, de possibilidades evolutivas latentes na semente de cada humano.

São, pois, os sete Mestres de Evolução, Modelos Canónicos da maior perfeição que pode ser atingida pelo homem, os quais vemos representados tanto na simbologia de todas as antigas religiões místicas como nos panteões das mitologías animistas e paganas, onde se lhes conhece como os SETE REGENTES Ou DEUSES PLANETARIOS (“Logoi”, em grego):

7- OXALÁ: Reflete, a escala planetária, e no chakra Coronario de cada homem, a Consciência Pura do ARCANJO GABRIEL, que personifica o Princípio Ativo Increado do Logos Pai Cósmico, ou polaridade masculina do Deus Um (Olorún), chamado Obatalá em Africa ou Brahma no Hinduísmo, ou JURA, no Daime: A Primeira Pessoa da Trindade Logoica, indisolúvel com a Unidade Divina: O Pai, no Cristianismo. O IHOH, ou EU REAL, EU SUPERIOR de cada ser humano. A Essência, o Sujeito, o Pensamento, o Absoluto, A Unidade, o Centro, o Universo Invisível.
O Espaço Cósmico, inmutável, neutro e vazio, onde se joga eternamente o jogo vital e cíclico das relações entre o Espírito e a Energia. Sua Vontade de Ser, despregando Suas infinitas potências no que chamamos manifestação, leva-O, por um lado, a se projetar na criação, resultado da estructuração da Sua Energia Eterna em um universo de formas por Ele diferenciadas. Por outra, a veicular-Se nelas, impregnando-as com a consciência de Si, auto-conscienciándose dentro de sua criação; isto é, enviando à Terceira Pessoa de Sua Trindade, O Filho, O Espírito, a encarnar nos corpos evolutivos gerados pela Segunda Pessoa, a Mãe Cósmica. Como orixá rege aos mais elevados caboclos e ao Sol. É o Senhor da Vibração Original ESPIRITUAL que atua na Humanidade.

6- YEMANJÁ: Reflete, a escala planetária, e no chakra Frontal ou Terceiro Olho de cada humano, a Consciência Pura do ARCANJO RAFAEL, que personifica o Princípio Pasivo Gerador do Logos MÃE COSMICA, ou polaridade feminina que emana do Deus Um ao manifestar no mundo dual, chamada Espírito Santo pelas religiões patriarcalistas, Odudua em Africa, Shiva-Shakti na Índia: A eterna Energia em contínua transformação.
A Substância, O Objeto, O Cumprimento, a Mudança. O Infinito, A Universalidade, a Circunferência, O Universo Visível... EVA (565), a Vida, a soma das 12 letras involutivas do Wattan (565) que formam os signos zodiacais; A Matriz e Mãe de toda forma etérica dos Planos Físico e Astral; AVE: a Virgen, a Imaculada Concepção, a RAINHA DA FLORESTA, no Santo Daime e a do Mar (A Sereia), na Umbanda Popular... Rege a linha de espíritos femininos do Astral que incorporam como Caboclas do Mar e Sereias. Rege à LUA, e é a Senhora da Vibração Original MENTAL que actua na Humanidade.

5- YORI: Reflete, a escala planetária, e no chakra laríngeo ou cervical do homem, a Consciência, pura percepção eterna de Si Mesma, não importa em que veículo, do ARCANJO YORIEL (URIEL? ARIEL?)) que representa A Essência revestida de Substância: O Produto Gerado pela união do Pai Espaço e a Mãe Energia: A Existência, O Verbo, A Palavra, a Relação, a Correspondência, O Diámetro, O Espírito Encarnado, a Consciência Viva do Criador dentro de Sua Criação; A HUMANIDADE, A Pessoa da Trindade chamada O FILHO; Ad-Am (Unidade-Universalidade); IHOH, a essência de Agni, o Fogo Espiritual do Pai, o Amor Divino Criador, (o YHOH Superior), refletido e projetado em seu Filho, E-PhO, DEUS VERBO (IPh, em hebreu e árabe = manifestação da Perfeição; Phi: a Palavra, a Boca de Deus,) Pho, Phos, Phoné em grego, o fôlego, a luz, a voz. O Verbo ou Vontade Criadora de Deus feito carne; MIDAM no Santo Daime, O Intimo, o Mestre Interno, A Voz da Consciência. Ph (D'Alveydre) é a letra planetária da zodiacal wattan Sh: E-ShO = Jesús.
O Cristo; ViShnú na Índia, o Avatar Redentor, amoroso Guia da Evolução em cada ciclo. Também representado na Umbanda Popular como A Criança Interna, a Alma Pura; Ou como IBEJI, os gêmeos alquímicos, (as energias dos nadis, que se têm de juntar no canal interno, ou Sushumma, para produzir a ascensão da Kundalini e a iluminação...) É o Senhor da Vibração Original ETERICA, que atua tanto na Humanidade como no resto dos seres da Natureza. É obedecido pelas simpáticas entidades do Astral chamadas As Crianças. Rege ao planeta MERCURIO.

Estes três arquetipos espelham a vibração da TRINDADE DIVINA CÒSMICA no planeta Terra. São a hierarquia espiritual mas elevada; por embaixo deles estão Os SENHORES DOS QUATRO ELEMENTOS, sutís ou densos:

4- XANGÓ: Reflete, a escala planetária, e no chakra Cardíaco dos homens, a Consciência Pura do ARCANJO MIGUEL, Vibração Original ou Virtude de Deus que manifesta o Princípio ou Qualidade de Justiça e Equilíbrio Divinos sobre todos seus elementos. Grande Chefe dos Anjos. Senhor do Fogo e das Rochas, da Vibração Original IGNEA na Humanidade e na Natureza; Fé (confiança em um mesmo e na Vida, Valor, Firmeza, Serenidade e Impecável Ecuanimidade
É Complementado por sua contraparte feminina, YANSÁ, Senhora da Tempestade.. ambos são obedecidos por Caboclos das Rochas e pelos elementares do Fogo ou Salamandras. Regem ao planeta JUPITER e representam em Aumbhandan a Direção Sul.

3- OXOSSI: Reflete, a escala planetária, e no chakra Esplénico, a Consciência Pura do ARCANJO ISMAEL, Virtude Divina que exprime o Princípio da Ação Envolvente da Lei Karmica da Causa e do Efeito ou o Princípio Hermético de Causalidade. Senhor do Bosque e do Ar e da Vibração Original EÓLICA na Humanidade e no resto da Natureza.
Sua contraparte feminina é OXUM, a bela Senhora das Cachoeiras e Águas Doces. São obedecidos pelas entidades astrais do Ar e da floresta, chamados em Umbanda Caboclos Flecheiros, e pelos elementares Silfos ou Sílfides; Regem a VÉNUS. Direção Leste.

2- OGÚM: Reflete, a escala planetária, e no chakra e plexo Solar, a Consciência Pura do ARCANJO SAMAEL, que espelha, a sua vez, o princípio da Luta Sagrada entre a Consciência Encarnada e suas limitações perceptivas durante a Evolução, o qual é argumento, guião e base do eterno Jogo Evolutivo Divino... É o Senhor da Água, da Praia e da Vibração Original Hídrica na Humanidade e a Natureza, reina sobre os poderosos caboclos do mar e sobre os gráciles elementares acuáticos chamados Ondinas e Tritoes. Planeta MARTE; no Aumbhandan situa-se ao Oeste.

1- YORIMÁ: (Também chamado OMULÚ ou OBALUAIÉ)... Reflete, a escala planetária, e no chakra Sacro, a Consciência Pura do ARCANJO YRAMAEL, manifestador do Princípio Divino da Palavra da Lei ou do Verbo, a Imaginação Decretante, que cria, mantém, desfaz e renova ou transforma as formas materiais do mundo que servem temporariamente de veículo às energias sutís. É o Senhor da Vibração Original Telúrica, ou seja, da Terra, e o misterioso Orixá da Cura ou da Morte... Obedecem-lhe as entidades do Astral que em Umbanda são chamadas Pretos Velhos, porque os espíritos desta falange apresentan-se baixo a forma cultural de sábios ex-escravos africanos, que sabem dar bons conselhos e curam com remédios naturais. Rege tambien aos Gnomos, ou elementares da Terra; Personifica perfeitamente ao velho SATURNO e também se parece ao anjo caldeo-hebreu do trânsito entre a vida e a morte, AZRAEL. Em Umbanda guarda a Direção Norte.

...Quando conhecí esta clasificação, claramente africana na sua origem, o sentido prático da velha Astrología Ocidental cobrou sentido para mim! Por comparação com aquela cultura exótica, porém, bem mais viva que a caldeo-persa-greco-romana, percebi, pela primeira vez, que o que até agora só me tinha parecido puro simbolismo erudito e arqueológico de minha própria cultura vernácula, tinha possibilidades de ser usado como poderosa ferramenta mágica no eterno jogo humano da transformação evolutiva!

Percibi que os arquétipos planetários do subconsciênte podiam, então, invocar-se e incorporar no trabalho mágico. Não só lhes pedindo conselho como guias, senão também servindo mediunicamente como canal à manifestação de seus poderes.

Por que? ... porque os arquétipos são EU MESMO, como os deuses, os anjos e os demônios, e toda a legião de entidades elementares, astrais, físicas e mentais que me conformam. Todos eles estan em mim, além dos conceitos duais de interior ou exterior, pessoal ou alheio, já que eu sou a Vida, o Universo, ou a Mente Universal, vibrando simultaneamente em todas as dimensões do Ser no Cosmos. Cada pedaço do espelho reflete holograficamente a mesma imagem que o Espelho Inteiro.

Sempre em minha opinião (que é a de um estrangeiro, lembrem), quando no Espiritismo invoca-se a um determinado guia para que se incorpore a trabalhar no corpo de um medium, não se faz outra coisa senão permitir a um dos egos arquetípicos que conformam nossa personalidade individual e coletiva, que se manifeste tal como é, e sem travas nem influências, nem interferências dos demais egos.
Anos mais tarde, entendí também como isso mesmo é o que debe acontecer dentro da terapia chamada Constelações Familiares, assim como dentro do método de Resolução de Conflitos Comunitários ou grupais chamado Fórum de Processos.
Assim, os arquetipos, ou programas matrizes da nossa mente, podem atuar com todas suas qualidades e potências particulares e específicas. MUITA ATENÇÃO: Se o espaço onde atuam tem sido previamente consagrado, como é devido, o aspecto sombra desse ego estará controlado pelo poder luminoso do Intimo, nosso Eu Maior Divinal. Se não tem sido consagrado ou se não existe suficiênte impecabilidade, seriedade e firmeza no chefe de sessão e nos participantes, o Eu Maior Coletivo não controla, e a sessão pode se converter em uma zarabanda de demônios soltos, sacaneando sem freio.

Tudo isto, assim lido, soa muito bonito e muito teórico… mas imagine quando você o está vendo claramente em trance de Ayahuasca, na miração, geometrizado no astral e sentindo sua evidência até na medula dos ossos.


9- O GRANDE JOGO

"Se o Espírito Universal Tudo estivesse conformado por células, cada uma delas
conteria ao Espírito Universal Tudo".

O SER É; e isso é quanto pode dizer-se Dele, da Realidade, de Nossa Realidade, de Deus e de Sua Essência, que é Nossa Essência, porque não há outra.
A existência do QUE É sustenta a existência dos universos que Nele são, o chamado Mundo de Manifestação (Porque é a maneira em que a Essência passa da possibilidade de ser ao ato de ser: passa de existir em potencial, no Vazio Primordial, a existir realizando seus potencialidades, isto é, a se manifestar como Vida Cósmica em contínua transformação... até chegar o momento em que, cumprido todo o ciclo, Ele reabsorbe-se de novo em Seu Vazio.)

Da mesma maneira que a Manifestação e a Não-Manifestação são só duas caras ou fases simultâneas da eterna existência do Ser, os infinitos mundos e entidades vivas em que Ele se manifesta, por muito individualizadas e personalizadas que pareçam, tampouco deixam de ser outra coisa que as infinitas caras ou fases da Unica Entidade que É, que Somos e que Vive:

A própria Vida Cósmica do Ser: Um único ator representando todos os papéis do universo, jogando o eterno jogo ao esconderijo consigo mesmo, desdobrando-se, estendendo-se, se separando e diversificando em múltiplas formas, cada uma das quais, como Sua Essência, é um paradoxo total: um, dual, trino e múltiplo ao mesmo tempo... e que existe, simultáneamente, em todas os planos e dimensões Daquele Que É, incluída a dimensão do Vazio.

Alguém poderia denominar “a Nada”, ou a Não-Existência, ao Vazio do Ser; mas “a Nada” é só uma palavra oca, já que a passagem do Ser pelo Vazio de Manifestação não é mais que uma das fases que percorre em Sua vivência, fase contida na própria vivência, e que, invariavelmente, vai seguida de uma nova fase de manifestação, já que Ser é o mesmo que viver, e viver é se transformar, se mover de forma em forma e de fase em fase, através do Jogo do Amor, ou seja das infinitas possibilidades de combinação do que É... Consigo Mesmo, ao longo de sua Eternidade, disgregando-se, se buscando, se encontrando, fazendo-se outra vez Um e outra vez se separando para jogar uma nova etapa do Grande Jogo; o único jogo, por outra parte, que a Essência Cósmica joga, mas que é o pai e a mãe de todos os jogos possíveis.

O Jogo Divino da Involução-Evolução, da Transformação, da Alquimia, do Amor, das infinitas combinações ENTRE SEUS ARQUÉTIPOS BASICOS DE REALIZAÇÃO, Ou MODELOS EVOLUTIVOS DE MANIFESTAÇÃO, que as velhas culturas da Terra têm sintetizado simbolicamente nos Sete Planetas Sagrados evolutivos ou nos Sete Chakras ou nas etapas da Iniciação... ou nos doze signos do Zodíaco, as doze fibras do DNA, ou nos 72 Nomes de Deus, ou nas letras dos alfabetos sagrados, os Sephirot da Cábala, as Ordens Celestiais de Arcanjos e Anjos da Astrología caldea... ou nas 22 Letras de todos os Alfabetos Sagrados; as mesmas dos 22 Arcanos Maiores e 56 Menores do Tarot... ou as Quatro Direções Sagradas dos amerindios, que é o mesmo que as quatro portas de um mandala tibetano, as quatro letras hebreas do Nome do Deus, os quatro elementos alquímicos, as quatro estações ou idades, etc...

E deste eterno jogo O Ator Único, o Ser, extrai, como qualquer criança que joga em solidão -sendo agora o polícia e, no minuto seguinte, animando ao bandido contra ele-, o prazer de jogar e a consciência de Si Mesmo na ação, na experiência, na vivência, no viver...

Uma noite, já muito tempo após ter vivido as mais fortes experiências em Mapiá e Anhangás, eu participava as minhas descobertas a Chico Correntes, na Colônia Cinco Mil de Rio Branco, e dizia-lhe, me referindo ao jogo que executa o chamán sobre a mente individual e coletiva, para transmutar nossos estados de consciência:
- Chico... todo isso não parece mais que um teatro”.

- “Claro que é um teatro... -respondeu-me sorrindo muito sério, ao mesmo tempo em que levantava a sobrancelha e me guindava um olho- ...mas não é um teatro qualquer, senão O Teatro Divino, meu irmão”.